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sexta-feira, fevereiro 20, 2004

E um polícia de família, para evitar problemas de estacionamento? 

Fico a saber no Público de hoje que José Miguel Júdice defende a criação da figura do “advogado de família”. Tremo. Só há coisa de meses é que tenho médico de família (médica, aliás), que só vi uma vez e de quem nem sei o nome. Como me vou actualizar, já, a esta nova modalidade? Será mesmo necessário? Obrigatório, talvez? A declaração em destaque não poderia ser mais elucidativa: “Toda e qualquer pessoa deve ter um advogado. Se vamos ao médico para evitar ficar doentes, por que não havemos de passar a ir ao advogado para evitar problemas com a justiça?”
É lindo. Comovente, esta preocupação do bastonário com o nosso bem-estar. Por que não um técnico informático para cada português? Para evitar chatices com os computadores? E uma conselheira estética? Para dias importantes, idas aos saldos, cortes de cabelo e afins? E um cozinheiro pessoal? Um corrector da bolsa? Um mecânico?
Lá chegaremos. O advogado é só o primeiro passo. Porque é tão provável ter-se problemas de justiça como de saúde. Nunca se sabe: uma rixa com o vizinho e podemos matá-lo – quem é que nos defende? Um abusozinho ou outro da sobrinha da nossa prima, IRS de sete anos por pagar, uma casa construída em área protegida, posse ilegal de arma, divórcios litigiosos em série… sabe-se lá!
E, depois, sempre damos emprego aos milhares de jovens advogados que saem todos os anos dos mais de vinte estabelecimentos de ensino superior nacionais que, entre públicos e privados, oferecem a licenciatura em Direito.
E os portugueses até estão em bom momento financeiro para trocar o que gastam em despesas inúteis, tipo renda de casa, pelos irrisórios honorários auferidos por um advogado.
AB

Dúvida pertinente. 

Está em cartaz um filme com a melhor actriz do mundo, Cate Blanchett, da autoria do pior realizador vivo, Ron Howard. O que é que eu faço? Vou? Não vou? Dou os 5 euros? Não dou? Aceitam-se respostas para o mail deste blog. (Acho, de qualquer modo, melhor ideia ir ver o “Scary Movie 3”. Aí, ao menos, assume-se à partida que o filme mete medo. É bonito. E honesto.)
AB

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Pedro e a TVI 

Desde que o tablóide rompeu as suas fronteiras originais e se espalha alarvemente pelos jornais ditos de referência e pelas televisões, privadas e públicas, a um ritmo vertiginoso de temas espectaculares, sangue na parede, funerais filmados e dissecados e respectivas vítimas expostas num circo interminável para gáudio do freguês; desde que as mortes e a miséria se tornaram um bem de consumo fungível e os escândalos e os crimes objectos obsessivos renovados diariamente; desde que o banal ascendeu à categoria de acontecimento e o horror à mera condição de facto, e a maioria dos leitores e espectadores se divide entre o devorador e o indiferente, o alienado e o demitido, há um novo degrau para os segundos que surge logo após a rejeição. Perante um caso real de miséria, relatado «fotograficamente» com um mínimo de recursos emotivos ou estilísticos, vem a descrença: é um exagero, explorado de propósito para vender, para criar impacto, para assustar toda a gente. Onde pára o happy ending?, perguntam pessoas com o 12º ano completo. Onde está o lado positivo, o reverso dessa patranha sanguinolenta? De certeza que ele existe, de certeza que não é tudo mau. E às vezes é tudo mau e está ao lado das nossas casas, das nossas vidas. Sem happy endings. Mas quem é que acredita?
RIS

Sinalética - e isto não é um post sobre pedofilia 

Numa rua, nos arredores de Lisboa, vê-se uma placa ferrugenta e quase a cair que ostenta os seguintes dizeres: "Perigo - Escola - Poupe a Vida das Crianças". Acho que é suposto ser um sinal de trânsito e tem um ar setentão, oficial. Mas... "poupe a vida das crianças"?... Parece-me óbvio que os condutores portugueses são substancialmente mais perigosos que os militares angolanos e a sua compulsão por minas, mas mesmo assim... Será que existe alguma velha portaria que mande assinalar uma escola com a ideia de "poupe a vida das crianças"? Será que é um velho sinal revolucionário, avisando que as criancinhas não deverão frequentar o ensino oficial fascista? Será que era já a antecipação das casas pias e esta sim a verdadeira declaração para memória futura?
Quando vou a conduzir, lamento, mas a última coisa em que penso é em poupar a vida de qualquer criança. Se calhar, faço mal. Devia querer profundamente poupar-lhes a vida. Mas não quero. Penso em tudo menos em criancinhas. Juro. Não consigo conduzir ao mesmo tempo que jogo paint ball com criancinhas contra o pára-choques. Penso no trabalho, feito e não feito, nas pessoas que conheço, no que dizem na rádio. Penso, como se diz, na vida. Mas não penso na vida das crianças. Penso na minha, que me dá imenso trabalho a gastar. Devia ser mais generoso e pensar também na das crianças. Mas as crianças têm imensa vida pela frente, se eu pudesse poupava era a vida dos que vão morrer amanhã.
De qualquer forma, gostava de ter aquele sinal em casa. Acho bonito. Representa um Estado terno e preocupado, um pai que esquece o artigo x do código da estrada e se exalta pela defesa dos mais fracos: "Poupe a vida das crianças, senão rebento-lhe o focinho!". As convicções são sempre mais bonitas quando são inocentes. MR

As últimas palavras de todos os dias. 

Tive a felicidade de, no último Natal, receber por presente uma das edições em cd de poemas de Ruy Belo declamados por Luís Miguel Cintra, da Assírio & Alvim. Assim descobri um prazer nocturno alternativo. Alternativo à televisão do costume, à rádio de sempre, aos discos que nem sempre parecem cobrir todas as disposições. O prazer de passar os últimos minutos do dia, aqueles em que se arruma a roupa, se guardam umas coisas nas estantes e outras nos baldes do lixo, em que se pensa a agenda e prepara o dia seguinte, ouvindo poesia. A voz quente de Cintra, da qual, confesso, estava já muito cansado, voltou a encantar-me e a trazer conforto. E a poesia de Ruy Belo, um dos maiores autores portugueses do género e, portanto, um dos mais injustiçados pela memória colectiva, a entrada perfeita para uma noite de sonhos calmos e criativos, entre figurações de Madrid e arquitecturas de paisagens verbais, a orla marítima e os segredos de Marilyn.
AB

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

Diáspora 

Descobri este blog, Rua da Judiaria, honra feita a uma bonita rua no centro histórico de Almada com um excelente restaurante, o Celeiro da Judiaria.
Divulga poesia, música, religião, história e actualidade da cultura judaica, aproveitando para desfazer ideias feitas que estão na base do anti-semitismo. Como sejam a insistência em acusar os judeus da morte de Cristo quando essa posição já foi revista pelo Concílio Vaticano II e na designação de “povo eleito” de Deus quando este apenas reclama ser o povo instruído e, enquanto tal, com o dever de guardar e transportar a mensagem (instrução).
A Rua da Judiaria dá-nos os argumentos para destruir o mito da superioridade dos judeus relativamente aos não-judeus e bem, porque a essa superioridade corresponderiam complexos e invejas injustificados.
Ser judeu, como acaso que é, não deve ser motivo de orgulho. Nasce-se numa família judia como se nasce católico ou muçulmano e, em princípio, não se escolhe ser judeu. E este, como qualquer outro povo, tem de tudo, basta pôr os olhos em Israel: criminosos, sem-abrigos, pobres, inaptos, preguiçosos, não inteligentes.
Sinto igualmente como perigosos os argumentos que tentam provar um poder invisível dos judeus no mundo, a mandarem nos E.U.A, nas finanças, em Hollywood. Política, arte, ciência. Não existe tal. Estamos apenas perante uma minoria que tem os holofotes apontados à cabeça. Quando quem tem o poder é não-judeu ninguém repara, agora quando é judeu o mundo vai reparar.
Não sou judia. E apenas me interessei por esta questão porque tenho uma amiga que chamo de avó que, por acaso, nasceu judia, numa aldeia pequena da Transilvânia, poucos anos antes da Guerra. Nessas aldeias, as pessoas pouco sabiam dos preceitos religiosos, repetiam gestos, rezas, tradições que passavam de pai para filho e mal sabiam o significado do que salmodiavam. Com 19 anos ela foi deportada e esteve num campo onde, como ela diz, poucas horas chegavam para o resto da vida. Foi libertada pelos americanos quando já estava numa fábrica de V2. Conhecia-a em Portugal, onde viveu 10 anos, e de onde já partiu porque nunca se aguentou muito tempo num único país. Roménia, França, Argentina, Brasil, onde finalmente teve que parar aos 87 anos. Não há ninguém que como ela cumpra tão bem o que agora fiquei a saber que é a regra de ouro do judaísmo e que nas palavras dela se traduz em : fazer o bem é fazer um bem a mim mesma. Sei que ela nunca escolheria ser judia. Quando regressou, pensou não dar educação religiosa aos filhos porque via na religião o começo da segregação de que foi vítima. Por isso lhe custa ainda entender como é que alguém pode querer ser judeu, converter-se a uma religião e pertencer a um povo perseguido e com estigma. Ela lutou por integrar-se, apagar as diferenças, não dar nas vistas, como a família e os judeus sempre fizeram o que, está visto, não resulta. Seria incapaz de viver em Israel por causa da guerra e é contra a política de Sharon e quaisquer fundamentalismos religiosos, no entanto, diz-me que só desde que existe Israel conseguiu sentir alguma segurança.
Quando lhe perguntam de que país é, responde que é cidadã do mundo e que o mal dos homens está em traçarem fronteiras e lutarem por um punhado de oliveiras. No seu caso, isto tornou-se verdade, ela fala seis línguas e hoje é tão brasileira como húngara ou romena.
Foi ela quem me ensinou que nesta luta contra o anti-semitismo pouco valem os argumentos racionais porque esse tipo de sentimentos bebe-se no leite da mãe. Sei que existe nas classes mais altas, letradas e católicas ortodoxas de Portugal e basta ver como foi tratado o caso Aristides Sousa Mendes em todos estes anos. Mas se se conseguir uma só volte- face já valeu a pena, uma vida salva a humanidade inteira. CMC

Um convite. 

Recupero um disco antigo do velho Tom Waits. Small Change, de 1976. É um costume meu. Já quase não compro álbuns novos, na ânsia de preencher, tão depressa e bem quanto possível, as lacunas da história da música que me fazem, amiúde, odiar as minhas torres de cds. A faixa 6 será sempre inesquecível e um dos temas mais perfeitos do blues waitsiano, “Invitation To The Blues”, justamente.
Não tenho os truques informáticos do Bernardo, pelo que – lamento – não sei deixar-vos aqui uma janelinha Media Player, pronta a clickar e ouvir a canção (posso apenas deixar-vos um pouco da letra). Mas queria partilhar este prazer com alguém, aquele que arrepia às primeiras notas da introdução do piano. A aceitação dos momentos solitários, da bondade da tristeza, da amizade dos objectos que nos rodeiam, incapazes, por definição da espécie, de nos abraçar ou gritar palavras de encorajamento.

but there’s a Continental Trailways leaving
local bus tonight good evening
you can have my seat
I’m stickin roud here for a while
get me a room at the Squire
and the film station’s hiring
I can eat here every night
what the hell do I’ve got to loose
got a crazy sensation
go or stay I’ve got to choose
and I’ll accept your invitation
to the blues


AB

Cidade-fantasma. 

Passeio pela blogosfera por estes dias como quem regressa à escola onde andou e já quase não conhece ninguém. Ou por Lisboa em Agosto. Ou pelos escritórios imensos de uma empresa à beira da falência.
É estranho. Bastante. Sobretudo encontro incómodo naqueles que a zurzem, como se os blogues fossem outra coisa que não precisamente aqueles que os escrevem, uma entidade à parte que pudesse ser objectivada e julgada como boa ou má.
Por mim, enquanto por aqui caminhar, tentarei não me esquecer do verdadeiro prazer de postar, aquele que vive entre o bloco de notas e a prateleira de uma livraria. Tirar apontamentos que, potencialmente, estarão inscritos para sempre, livres do risco de se perderem ou molharem e depois já não percebermos a nossa própria letra. E no contínuo movimento de encontrar desconhecidos capazes de nos amar ou odiar a partir de uma simples frase.
AB

terça-feira, fevereiro 17, 2004

tens mãos que podiam ser
máscaras
postas
no lugar de preces ou de despedidas
e afinal
são só mãos
das que se apertam e se perdoam.

se um dia se voltarem a viver os dias que faltam
pode ser que se escureça a luz

que hoje encandeia e anoitece

pode ser que nada mais se perca
atrás de um minuto e de um som
e assim se viva mais perto de começar a viver.

entretanto podes fazer planos
para quando começares a contar a tua vida
e escrever histórias bonitas
das que não acabam mal
das que não acabam

porque é delas que sempre se sente a falta
quando as mãos se separam
e os dedos deixam de pronunciar nomes.
MR




Sá Carneiro super-star. 

Começo a duvidar da verdade que exista para lá da figura mitológica de Francisco Sá Carneiro. É que o homem que aprendemos a recordar como reservado e selecto quanto àqueles de quem se rodeava parece, afinal, ter sido mais popular e sociável que o Paulo China. Não há político português que não o cite ou tenha para contar uma história partilhada com ele. Da direita à esquerda, num momento de aflição, a coroar um discurso de vitória, a meio de uma entrevista de fundo a Maria João Avillez, político luso que se preze tem reservado um: “como me dizia Sá Carneiro, em 73” ou “sabe, quando eu e Sá Carneiro andávamos a correr o País em campanha” ou ainda “certa vez, estava eu e Sá Carneiro a jantar no Tavares Rico, quando ele me confidenciava”. E por aí afora. De Santana a Freitas, de Soares a Marcelo. Todos parecem ter sido seus amigos e confidentes, todos têm uma história especial, um ensinamento particular. Dá-me ideia que até os líderes das juventudes partidárias devem ter um episódio na manga, mesmo que Sá Carneiro tenha morrido há 23 anos.
Por mim, se é de citar gente que já cá não está para contradizer que se trata, arranjava logo umas almoçaradas com o John Kennedy, umas manhãs de jogging com Churchill e, sei lá, um fim-de-semana de esqui com o general De Gaulle.
AB

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

O elogio da mentira 

Há poucos dias, perdia-me numa discussão com um amigo, igualmente guionista, mas muito mais estudioso da matéria que eu, sobre o que faça do cinema bom cinema. Se é a história, se a narrativa visual, o trabalho da luz, do movimento, da montagem; o desempenho dos actores, os entrelaçamentos entre as personagens… Como se esperaria, ficámos na mesma: cada um na sua. Para mim, contudo, a resposta inequívoca viria logo no dia seguinte e chamava-se “Big Fish”.
Se alguma coisa é verdadeiro cinema, só pode ser o último filme de Tim Burton. Por tudo quanto é, por ser uma história que nenhuma outra arte poderia contar senão a sétima. Pelo delírio e verdade, pelas imagens e sons, pela galeria de personagens e cenários. Pelo que faz sonhar e por quanto emociona.
Sabe quem me conhece que não tenho choro fácil, nem mesmo quando o que se movimenta é a vida real. O cinema só me fizera chorar duas vezes, duas vezes mais ou menos banais, julgo: no “E.T.” (quem resistiu à ressurreição da criatura de dentro do saco mortuário que atire a primeira pedra) e, dez anos depois, na “Lista de Schindler”, quando passa, pela segunda e derradeira vez, a menina do casaco carmim.
Agora, passados mais uns dez anitos, eis que dou por mim, sozinho na segunda fila da sala, a sentir as lágrimas, literalmente, desabar pelo rosto abaixo, incapaz, sequer, de as ter previsto no instante anterior.
“Big Fish” poderá, talvez, ser lido segundo múltiplos sentidos, mas três parecem-me fundamentais. Dois são evidentes: a busca pela redenção do que seja ser pai e do que seja ser filho e a relação que temos com o enfrentar a certeza da morte. A terceira, e mais essencial, diz respeito à verdade e à mentira e ao questionamento da identidade desta dicotomia com essoutra do bem e do mal, respectivamente. O que o filme propõe é uma estética como ética (e, daqui a pouco, cito Deleuze e transformo-me num Eduardo Prado Coelho dos pequeninos), em que uma mentira bela é sempre melhor que uma feia verdade, sobretudo quando alguém, no limbo do mundo, tem a última oportunidade de ser salvo.
Deliciosa, perfeita, a sequência em que Billy Crudup conta a sua primeira história que é, simultaneamente, a última para Albert Finney. E mais não podemos dizer, sob risco de estragar alguma surpresa a quem ainda não viu.
“Big Fish” é, como diz, com inteira justiça, o seu cartaz, “uma aventura tão grande como a própria vida”, o filme do ano e um acontecimento absolutamente imperdível.
E, afinal, da imaginação e memória de Burton continua a sair todo o cinema que sempre escapará aos puros cultores da forma.
AB

My Mistake 

Afinal, parece que me enganei redondamente. Ninguém foi expulso e até nem voaram muitas cadeiras; a arbitragem foi excelente e o Jorge Costa não cabeceou ninguém. O Simão fez um golaço, chegámos a dar baile e o Mourinho até soube comportar-se. O ambiente do estádio era incrível; o jogo chegou a ser empolgante; tudo pareceu decorrer com honestidade.
O futebol é, de facto, uma caixinha de surpresas...
AB

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