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sábado, julho 05, 2003

Quem sabe num dos planetas? 

Uma equipa de astrónomos acaba de descobrir 7 novos planetas extra-solares. Todos estão eufóricos menos um. Motivo: o objectivo deste cientista era outro - descobrir vida inteligente. O que é natural atendendo ao facto de que nasceu em Portugal.

LFB

Os homens também o simulam 

Um gigolô português disse numa entrevista que quando está com as clientes "gosta de fingir que ejacula".
Infelizmente soube que o tipo sofreu há poucas horas um fatal acidente de viação e vai a enterrar amanhã.
Mas a mim não me engana o chico-esperto. Está de certeza a fingir que morreu.

LFB

PROVÉRBIOS POPULARES - REMIX SUMMER 2003 

Filho de peixe não morde.

POST-BLITZ 

Se preferes as funebrices do Chopin ao Requiem de Mozart vai mas é praticar sexo oral com um garanhão lusitano! Props pó Milos Forman e pó people de Viena! Amadeus, amadeus, Falco lives!

Amor marcado no calendário 

Acabo de ler uma antologia de Yeats. Na biografia final, exposta por ordem cronológica de datas relevantes, lá aparece - algures entre o nascimento e a morte - a indicação precisa do ano em que W.B. se apaixonou pela prima, o malfadado amor da sua vida. Quem já amou, por favor, não esqueça de o acrescentar ao currículo.

LFB

desculpem mas não resisto 

Fico a saber por um jornal desportivo que a equipa do Fafe contratou Jorge Rito para treinador de andebol. Calma, o Fafe não tem camadas jovens.

LFB

sexta-feira, julho 04, 2003

Blargh! 

Os pombos são um nojo. Se os cagalhões tivessem asas, eram pombos. Odeio pombos. Os pombos são como as ratazanas: são cinzentos, têm piolhos, cagam tudo e, como se isso não bastasse, andam em gangs.
Os pombos estão-se a cagar para nós. Fazem o que querem, e o que querem é fazer pouco de nós. Da chaminé para o telhado, do algeirós ao parapeito, a pombaria vai galgando terreno. Esses rufiões têm um plano que é preciso ser revelado: o seu objectivo é tomar Lisboa. Permanecem emboscados em beirais à espreita e, ao menor vislumbre de uma pevide, aterram subitamente na rua, provocando o sorriso de uma criança. Quando, toda a gente sabe, ao preço que as fraldas estão, nenhuma criança tem motivos para sorrir.
À tarde vão para as pracetas e avenidas empoleirar-se nas estátuas, cagando impunemente a casaca de D. José, a peruca do Marquês e o bigode de Sousa Viterbo. Alçam o rabo e, com esguichos certeiros, vão corroendo metodicamente a nossa memória colectiva. Ainda não há dois anos, uma praga de dimensões bíblicas composta por cinco pombos neuróticos, fez desaparecer um pelourinho em Cernancelhe.
Mas não se julgue que a pombaria está sozinha. Eles têm cúmplices. Os principais aliados dos pombos são as velhas e os turistas, embora recentes investigações trazidas a lume, tenham revelado que 30% dos homens divorciados depois dos noventa, têm fetiches sexuais com pombos usando ligas. Não obstante, as velhas e os turistas financiam com milho e côdeas de pão a desgraça de Lisboa. Prova disto mesmo foi a descoberta de duas toneladas de pão de mistura, encontradas por mero acaso durante uma rusga da PJ a uma padaria dos arredores de Bucelas. Nas palavras do sub-inspector Varela: “Esta foi a maior apreensão de sempre em Portugal, depois de no ano passado termos descoberto dois baldes de chicharros no porão de uma chalua ao largo de Peniche”.
O interesse das velhas é arruinar o sistema de arrendamento em Lisboa. Pretendem desalojar as famílias de suas casas e ocupar os apartamentos vagos com gatos, cães-a-pilhas (munidos com coletes de lã) - e edições raras do Borda d’Água. Os turistas, por seu lado, vêm apenas cumprir um período de convalescença, seguindo um tratamento muito em voga na Suécia, onde se afirma que dar milho aos pombos relaxa.
Esta orda de columbófilos é a pior das invasões bárbaras a que Portugal já assistiu (incluindo reality-shows) e, caso o poder instituído não tome medidas firmes, corremos o sério risco de Egas Moniz ter entalado a cabeça em vão, nas portas do castelo, quando tentava desesperadamente participar numa Festa da Cerveja.LCA

um post para o fim-de-semana 

Vou ter fim-de-semana. Pelo menos, do escritório. Já há tempos que não acontecia. Não sei se rejubile, se caia para o lado e, simplesmente, me deixe adormecer já aqui, em frente ao computador, premindo teclas ao acaso com o nariz e a testa...
2 dias para estar longe. Mesmo do blog. E pensar os rodopios das coisas, a arquitectura dos lugares de sempre, os cheiros de quem desconheço. Esquecer-me de que cada vez acredito menos nos homens. Que estou cada vez mais egoísta. Que a Dana Scully é apenas uma personagem de ficção.
A Teresa vai casar e abandonar o clube daqueles que apenas desejam. O Miguel dedica-lhe um poema. O Bernardo escreve um post muito bonito.
Um abraço de verdade a todos.
AB

Sugestão de Leitura 

Aproveitando a tendência dos últimos dias, deixo aqui uma proposta de leitura para o fim de semana. Destina-se a incondicionais do Pipi (entre os quais me incluo) e também ao próprio (caso ainda não conheça). Trata-se de um conto do escritor inglês Martin Amis denominado «Deixa-me contar as vezes», que se inclui na colectânea «Água Pesada e Outras Histórias», com chancela da Teorema. Apreciemos uma passagem:

«(...) Em Média (...) a esposa de Vernon operava oralmente de três em três cópulas, ou 60,8333 vezes por ano, ou 1,1698717 vezes por semana. Vernon operava oralmente com uma frequência um tanto menor: de quatro em quatro cópulas, em média, ou 45,625 vezes por ano ou 0,8774038 vezes por semana. Seria também um erro pensar que era esta toda a extensão das variantes. Vernon sodomizava a sua esposa duas vezes por ano, por exemplo, pelo seu aniversário, o que parecia bastante justo, mas também, ironicamente (assim ele pensava), no dela. (...) Vernon ejaculava sobre a cara da sua esposa 0,001923 vezes por semana. Não era demasiada frequência, em matéria de ejacular sobre a cara da esposa, pois não? (...)

Já agora aproveitem e leiam o resto do livro.

RS

Para a Teresa, que não vai ler, mas vai casar 

Farei a coisa certa?
Que certa coisa já fiz,
Pois que dela deserta
Iludi um aprendiz.

Nada volta e nada falta,
Depois do leito e do altar,
Que na ânsia de casar
Até a dormência me salta.

Ó permanência dos dias,
Ó rigor da suficiência,
Que tempos houve em que sabias

Que não podias o que querias...
E pois que finda a maldicência
A toda a hora te casarias.

MR

Ao menos que haja primas menores 

Daqui por poucas horas, dirigir-me-ei a Burgos, norte de Espanha, para ver casar um amiga. Sendo sempre uma experiência dolorosa, maior ou menor a dor consoante a amiga e a amizade, até acalento algumas expectativas positivas quanto à cerimónia. Veremos. Prometo dar notícia da coisa na próxima semana, até porque não é todos os dias que um blog tem infiltrados num casamento episcopal à espanhola.
Fazer 1900 quilómetros em menos de 3 dias para ver casar alguém é certamente um dos aspectos menos tratados da globalização, pelo que, também doutrinariamente, o facto pode apresentar interesse.
Assim, se voltar vivo do IP5, relatarei a boda. E repito, a boda, para evitar pensamentos mais conjugais.

quinta-feira, julho 03, 2003

É a cultura estúpida 

João Grosso deu, anteontem, conhecimento à comunicação social de que abandonava o seu cargo no D. Maria II.
Desde a saída de Carlos Avilez, já no distante ano 2000, que não é nomeado um director artístico para o Nacional. Os trabalhos têm sido coordenados por uma comissão de gestão de que Grosso era vogal. No entanto, no meio da indefinição, alguém teve de se chegar à frente e o actor assumiu as despesas da direcção artística, entregando-se à missão de corpo e alma, juntamente com a sua vida pessoal e os limites da paciência.
Anteontem, a paciência esgotou-se, perante a "total ausência de pensamento" da parte do Ministério da Cultura.
O comunicado do mesmo MC não só não lamenta a perda, como se refere a Grosso da seguinte forma: "não se reconhece qualquer justificação ou legitimidade ao vogal João Grosso para dirigir uma carta à comunicação social (...)."
Que Pedro Roseta não existia, já todos sabiam. Agora, que algo que não existe tenha as propriedades de ser ingrato e arrogante é que já desafia os limites da Ciência.
AB

O FIM com até breve 

A originalidade, enfim, na blogosfera. Enquanto todos os dias nascem aparentemente dezenas de blogs há um que decide fechar a loja. Infelizmente é logo o É A CULTURA, ESTÚPIDO. Mas calma, poderão ver a categoria de João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos, e outros, a partir de Setembro, no site das PRODUÇÕES FICTÍCIAS. É nessa altura também que voltarão ao São Luiz as sessões mensais do evento homónimo. Até lá, pelo menos no caso do NCS, vejam-no aqui em exclusivo. Já agora, o link permanece na nossa coluna da direita mais uns dias: há bom material que ainda pode (deve) ler.

LFB

NIGHTLIFE 

Até hoje, por dever profissional de docente universitário, tenho-me visto
demasiadas vezes obrigado a estar acordado e a funcionar logo às 10h00 e, por
vezes – creiam-me – mesmo às 9h00 da madrugada. Sucede que, desde sempre, não
costumo deitar-me antes das 4 da manhã, e raramente consigo cumprir um mínimo
razoável de horinhas de sono. Apesar dos meus esforços, nunca consegui alterar
os meus hábitos. Tem sido arrasador.

Até hoje: leio no Público que a razão que faz com que algumas pessoas não
consigam levantar-se cedo é de natureza genética, e não mera questão de hábito.

Por isso, exultante, posso anunciar: não mais dessa torpe violência! Agora que
me descobri portador de uma idiossincrasia genética, vou munir-me de um atestado
médico e reivindicar um horário de trabalho compatível com o meu dna! A
Constituição garante o direito à identidade genética! Haviam de ver! Não fora eu
avesso a esses disparates revolucionários de greves e sindicalhadas, e
convocaria mesmo uma manifestação: todos os portadores de incompatibilidades
genéticas com horários de trabalho matutinos, ao Terreiro do Paço, já!

Bem; já, não. Só depois das 7 da tarde.

LDA

A BIRRA DO MORTO 

David Hume lives! Acabo de saber que, neste país, as certidões de óbito são
válidas apenas durante 6 meses. Faz sentido. Afinal, nunca se sabe: não há mal
que sempre dure (não é?). Ou por outra: talvez se trate de mais um sintoma desse
credo generalizado na ressureição dos mortos e na “vinda” do “mundo que há de
vir”.

LDA

Furo - para ser citado num jornal desportivo (o mistério de Scolari) 

Não costumamos falar de futebol mas esta é sobre a selecção nacional. O maior enigma de Scolari, para muitos, é a não convocação de Vítor Baía e João Vieira Pinto.
Ora bem, fonte seguríssima contou-me esta história.
O Presidente da República, aficionado do desporto-rei, convidou há tempos Scolari e a mulher para um jantar em sua casa. A dada altura, não resistiu: porque não convoca Baía e JP?

Scolari terá respondido sem hesitar:
"Senhor Presidente, não duvido que Baía é um dos melhores guarda-redes portugueses. Na verdade o segundo melhor. Mas não posso ter um jogador com tantas internacionalizações como ele no banco. Ainda por cima passa a vida a dar entrevistas dizendo que não percebe a sua exclusão. Não posso correr o risco de ter o balneário minado.
Em relação a João Pinto, respondo com uma pergunta: como é possível que tantos portugueses exijam a convocação de um jogador que, num dos momentos mais importantes da história da selecção, agride um árbitro?!"

É preciso mais?

LFB

Feng Shui por perdigotos 

Ainda me falta o último álbum para ter tudo dos Tindersticks mas enquanto não vou à FNAC lembro-me de acrescentar ao currículo o meu encontro de primeiro grau com o vocalista Stuart Staples. Aconteceu no último concerto no Coliseu. Estava na 2ª fila com uma companhia feminina que babava um pouco mais a cada pestanejar de Staples. A certa altura a banda decide atacar o "No more affairs". Foi precisamente nos "ff" em "affairs" que residiu o busílis da questão. O esforço vocal da sublime rouquidão de Stuart decidiu, nesse momento, prendar-me com um generoso e iluminado perdigoto. Sobrevoou os poucos metros que nos separavam, passando elegantemente sobre o microfone para se alojar no meu sobrolho direito. Encantada, a minha companhia exigiu que não limpasse aquilo da testa. Ela, como Stuart, percebeu que assim se restabelecia o equilíbrio e a harmonia. Na 2ª fila a baba reunia-se enfim ao perdigoto. Tudo estava bem.

LFB

Apologia da palavra ou o afrodisíaco dos ouvidos 

Trocar uma declaração de amor ou de desejo pela acção, avistar pombinhos arrulhantes que se esqueceram que a língua tem outras e vastas funções ou, o que mais me embaraça, casais num restaurante emudecidos como bovinos na manjedoura, eis um pecado capital e que me suscita só este comentário: perde-se muito, perde-se tudo.
Emudecer é não só não exercitar o cérebro, a partilha e o enriquecimento recíproco, como, no domínio do amor, é mesmo desperdiçar a natureza voluptuosa da palavra que acariciando primeiro o ouvido se propaga como seta inflamada ao cérebro e ao resto do corpo.
Já desde o Cântico dos Cânticos o homem sabe que o amor se intensifica pela forma como é dito.
A palavra é sussurro, alimento para o amor, através dela amada e o amado ficam mais belos, transfiguram-se, elevam-se a insuspeitos planos.
É tão importante passar um dia a pensar no que se vai fazer com o ser amado como no que se lhe vai dizer. E se um gesto corre o risco de ser repetido e sentido de forma igual, uma palavra tem o poder de ser única, de só poder ser dita por aquela pessoa e, de cada vez, ganhar nova sonoridade.

CMC

Agora a sério: 

Segunda-feira o DC faz um mês. Pensamos nessa altura instalar o sistema de comments, à experiência.

Resposta da direcção a Tiago Rodrigues 

Em relação à questão de comments no DC, esta é a nossa posição:



Temos dito.


3 de Julho de 2003,

a inexistente Direcção

Alimária Política 

Dizia Aristóteles que o Homem é um animal político. Se Aristóteles tivesse conhecido Berlusconi, diria exactamente o mesmo, mas agora tinha um slide.LCA

Comentários 

Como colaborador do Desejo Casar lanço um repto à inexistente direcção deste blog: para quando a possibilidade de os nossos leitores deixarem comentários aos textos?

É que, se desejamos casar, não podemos privar aqueles que nos desejam de comunicarem connosco.

TR

Se não tem nada para dizer, cite! 

Este post vai na senda de uma das nossas rubricas: aquela em que, quando não sabemos o que dizer, nos permite escrever qualquer coisa à mesma, ainda que tenha sido outro a pensá-la.

Ando a traduzir um texto de Thomas Bernhard (estou mesmo no fim) e por isso não tenho contribuído muito para o Desejo Casar. No entanto, no meio dos meus dilemas de tradutor (e, portanto, de traidor), encontrei esta pérola imaginada pelo único austríaco interessante que conheci (o facto de estar morto ajuda: um austríaco morto é sempre melhor que um vivo!). Reza assim:

"O pior ódio que existe, é o ódio dos vizinhos"

Não sei porquê, pareceu-me adequado publicar isto num blog.


Tiago Rodrigues

Nó Vital 

O livro de Hillary Clinton já vendeu mais de um milhão de exemplares. Nesta espécie de Harry Potter para adultos, o papel de varinha mágica é servido pelo instrumento - aparentemente demasiado viril - de Bill Clinton. Por causa das tropelias sexuais do marido, Hillary chega a confessar no livro que "teve vontade de lhe apertar o pescoço".
É por coisas destas que se percebe: quem tem mulher, tem tudo. Afinal, "apertar o pescoço" parece que foi mesmo a única coisa que Miss Lewinsky não fez a Clinton.

LFB

Uma desgraça nunca vem só - ou, perdoa-me Benfica! 

Uma das fotografias que mais circula pela net, pelo menos desde a guerra EUA-Iraque, é a de uma estátua derrubada de Saddam junto à qual se encontram algumas crianças. Pormaior: um dos miúdos tem vestida uma camisola do Benfica.
Como se não bastasse a esta criança ter vivido a sua infância na miséria e na repressão, prova-se ainda que era mantida na mais absoluta ignorância. Só assim se justifica que um inocente vista o equipamento de um clube que há quase 10 anos não ganha nada.

LFB

Provérbios Populares Remix - summer 2003 

"Quem tudo quer, tanto dá até que fura!"

Aforismo pipiesco 

Se o sexo fosse um desporto, seria a única corrida do mundo em que é possível que o segundo a chegar ao fim fique mais satisfeito que o primeiro.

Conselho Inútil III 

Procure não falar debaixo de água. Ninguém o compreenderá.

Conselho Inútil II 

Se conduzir, não adormeça. Pode ser desagradável para quem viaja consigo.

Conselho Inútil 

Evite cair. Provoca uma enervante sensação dolorosa que em nada auxilia o seu bem-estar.

Sobre a apologia do fracasso 

Feita por blogs mais conservadores como Flor de Obsessão e Tradução Simultânea, confesso a minha perplexidade em aceitar que seja uma posição conservadora defender as vantagens e a excelência do fracasso?! Alguém me explica a associação?
Não sendo conservadora nem coisíssima nenhuma, concordo. E não se trata só de aceitar o fracasso, essa é uma aprendizagem incontornável: a de que a vida está recheada de perdas/ganhos que se acumulam até alcançarmos a derrota final, é ir mais longe e dizer que o fracasso é importante por nos permitir contrastar os momentos de sombra e os brilhantes, é dizer que quem fracassa é quem necessariamente arriscou, quem tem capacidade de arriscar.
Pessoas bem sucedidas não são as que acumulam mais vitórias: aferidas em realização de sonhos, ambições, mas as que mais arriscaram e encararam os resultados de modo positivo. Portanto, fracasso, sim, mas optimizado!
E a propósito cito F. Pessoa:

"Basta quem baste o que lhe basta o bastante de lhe bastar. A vida é breve, A alma é vasta. Ter é tardar"

CMC

Fados e solidariedade 

Foi ontem, no S. Luís, a noite de fados em que Camané, Ana Sofia Varela, Carlos e Gil do Carmo oferecerem a sua voz e apoio ao amigo Zé da Guiné. Um gesto bonito. Lindo o fado "rosa nocturna" na voz de Ana Sofia a partir de um poema de Vasco Graça Moura. Aguardam-se para futuros eventos mais amigos da cepa boémia, dados a saborear o seu charuto ao som de um bom jazz ou sopros mais tropicais.

CMC

quarta-feira, julho 02, 2003

Assembleia Full House 

Este governo vem merecendo, desde há algum tempo para cá, o seu próprio baralho de cartas. Se Portugal fosse o Iraque, Paulo Portas seria um às de espadas. Não no mau sentido, entenda-se, mas apenas naquele em que toda a direita o desejaria ter na manga. Seria uma espécie de pasta medicinal Couto mas, em vez da boca, andaria na manga de toda a gente.
O Primeiro Ministro seria, com toda a dignidade que lhe é devida, o rei de copas. Por seu lado, a rainha de copas, como devem ter adivinhado, seria a Ministra das Finanças. O ministro Arnaut seria o valete de paus – mais conhecido pelo valete-adjunto. O dr. Marques Mendes seria, como não podia deixar de ser – e a pedido de várias famílias -, o joker. O resto do baralho seria composto pela restante prole ministerial, adjuntos e secretários de estado, todos inclusos.
Imagina-se a utilidade que este baralho teria durante os trabalhos da assembleia, em especial quando a deputada dos verdes fosse discursar à tribuna. Nesse momento, sacava-se do bolso do casaco o respectivo baralho (os deputados do Bloco de Esquerda, não usando casaco, transportariam o baralho numa bolsa Mariconera), e começava-se a jogatana. Seria bastante útil, por exemplo, como aquecimento para quando o casino fosse finalmente construído.
Depois, como é natural, cada grupo partidário teria o seu próprio jogo. Os deputados do PP jogariam o selecto bridge. Os do PSD apostariam no liberal póker. Os do PS, mais preocupados com a conjuntura, alternavam o póker a feijões com a sueca. Os do PC, agastados com o baixo valor das pensões, dedicar-se-iam à bisca-lambida. Os do Bloco de Esquerda, por sua vez, e à medida dos seus dois deputados, jogariam crapot. Por fim, a deputada de Os Verdes, após o discurso, faria uma paciência com um baralho de papel reciclado. E perdia. Oito vezes seguidas.LCA

Notas Sobre Berilm (última parte) 

Olhares que Matam.
A igreja em memória do Imperador Guilherme (o primeiro da dinastia dos Hohenzollern), situada em pleno centro da zona ocidental, foi conservada como memorial à Segunda Guerra. O seu aspecto deformado evoca os terríveis bombardeamentos de que a cidade foi alvo, sendo actualmente visitada por milhares de turistas e alemães, que no seu interior observam fotografias e maquetas, confrontando-se com o antes e depois deste local malogrado. Durante a minha visita, passeava-se uma família de filipinos ou malaios que, tal como toda a gente, parecia algo aturdida perante a dimensão trágica que aquele resto de nave encerra. Não se estavam a rir, nem a comprar a cromos, nem a falar alto. Olhavam com espanto, apenas. Mesmo assim, não evitaram o olhar mortífero de um casal alemão de meia-idade, que os fulminou com um misto de superioridade e desprezo. Apeteceu-me dizer àqueles senhores que foi por causa de olhares desses que a igreja está como está.

E, de Repente,
É habitual dizer-se que os alemães são disciplinados, mecanizados e kantianos. Como se costuma dizer que os franceses são fleumáticos, problemáticos e irritantes. Ou os espanhóis excitados, inconsequentes e ruidosos. Vamos ainda a Portugal e temos os vaidosos, indolentes e invejosos. E por aí fora. Sendo sempre perigoso, e muitas vezes injusto, este tipo de chavões, a verdade é que os «mitos» se constroem por sinais, repetições, unanimismos. No caso concreto dos alemães, e observando algumas rotinas, o rótulo faz sentido: não conheço outro país onde o conceito de «horário colectivo» seja tão religiosamente cumprido. Temos uma avenida cheia, a fumegar, durante a manhã e a tarde. Aos milhares, os indivíduos circulam pelos empregos, pelas lojas, pelos cafés. Passo estugado, cabeça erguida, direcção privada. Depois, a uma hora bastante determinada, situada entre as 20h e as 20.30h, evaporam-se. Literalmente, evaporam-se. Ni diós. Nem na avenida cheia, nem nas transversais, nem nas oblíquas. Sobro eu, um cão e um pedinte. Alguns estabelecimentos permanecem abertos e lá dentro estão lá os empregados, alguns turistas e um indivíduo ao balcão a ler Bakunine. Os outros, nem vê-los.
E há coisas extraordinárias: do silêncio do final da tarde, no remanso da Alexander Platz, surgem dois batedores da polícia a abrir caminho. Páro e não vejo ninguém; um estudante a regressar a casa ou um casal em promessas, no máximo. Vinte segundos depois, tudo se explica: os berlinenses tinham ido calçar os patins em linha. Todos os berlinenses. Todos os berlinenses com mais de 15 e menos de 50. Todos. Sem excepção. Numa espécie de encontro que se realiza todas as semanas dos meses de Verão, os habitantes, e alguns convidados estrangeiros, inundam as ruas da zona leste com os seus patins. Todos. Fiquei um quarto de hora a observar o desfile e ele não acabou. Quando me afastei, percebi que davam a volta à torre da televisão e invertiam pelo lado cotejo. Depois o silêncio novamente. Foram todos descalçar os patins.


Block Haus Nacht.
Numa das minhas incursões nocturnas pela capital, e após aturada investigação (em Berlim a noite não é nada óbvia; há que esmiuçar), fui parar a um dos extremos da Karl Marx Allee. Perdi-me diversas vezes em busca de um nome que me haviam dado: Maria. Explicaram-me que era um sítio escondido, junto às margens do Spree e que se encontrava envolto por densa vegetação. Depois de muitos ziguezagues e tropeções, lá o encontrei: o Maria era um bunker - dos poucos que sobreviveram à dinamite do pós-guerra. Originalmente designado Maria Ulrich, o espaço converteu-se num dos locais mais hype de Berlim. No seu interior, existem ainda alguns frescos da arte virtuosa do Terceiro Reich: jovens espadaúdos em pose de vitória, encimados pela águia prussiana. O resto imagina-se: a antiga zona de comunicações deu lugar a uma pista com tecno-minimal; o paiol de granadas travestiu-se em bar de bebidas energéticas; e os dormitórios são actualmente o chill out onde se fuma abundantemente Maria.

O Melhor de Tudo.
Para além da personalidade fortíssima da cidade, e da simpatia da maior parte das pessoas, o mais bonito é mesmo as bicicletas - ou melhor, as belíssimas fraulein que por todo o lado as guiam. De várias idades e proveniências, quase sempre loiras e robustas, emprestam um charme inigualável às ruas da cidade. A todo o momento especamos e ficamos a olhar; com um pensamento único: Desejo Casar.

Ricardo Sampaio

Olá, Sara 

A Sara (www.amoresdesara.blogspot.com) teve a gentiliza de nos enviar um email anunciando a sua presença na blogsfera e no Jamaica, em ambos os casos tratando com realismo de práticas de sedução. Mas isto do "desejo casar", como a Sara já deve ter percebido, é mais para obter benefícios fiscais ou outros - não contratuais. E os amores de Sara, só funcionam ao fim de semana?

MR

Mais uma coisa sobre campanhas publicitárias 

Uma coisa breve: porque é que, desde há uns tempos para cá, todos os iogurtes são cremosos e todos os bancos só querem oferecer faqueiros?
Que mania de País!...
Os iogurtes NÃO são cremosos e os bancos NÃO mandam facas de peixe para as caixas de correio das pessoas de bem!
Será difícil de perceber?
Devem ser aqueles jovens do marketing, a pensar num open space forrado de cubículos cinzentos (confesso, já estive DENTRO de um banco), "eh pá, tenho de inventar qualquer coisa, vão dispensar gente em Setembro, deixa ver, deixa ver, já sei, podíamos mandar facas de peixe para as pessoas, que elas mandavam-se ao ar e davam-nos todo o seu dinheiro". Ou, na outra linha, branca, "as gajas gostam é dos cremosos, todos os estudos (nota - "estudos de mercado" não é uma expressão contraditória?...) dizem isso, vamos é fazer esta m.... toda cremosa e bora pá frente"...
A quem queira saber o que é um iogurte, aconselho uma pequena viagem a Marrocos e a coragem suficiente. Esses sim, talvez se possam comer com facas de peixe, que não são cremosos.

MR

Mãe, já sou um homenzinho! 

Estou diferente. Cresci. É claro que isto tem tanto interesse para você, caro leitor, como saber da predilecção que o director de fotografia de Hitchcock tinha pelo bridge.
Mas apetece-me falar, para gaúdio dos meus pais, sobre as minhas recentes comprinhas de vestuário.
Sim, eu que era o guru da boina nos dias em que o espírito parisiense entrava em mim roubando-me os preciosos minutos do duche,
eu, que desde uma visita ao Brasil, introduzi os chinelos e chanatas na minha vida social,
eu, que sonhava vir a ter a barba de um Joaquim Letria,
eu, que adoro a liberdade de uns calções como Carroll adorava criancinhas,
mudei.
À beira dos 26 anos de idade percebi, enfim, e graças a subtis e elegantes avisos de colegas de trabalho, que à mulher de César - hélas - não basta sê-lo.
Pois é. Comprei umas camisas de fazer inveja a um Paulo Pires, umas calças que orgulhariam um José Castelo-Branco, e descobri que a pele da minha cara, afinal, ainda estava lá, desbastada a amazónia.
Sou um novo homem. Já posso caminhar pelos corredores, perfumado como um bebé que vai ser baptizado, e pronto para receber os homens de negócios.
Não é ironia, é a vida mesmo. Mas terei saudades do ar contrito da minha mãe, vendo-me sair de casa, e dizendo: "Ó filho, vais sair assim à rua? Tu fizeste Direito..."

LFB

Quem me dera que algumas "ex" pensassem assim... 

Há dias ouvi uma animada conversa entre 5 ricas meninas no Movies, Monumental. 4 amigas convictas tentavam convencer a quinta de que dormir com os ex-namorados dá saúde e faz crescer.
"Mas parece-me estranho... sobretudo se estamos com outra pessoa..." - dizia a amiga pouco convencida.

"Mas ó Rita: são ex-namorados! Não é traição!"

LFB

Lista de casamento 

Desejo Casar já deu início ao namoro com diversos blogs – sob a forma de alguns emails que chegaram à nossa caixa de correio. Passam, desde já, à categoria de blogs casadoiros. Desejamos as maiores felicidades – e, já agora, convidem-nos para os respectivos casamentos.
À vossa atenção:

- amoresdesara.
-1936-1939.
- macrocollum
- fogotabrase.
- blogsocialportugues.
- mexenaferida.
- avatares-de-desejo.
- guerraepas.
- omeupau.
- becodasimagens.
- oprojecto.
Desejo Casar


Beckham 

Ontem, tendo chegado David Beckham a Madrid a fim de realizar os testes médicos da praxe, assisti a mais uma reportagem perfeitamente inacreditável, na linha daquilo que se tem dito e escrito nos últimos tempos acerca do extremo-direito inglês. Nela se dizia, após descrever o hotel em que o jogador e a mulher ficavam instalados, bem como a indumentária de ambos, a seguinte nota pseudo-cómica: "O jogador passou nos testes médicos. Sim, porque, no meio de tudo isto, Beckham lá vai arranjando um tempinho para jogar futebol..."
Beckham é, toda a gente sabe, um dos melhores jogadores do mundo. Na sua posição - desculpem lá - é mesmo o melhor de todos. Figo já o foi, mas é evidente a diferença de rendimento que apresenta em relação aos seus anos grandes no Barcelona e à primeira época em Madrid. Ninguém passa como Beckham, poucos pensam como Beckham, quase nenhum cobra bolas paradas como Beckham.
O problema - roubando a rubrica ao Tiago - é a inveja. Beckham também detém esse recorde: ninguém é tão invejado como ele. É um grande futebolista, é bonito, rico e casado com uma mulher bonita, famosa e rica (ainda que, nesse particular, concorde com Pedro Mexia: a Helen de Figo fica, claramente, a ganhar).
Pessoalmente, quem me dera estar no lugar de Beckham. Só não queria ter de ouvir os discos das Spice Girls em constant-repeat.
AB

Desculpa lá, Luís, ter-te roubado o lugar 

E depois o outro Borges é que escrevia posts muito grandes...
AB

Nietzsche (“Nitxâ”, em linguagem sms) 

O Nuno Costa Santos teve a bondade de me ligar, ontem, a propósito do meu último post. Estava preocupado por eu ter chamado existencialista a Nietzsche, tendo estado, antes, com a colega Maria João, a discutir se não seria, afinal, um niilista. Agradeço-lhe querer evitar-me uma chuva de mails, mas, antes que alguém se aventure, deixo aqui três pontos explicativos:
1. O existencialismo é uma noção vaga, indeterminada no tempo e no número de autores, que se caracteriza, ideologicamente, por colocar a tónica na existência e não na essência e, historicamente, por se opor à filosofia clássica (sobretudo a medieval) que preferia as essências. Os seus temas fundamentais são o indivíduo, a tomada de uma decisão e a ausência de uma compreensão racional do universo. O indivíduo – não a espécie – é lançado a existir e luta enquanto não morre. Kierkegaard é, em geral, considerado o primeiro existencialista, tout cours, ele que morreu quando Nietzsche tinha 11 anos.
2. Nietzsche percebe depressa [logo na sua primeira obra, O Nascimento Da Tragédia – sim, “nascimento” (Geburt) e não “origem” (Herkunft)] que o mundo não pode ser legitimado pela Moral. O mundo explica-se e, sobretudo, vive-se, pela Estética, para além da razão, como algo belo ou feio, a cada instante. Cada indivíduo é convocado a aparecer diante da restante humanidade, a viver, a ser, a dar-se, isto é, a existir. Não há essências escondidas. Há o que aparece, o que existe, antes do epílogo do espectáculo, ou seja, a morte.
3. Dizer que Nietzsche é niilista é entendê-lo pela metade ou, pura e simplesmente, não ter lido mais que definições de dicionário. Nietzsche critica explicitamente os niilistas na figura do “último homem”, no prólogo de Assim Falava Zaratustra. Nietzsche só é niilista enquanto desmonta o quadro de valores ocidentais como uma convenção nascida do erro pessimista do Socratismo e do Cristianismo. Mas o niilismo significa ficar no nada, sem Deus, sem valores, sem qualquer crença, comprometimentos, objectivos ou ideais, reduzir-se ao estado ascético que, no limite, entende todos os indivíduos por igual. Como se sabe, Nietzsche era tudo menos comunista. Destruiu valores, mas criou outros: a vontade de viver, a vontade de poder, a vontade de amar, a arte, a dignidade, a coragem. Nietzsche está cheio de sonhos e de hierarquias, culminando no super-homem. O niilismo é o estado das sociedades contemporâneas que Nietzsche se desunhou a criticar como nenhum outro. Embora não seja uma definição académica, há muitos argumentos para falar do seu existencialismo, mas Nietzsche terá morrido tão niilista como Durão Barroso morrerá maoísta.
AB

Sim, chegou mais um! 

A semana está a meio e com ela terminará a senda de contratações do DESEJO CASAR. Cabe-me dar as boas-vindas, desta vez, ao Luiz Duarte d'Almeida, um dos melhores licenciados de Direito nos últimos 20 anos, pianista ilustre, a concluir agora o primeiro ano de Filosofia. Parece muito? Esqueci-me de referir a bela Filipa, sua namorada, finalista de Medicina e soprano.

Só há uma pergunta a fazer: o que deram de comer a esta gente ao pequeno-almoço, meu Deus?!

É importante dizer que não via este meu bom amigo há um ano e meio. Perdi o seu número algures nas minhas várias tropelias com os telemóveis. Sucede que foi do Luiz, precisamente, o primeiro mail a chegar ao DC, há quase um mês atrás. It was meant to be.

LFB

ps: só não ponho já o teu nome no cabeçalho porque tenho de ir pagar umas vinte multas acumuladas antes que me penhorem a viatura. Até já.

NÃO DESEJO CASAR 

O Luís Borges, amigo caríssimo e compincha antigo de leituras, jantaradas e charutos, dirigiu-me o convite tocante (pela forma) e tentador (pelo fundo) de me associar à trupe do Desejo Casar.

Aceitei, evidentemente; mas não sem alguma apreensão. É que é notório o propósito casamenteiro (não direi alcoviteiro) que norteia os posts da maioria daqueles que agora passei a tomar como companheiros de blog.

Ora se há coisa que justamente eu não deseje, é casar. Devo explicar-me.

Observo com frequência que as relações de casamento depressa resultam numa degradação dos costumes que é vizinha do desrespeito. Digo bem, desrespeito. É como se essa espécie de contrato de mancebia incluísse no seu clausulado a permissão para o emprego recíproco da rudeza mais extrema, do palavreado mais deselegante, do insulto mais grosseiro.

Como se explica que aqueles que deveriam merecer-nos a maior consideração, a mais solícita deferência, o carinho mais suave, se vejam progressivamente convertidos em objecto de um tratamento vilão e desregrado que seríamos incapazes de aplicar a um estranho? Quem permitiu que os hábitos do conjúgio invadissem a esfera do recato individual? E falo do casamento por metonímia evidente: abranjo nisso, em geral, a união de cama e pucarinho, o concubinato, ou coisa que o valha.

Tenho para mim que essa baixeza de usos é o resultado natural de correntemente se julgar que o facto de duas pessoas poderem surpreender, entre ambas, o conforto químico de algumas afinidades haja de implicar que logo essas pessoas se arrumem em habitação conjunta e comunhão de quotidianos. Por que diabos deverá alguém ser testemunha forçada dos hábitos fisiológicos (é um exemplo) de uma pessoa com quem decidiu iniciar uma "relação" dita "amorosa"? Se essa "relação" se ancora em outro tipo de práticas (a menos, devo ressalvar, que caiba no domínio do fetiche), será forçoso comprar o pacote inteiro?

Noutras épocas, os casais dispunham de quartos separados, e os cônjuges tratavam-se mutuamente com elevação e cortesia (aliás, como bem diz uma amiga minha, só com quartos separados se pode "ir para a cama com"; se o quarto e a cama são únicos, não se "vai" para a cama æ "está-se" na cama). Nos tempos que correm, há casais (especialmente os suburbanos, é certo) que partilham até a casa de banho, espaço que, de resto, frequentam de porta aberta. Atingiram-se com o casamento, bem no seu âmago, as últimas reservas de intimidade pessoal que nada deveria poder tocar.

Um casamento assim é uma devassa, uma violentação que mereceria constar, em lugar destacado, nos relatórios da Amnistia Internacional. E a salutar insistência nesse mínimo (irredutível!) de dignidade humana que é dispor de a bathroom of one’s own (parafraseando a Woolf) não é já senão reedição metafórica da "casa ocupada" de Cortázar e, por isso, uma batalha que julgo perdida.

Em suma: o casamento é hoje uma "instituição" que æ na melhor das hipóteses æ confina o espaço da intimidade pessoal às quatro paredes de uma instalação sanitária. Isto, penso eu, diz tudo.

Assim, não posso aplicar-me esse bonito particípio futuro que é "casadoiro". Não desejo casar. Em contrapartida, porém, não me ensaio nada de ser catrapiscado; por isso (mas também em homenagem a D. Jorge Luis, o avô do Luís Borges) aceitei o convite.

Luís Duarte d’Almeida

A campanha de Verão que falta 

O Verão é tempo áureo para campanhas de prevenção dos males do Mundo - dos mais gerais aos mais mesquinhos. Não sei se sempre terá sido assim ou se só quando se terminou o último alicerce de Quarteira se terá percebido que aquela água toda junta poderia afogar criancinhas. Mas o que é certo é que as campanhas são sempre sobre os mesmos temas:
- acidentes rodoviários
- afogamentos e congestões
- fogos florestais e de pasto
- segurança sexual
- segurança laboral
- acidentes diversos com criancinhas
- poluições várias no saibro
- salmonelas de Odivelas
e outras coisas do género que não são mais do que subtipos destas.

Assim, creio que, ainda por cima neste espaço, num espaço de DESEJO CASAR, faz falta chamar a atenção para um mal substancialmente mais grave que os enunciados: o mal das trintonas que, efectivamente, desejam casar. E, para isto, não há campanhas caniculares de prevenção (o lobby do gajedo é fortíssimo...).
Onde estão os outdoors iluminados nas praias? E os spots nas rádios e televisões? E as t-shirts de distribuição gratuita? Falarão os professores disto aos alunos nas últimas aulas? Dar-se-á esta matéria em "Meio Físico e Social" (a melhor cadeira que alguma vez tive, já lá vão 20 anos...)?

Porque o problema é sério e de magnitude elevada (e a crescer...). Quantas vezes não somos confrontados com este mal? Vamos jantar a um sítio e, mesmo ao nosso lado, está o casal em questão - ele, sumido e de olhos no prato; ela, primeiras rugas a despontar, friso mamário a querer companhia, a tamborilar os dedos, qual santo ofício de capiroska em punho...
E deste risco ninguém se livra... Acontece-nos a nós mesmos e não apenas aos outros. Não há antídoto eficaz (parece que há um, mas aparentemente pode dar prisão preventiva...).
Os poderes públicos deveriam tomar medidas, atendendo à dimensão do flagelo. Sugiro então mais uma campanha de Verão: a da prevenção contra as trintonas que desejam casar. Naturalmente, não falamos aqui das cabriolices ingénuas dos que efectivamente também querem casar com elas e até casam. Esses terão o que merecem. Agora, o que nos preocupa são os milhares de inocentes que caem nas mãos suadas destas maternas cupidas.
Que tal um outdoor no Terreiro do Paço em que se leia "Casar aumenta a inflação"?
Ou uma t-shirt nocturna para os machos, afixando "Tenho 30 anos. Tenho herpes. Sou pobre."?
Qualquer programa romântico na televisão deveria também, no final, fazer acompanhar-se da leitura de uns dizeres (à semelhança da legal ficha técnica das sondagens, lida em velocidade de relâmpago), tipo "Nos termos da lei, deve considerar-se avisada que o amor é uma obra de ficção e que como tal deve ser tratado. Todos os homens que neste programa se apaixonaram e pediram em casamento mulheres de 30 anos foram pagos para isso ou enganaram-se no guião.O produtor ou o autor não podem igualmente ser responsabilizados pela imaturidade dos actores do sexo masculino na vida real". ´
Assim, pelo menos, uma campanha de Verão que talvez desse resultado. Que vos parece?

MR

Eu é que sou o Prelesidente! 

Estupefacto. Foi como me encontrei hoje, depois de assistir à entrevista do pRESIDENTE (com P pequeno) da Junta de Freguesia de Esmoriz, em plena Assembleia da República, sobre a votação aí decorrida e que acabou por inviabilizar a subida de Esmoriz a concelho.
Dizia o homem que “andam a brincar com o povo e que com [- justamente -] o povo ninguém brinca!” Vai daí desata a ameaçar com cortes de estrada, incêndios (talvez pneus?) e tumultos, caso as suas - do povo - reivindicações não forem satisfeitas.
E este incitamento ao crime foi feito em plena Assembleia da República! É caso para ficar, como diria o Eça, de boca aberta durante um longo dia de Verão…
Em nome da equipa do Desejo Casar, resta-me apenas esperar que tais acontecimentos não se sucedam em Esmoriz, e sugerir ao autarca que, verificando-se incêndios de magnitude nunca vista, aproveitasse também para queimar as meias.LCA

Vanitas, vanitatum. Omnia vanitas… 

O pré-candidato à presidência da república (pc-PR) dr. Santana Lopes, decidiu processar os seus antecessores na Câmara Municipal de Lisboa - o dr. Jorge Sampaio, actual presidente da república (PR), e o dr. João Soares - por alegadas ilegalidades durante os respectivos mandatos.
Com este gesto exemplar ficamos todos a saber duas coisas. Em primeiro lugar, ficam desfeitas quaisquer dúvidas que ainda restassem sobre a sua candidatura à presidência da républica. Em segundo lugar, fica assim desvendada a verdadeira influência do espelho na vida política do pc-PR.
Senão vejamos: processando o dr. Sampaio e o dr. Soares, o pc-PR está a construir uma imagem de um político honesto (não permite a desonestidade), sério (não tolera a corrupção) e firme (comigo ninguém faz farinha). Está, por outras palavras, a dizer com quantas tábuas se faz um candidato a presidente.
Ora, partindo deste princípio (que o pc-PR é um político de princípios - que, por exemplo, sempre terminou os mandatos para os quais foi eleito) é justo e lícito concluir que sobre as anteriores gestões da Câmara Municipal da Figueira da Foz não pairam as menores suspeitas, a mais pequena migalha, de corrupção. E é lícito e justo determinar que os chorudos ordenados de dezenas de milhares de contos que os jogadores do Sporting recebiam de ordenado mensal, eram todos, até ao último tostão, declarados ao fisco. Caso contrário, teriam concerteza rolado nos tribunais os respectivos processos, ou não tivesse o pc-PR sido, respectivamente, presidente do Sporting Clube de Portugal e da Câmara Municipal da Figueira da Foz.
Depois há o caso do espelho. O espelho que o pc-PR tem em cima do toucador do seu quarto, defronte do qual todas as noites se senta e pergunta:
- Espelho meu, espelho meu? Há em Portugal político mais honesto e sério do que eu?
O espelho, enfastiado, lá vai respondendo:
- Não, pá. Tu és o maior. Mas vê lá se me cortas esses penachos.LCA

Quantas visitas tiveste hoje? 

Ao assistir à luta – verdadeiramente rangeliana – de audiências entre alguns blogs, tive um delírio: e se também as pessoas usassem um contador? E se cada um de nós transportasse também um contador que contabilizasse as visitas de diversa ordem que nos fazem todos os dias? Pensando na perspectiva “pipiana” de visita, estou a imaginar o Zézé Camarinha a passear-se pelos bares algarvios transportando consigo um placard electrónico na testa programado para chegar aos vários zeros. Também se pode conceber um entendimento socialite de visita: ao entrar numa determinada festa, a Cinha Jardim podia ligar o aparelho para contar as pessoas com quem trocasse três palavras – o número médio de palavras trocado em cada conversa tida nessas festas, segundo um estudo rigoroso da socióloga dos bons costumes Paula Bobonne. Mas, ao ser tomado por este delírio, não me lembrei dessa gente. Lembrei-me antes de pessoas simples – por exemplo, do senhor Carvalho, o senhor da fotografia que deu nome a este blog; e de outros senhores Carvalho com quem nos cruzamos por aí. Homens que chegam ao fim do dia com o contador de visitas a zero. Quem sabe se um dispositivo desses não nos aproximaria uns dos outros? Pelo menos, teríamos resposta para estas perguntas: quantas pessoas, ao longo dos anos, se chegaram ao pé deles? Quantas visitas foram feitas aos seus corações? NCS

Finalmente... 

Graças à persistência de um amigo (coisa boa) e ao inexplicável das máquinas (coisa má), apenas hoje consegui aceder directamente ao DESEJO CASAR, do qual parece que fui mais ou menos fundador. Portanto, olá...
Repare-se que se eu dissesse "graças à persistência de uma amiga e ao inexplicável das máquinas", estaria certamente a falar de outra coisa.
Assim, posso gozar da minha saída precária, com a vantagem de, se fugir para o Brasil na véspera de entregar a tese, poder continuar a escrever aqui, sem reconhecimento de sentença que não o dos nossos leitores. Obrigado, Luís, e até Copacabana...

MR

Notas Sobre Berlim (2ª Parte) 

Por uma questão de coerência temática, e também para não abusar do meu espaço num blog tão concorrido, resolvi partir uma vez mais estes apontamentos. Deste modo, colocarei amanhã a terceira e última parte. Prometo.

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O Paraíso da Invenção.
Se, por um lado, se assiste a um enorme esforço de resgatar o passado e recuperar alguns dos edifícios matriciais da cultura alemã (como a ilha dos museus ou as margens do rio Spree) e um imaginário urbano definitivamente perdido e apenas exposto nos milhares de postais espalhados por livrarias e quiosques, a verdade é que a maior parte do investimento se destina à criação de uma nova metrópole. A ideia percebe-se: para quê insistir na recriação de um mundo perdido, quando existe a oportunidade de preencher as «brancas» com novos métodos e concepções? Para quê ressuscitar, quando se abre um enorme espaço à teorização e à possibilidade de inventar uma cidade a partir do zero? Assim, extensas áreas de Berlim funcionam como laboratório, onde os mais conceituados arquitectos do mundo (como Siza Vieira, Calatrava, Foster ou Frank Gehry), exercem a sua poética, experimentando novos modelos de urbanismo e de relação com o espaço. A zona das embaixadas (onde a cada país corresponde uma tentativa de apropriação semiótica pelo rosto dos edifícios); a Potsdamer Platz (reconstruída do caos); ou o Sony Center (abóboda gigante de inspiração sci-fi), são alguns exemplos da nova Berlim, uma cidade que não morreu, mas antes se exumou dos destroços com uma nova pele e uma nova imagem.


Proscrito.
Na zona leste da cidade sobra uma lembrança amarga dos tristes anos do comunismo: o palácio do governo da antiga RDA. O edifício, compacto e envidraçado, albergava diversos ministérios e possuía ainda um gabinete de entrevistas para os agentes da Stasi. Funcionava como um dos símbolos máximos do bolchevismo alemão, e foi um dos primeiros locais, após a destruição do muro, a ser veementemente cuspido e apedrejado. Porém, ao contrário de outras instâncias públicas da DDR, não foi nem derrubado, nem substituído por outras funções ? permanece à vista de todos: abandonado, enferrujado, pejado de inscrições e de insultos. Uma estrutura sinistra, com o seu tom alaranjado e a cair de podre. Actualmente, permanece sem destino e cercada por grades e tapumes, não parecendo haver qualquer enguiço em arremessar latas ou paralelos. Enquanto se decide o seu futuro, encheu-se de areia a área circundante e acolhem-se torneios mundiais de Beach Volley. Por estes dias, lá andavam os nossos Miguel Maia e João Brenha. Foram-se os sovietes, ficaram as atletas sem celulite.

Tudo se Vende, Nada se Transforma.
Um dos locais mais célebres de Berlim é o Checkpoint Charlie, um dos sete postos fronteiriços vigiados por tanques e artilharia. Situado num dos cruzamentos da Friedrich Strasse, marcava a linha entre o sector russo e o americano. Era usual, naquele tempo, os blindados alinharem-se de ambos os lados, com os soldados da torre a mirar qualquer deslize por parte do vizinho. Hoje em dia, conservaram-se uns sacos de areia e o posto onde eram analisados os passaportes. Ao lado, erigiu-se um museu temático sobre o muro (bastante completo e elucidativo), e a dois quarteirões encontra-se o que dele sobra ? uma faixa de 200 metros, bastante danificada e quase sem grafitti. Uma organização denominada «Topografia do Terror» encarrega-se da manutenção e exibe, na sua parte interior, um historial fotográfico desde os anos 30 até 1989. A faixa foi elevada a monumento nacional, pelo que são inaceitáveis os martelos ou os pés de cabra. Em frente, situam-se ainda mais duas jóias: a residência oficial de Goering e o antigo edifício da Gestapo. Mas o mais interessante é a diversidade de produtos que se podem adquirir nas tendas montadas junto ao Checkpoint. Como salientava o director do PÚBLICO há pouco tempo, a imagética nazi é bem menos cotada do que a comunista. Não sabemos se é por estar menos exposta e acessível, mas a verdade é que o relicário da União Soviética abraçou o mercado com fervor. Entregues aos turcos, que constituem a maior comunidade imigrante da capital (cerca de 250.000), os artigos despacham-se como na «Vandoma»: ele é capacetes, bivaques, chapéus de cossaco, fardas completas, binóculos, bússulas, insígnias e uma miríade de objectos que evocam o tempo das marchas militares em Moscovo. Foram-se os sovietes, ficou a marralhice.

terça-feira, julho 01, 2003

Um bocadinho de Filosofia 

O Luís Camilo Alves pediu-me, já lá vão uns dias, que lhe sugerisse os nomes de três bons livros de filosofia para um principiante. Disse-lhe logo que nem pensar nessas coisas do estilo: Schopenhauer Em 90 Minutos, Aprenda Hegel Sem Sair De Casa ou Construa Você Mesmo O Seu Apriori Kantiano. É claro que o Luís já suspeitava disso, mas teve graça dizê-lo na mesma.
Prometi-lhe um e-mail com as propostas, mas, já agora, abramos o círculo aos eventuais interessados e, em vez de três, aqui vão seis:

1. Stephen Hawking, Breve História Do Tempo, Gradiva - Sim, é um cientista e depois? Um livro absolutamente essencial para compreender as transformações do Pensamento ao longo dos séculos.
2. Alain de Botton, O Consolo Da Filosofia, D. Quixote - Um livro muito mais recente, mas também importante para uma aproximação à História da Filosofia, ainda que haja quem conteste, sobretudo entre os meios mais académicos, a validade da obra. Liga a Filosofia a um certo sentido prático das coisas e dá uma nova visão sobre algumas figuras, entre os quais Sócrates, Epicuro, Schopenhauer e Nietzsche.
3. Platão, Fédon, Minerva - Agora, a Filosofia pura e dura, indicando uma obra por cada época. O Fédon é, a par da República, o livro fundamental de Platão; como a República é muito grande para os principiantes, fixemo-nos no Fédon. As ideias, a imortalidade da alma, o papel do amor e a maioria dos grandes temas platónicos são aqui expostos, num dos raros diálogos, se bem me lembro, em que o próprio Platão é personagem.
4. S. Tomás d'Aquino, O Ente E A Essência, Piaget - Um pequeno texto, uma grande obra medieval. Lendo-o ficamos também a conhecer as Categorias, de Aristóteles. Um opúsculo da juventude de S. Tomás, mas uma belíssima porta para o pensamento medieval, particularmente no que diz respeito à relação do corpo com a alma.
5. René Descartes, Meditações Sobre A Filosofia Primeira - A época moderna nunca teria existido sem este livro. A explicação que precede a definção "penso, logo existo" só expressa no Discurso Do Método. Depois de lerem este e o Fédon, vão ver como a suposta genialidade de "Matrix" não passa dos efeitos especiais, já que a sua filosofia de pacote tem tanto de novo como os discursos do Carvalho da Silva.
6. Albert Camus, O Mito De Sísifo, Livros do Brasil - Para mostrar que nem só de Nietzsche se fez o existencialismo. A melhor metáfora do absurdo da vida.

Coragem, Luís. Pode ser o princípio de uma bela amizade...
AB

Chez lui encore 

Fraga recorda Othon, exímio desenhado rna arte de scrimshaw, e a passagem de Peter O´Toole pela Horta. Certa vez, O´Toole deslocou-se a casa de Othon, mais propriamente à cave escondida (acedia-se por um alçapão) onde o desenhador trabalhava o marfim e o osso de baleia. É aí que o actor descobre dois maravilhosos dentes de baleia, de cerca de 50 centímetros, nos quais Othon havia desenhado majestosas caravelas. Frenético, O´Toole diz: "Quero comprar estes dentes!" Othon opõe-se: "Os dentes não estão à venda." O´Toole insiste veementemente: "Que diabo, eu sou Peter O´Toole e quero comprar estes dentes!" Othon sorri e exclama: "Que diabo, eu sou Othon e não quero vender estes dentes!" E não vendeu.

HR
Horta, mesmo dia do ano

Chez lui 

Fraga recebe-nos em sua casa, para e um café e alguns digestivos com o famoso skipper Daniel Catz e Jacqueline, sua mulher, e dois casais amigos, também franceses. Daniel, que vive na Córsega, vendeu o yacht Marie Galante há alguns anos e comprou um pequeno barco de pesca, mas recorda maravilhado o trajecto marítimo de Marie Galante, anteriormente Lady Mary, se não estou em erro. Manda a superstição iatista não trocar os nomes aos barcos (se for com pessoas, pode ser sinal de alzheimer), embora Daniel não se tenha importado com isso. Certo é que Marie Galante, quando já não era propriedade de Daniel, afundou nos mares da Córsega. A sua mulher lembra Olivia Palito, ainda que envelhecida, e podia ter sido desenhada por Hugo Pratt.

HR
Horta, 1 de Julho de 2003

Mexia ou Mechia? 

Este é um post rancoroso. Desfeitas quaisquer dúvidas que surgissem (se bem que a minha prosa não é dada a dúvidas menos rasteiras que as da ortografia), passo ao que realmente interessa, que provavelmente não interessa senão a mim e logo veremos o que penso disto daqui a um par de horas.
É verdade que, há cerca de uma semana, sem suspeitar da minha existência bloguista ou até da minha existência em geral, o Pedro Mexia ironizou acerca da prisão do José Bové. Ora, eu, que até conheci alguns tipos em Toulouse que acompanharam as andanças anti-MacDonalds do Bové, que estraguei a possibilidade de ser um artista acéptico e fashion ao passar algum tempo na selva Lacandona, no México, no convívio com os guerilheiros zapatitas (que, aliás, bebem Coca Cola por ser mais barata que a água mineral!), eu insurgi-me. Nos últimos dois anos, tenho tentado, com a cobardia possível, mascarar o meu estilo «PREC pós-moderno». Tenho uma filha para alimentar e o preço das fraldas não compadece com citações de Vaneighem ou Debord. Aliás, as citações e o «name dropping» são ferramentas obsoletas, quando comparadas com o cartão Dominó do Pingo Doce. No entanto, estava ainda a molhar os pés, a experimentar as temperaturas da blogosfera, e caí no erro de soltar a franga revolucionária. É que eu até nem sou revolucionário... só acho é que há por aí muito gajo que era encostá-los a um muro caiado de branco e vai de rajada de metralhadora. De resto, até gosto de me assumir reformista. Aqui têm a explicação pelo súbito ataque de «esquerdalhite» da semana passada em que, vejam só!, até falei irresponsavelmente da Igreja Católica e de Sua Santidade o Papa. Aqui não quero fazer ironias. Já ataquei e gozei muitas vezes com a Igreja no passado. Deixei de o fazer em 1999, por uma questão de respeito pelos fiéis. Não estou a ironizar. Sou agnóstico e acredito mesmo que este é um assunto demasiado complexo e interessante para ser arrumado com uma par de piadas, mesmo que existam algumas de rir à gargalhada. Aí o Pedro acertou: eu é que me espalhei. Mas poderia argumentar, se o quisesse, em relação aos erros profundos da Igreja enquanto instituição na História e a todas as vezes em que se «espalhou a comprido», passo a expressão. Já o mesmo não poderia fazer o Pedro Mexia em relação à figura de José Bové (que não pertence ao universo temível dos resíduos soviéticos, que também me irritam) e cujas posições desconhece ou finge desconhecer, quando o compara a hooligans, assassinos, etc.

Posto isto, veio a resposta do Pedro Mexia ao meu post e que, basicamente, consistia numa justificação das «bocas» que publica no Dicionário do Diabo como simples «bocas» que não devem ser levadas a sério. Declarava Mexia: "Caro Tiago: em duas linhas e meia mandam-se bocas, fazem-se trocadilhos e brincadeiras, mais nada". Ficámos então informados que, no Dicionário do Diabo, a seriedade das prosas é proporcional ao tamanho das mesmas. Ou seja, se levarmos esta regra até às últimas consequências, um post it de Pedro Mexia é capaz de fazer rir um condenado à morte mesmo antes da injecção letal, enquanto que qualquer coisa que ultrapasse os dois mil caracteres deve lançar para uma reflexão profunda qualquer um dos membros dos Monthy Python! Caro Pedro: quando assinas o teu nome ao lado dessas «bocas» de duas linhas, Mexia continua a escrever-se com X ou já se pode escrever com CH?

Tiago Rodrigues

Invejo o "gestos para nada" 

É, nos últimos tempos, o espectáculo que me deixou mais invejoso. Com poucos recursos, os actores Dinarte Branco e Nicolau dos Mares criaram um espectáculo a partir de textos do genial Sanchis Sinisterra, que intitularam "gestos para nada".
É um dos mais surpreendentes trabalhos do recente teatro português e foi já considerado um dos melhores projectos apresentados sob a égide de Coimbra Capital Nacional da Cultura. Agora está no Teatro do Bairro Alto (espaço da Cornucópia), de terça a sábado, às 22h, até ao próximo dia 6.

"Gestos para nada" é um objecto que aposta na simplicidade, na honestidade e num humor que, pelo meio das gargalhadas, nos remete para a inevitável solidão do actor. Invejo estes dois marmanjos e a equipa que os acompanhou na criação deste espectáculo. Gostava de ter sido eu a fazê-lo. Não fui. Resta-me invejá-lo e procurar alívio na certeza de que quem vá ver esta peça, invejá-los-á também.

Quem quiser saber mais, pode visitar o site do espectáculo:
www.gestosparanada.no.sapo.pt


Tiago Rodrigues

O Grande Jon Stewart 

O sarcástico e genial Jon Stewart há minutos, na Sic-Radical:

"Detesto ver o meu país a destruir o Eixo do Mal... Detesto que os EUA sejam a Yoko Ono da política internacional".

Bem-vindo, Ricardo! 

Como vem sendo costume, gosto de dar as boas-vindas a cada contratação do DC. Desta vez, tratada no segredo dos deuses, foi a vez de negociar o Ricardo Sampaio, jornalista, que começou logo por inaugurar uma categoria que era virgem no nosso blog: a do sado-masoquismo. Desculpem... a da literatura de viagens, como podem ver algumas linhas abaixo.
O Ricardo vem aumentar o contingente do norte e, seguramente, a qualidade do nosso blog. Quanto à quantidade, e apesar de alguns comentários, ainda não somos a maior equipa da blogosfera - esse papel cabe ao PAíS RELATIVO.

Contamos, dentro de uma semana, fechar o plantel e atingir esse desiderato.

LFB

O raio do violinista 

Diz-se por aí que a rapaziada de Nottingham está gasta e repetitiva. Mas não me canso de ouvir “Until the Morning Comes”, do último álbum dos Tindersticks, música escrita e cantada pelo violinista, Hinchliffe. Raio do gajo. NCS

Eterno Retorno, ou uma noite bem passada! 

Para quem não saiba, a Eterno Retorno, no Bairro Alto, a dois passos da Ler Devagar, é nos mesmo moldes: café, livraria, tertúlia, um espaço mais pequeno e acolhedor, revestido a estantes e livros, mesas e cadeiras em vime e a aparatosa diferença de um piano a proporcionar momentos musicais como o de ontem e a atrair mirones de rua que enchem a casa num piscar de olho.
O pianista, Luiz Duarte de Almeida, que entrará em breve para o DC, engrossando, assim, o mais numeroso blog da blogosfera, e o soprano- Filipa Passos, brindaram-nos com um belíssimo e variado repertório: Schubert, Manuel de Falla, Villa-Lobos, Gershwin (o que mais gostei).
Pessoal do DC: que tal repetir uma tertúlia poético-musical em minha casa? Temos pianista, temos poeta e diseur, é mais saudável do que andarmos a falar uns prós outros, via blog, além de estarem au point as expectativas que devem anteceder o nosso meeting together.

CMC

Xtr’ordinária, esta minha rua! 

Chego a casa pro-tarde e lá estão as minhas vizinhas da noite: dois travestis, metade cabeleireiras- uma loura, outra morena, metade pernas em botas de tacão e cano alto e eu só a conseguir decifrar que é brasileiro aquele espalhafatoso vozeirar.
Lá vou seguríssima descendo a rua e mais uns passos, contorno dois pequenos caniches brancos a puxarem um dono em calções-de-banho pretos, t-shit, havanezas, uma beata na boca. Passo por ele e espreito os bichos.
- São engraçados, não são? Pergunta-me.
-São, mas um está com sangue- digo, apontando para uma mancha encarnada no novelo branco.
-Não, não- apressa-se ele- é que eu sou pintor e mostra-me as mãos pretas de tinta. E eles são criativos!

CMC

Notas sobre Berlim (1ª Parte) 

No Coração da História.

Berlim é talvez a cidade mais importante do século XX. Peneirada a história, podemos centrar-nos em três grandes momentos: Primeira e Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria. Epicentro comum: Berlim. Dos Kaisers a Hitler, do muro à reunificação, tudo se passou por ali. Até mais recentemente, antes do 11 de Setembro, alguns dos terroristas terão comido wurst num dos restaurantes da Kurfurstendamm Strasse. É esse weltgeist fortíssimo, distante das sombras épicas de Roma, Viena ou Budapeste, que se apresenta aos olhos do visitante logo nos primeiros dias. Uma coisa é contemplar ruínas com dois mil anos ou imaginar a opulência da época dos Habsburgos, outra bem diferente é percorrer entulho com pouco mais de quinze e confrontar fotografias dos anos 30 com os mesmos locais onde agora estamos. As chacinas do Coliseu, o cerco dos turcos a Viena ou a grande Batalha de Mohács são francamente tímidas, do ponto de vista da evocação histórica, se comparadas com um olhar do topo do Reichstag, onde do interior da cúpula de vidro, desenhada pelo arquitecto Sir Norman Foster, se pode observar uma planície, anteriormente ocupada por comércio e edifícios públicos, onde pereceram mais de cem mil vidas, traçadas por balas e esmagadas por bombas, naquela que foi a batalha final da Segunda Guerra; uma das mais sangrentas e desesperadas. Estar num local destes, sessenta anos depois, é estar ainda perto dos acontecimentos, é sentir o passado a revolver-se em obras, ajustes, acabamentos; progressivamente eliminado mas não esquecido.
Um homem dos seus setenta anos permanecia sozinho, rodeado por grupos de estudantes e de turistas, com o olhar fixo na planície. Talvez imaginasse estrondos, milhares de aviões a cobrir o céu, homens a resistir com granadas e baionetas, anti-aéreas e a bandeira soviética hasteada sobre as palavras Dem Deutschen Volke. Talvez imaginasse tudo isso ou outra coisa, mas a verdade é que a dada altura chorou.

Reminiscência e Futuro.
No final da Segunda Guerra, setenta por cento da cidade estava reduzida a escombros. Dividida primeiro em quatro sectores pelas forças aliadas, a capital seria atravessada, a partir de 13 de Agosto de 1961, pela primeira geração de um muro que iria simbolizar o corte de relações entre o mundo ocidental e o bloco soviético. Mais de 150 quilómetros de infâmia a cindir amantes, vizinhos e familiares. Em conseqüência dos 28 anos de mauer, a cidade apresenta-se, ainda hoje, com um perfil urbano duplo e diferentes velocidades de transformação. A ocidente, porventura a zona mais castigada durante a guerra, as construções são na sua maioria recentes e o aspecto geral é o de uma cidade acabada, próspera, onde os habitantes circulam aos milhares pelas magníficas avenidas do centro. A leste, sem dúvida a área mais interessante do ponto de vista dos monumentos e da arquitectura anterior à guerra (não eram nada parvos os russos), concentram-se também as cicatrizes mais visíveis da hecatombe dos anos 40. Com efeito, saindo da zona da catedral e do Unter den Linden (debaixo das tílias), depararmo-nos com extensos baldios e enormes áreas de construção. Penetrando nos bairros mais afastados, são às dezenas os edifícios crivados de balas e em estado de demolição iminente. Casas abandonadas, complexos vazios e desfigurados, ruas cinzentas com redes de um lado e guindastes do outro. É neste contraste excessivo, de uma cidade que busca a harmonia entre dois tempos e dois sinais, que reside o grande fascínio da capital alemã.

Caos Controlado.
Berlim converteu-se na maior zona de construção mundial deste início de milénio. Por todo o lado, multiplicam-se obras e intervenções; projectos, remendos, restauros; novos traçados e vias públicas; e desfilam a monte bulldozers, retro-escavadoras, camiões de carga, geradores e caterpillars. Um batalhão de operários invade as ruas à hora do almoço e vai depenicando os seus shoarmas, falafels e cachorros quentes. Às vezes esquecem-se de tirar o capacete e assiste-se a uma multidão de tropas amareladas ou azuis. Como cidadão do Porto, habituei-me rapidamente à situação, considerando, mesmo assim, que a diferença de proporção entre os dois estaleiros não ilude uma clara vantagem para os alemães: as zonas de obras estão identificadas e delimitadas e nas ruas não-há-crateras-nem-passeios-esburacados-nem-pedaços-de-trilhos-nem-camadas-de-alcatrão-nem-placas-reviradas-e-as-pessoas-são-mais-felizes.

Ricardo Sampaio

segunda-feira, junho 30, 2003

Mais Um Solteiro Empedernido 

Olá a todos!
Finalmente estou em condições de responder ao repto que me foi lançado pelo Nuno Costa Santos para escrever neste espaço de solteiros ansiosos. Não irei proceder a grandes apresentações, uma vez que a designação «jornalista, boémio, sabe Deus...», com que me brindaram por altura do lançamento do blog, parece-me já bastante adequada.
Aproveito apenas para saudar o meu querido amigo Bernardo, companheiro de copos e ruminações noctívagas; agradecer uma vez mais ao Nuno, esse estimado traidor dos propósitos maritais deste espaço; e endereçar um abraço aos restantes colaboradores do blog, fazendo votos de que prossigam a sua estimulante actividade.

Para inaugurar os meus préstimos no DC, que serão provavelmente irregulares e intermitentes, decidi «colar» alguns textos que escrevi recententemente a propósito de uma curta estada em Berlim (saí em boa hora antes que chegasse a comitiva). Como se tratam de apontamentos um pouco longos, resolvi dividi-los em duas partes, cuja segunda metade irei «publicar» amanhã. Ainda assim, parecem-me posts bastante mais compridos dos que habitualmente aqui são estampados, mas não creio que fizesse grande sentido espalhá-los ao longo dos dias. Vai assim um concentrado de impressões e notas de viagem, com a garantia de que não farei hábito deste tipo de postagens.

Um grande abraço e força!

Ricardo Sampaio

Quando não tem nada para dizer, cite 

"Harry - Nunca te cases de todo, Dorian. Os homens casam-se por cansaço e as mulheres por curiosidade. Ambos se desiludem.
"Dorian - Não me parece que venha a casar, Harry. Estou demasiado apaixonado."
Oscar Wilde, O Retrato De Dorian Gray

Motivados pelas referências elogiosas da Newsweek, Caras e Boletim Informativo do Grupo Folclórico de Ronfe, regressamos à rubrica "Quando não tem nada para dizer, cite", agora patrocinada por Edson Athayde e respectivo Tio Olavo.
AB

Eu, cristão, católico, mas não praticante, me confesso 

No boletim paroquial Ekklesia, n.º 245, de 28 de Junho de 2003, pode ler-se, na página 3: «Como encontrar Cristo? A igreja dá-me a chave do segredo: (...). É claro que tudo isto é o encontro na Igreja Católica. As outras confissões dão-me belos exemplos de virtude, e não mais. Um bom protestante ou ortódoxo [sic] é mais digno de estima do que um mau católico. Nas outras profissões, Jesus também fala, mas não com a mesma garantia de autenticidade da sua palavra. Está entregue à incerteza da inspiração pessoal. É difícil ver nelas a Igreja tal como Jesus a fundou.» Reparem: «garantia de autenticidade». O boletim é dirigido pelo Padre José de Freitas Fortuna, homem que certamente encontraria vocação para ser vendedor ou até publicitário. Garantia de autencidade? Pois, garantia de autenticidade, com o devido selo de garantia e certificado de controlo de qualidade. E promessa de devolução do dinheiro caso o cliente não fique agradado com o produto. E não é que hoje tudo se vende?

O Arrufo 

O Primeiro Ministro, durante um jantar de balanço governamental, anunciou divertido que a oposição não estimulava este governo. Disse, e cito, “temos de ser nós a estimular-mo-nos”. Repito, “temos de ser nós – o governo – a estimular-mo-nos”. Querem que repita? Querem que repita? Querem que repita?
O governo tem de se estimular. Es. Ti. Mu. Lar. Tem, portanto - e tudo me leva a crer - pouco estímulo. Daqui se infere que a oposição padece, por assim dizer, de dores de cabeça. Ou, simplesmente, não está para aí virada. É natural. A oposição está cansada, quer jantar cedo, pegar num livro e meter-se na cama.
Por seu lado, o governo quer forró, cafuné e tudo a que tem direito. O governo, com a sua juventude, tem as hormonas ao rubro. Quer um jantar dengoso, à luz das velas, pegar na oposição ao colo e enfiá-la na cama. O que ele quer é aqui-vai-disto, para que não lhe falte aquilo. O conflito latente entre os dois é que o governo, chegando a casa, não se governa. E a oposição, querendo o governo governar-se, opõe-se.
O governo, no fundo, é um grande malandro. É um marujo acabadinho de chegar do mar da Noruega, onde andou na faina do bacalhau durante três meses. A oposição, não colaborando, é uma desmancha-prazeres. A devida ilação que daqui se retira só pode ser uma: esta oposição não dá pica ao governo.
O governo, que passa o dia em inaugurações, chega a casa e não inaugura nada. Obviamente, isto não augura nada de bom. É mau presságio. Má onda.
O país anda com mau ambiente em casa. O governo (a ver se pega) apalpa a oposição mesmo no meio da assembleia. Vai daí, ela estende o lábio inferior e amua. Vai para a cozinha fazer beicinho. O governo, meio abananado, retira-se para o salão. Pega no comando - que está mesmo à mão - e liga a televisão. Vê a contra-informação, naquela situação...
A bem do país, deviam fazer as pazes. O governo, tendo o dever da iniciativa, devia levar a oposição a jantar fora. À bica-do-sapato, para que não restassem pedras no sapato. E, a meio do bacalhau-à-brás, sacava de um grande ramo de flores. Mandava-lhe um piropo: “És linda!” E piscava-lhe o olho. Levantava-se quando ela fosse à casa de banho e, como ela de novo voltasse, levantava-se outra vez. No fim, com a devida autorização da ministra, pagava a conta. Ajudava-a a colocar o casaco aos ombros e abria-lhe a porta do restaurante. No carro, a caminho de casa, punha um CD da Luz Casal e, gentilmente, a mão sobre o joelho. Já em casa, acendia uma vela e queimava incenso. Quando ela desligasse a luz, acariciava-lhe a face e espetava-lhe uma mordiscadela no lóbulo da orelha. Segredava-lhe, com determinação, enquanto enroscava a perna: "Vamos fazer amor?”.
Eu, se fosse a oposição, dizia logo: “Não! Amanhã tens de trabalhar.” E virava-me para o outro lado.LCA

PENSAMENTO DO DIA 

Sem razão aparente, lembrei-me desta frase tirada a uma personagem de JUBIABÁ, Jorge Amado:

"Quando merda der dinheiro, cu de pobre aperta!"

Abençoados 7 anos de teatro universitário! 

Pois andava eu, nem há meia hora atrás, tranquilamente a fumar um cigarro à beira-tejo, dando uma de romântico decadente, quando ouço nas minhas costas:
"Epá, ganda casaco, man!", "O relógio até brilha co'a lua!", "tens trocos?"

Ainda ando a interrogar o meu instinto sobre a reacção que tive. Ora bem: respirei fundo, saquei cá de dentro o melhor sorriso pepsodent da minha vida, alcancei o maço de tabaco que acabara de comprar e, enfim, voltei-me.
Engoli em seco mantendo a tacha arreganhada. Eram à vontade uns 20 candidatos a condenados, bem fardados de meliantes. Brancos e pretos, adolescentes e adultos, ténis da moda, bonés americanos, insolência natural dos grupos. Sem hesitar sai-me com esta:
"Pessoal, não tenho trocos mas ainda bem que apareceram. Estou a caminhar rapidamente para um cancro e preciso da vossa ajuda" - e acenei-lhes o Marlboro.
Um segundo de silêncio e a exclamação: "CIGARRINHOS!"

A fila formou-se perante o meu sorriso confiante, afável e largo, inversamente proporcional ao estado dos meus genitais.
Oferecidos 18 cigarros, os últimos dois jovens interrogam-me: "Meu, mas a gente não fuma..."
Tranquilo, enquanto constatava o desaparecimento total dos meus testículos, exclamei alto e bom som:
"Foda-se! Só faltava esta: gajos saudáveis! A única coisa pior que encontrar gajos saudáveis é ser assaltado por 20 tipos enquanto se fuma um cigarro..."

Nova pausa. Gargalhada. Ressurreição da genitália.

Despedem-se com gritos de "És um gajo fixe!".
Um deles usava uma t-shirt com a inscrição "Jesus saves". Passarei a usar uma com esta frase:

"A joke saves"

LFB

ps: e depois venham-me falar dos malefícios do tabaco!

domingo, junho 29, 2003

Precário registo das palavras 

Numa noite de Verão, em Cabo Verde, enchi-me de coragem - e de cerveja - e li em público, numa esplanada junto ao mar, “Naturalidade”, aquele poema em que Rui Knopfli afirma ser africano, apesar de todas as catalogações: “(...) Chamais-me europeu? Pronto, calo-me./ Mas dentro de mim há savanas de aridez/ e planuras sem fim/ com longos rios langues e sinuosos (...)”. É verdade: quando acabei a leitura também eu me senti um pouco africano. Este fim-de-semana, enquanto arrumava a estante, encontrei dois livros “perdidos” deste filho de Moçambique, nascido em 1932, em Inhambane – “O Escriba Acocorado” e “O Monhé das Cobras”. Na sexta à noite tinha sabido, pela voz de Luís Carlos Patraquim (numa edição especial do "Acontece"), da saída de uma obra que reúne a poesia toda do autor de “O País dos Outros”. Excelente notícia. Excelente reencontro. O cortante Knopfli merece tudo - ele que sabia que ia sobreviver apenas “no precário registo das palavras”. NCS

A gente de Cosmopolis 

Estranho, cada vez mais, as pessoas.
Ontem, estive na noite grande do Cosmopolis deste ano, abrindo uma excepção no meu lento processo de fuga aos grandes ajuntamentos de seres, sobretudo, os jovens (sim, esses mesmos que têm, mais ou menos, a minha idade). Os Rinôcerôse foram grandes, os Eternals e os Spaceboys estiveram muito bem; os Jazzanova tocavam demasiado tarde para a minha resistência física.
Mas, à parte a música, debrucei-me sobre as pessoas. Aquelas. A amostra possível que lá estava, disponível para o meu laboratório. Uns encostados à parede; outros sentados, sozinhos, nas escadas, a noite inteira; alguns com a mesma cerveja na mão, do princípio ao fim, olhando os contentores que impediam a vista para o rio. E os piores: aqueles que pagaram 18 euros para dormir nos puffs da suposta sala "lounge"; os que, em tronco nu, saltavam e rodopiavam ao longo da série de concertos, abrindo círculos desertos em sua volta, com um sorriso arrogante no rosto incapaz de esconder a sua enorme solidão; e os outros ainda que se tentavam abraçar a todas as pessoas do sexo oposto, sempre desconhecidas, sempre desagradadas, sempre impossíveis.
E todas as noites são assim, dá-me ideia. Há milhões de pessoas que não têm um verdadeiro desejo na vida. Que pairam de lugar em lugar como se fossem incorpóreos, perpassados pela realidade como se não passassem de fantasmas. Já não se trata de possuir alguma coisa ou alguém: trata-se de não ter sequer nada e ninguém capazes de os fazer sentir a sede de desejar.
O senhor Carvalho tem, sobre isso, muito a ensinar a toda esta gente. E, talvez, se chegássemos a acordo para que lhes desse umas explicações devidamente remuneradas, ele não precisasse mais de vender os seus livros para sobreviver.
Sozinho, o senhor Carvalho sabe, perfeitamente, o que quer e para onde vai; caminhando e dançando em multidões, este género galopante de pessoas só espera que ninguém lhes repita a pergunta feita quando eram crianças: "O que queres ser quando fores grande?" Porque não saberiam já a resposta e, tentando copiar pelo colega do lado, mais não descobririam que uma imensa folha de prova em branco.
AB

Faial-Pico-Faial-Grozny (III) 

A repórter francesa que assina a reportagem designa o dia-a-dia na Chechénia de "roleta russa". O caminho faz-se caminhando e a morte, aqui, faz-se morrendo, aos poucos, em proporção inversa à descida da temperatura.
Simultaneamente, aumenta a taxa de natalidade nesta república que deseja a independência. Às mulheres levam-lhes os homens, os homens com que casaram, os homens de que são mães ou avós. Mas elas voltam a dar à luz, querem compensar os óbitos com os nascimentos. É a lei da compensação entre a fina linha que separa a sanidade da demência.

Faial-Pico-Faial-Grozny (II) 

Regressado à Horta, recordo as candidatas a Miss Universo, quando dizem, a sorrir, que o que mais querem é a paz no mundo. E recordo "Toda a Verdade" (Sic Notícias). Uma habitante chechena, que reside em Grozny, se é que Grozny ainda existe, afirma, após um princípio de ataque cardíaco, que tem medo de morrer porque a família não pode pagar o funeral. Tem 40 anos. O filho, de 14, foi levado por militares russos enquanto brincava no parque. Acompanham-na na ambulância em direcção ao hospital alguns familiares, incluindo a sua avó de 102 anos. "Não ocupo muito espaço na ambulância", diz. "Nem a vou deixar".

Faial-Pico-Faial-Grozny (I) 

Nunca cumpri a regra de não falar à mesa, às refeições. Até hoje. Atravessamos o canal Faial-Pico às 10:00 e chegamos à Madalena meia hora depois. No cais, lamento não ter trazido casaco. Seguimos então ao longo da costa, até Cachorro, por entre as adegas e os salgueiros. Ao meio-dia regressamos à Madalena e entramos no restaurante "O Luís", nome que inspira confiança. Temos duas horas para almoçar: o bilhete de regresso à Horta já foi comprado (cerca de €5). E em duas horas quase silenciosas comporto-me como um abade: queijo do Pico e broa de milho; lapas regadas com limão e massa de malagueta; João Pires branco de 2001, muito frutado; cinco cavacos (para três); João Pires branco de 2001, muito frutado; café, para não perder o sabor a mar.

Referendo 

Começo a ficar desiludido com esta coisa da blogosfera. Pedi aos meus companheir@s de Desejo Casar para votarem num referendo de úma única pergunta (devo ou não polemizar com o diabólico Mexia) e, à excepção do Alexandre Borges, ninguém respondeu.

Espero mais um par de dias (até porque tenho que ler um par de clássicos em edição de bolso da Europa América antes de enfrentar o meu adversário!).
Mandem respostas.

Mas cuidado! Se demoram muito, o Mexia dedica-se em exclusivo ao MEC e eu ainda acabo a polemizar com a Gisela do Masterplan...

Tiago Rodrigues

AQUI JAZ II 

Calma Luís, não te precipites! Também tens a inscrição que Groucho Marx mandou gravar na sua lápide: "DESCULPE SE EU NÃO ME LEVANTAR".LCA

AQUI JAZ 

descobri recentemente o que mandarei gravar na minha lápide. Uma frase roubada indecentemente a Dustin Hoffman, que contou numa entrevista o seu desejo: no túmulo, nome, datas de nascimento e morte e a inscrição,

"I knew that this would happen"...

LFB

Eu, racista, me confesso 

O último vídeo de Beyonce Knowles (Destiny's Child) tirou-me todas as dúvidas existenciais quanto a isto: entre uma mulher branca belíssima e uma belíssima mulher preta, escolho a preta. Sem hesitar.

LFB

A Crassidão do Erro 

Em um post anterior comentei, exercitando ao de leve o umbigo, algo que já nem lembro sobre um suplemento NhaNha.
Foi um momento bonito da minha vida, entre um jantar de cabidela e a festa do S. João. O pior é que a páginas tantas da irrelevância que discutia com enfado (esperando a chegada das companhias para a festa) cometi um Gravíssimo Erro que é melhor reparar.

Em busca mental de exemplos da necessidade de Instrumentos de Redenção (meu proximo e já prometido post) em algumas mentes criativas cometi o Absurdo Erro de citar entre o Xadrês de Duchamp e as amantes de Picasso o suicídio de Paul Celan no Sena.
O vinho do restaurante Buraco comprovadamente não está estragado, funciona.

Paul Celan,nascido Paul Antschel na Roménia em 1920,estudou medicina em Paris, esteve em campos de concentração nazis onde morreram os pais. Entre vários empregos traduziu, por exemplo, Pessoa. Teve um filho que morreu na infância, Eric. igualmente a morte em Paris da mulher, Gisele de Lestrange, anos depois contribuiu para o trágico desenlace de Celan. O mais pugnante poema, sobre a morte da mãe num campo nazi. Uma provável aproximação. O Indizível. Bra

Death Fugue
Black milk of daybreak we drink it at nightfall
we drink it at noon in the morning we drink it at night
we drink it and drink it
we are digging a grave in the sky it is ample to lie there
A man in the house he plays with the serpents he writes
he writes when the night falls to Germany your golden
hair Margarete
he writes it and walks from the house the stars glitter he
whistles his dogs up
he whistles his Jews out and orders a grave to be dug in
the earth
he commands us strike up for the dance
(...)

Paul Celan

A MINHA ÚLTIMA EMPADA DE GALINHA 

Noite passada, na padaria da João XXI. Peço uma empada de galinha. Enquanto a como, pensando no sentido da vida expresso por Caras Lindas em "Sandálias de Prata", trinco uma coisa dura. Um osso, pensei. Tudo bem, peguei nele e atirei-o ao chão. Só quando vi um tom branco reluzente ao luar é que me preocupei. O que era o "osso"? Acreditem ou não, era uma seta de plástico com um nome SOMAGRE, que suponho ser de empresa, e uma sugestiva inscrição:

"Coma vegetais".

LFB

O MEU É MAIS PEQUENO QUE O TEU! 

Discussão entre betos, numa mesa do Movies, sobre os seus telemóveis. Não há dúvida - já alguém o disse, os telemóveis são a única coisa que os homens discutem para saber quem tem o mais pequeno.

LFB

O VERDADEIRO COMUNISMO 

Chego a casa de madrugada. Um carro estaciona perto com ruído. O chulo vem recolher duas meninas. Contam dinheiro. Retira a sua parte e distribui pelas louras. A mais nova diz: "Deste-lhe o mesmo que a mim mas eu trabalhei muito mais!" -- sem mudar a expressão ele responde: "Hoje foi assim porque és nova. Amanhã pode não ser".

LFB

PARA O JOSÉ MÁRIO SILVA 

Sobre o texto do José Mário Silva, ontem no DNa -- apenas uma palavra: classe.

LFB

O SENHOR CARVALHO 

E está esclarecido o mistério. O Luís Maria, autor do nome do nosso blog, explicou alguns pontos mais enigmáticos do nosso manifesto editorial (aqui recordado) com o seu magnífico texto sobre a foto do senhor Carvalho. A equipa respeitou a homenagem não publicando mais no sábado que passou mesmo agora. Obrigado, Luís. Obrigado, sr. Carvalho.

Cito LCA: "devemos isso ao nosso amor: procurá-lo."

LFB

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