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sexta-feira, março 19, 2004

O fim de mais um casamento de pública fama 

Como em todos os fins, há poucas legendas que lhes possamos aplicar. As palavras ficam deste lado, enquanto "o fim" tremelica no écran ou rasteja para o pé de página das edições fiéis que ainda o denominam. Assim se acaba o "Desejo Casar", que já foi moda, que foi pretexto de jantares e de amigos, que teve uma festa, direito a telejornal de Verão, que foi sorriso escondido à noite, em frente do computador, mas também revolta irada e pública contra o mundo dos outros.
Perde-se a vontade. Esquecem-se as palavras perfeitas para o próximo texto.
Parece, poucos meses depois de ser, que passou muito tempo. Que o DC sempre existiu. Que nem sequer houve cervejas bebidas em torno de um hipotético e inenarrável "Asian teens" (lembram-se?). Agora, quando voltarmos a casa, vamos sentir falta. Nós, que somos sempre o cônjuge sobrevivo de todos os erros e de todas as virtudes que oferecemos a quem os quis.
Acenda-se então a fogueira. Vamos lá queimar isto, só para ver como é. MR

quinta-feira, março 18, 2004

Os amantes foram instruídos e o fim, enfim, surgiu como o princípio - um post demasiado longo 

A seguir ao Desejo de Casar, vem naturalmente o casamento. Por que não? Não está tudo acabado, mas a acabar de começar.
A poetisa brasileira Adélia Prado escreveu em 1976, um ano antes do meu nascimento,

este «CASAMENTO
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.»

Antecede, porém, a consumação do acto uma pergunta típica da idade dos porquês: «Por que temos que amar tanto as mulheres?». O brasileiro João Moura Jr. pergunta, mas não sei se responde:

«MULHERES
Por que temos que amar tanto as mulheres?
Viveríamos decerto mais tranquilos
- a mulher é um jantar de mil talheres -
em companhia apenas de um ou dois livros.
Pound percebia o ronronar de invisíveis
antenas estando em companhia delas.
A mulher é uma lista de impossíveis:
é ela o verdadeiro mundo às avessas.
E que não venham chamar de misógino
este que, no máximo, é um misantropo
(deseja estar sozinho, ma non troppo)
e que ama tanto o sexo feminino
sem que uma boa razão para isso exista
que chega a ser um fero feminista.»

Com este Desejo de Casar, algo foi «feito e acabado». Di-lo o poeta brasileiro António Fernando de Franceschi:

«ALGO
há algo feito e acabado
que desmente a teoria
algo livre das aduanas
que flota justo e medido
no lírio das cumeeiras
algo subtraído das ganas
que se preserva intocado
algo entre as unhas
pelo tecido lunar
que te desconcerta e redime
algo certo algo errado
como inteiro domicílio
uns restos no copo
e a ressaca que volta
algo que é também soberba
e te ilumina
algo que não pode ser recuperado
por simples razão
teus mitos (e os tens)
como um quarto fechado
algo vertido na lâmina
que por descuido a corrói
algo sem gume nem corte
mas cujo toque te dói».

Algo como o amor de Alexei Bueno:

«AMOR VICTUS
Às vezes em meio
da incursão nocturna
pela rica furna
de onde o sonho é o veio

assoma uma sombra
que é tanto em tua vida,
nunca antes sabida,
e este amor te assombra.

Por isso houve um dia,
e isso vive ainda,
impulsão tão que finda
que nem deveria

Jamais ter havido,
mas houve, mas dura.
E vais na aura escura
só, pasmo e perdido.»

Todos os posts que publiquei no blog DESEJO CASAR foram escritos a partir das ilhas Terceira e Faial. Por isso, isto é, pela minha geografia, pela geografia que me impus, o seguinte poema de Mário Chamie:

«CAÇADORES DE ILHAS
A ilha procurada
foge de quem a procura
por ser ilha ensimesmada.

Caçadores de ilhas
conhecem a lição
ilhada:
são caçadores de Tétis
na ilha dos amores
que não se dá por achada.

Há duas feições de ilha
em escala solidária.

Uma feição de ilha
é a ilha jorge de lima
que já no mundo lusíada
por máquina do mundo
passava.

Nessa ilha,
caçadores de ilha
como máquina
põem no futuro a mira
sobre a ilha
de uma utopia caçada.

Outra feição de ilha
é a ilha drummondiana
escassa.
Sem as águas de ilha navegada
é ilha camoniana
já clássica.

É ilha do mesmo mundo
que se abre como máquina,
sendo pedra que se fecha
para a perda do poeta
que se busca
sem palavra.

Em dupla escala
as duas feições de ilha
são a mesma solidária:

tanto numa como noutra
nenhuma utopia é dada.
Toda ilha é ilha
ensimesmada.»

Horta, 18 de Março de 2004

HR

terça-feira, março 16, 2004

FIM 

Não consigo deixar de sentir a estranheza de estar aqui, sentado, articulando as palavras que sirvam a uma última conversa, ao adeus a todos aqueles que nos leram, que nos escreveram e que, aqui e ali, fomos conhecendo no "mundo real" a pretexto de emoções expostas na intangibilidade do ecrã de um computador.
Não previra para tão cedo o final do Desejo Casar e nem a minha característica paixão pelos finais me evita o desconforto com que vos deixo a derradeira folha da minha versão deste bloco de notas.
As razões por detrás deste epílogo não se prendem com a "so called" falência da blogosfera, nem com qualquer desilusão, nem com uma cena de pancadaria entre os elementos desta banda pop, nem com problemas com drogas. Também não é o caso que tenhamos todos contraído matrimónio (reparo, neste preciso instante, no curioso desta expressão, como quem diz que contraiu sífilis) ou que, agora, estejamos mais voltados para um "Desejo O Divórcio" ou "Desejo Amante" ou, simplesmente, para um "Deixem-me Mas É Dormir". A verdade é que o DC perdeu o fulgor que ostentou durante grande parte dos seus quase dez meses de vida e a produção que mantinha actualmente não correspondia já aos catorze nomes figurantes no seu cabeçalho. Por isso, entendemos que, na aparente impossibilidade de recuperar esse fôlego, o melhor seria terminar por aqui os nossos diálogos, enquanto ainda faziam justiça ao seu propósito inicial.
Da minha parte, não sabia se este adeus deveria ser dito com muitas ou poucas palavras e, se muitas vezes me cansei de ler longos solilóquios de outros blogs, em circunstâncias semelhantes, dou, agora, por mim a compreendê-los inteiramente e a apetecer-me aqui ficar a escrever por mais um bocado.
Hoje, lamento não ter falado sobre milhares de coisas. Sobre os meus amigos e o meu trabalho, a experiência recente e marcante que vivi num hospital, sobre o absurdo de Espanha e a estupidez de muitos comentadores, sobre o indiano benfiquista que me vende os jornais e o tabaco, a faixa dos transportes públicos da Fontes Pereira de Melo que, tendo o tempo apagado o "B", parece estar reservada apenas a NÓS e ao nosso desfile, sobre a mulher que deixo ou que me deixa, sobre as fronteiras da intimidade, sobre o meu embaraço em tornar-me um livro um pouco mais aberto, sobre quem desejo, o problema do medo, o fim da política, a chatice de Marte, o porquê de todos os anjos terem caracóis, o sabor do café e a importância dos abraços.
É evidente que o caminho continua livre para que cada um dos casadoiros funde o seu próprio blog ou que se unam em pequenas duplas, trios ou quartetos. Por mim, prometo fazê-lo. Gostaria, aliás, de já vos deixar aqui a morada do meu novo lugar electrónico e começar, hoje mesmo, novos discursos à distância de um click no link. O problema é que eu sou um tipo complicado, daqueles que ainda não tem net em casa porque isso deve ser tudo muito complexo, fichas telefónicas, modems, contas e servidores e sei lá mais quantas partes do processo. É por isso que, preguiçosamente, dependo do pc do escritório, propriedade de uma empresa que, dizem as apostas, deixarei no final deste mês, sem que faça ainda a mais pequena ideia sobre se estarei a trabalhar em Abril, e se sim onde, e se nesse onde também tenho pc e a dita ligação complexa à misteriosa internet.
Ultrapassados estes obstáculos, fico-me por um até breve. E inundarei os mails dos blogs aqui listados ao lado com convites a uma visita. Até lá, o Desejo Casar reserva-vos ainda uma surpresa para finais de Maio, princípios de Junho.
Por agora, tiro uns dias de férias da blogosfera, Agradeço a todos quantos me leram, comentaram, citaram, criticaram e aconselharam e, não sendo grande navegador, aos blogs que acompanhei matinalmente, com particular dedicação ao Aviz, ao Dicionário do Diabo e ao Não Esperem Nada De Mim.
A gente vê-se.
Take care. AB

Aos Meus Leitores 


"A Fuga", Barahona Possollo, óleo s/ tela, 1996

Duas notícias: primeiro a boa, depois a má.
A boa notícia é que eu vou deixar a blogosfera.
A má é que será por pouco tempo. LCA

segunda-feira, março 15, 2004

Até sempre 

Jantar no Café dos Teatros do S. Luís, noite de Junho. Tudo começou aí, depois de uma sessão do “É a cultura, estúpido”, com o Nuno Costa Santos, o Luís Borges, o Luís Camilo Alves e eu, a inventar, a rir, a enjeitar, nomes para dar ao blog, enquanto na outra metade da mesa se desenrolavam as sempiternas disputas entre o Barnabé e a ainda existente Coluna Infame. Desejocasar, uma escolha renitente que se revelou feliz.
O arranque coincidiu com a explosão da blogosfera e muitos amigos contribuíram para nos dar visibilidade. Recordo agora os arautos da desgraça que num encontro que co-organizei em Outubro de 2003 na Sociedade de Geografia, sob o tema: “ blogues, moda efémera?” predisseram o declínio da blogosfera no início de 2004. Acertaram. No declínio, não na morte.
O blog deu-me muito. Escrever, o que destinado apenas a mim provavelmente ficaria por escrever. Ler bloggers talentosos, cultos, informados. Conhecer outros com quem hoje me dou. O hábito de cada manhã ler os “favoritos” antes mesmo dos jornais. Receber um ou outro mail gentil e outros com muita piada. O blog foi pretexto para “friendly crossfire” com blogues amigos, animadas discussões que me opuseram aos conservadores anglófilos da blogosfera, provocações “feministas”, leituras recomendadas e que, qual estudante aplicada, fiz; pretexto até para a primeira divisão interna entre casadoiros sobre as vantagens/desvantagens do casamento, para umas quantas festas de S. Bento à Praça da Alegria, jantares que atraíam casadoiros espalhados pela Invicta, ilhas e Alemanha, tertúlias musicais e de poesia.
Chegou ao fim esta aventura. A disponibilidade e a motivação da maioria decresceu e isso é motivo mais que suficiente.
Quanto a mim, recebi um convite de um amigo e por isso continuarei a postar erraticamente, como tem acontecido nos últimos tempos, no www.criticomusical.blogspot.com.
Aos meus colegas de blog que me desafiaram para esta viagem, ao LFB e ao LCA que tantas vezes fizeram a “seca” de me postar, ao Ncs que nos segreda a toda a hora: “ sim, mas todos querem finalmente assentar” que contraria o “mundo solitário e cínico” de que fala, a todos os leitores que sempre me conseguem surpreender quando saem da sombra para me dizerem que me lêem, muito obrigada.
Ah, é verdade, tirando o HR os casadoiros falharam a missão de casar. Medos? Exigência? Romantismo? Os factos silenciam todas as explicações. Apenas uma conclusão se impõe: Casar não é tão importante quanto desejarcasar. E isso todos desejamos. CMC

Está tudo acabado. 

O amor acaba. Sem razão aparente. E, no caso do DC, não existe outra pessoa. Simplesmente, chegámos ao fim. Ainda pensámos em "dar um tempo", como qualquer casal imaturo normal, mas não vale a pena. Ficamos com as boas memórias e vamos, cada um, à nossa vida. Com o consolo de que, ao contrário dos casamentos de conveniência, no nosso houve paixão. Mas, como em quase tudo o que é bom, o encantamento terminou. Preferimos romper agora, quando ainda é tempo de fazer as partilhas de forma amigável. Deixamos os "filhos", de que ouvirão falar daqui a algum tempo.

Começa aquela fase chata em que tenho de devolver os cd's que deixaste em minha casa e perguntar-te pelo livro preferido que te emprestei há tanto tempo. Foram 9 meses. Nos tempos que correm não está nada mal. Com 200.000 pageviews, milhares de posts, centenas de correspondentes, um ou outro arrufo. Valeu a pena, e agora separamo-nos como "bons amigos" - não é assim que dizem os casais modernos?

O nosso blog, digamos assim, está numa fase em que já não pode morrer jovem e em ascensão, como James Dean; mas ainda vai a tempo de morrer à Elvis, já algo decadente mas ainda a tempo... O Nuno e o Ricardo já explicaram bem a coisa. Agora talvez se assista ao fenómeno boys-band: desfaz-se o grupo e logo surgem os novos artistas, como cogumelos. Porque não o blog da Clara? Ou o do Alexandre? Ou o do Bernardo?
Enfim, só resta dizer que vou ter saudades de nós todos num só grupo e de ler cada um, individualmente. Mas a vida é assim mesmo. Agora, como qualquer relação que acaba, ficarei curioso e ansioso pelas vossas novas paixões - temendo que sejam melhores do que a nossa.

Nos próximos 15 dias, o DC aguarda os posts de despedida de todos os seus membros e depois desaparece tranquilamente da blogosfera. Foi um tempo muito bom o que passámos aqui. Obrigado a todos os que nos leram e escreveram. O plantel está à venda. Aceitam-se propostas. LFB

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