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sexta-feira, fevereiro 13, 2004

É escusado experimentarem o link. 

(Meio ano depois das declarações de amor de toda uma legião de bloggers, sinto-me, ainda, obrigado à subscrição. Não trará nada de novo, mas, a cada vez que percorro o disco, continua a assaltar-me o peso da dívida.)
Estamos, provavelmente, em Agosto. Vejo a capa do álbum e compro-o, sem antes ter ouvido um único tema – amor à primeira vista. Chego a casa, dirijo-me à aparelhagem. Meto conversa, cortejo-a, digo-lhe três ou quatro palavras doces, retiro a capa envolvente com delicadeza e abro o pequeno cofre, sem segredo. Play... Ela começa, por fim. Murmura em voz rouca, enternece-me com a solidão confortável da sua guitarra e até me ofereço para fazer uns arranjos, uns solos.
Quarenta minutos depois, estou apaixonado. Perfeito. Prometo-lhe amor eterno. Se desligar a luz, quase tenho a certeza de que ela está mesmo a tocar só para mim.
Entretanto, se quiserem formar um novo blog, o www.desejocasarcontigo,carlabruni.blogspot.com, tudo bem, mas posso assegurar-vos de que sei a quem ela se refere quando fala de “le plus beau du quartier”.
AB

E a banda continua a tocar 

Domingo há bola. Da grande. Mais um Benfica-Porto que alguns noticiarão como o jogo do ano e outros como um derby que já não é o que era. As diversas estações televisivas digladiar-se-ão em emissões especiais a partir das imediações da nova Luz desde a uma da tarde.
E é aí que se faz verdadeira história: seis, sete horas de transmissão, durante as quais não se passa ri-go-ro-sa-men-te nada. Directos da porta do hotel onde cada equipa estagia que incluem a divulgação da ementa disponível ao almoço. Imagens dos treinos de quinta-feira, porque os de ontem e hoje foram à porta fechada. Os vivos terminam com máximas raras como: “o segredo é alma do negócio”, “em equipa que ganha não se mexe”, “é o tudo por tudo”, “e, acima de tudo, que vença o futebol”. Entrevistam-se entre quarenta a cinquenta adeptos de ambos os lados, pergunta-se de onde vieram, desde que horas estão ali, palpite para o jogo e sugestões sobre quem marcará. Vêem-se chegar os autocarros de cada clube, há urros e apupos, 3-0 ganha o Benfica, dois de Simão e um de Sokota; 2-0 para o Porto, Deco e Maciel. Mais perto da hora do jogo, há entrevistas com velhas glórias de um e outro emblema: sei lá, um Toni pelo lado do Benfica; um Gomes pelo FCP. Se tiver havido cortes no orçamento, traz-se o Eurico ou o Fernando Mendes que jogaram pelos dois.
Enfim, uma espécie de “Surprise Show”, mas com a Cecília Carmo em vez da Fátima Lopes.
No final, com sorte, não terá havido mais que duas expulsões, um penalty não assinalado e um golo em fora-de-jogo.
Mal posso esperar…
AB

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Conversas devidamente agasalhadas com Adam Green  

Concerto de Adam Green no Gebäude 9, uma antiga fábrica transformada em centro cultural, numa área da cidade em que os estúdios dos artistas vão lentamente substituindo os sons metalúrgicos e as marmitas gordurosas dos operários de outrora. Com “Friends of Mine” (Rough Trade), o antigo cantor dos Mouldy Peaches lançou aquele que para mim foi um dos melhores discos do ano passado, com as suas melodias harmoniosas e equilibradas acompanhadas por letras irónicas, cáusticas ou simplesmente desprovidas de qualquer sentido. Adam Green combina folk atípico com baladas simples e cristalinas que nos confidenciam a sua vontade de ser enterrado com um cubo mágico ou contam a história de diamantes encontrados durante uma operação aos dentes do ciso, bem como a classe de um songwriter com a insolência de um estudante universitário com recaídas pós-adolescentes. No fundo, a banda sonora perfeita que incita a danças excêntricas em frente do espelho na solidão do quarto, cantarolando “Bluebirds are so natural, i wanna buy them for my friends”. Com a sala cheia de vinte e tais a confraternizar com trintas e poucos, ambos contidos nos espasmos dançarinos públicos, Adam Green mostrou os seus dotes de entertainer num concerto simples, leve, com versões mais cruas dos temas, à falta dos arranjos de cordas. A seguir ao concerto, Adam Green e a sua banda ainda desceram para o bar, partilhando cervejas, cigarros, recomendações sobre cortes de cabelo e confidências sobre os Belle & Sebastian, com quem vão continuar a digressão. À saída, acompanhados pelo frio, demos uma boleia nas nossas bicicletas ao guitarrista até à próxima cabine telefónica. Em casa, voltamos a vê-los, a sorrirem nas capas dos CDs. REC

Uma noite de jazz com Bernardo Sassetti 

Um dos nossos melhores pianistas de jazz, tocou sábado passado, no jardim de Inverno do Teatro de S. Luís, num ambiente propício e descontraído.
Sassetti apareceu vestido com blaiser preto e t-shirt branca e avisou-nos logo que não ía cumprir o programa pré-definido, nem tão pouco anunciava de antemão os títulos dos temas que ía tocando, porque “tenham santa paciência” estava um pouco desmemoriado (nervoso, não parecia) e os títulos só lhe ocorriam depois de interpretados.
É esta teimosia em seguir um programa livre e uma música livre de estilos que não seria tolerada num concerto de música clássica.
Sassetti tem uma formação clássica de base, à semelhança de Keith Jarett e de Brad Mehldau, em relação a este último assumiu mesmo publicamente a sua admiração, sendo de resto os pianistas de jazz que fazem a ponte com a clássica os que mais me atraem.
As primeiras composições que tocou da sua autoria, como Promessas, tinham uma forte dose minimalista, e o seu quê de Michael Nyman. Soaram bem algumas notas soltas e trilos que ficaram a pairar em rubbato. Tocou, ainda, uns standarts de jazz para satisfazer o público aficcionado, entre outros: In Walked Bud ( Thelonious Monk), Never Let Me Go, “ Blame It On My Youth”.
Tecnicamente, recorreu à modulação relativamente complexa da mão esquerda e ao improviso da mão direita, repetindo sucessivamente um mesmo tema com roupagens diferentes.
Tanto nas composições da sua autoria como nos standarts de jazz saltitou de uma expressão mais clássica com um cheirinho a minimalista para um jazz, por vezes, com malhas de blues ou de música latino-americana ( Sassetti tem um cd, Salssetti, dedicado em exclusivo à salsa). Enfim, um coktail de estilos, sendo evidente a liberdade em relação aos cânones bebop e a procura de um caminho e de um discurso que o diferencie. De facto, ainda não podemos dizer: “ Lá está é Sassetti” como dizemos “ isto é Keith Jarrett”. Mas que Sassetti assume a procura como um fim e que tacteia vários estilos com convicção, isso é indiscutível. E a propósito disto, ocorre-me a história do avô que tocava na guitarra com uma única corda, sempre a mesma nota. Um dia, o neto chega a casa e diz-lhe: “ Ó avô, vi na rua um homem a tocar uma guitarra que tinha mais que uma corda e saíam diferentes sons. Ao que o avô responde: “ é porque esse ainda anda à procura da nota, enquanto eu já a encontrei”. Felizmente, para nós, Sassetti ainda não a encontrou. E na sua procura, continua a mexer os dedos e a mexer connosco, esperemos que por muito tempo. CMC

O escritor pop 

Ao chegar hoje ao escritório, deparo-me com um catálogo do El Corte Inglês sobre a minha secretária. Já me preparava para o atirar ao lixo, quando me apercebo de que um dos produtos anunciados é o meu livro. Pequena pausa. Vou à procura da capa do folheto – era o que eu temia – “Notícias El Corte Inglês – Dia de S. Valentim”… O meu livro chama-se Dez Histórias De Amor Em Portugal, eu devia saber que o esperaria qualquer coisa como isto.
Tento ainda encontrar salvação para o meu amor-próprio e corro as páginas, na ânsia de me deparar com objectos culturais de primeiríssima linha… A banda sonora do “Love Actually”, edições dvd de “Cyrano de Bergerac” e “Casablanca”, de “Punch-Drunk Love”; garrafas de Porto e perfumes Boss – não é cultura, mas sabem e cheiram bem. Ok – não está mal, pensei.
Súbito, como pop-ups reais, começam a rebentar na superfície das páginas outros nomes: Joana Miranda, Não Se Escolhe Quem Se Ama? Allan e Barbara Pease, Iguais, Mas Tão Diferentes? Alessando Safina? Peluches, lingerie, carteiras e molduras com coraçõezinhos? A fada Carolina, O Livrinho do Amor??? E, para fechar em grande, uma contracapa de luxo, exibindo um apetitoso anúncio a uma feira de enchidos e presuntos.

(Silêncio para pensar nas opções que se tomou na vida.)

Que se seguirá? Campanhas de marcas de bombons (na compra de cinco embalagens, recebem o meu livro de presente)? Outdoors na Love Parade? Citações na Ragazza?
Se isto significasse, ao menos, que estava em vias de me tornar rico…
AB

transversalidade 

O primeiro-ministro pode acrescentar mais um problema ao rol. A Secretária de Estado da Educação, Mariana Cascais, do PP. A mesma que acha que a religião católica é a religião oficial do Estado Português entende que a educação para a saúde não deve estar presente no currículo escolar nomeadamente por prever conteúdos de educação sexual. No fundo, é o mesmo problema que se revela a propósito de muitas outras coisas: a hipocrisia beata, a confusão entre a Moral e o sentido de Estado e de Coisa Pública, a mercearia a avançar pela política. Um deputado do PP afirmava que pretendia um "modelo transversal de educação sexual". Já se sabe onde acaba este "modelo transversal" - nos consultórios do aborto clandestino, que transversal é sempre a coisa em si...
Ouço agora na televisão um senhor a perguntar como é que se implementa a educação sexual na ilha do Corvo. Confesso que não percebo a pergunta. Sugere ele que sejam as escolas a definir se querem ou não implementar qualquer tipo de educação sexual e os pais escolherão as escolas em função disso, como, afirma, se faz na Dinamarca. Se quiserem vender a a ilha do Corvo à Dinamarca, vou já para lá e até me candidato a dar aulas de Educação Sexual. De facto, é o fim... Enquanto não acabar a ideia de que educação sexual é educação para o pinocanço livre, nada funciona.
Uma professora telefona para a SIC Notícias a dizer que a educação sexual deveria funcionar nas aulas de Educação Física. Mais um arremesso do "modelo transversal"? Querem simulações com o plinto? Querem colocar o professor de Educação Física com a esposa em pleno acto?
Para a secretária de Estado, como não pode sair directamente para casa, talvez se possa arranjar um cargo simpático: proponho que seja nomeada presidente vitalícia do Movimento Nacional Feminino. Aí sim, pode secretariar à vontade. MR

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

e não ter de aturar o Dória Vilar, por exemplo 

Ter de seguir a agenda - suprema irritação para os dias que correm. Ter de ler o romance do Mário de Carvalho, ter de assistir ao "Lost in Translation" (para depois dissecá-lo nas suas "múltiplas dimensões" com um Jameson à frente), ter de ouvir o último disco - que me parece algo banal - dos incensados Air. Ah que bom que é ter uma mama da Janet para comentar e não o fazer. NCS

Encantamento 


O Grande Peixe, de Tim Burton

Trazia de casa uma irritação. Ia gastar dinheiro para não ver o filme, ia olhar sem o ver. Acontece. Não me lembro de nada por vezes. Mas nem sempre vou ao cinema. Vou só ver filmes. Ontem fui ao cinema. Vou muito poucas vezes. Há pouco cinema. Ontem havia.
Ontem havia irritações e pouca vontade de ver. Ontem sentei-me nervoso e aguardei que passasse. Passou. Passou tudo. Passei. No cinema só há cinema. Não há Ricardo. Não há mais nada. Passou. Fundi-me na tela, mergulhei com o peixe, esqueci-me de quem era e donde estava. Era cinema. Era poema. Era magia. Encantamento.
RIS

terça-feira, fevereiro 10, 2004

porque será? 

quando apenas consigo ver a chuva a deslizar lenta lentamente na janela, incapaz de escrever um post, invejo aqueles que, disciplinadamente e muito direitos, se sentam todos os dias frente ao seu corpulanteador, ajeitam o nostre da gravata e contribuem para a actualização diária do seu blogue. Eu, apenas chego à parte do sentar, mendrigoso e afunante, perscretando algumas das sintografias que me passam pela cabeça. Por vezes gostava de ser como esses remoções ebróis, sempre gusdizecentes na torçelânia com que encaram a pernícia de alguém bem menos aulíneo. REC

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Bolsas de criação literária (12.º round) 

No seu último romance, “Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina”, Mário de Carvalho anota que grande parte do livro foi escrita graças a uma bolsa de criação literária, concedida em 1997. As bolsas de criação literária já foram objecto de um intensa discussão na blogoesfera, concentrada essencialmente em saber se serão realmente úteis, mas penso que, no entanto, não se aprofundou a questão dos destinatários destas. Não sou contra a atribuição de bolsas deste tipo, mas acho que a sua função primordial deveria consistir apenas no apoio a escritores em início de carreira que consigam demonstrar ter talento suficiente (por exemplo através de contos ou poemas publicados) que justifique o prémio. Sem querer pôr em causa, neste caso específico, o autor mencionado, que concorreu cumprindo os pressupostos para a candidatura, julgo que Mário de Carvalho, com uma carreira literária iniciada no início dos anos 80 e com um nome feito no panorama da literatura portuguesa e obras traduzidas em diversos países, para além de uma carreira como advogado que lhe permite ter um certo desafogo financeiro (aqui apenas parto de uma presunção), não necessitará de uma bolsa deste tipo para continuar a dedicar-se à escrita. Não pretendo com isto dizer que o escritor tenha conseguido enriquecer com as suas obras, que já se sabe que isto da escrita (dizem aqueles mais sábios que eu) é um trabalho árduo e mal remunerado. Para muitos candidatos a escritores (particularmente os mais jovens), porém, a atribuição da bolsa terá sempre maior valor: para além da independência financeira e a consequente concentração exclusiva na criação, também lhes permite atingir uma certa notoriedade e conquistar o interesse dos editores. Será sempre um risco apoiar alguém sem qualquer obra publicada e que poderá não resistir à pressão da escrita diária, deixando a obra incompleta ou acabando por entregar algo sem a mínima qualidade. Haverá casos destes. Mas existem também muitos outros que conseguem provar que têm qualidade. É também evidente que um escritor não deve depender de um eventual subsídio dado pelo pai estado para continuar empenhado, e que são inúmeros os exemplos de escritores que conseguem, com muito amor à camisola, disciplina e sacrifício, conciliar a escrita com um emprego quotidiano, para além dos casos daqueles que acreditaram em si e se dedicaram inteiramente às suas obras (o estereótipo romanceado de um Henry Miller cheio de frio a escrever numas quaisquer águas-furtadas em Montparnasse), mas estando assegurada a disponibilização dos meios financeiros (e, relembre-se, não se tratam de grandes fortunas), porque não investi-los, acima de tudo, no apoio a novos talentos? Para quem acabou de torcer o nariz, proponho outras opções: o apoio à edição de antologias de novos escritores, a editoras que se esforçam por descobrir novos autores, ou à criação de um maior número de concursos literários. REC


Experiências com a idade 

Ao contrário de tudo quanto, alguma vez, prometera a mim próprio, regressei, este fim de semana, à infame 24 de Julho. É fascinante como os lugares aos quais, antes, ansiávamos e lutávamos por ir, se configuram, de repente, em infernos a cuja condenação só podemos querer escapar. Pelas Escadinhas da Praia passei apressado, olhando para todos os cantos, à procura de um qualquer atirador furtivo; os carrinhos de cachorros e afins haviam tomado feições de centros de estudos bacteriológicos e aquela gente toda sentada em cima dos carros já não me enganava: estavam a esconder a viatura enquanto um amigo, no interior, tentava gamar o auto-rádio.
A espera à porta das discotecas parecera ter quintiplicado e, francamente, não me divertia tanto desde os tempos em que apanhava o 36 para Odivelas. Quando o porteiro pedia “chega atrás, chega atrás! Deixa passar…” parecia-me sempre que tinha chegado à paragem dele e que o homem só queria sair. A dada altura, ocorreu-me que, se fosse proprietário de um estabelecimento destes, instalaria também cá fora umas luzes e umas colunas – assim como assim, está mais gente na rua do que lá dentro e o pessoal sempre passava um bocadinho melhor aquelas horas…
No interior: tudo na mesma: uma espécie de suicídio colectivo, lento e doloroso, à base da antiga técnica do fumo e do cruzamento dos suores. A malta esperneia e definha, com o avançar da noite, vagamente ao ritmo da música, enquanto se lançam uns olhares que mais têm a ver com morrer do que matar.
Pelas 8 da manhã, lá consegui sair e, pela primeira vez, era um alívio constatar que o dia nascera já. E fui-me embora tranquilo, pensando em como foi possível passar tantos anos a acreditar que poderia conhecer num sítio destes a pessoa de uma vida.
AB

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