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sábado, fevereiro 07, 2004

Domingo de Fumo 



Strada di periferia
Umberto Boccioni, 1909
Oil on canvas (600 x 550)
Mazzotta Collection

RIS

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Adeus, Santana, Adeus! 

Uma radical mudança de instalações da produtora em que trabalho tem vindo a interpor-se entre mim e a promessa de voltar, activamente, aos posts, mas cá estou, estóico, a tentar escrever qualquer coisa contra o barulho dos meus colegas montando estantes, dos informáticos puxando cabos, do pessoal da limpeza rezando em bielorusso enquanto lava as vidraças.
Estou, entretanto, a tentar ultrapassar o choque de trocar um escritório lindo nos últimos andares do edifício Castil, a 50m do Marquês, por um estúdio imenso nos arredores de Mem Martins (se é possível imaginá-los…). Adeus, cinemateca! Adeus, Grill! Até sempre, salões de snooker, passeios pela Avenida de Liberdade ao princípio da noite, vista quase aérea da cidade, viagens de 15 minutos até ao trabalho… Ó civilização! Ó progresso! Ó urbanidade que fugiste de mim!
…e olá IC19, filas de trânsito e distâncias; avistamentos, ao longe, por entre o nevoeiro, da Serra de Sintra. Bem-vindo aos cafés de bairro, ao rostos do tédio e alegria fáceis, escorregas abandonados nas pracetas cercadas de prédios, silêncios enormes, mesmo a meio da tarde.
Pode um ilhéu tornar-se cosmopolita e agora ser, à força, convertido em suburbano?
AB

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

A nossa classe A 

Pode viver num bairro popular, Alfama ou Mouraria, onde as classes sociais se misturam, prolongando a tradição de um D. Quixote que se senta à mesa com o seu escudeiro, ou de el-rei que vai embuçado cantar o fado ou do imperador Francisco José que conhece Sissi mascarado, numa largada por tabernas e lugares menos próprios.
É primo ou prima das melhores famílias. Tem uma dezena de histórias que evocam as várias casas por onde a família passou; os vários países, no caso de serem famílias estrangeiradas, e claro, as tias, invariavelmente, solteiras que, perdidas em solares de aldeia, provam vinhos licorosos de fartas colheitas de vastas terras e que são, afinal, alcoólatras disfarçadas, tias sensatas e sacrificadas pelo bem-estar da família ou tias excêntricas, a pregarem partidas, saltando de armários.
Em várias conversas, desfilam o rosário de nomes conhecidos, despistando o rumo snob pela evocação de uma percalço com uma varina, um marceneiro ou membro de outra digna corporação em extinção.
Escusado será dizer que beija uma só face e que não diz palavras como: “vermelho”, “prenda”, “lábios”, “beijinho”, nomes com o diminutivo em “inho”, já “ito” é sufixo tolerável.
Tem as antenas em alerta constante para detectar as escorregadelas sociais do interlocutor, na escolha das palavras, no uso dos talheres. E cheira um postiço à légua, sobretudo se o cheiro é de dinheiro recente.
Desenvolveu os mecanismo para manter à légua, os tontos ofuscados sociais e agudizar-lhes os complexos sociais, permitindo-lhes alguns contactos, mas negando-lhes a fusão com a classe.
Em tempos praticou a modéstia, virtude judaico-cristã. Agora a modéstia é pura fachada.
Corre o terreno a farejar os casadoiros do seu universo antes que tarde e se esgote, antes de dar o nó que sela a felicidade dos cônjuges e das famílias.
Casa pela igreja. Baptiza os filhos- de preferência acima de três- e tem as suas preferências por um padre conselheiro de uma ordem religiosa. Anula os casamentos para se voltar a casar. Sabe a quem pertencem as casas, as quintas, a origem do dinheiro, se há títulos em causa e se o primeiro titular era legítimo ou bastardo. Controla os podres e os segredos, domina a coisa. Mantém os ódios de estimação e as velhos despiques entre famílias. Pergunta: Mudam-se os tempos? Não tanto. CMC

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

SMS 

A minha amiga L. vive sozinha, num solar barroco, no sopé do Caramulo, onde enfrenta o frio rigoroso do inverno e o calor tórrido de verão, enfrenta o silêncio e a solidão de uma casa com 58 janelas e 30 portas e portadas que ela todos os dias abre para encher a casa de sol e fecha para a resguardar de intrusos e da noite. Além disso, é a solteira mais bem-disposta e realizada que conheço, visto que o casamento nunca foi um objectivo falhado. Sendo ainda, assim, uma crente em Deus e na família que ela muito acarinha, envia-me um SMS que desejo partilhar: “Estar sozinha nunca foi problema, solteira também é um estado civil, mas é só para os fortes porque os fracos casaram-se todos!... Quase todos”. CMC

Cartilha para um tempo mais a amar 

Pegar e largar. Amores descartáveis e efémeros.
Os neurobiologistas estimam que a fase hot de atracção sexual dure em média 90 dias.
O que nos impede de uma felicidade mais duradoura?
Desde logo, o horizonte da obra-prima, a nossa vida convertida em obra-prima. A sombra do mito de um príncipe/princesa ou de uma relação ideal que pode ser a de um casal muito próximo (para quem tem a sorte de fruir de um exemplo feliz) ou como diria Fernando Pessoa, a omnipresença da “ outra, a outra” cravada a ferros na nossa imaginação.
A exigência de multifuncionalidade que recai sobre o companheiro/a que se elege: amante, pai, mãe de família, amigo, companheiro de hobbies, angariador de dinheiro, satatus, clientes, aprovação social. Exigências próprias de uma sociedade patriarcal, assente na transmissão de património e de valores e de uma sociedade competitiva e consumista.
Em consonância com toda a exigência que as nossas vidas já comportam, ergue-se agora a exigência do companheiro que satisfaça os nossos muitos mitos, ambições e aspirações estéticas, desígnio estético que não se satisfaz com alguém que fique abaixo da fasquia mais social que pessoal.
Mais dificuldades a matar casais: a ideia de que o amor se basta com dar e não ter que receber. Pois, não. O amor é exigente de trocas nos dois sentidos. Ninguém resiste muito tempo na posição de escravo.
A ideia de que um casal tem que partilhar muito tempo junto. Imaginem um casal que partilha o local de trabalho. A criatividade de um casal alimenta-se de fora e esgota-se com o correr do tempo, a longo prazo são raros os casais que não lhe sucumbem. É vital ter coisas para contar um ao outro, exporem-se, claro que estar-se junto num evento já proporciona alimento, o fatal é enclausurarem-se na redoma em que fiquem a mirar-se como se o mundo se encerrasse ali.
A ideia de que amar é atirar para os ombros do outro o peso da sua própria vida e que o outros nos aligeire o fardo. O outro não tem nenhum passe de mágica, nem sequer para nos sentirmos mais satisfeitos com a vida e tanto proporciona ocasiões de conforto como de desconforto.
A ideia de que amar é aceitar o outro já quando não se arranja para nós, quando não nos cativa com conversas, mimos, atenções. Afinal, a ideia de como as pessoas já se pertencem, se podem instalar confortavelmente no desleixo.
A ideia de que o amor é acima de tudo transparência, honestidade, contar tudo e mais alguma coisa ao outro, incluindo as dúvidas que nos atormentam sobre se ele/ela será o amor da nossa vida. Incluindo notarmos no outro uns quilos a mais. O amor tem uma forte dose de diplomacia e de delicadeza que não se compadece com reparos destes. Devemos poupar o outro a críticas a que a sua sensibilidade e susceptibilidade não resista e se desconhecermos o que o atinge, perguntarmo-nos pelo que nos destroçaria.
A ideia de que se perde liberdade quando se ama alguém, é outro mito que preferimos abraçar para virar a cara ao compromisso. Para manter esse espaço que, ora é de cada um, ora é o espaço do casal, é preciso que um casal seja suficientemente forte para prosseguir os seus gostos e individualidade, e ao mesmo tempo tão inter-dependente que encontre no outro a pessoa com quem partilhe a vida.
A ideia de que o amor é uma coisa que se sente e não se discute. Que são sentimentos e que não tem regras. Que são atracções que nascem e morrem e que, por isso, não devemos interferir no seu decurso. Ou rendermo-nos ao amor das coisas impossíveis, a amores infelizes como o de Tristão e Isolda. Para além das inequívocas atracções que não dominamos e que são o mistério e a surpresa do amor, deixemo-lo cair dos pedestais e tornar-se uma ciência mais pragmática. Devemos e podemos interferir sobretudo se descobrirmos que a estabilidade é uma escolha que nos é favorável e que nos dá mais felicidade que a sucessão de amores efémeros ou a solidão.
Cheguei ao fim. Relendo parece uma solução milagrosa e uma barra pesada. O segredo para chegar a esse tempo a mais, é mesmo o entusiasmo, a alegria e a frescura. Isso, sim, é o que procuramos. CMC

terça-feira, fevereiro 03, 2004

O Sr. Artur 

Mudar de casa é, como quem já o praticou com decisão e dezenas de caixotes em pilha sabe, um momento de caos. Neste momento, a três dias de abandonar esta morada, já não sei onde está a minha vida - se no caixote que diz "livros estante 2", se no grande saco azul que não diz nada, mas impede o acesso ao quarto (se tivesse algum humor às três da manhã de ontem, ter-lhe-ia colocado uma etiqueta a dizer "Saco da Fátima"...). Empacotei no fim-de-semana passado tudo o que iria precisar amanhã. Não tenho roupa. Não tenho candeeiros. Não tenho água quente. Não tenho tempo para arrumar o que ainda falta.
É espantoso como deprime pegar em todos os papelinhos com frases anotadas, que naturalmente hoje não fazem sentido, mas mesmo assim vão ser encaixotados com esmero. Dois anos de vida em post-it's e em talões de multibanco com frases enigmáticas. É isto, afinal, a minha verdadeira obra, colocada ao lado das panelas e dos livros cheios de pó.
Já percebi também que este ano quase de certeza não consigo entregar o IRS - onde estarão as coisas dos impostos?. Pode ser que me venham penhorar alguma coisa e facilitam-me a vida - e eu a eles: quererão levar já o caixote dos livros de processo civil? Ou dois canteiros cheios de terra e ervas secas?
Há uns dias uma amiga caridosa deu-me o telefone do Sr. Artur, que faz mudanças. Telefonei-lhe e ele marcou para sábado às oito da manhã. Não discuti. Quanto mais depressa, melhor... Ainda pensei naquelas multinacionais que têm publicidade com senhores sorridentes a embrulhar terrinas de porcelana cuidadosamente, mas não só não me apetecia consignar os meus próximos três ordenados para pagar os homens das mudanças, como me pareceu que embrulhar post-it's e velhos talões de multibanco requereria menos habilitações e poderia eu desempenhar a tarefa com sucesso. Mesmo assim, estou muito farto...
O pior da coisa é que a próxima morada só deve estar disponível daqui por umas semanas e portanto este escriba de fita-cola castanha nas calças há-de voltar sorrateiro para a casa da mamã por uns tempos. Vai ser bom... Enfim, não antecipemos desgraças enquanto não se empacotarem as camisolas. Estive mesmo para ir para um hotel qualquer, fingir que era um chileno exilado na Praça da Alegria ou um yuppie dinamarquês num resort com piscina aquecida nos arredores de Lisboa (o que aliás é ainda uma hipótese), mas não tive tempo sequer de pensar nisso a sério. Os amigos brincam e dizem "ah, vais voltar para as comidinhas da mamã"... Não sabem eles que a mamã frita ovos com dificuldade, apesar de achar a maior cozinheira do mundo... Portanto esperam-me ainda dias mais difíceis e com exames para corrigir. Pode ser que alguma aluna simpática me recolha, a troco de um valor extra no exame. E pronto, mágoas de cartão exibidas, volto ao empacotanço magno, que esta noite isto tem de ficar acabado... MR

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