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sábado, julho 26, 2003

O Nojo III, esta miúdagem burguesa  

Quando já pensava a milhas em outro assunto qualquer eis que deparo com O problema de Portugal. Caro Rapaz, porque não imigra? Estes burgueses da classe média, académicos placibúndios sempre irritados, que nunca tiveram nem uma unha encravada e se põem a verborrear sobre o que pretendem para o País é que me tiram do sério. Vá para este museu, amigo SS. E já agora, leve o Almada, pode ser que na viagem em busca do seu sonho fetichista de um País sem Portugueses encontre onde queiram fazer a grande retrospectiva que até agora tem falhado no Louvre, no MoMA e todos os outros, por descuido com certeza, por esquecimento, o homem mudou o mundo e afirmou Portugal, foi um grande democrata e nunca seguiu modas... estas flores de estufa que temos que aturar...BR

Hoje sinto-me tão Sofia Sá da Bandeira 

conversa com um amigo:

- Então acabaste com a tua namorada?
- Há 15 dias.
- Outra vez?
- Sempre que termino uma relação penso que devia ter dado ouvidos àquilo que a minha mãe me dizia...
- O que era?
- Não sei. Não estava a ouvir. LFB

alegrias da RTP-Açores - I parte 

Quem seja açoriano, e nascido depois de 74, sabe que o acesso à RTP-Açores foi uma pérola apenas ao alcance de privilegiados. Desde os filmes cujas cenas de sexo apareciam cortadas (Mota Amaral oblige) até aos anúncios de produção açoriana, passando pelos intervalos publicitários durante as transmissões em directo, bem mais curtos que no continente. A explicação é esta: tinham de aguardar que terminasse o período comercial em Lisboa para retomar a emissão. E muitas vezes sucedia que, enquanto os continentais perdiam a transmissão para intervalo, nos Açores continuávamos a assistir a imagens em directo.
Recordo um grande prémio de F1. Domingos Piedade comentava uma corrida liderada, à légua, por Nigel Mansell. Tentava entusiasmar o espectador perorando acerca das técnicas de condução do inglês, o jogo de pneus, as declarações feitas antes da partida. Tudo em ritmo dinâmico e alegre. Súbito, Miguel Prates corta a emissão em Lisboa para os anúncios. Domingos Piedade diz: "Voltamos já para a terceira parte deste emocionante Grande Prémio". Nos Açores a emissão continua. Uma voz pergunta, "Então mas estás a gostar?", e Piedade responde: "Qual quê?! Isto 'tá uma seca do c...". Foi a primeira vez que assisti a um reality-show.LFB

LE TOMBEAU DE MALLARMÉ  

Nossos dias líquidos NÃO existem correntes fluidos para ir desaguar ramalizar a um post. LDA

sexta-feira, julho 25, 2003

a primeira vez que tive vontade de casar 

Na minha rua de São Carlos, ilha Terceira, vivia uma fantástica rapariga de 14 anos chamada Sara. Calma, senhor da PJ, eu também tinha 14 anos ao tempo desta história. Eu e os meus amigos chamámos-lhe "princesa marroquina", coisa própria de tímidos a armar ao pingarelho poético. Sucede que, num belo dia de escola, recebi um bilhetinho da Sara. Dizia assim:

"Napoleão com as suas tropas,
conquistou muitas nações,
mas tu, com os teus olhos,
conquistas muitos corações".

Há altura não sabia que se tratava da lengalenga mais repetida no mundo a seguir ao "Parabéns a Você" e discursos de Fidel Castro mas, whatever! Foi o dia mais feliz da minha jovem vida, a ponto de ter ido para casa assistir às "Aventuras de Sandokan", na RTP-Açores, com um sorriso de orelha a orelha. Que saudades do platonismo! LFB

Descer à terra em Mach2 

Tenho sido alvo de discussão entre grupos de amigos devido à minha assumida pancada por mulheres muito bonitas. Mas muito, muito bonitas. Mal que, como sabem, é tão pernicioso para um (candidato a) intelectual como uma ruptura dos ligamentos cruzados da rótula para um futebolista.
Ora bem, para acalmar as hostes, recordo uma frase lapidar que trago no hipotálamo desde que a minha mãe, no auge da paixão adolescente que nutri por Alexandra Lencastre, exclamou um dia: "Filipe, a Lencastre também caga". Quem tem mãe, meus amigos... LFB

O Sentimento de um Conservador 

Conheço bem o sentimento de um conservador. Ainda, ontem, o confirmei ao observar o meu pai, um vida cumprida sob o bastião do conservadorismo. Ainda, ontem, quando ele me convidou para assistirmos a uma peça de teatro no antigo Teatro da Luz, quando, então, alcancei a insistência naquele gosto. Ali me levou ele, ex-menino da Luz, às instalações da sua querida Associação de Estudantes dos Antigos Alunos do Colégio Militar, exploradas também por um antigo aluno, Luís Esparteiro.
No hall do teatro mostrou-me a fotografia do príncipe D. Luís Filipe com a barretina e o uniforme que não se modificou quase nada com o passar dos anos. Na sala do espectáculo, esclareceu-me ser aquela a sala das matinés de cinema e apontou-me, por entre os cortinados côr de púrpura, bordados a dourado com a insígnia real e as letras C.M, o balcão de cima, onde se instalava para controlar as “passas” dos meninos o oficial de dia. Ao lado do teatro, visitei o que é hoje o bar e junto à vitrine onde se expõem para venda porta-chaves, gravatas, medalhas do Colégio disse-me, com orgulho: “Tenho quase tudo”. Espreitei, ainda, o restaurante, de nome “ Real Colégio Militar”, em homenagem aos tempos em que a instituição nasceu e viveu sob regime monárquico, em que servem o indispensável “amarelo”, a receita do bacalhau à braz mas com carne que era, é e será o prato festivo dos meninos.
Durante anos, em noites frias e chuvosas, atravessei os longos e nús corredores do Colégio para comer esse prato nos jantares de Natal com as familiares caras de alunos, mulheres e filhos.
Durante anos, o meu pai não falhou um desfile na Av. da Liberdade no dia 3 de Março e no final, gritou o seu “ Zacatraz” e o :“ Um por todos e todos por um”.
Durante anos vi na lapela do seu fato a barretina e sabia que o seu código secreto de alguma mala ou cofre era o número com que tinha sido contemplado quando entrou como “ rata” no C.M.
Durante anos convivi com este conservador e ontem ao confrontá-lo com a pergunta: “ O conservador será um sentimental?” A resposta foi: “ Sim, claro”. CMC

O Conservador é um Sentimental 

Dou as boas vindas à blogosfera ao meu amigo Alexandre Franco de Sá e confesso-me estarrecida, mas reconfortada, por ser o Alexandre, tradicionalista, monárquico, especialista em Heidegger e Carl Schmitt, quem me vem dar razão e avivar na contenda que travo contra conservadores, por não partilhar do seu ódio à mudança.
Transcrevo-o, pois:
?O conservadorismo é assim não uma teoria, mas uma patologia política. Todos os seus recursos argumentativos, todas as suas análises históricas, todas as suas considerações sobre o homem são puramente emotivistas. Não há ideias no conservadorismo, mas apenas pseudo-ideias que evocam conceitos equívocos como a experiência, a sensatez, a razoabilidade das lições da história e do passado: estas não são senão o suporte e a confirmação de um sentimento íntimo que não podem partilhar. O conservador estuda e lê não para procurar o que não sabe, mas para se reconfortar no reconhecimento do sentimento que já possui?. E termina com uma questão que dá que pensar: ?Como é possível que haja tantos conservadores num país onde já quase nada há para conservar??
Estão explicadas as flutuações sentimentais do nosso P.M , do Abrupto, da Zita Seabra, do João Carlos Espada.
Fica-me a questão: como é possível ser tradicionalista sem ser conservador? CMC

Deleuze e os Blogs 

O Senhor Pacheco Pereira, que ás vezes salta o muro* para comer umas sardinhas, cita a formiga de langton que cita a Utopia Art Biennial, LX, 2001 e o comportamento de um enxame de abelhas como uma metáfora dos movimentos e direcções dos assuntos e correntes nos Blogs.
É bem visto, tal é igualmente observável nos padrões de movimento no voo dos pássaros e nas variações de natação nos cardumes de peixes.
Gilles Deleuze, no primeiro capítulo de Mille Plateaux, segunda adenda de Capitalismo e esquizofrenia, mapeia este território que nomeia de Rizoma, espécie de árvore sem raiz ou corpo sem orgãos. Não se conhece a cura ainda, só a incúria e o frémito. E a variante direcção colectiva, em silêncio, deste múltiplo Desejo. Toca a ir ler, lemingues.BR

*melhor cozinha de peixe a Oeste de Alexandria.

O Nojo II, ou O Elogio do Povo 

É preciso que se capacitem, as cúpulas Culturais em Portugal, que o nome apagado e de pequena irrelevância que Portugal tem em redor do planeta é em grande parte dedutível da sua incúria e incapacidade. Ponto um; é tempo de se perceber que existe um planeta, com outros países e línguas e pessoas e não só este reduto, onde poderemos ser os campeões universais do que quer que façamos, em pequenina escala e em fuga da competitividade e comparação (sempre perdedora, com os foreigners). Os apologistas desta táctica resumem um medo e os complexos de inferioridade e incutem nos menos atentos o endeusamento necessário destes estrangeiros de forma a afastar a angústia do invalor e sossegar, na certeza do tacho reaquecido.
Por outro lado, quem mantém os olhos vidrados no mundo cega, por vezes, na catadupa de informação digerida e na servidão de elogio e citação. Este facto revela simplesmente uma triste condição, o provincianismo, não de quem compõe o tecido do Povo Português, geralmente digno, honesto, complacente mas reverberador de uma poesia latente no encontro deste oceano com este incontinente Europa. Aqui voltarei, ao Povo, este magnífico e enternecedor Povo Português, a seu tempo. O mesmo não posso afirmar da medíocre camada creme light da cultura portuguesa. Fora raras excepções, no estrangeiro são uns deslumbrados, e aqui um blasés. Conheci alguns, nas minhas estadas em Londres, Nova Iorque e Itália e sei do que falo. Irónica, a incapacidade de se perder e verdadeiramente amar o estrangeiro no estrangeiro, e Portugal, em Portugal. Continuarei... (já uma vez explicitei a uma jornalista do público (raro oásis de concisão) a impressão que me faz o exército de comentadores inócuos que os jornais portugueses apresentam diariamente nas suas 500 páginas. Quer-se uma notícia e tem que se levar com o frémito dos inruborizados clítoris imaginários no insólito colunista, Arre).
É tempo de esta geração com tanto talento em tantas áreas se deixar de seduções baratas e de uma vez por todas assumir um espírito verdadeiramente competitivo, nas suas áreas, com os seus pares no mundo. E assumir, pelo caminho, uma reinvenção de Portugal que passe precisamente pelo Orgulho e pela Vontade de Ser Português criando uma verdadeira Elite Cultural, com Virtude e Emoção, finalmente saída do infantilismo de pequeno quintal, sub-urbana e dandy dos arraiais.BR
Algum fazedor de opinião já acha alguma coisa disto? Eu acho que...Eu penso que...

Um Incomensurável Destino 

Armar de poemas e viajar até Paris. BR

Depois de Knopfli, Emanuel Félix 

Mais uma boa notícia literária e humana. Depois da chegada às livrarias do livro que reúne a obra poética de Rui Knopfli, eis que acaba de sair “121 Poemas Escolhidos”, uma antologia de Emanuel Félix - outro poeta de excelente qualidade e igualmente pouco conhecido. Aliás, o moçambicano Knopfli e o açoriano Félix unem-se pelo sentido de rigor e de concisão na poesia. Emanuel Félix, nascido em 1936, em Angra do Heroísmo, é um esteta com formação em restauro e com uma paixão antiga pela pintura – e muita da sua poesia tem uma forte marca visual, reflectindo, claramente, essa sua vocação plástica. Parece-me, em todo o caso, menos importante saber que foi o primeiro cultor do concretismo entre nós (a julgar por um escrito de José Blanc de Portugal) do que ler poemas com a elegância clássica e um apurado uso da repetição de, por exemplo, “Five O’Clock Tear”. Interessa-me mais o Emanuel Félix delicado e evocativo, o poeta da amizade e do amor, o homem que sabe escrever sobre as mulheres, as mulheres da sua vida. Como no poema “As Raparigas Lá de Casa”, retirado do livro “Habitação das Chuvas”: “Como eu amei as raparigas lá de casa/(…)não me lembro da cor dos olhos quando olhava/os olhos das raparigas lá de casa/mas sei que era neles que se acendia/o sol/ou se agitava a superfície dos lagos/ dos jardins com lagos a que me levavam de mãos dadas/as raparigas lá de casa/que tinham namorados e com eles/traíam/a nossa indefinível cumplicidade/eu perdoava sempre e ainda agora perdoo/às raparigas lá de casa/porque sabia e sei que apenas o faziam/por ser esse o lado mau da sua inexplicável bondade/o vício da virtude da sua imensa ternura/da ternura inefável do meu primeiro amor/do meu amor pelas raparigas lá de casa”. NCS

Civilização pré-Blog 

Nos Açores, ainda ninguém sabe o que é um blog, mas continua a contemplar-se o céu estrelado, ainda se gritam informações íntimas de um lado para o outro da estrada, os desconhecidos dizem "boa noite" se passam diante da nossa casa e é possível pagar no dia seguinte, quando, na altura, não há trocos. Dizem-me que há adolescentes que ainda escrevem diários em pequenas agendas de papel.AB

Se não passou pelas ilhas nem gosta de futebol, não vai rir desta piada 

Já me havia esquecido do modo como se exprimem os comprazimentos simples nos Açores.
Acerca de uma boa refeição: "Ai, tal coisa de booaaa!"
Acerca de um bom vinho: "Ai, tal pinga de booaaa!"
Acerca de uma mulher bonita: "Ai, tal gaja de booaaa!"
O que me leva a pensar se os famosos futebolistas gémeos Frank e Ronald não serão afinal, em vez de holandeses, ali dos lados do Pauleta, tendo ganho aquela alcunha após efectuar uma bela jogada.AB

Quando até tem alguma coisa para dizer, mas há quem diga melhor, cite 

"O ser e o existir, eis tudo. A vida não é mais do que um encontro violento e casual do ser com a existência: um duelo momentâneo entre Deus e Satã; um conflito conjugal entre o penedo e a sua hora efémera de sombra."
PASCOAES, Teixeira de, O Homem Universal
Grande Pascoaes! E dizer que passaste toda a vida em casa da tua mãe... AB

quinta-feira, julho 24, 2003

O Nojo 

Começa a enojar a profusão torrencial com que se lamentam muitos aqui nesta lamela da europa sobre nós próprios, os Portugueses. Ele é análise para tudo e para todos, pinnpointing e redundando em ataques mais ou menos furtivos ao comum povo. Depois, auto-felizes, lá citam os locais por onde viajam de férias e rematam sempre com a contundente frase: ah, se ao menos nós aqui aparecessem, fizessem, lessem, construíssem, como eles em Londres, Madrid, Hong Kong, Los Angeles... Meus amigos, povo há-o em todo o lado, os Ingleses e os americanos médios fazem rir de incúria o mais labrego padeiro português, já a cúpula e a chamada elite cultural portuguesa na comparação empalidecem, e citam cabisbaixos, os seus autores favoritos, como caricas na praia. O povo, este, habita e endivida-se, como em todo o mundo, já a classe pensante, pensa tanto e tão forte, comenta com tanto afinco e constância que, chegando a hora de produzir, elasse, estão todos proselitanto nos vialles de Berlim, ou então a tentar perceber a ingenética provável destes nós e, Jás, esquecem a fasquia. Estarei enganado? Não tenho visto muitos comentários abonatórios aos cultos (e estes sim ,responsabilizáveis) portugueses por aí...
Seria mais produtivo cada autorimaginário (leitor de badanas) produzir, e depois pensar genuinamente, sem modelos nem perfis.
No entanto reservo para um próximo post uma análise mais profunda da Elite Cultural em Portugal, para, daí para baixo, analisarmos se existe ou não qualidade, emoção e pensamento neste povo, tão frequente e injustamente automediocretizado. (Arma poderosa do terrorismo de pequena apanha em quem não faz nem quer deixar). BR

Uma questão de espaço 

Este blog recolhe posts que abordem questões de espaço, memória e construção (vulgo arquitectura, para o comum mortal). Têm bom gosto, apesar de citarem alguns posts meus.
O que é que ainda fazem aqui a ler estes dislates? Ide lá, ó indolentes. BR

Arquitectura e Consequência (o mesmo se aplica ao inefado bloguista) 

Como em tudo na actividade humana fazer um projecto de arquitectura encerra uma proposta moral do seu autor.
Só com base neste pressuposto se enceta um caminho com verdadeira consequência na vida e se é relevante (a busca umbiguista de tanto bloguer, autor, ou malabarista de esquina).
Ter uma profunda visão (visões) das possibilidades e das necessidades e aí, neste intervalo do presente, actuar e ser propositivo ao limite. Construir rastos de existência como actualidade em charneira, entre o que foi e o que será, desligado dos mecanismos sociais ficcionais que embalam a mediocridade e a fasquia pelo umbigo.
O resto é entretenimento e ego de pequeno porte.
Depois Fellini dizia que Oscar Wilde dizia que ser constante é o atributo do idiota. A vida é cheia de contradições.
Pensem lá nisto, no intervalo da vida mecanizada e dos mancos objectivos do dia-a-dia. BR

O Provedor do Cinéfilo 

Percebi quão miserável está a minha vida quando dei comigo na plateia de "Mulher-Polícia", último filme de Joaquim Sapinho. "Último", oxalá fosse profética esta palavra. Ainda por cima não tenho desculpa. Já tinha visto "Corte de Cabelo", outra película do mesmo autor e que conseguiu o desiderato único na história do cinema de ser o primeiro filme sem argumento escrito por 3 pessoas.
Enfim, na vida acabamos por repetir os erros que cometemos. Expressão que serve bem o cinema português. É curioso que, num país sem indústria cinematográfica, 90% dos realizadores tenham a mania que são autores. Como vivem? Simples. Quando não estão a realizar, fazem parte de um júri do ICAM, quando não acontece uma coisa nem outra, estão a escrever um guião (com subsídio do ICAM, claro) e, em última instância, há sempre um jornal a pagar uma croniqueta.
Estes "autores" portugueses, com honrosas excepções (Fernando Lopes, Oliveira, César Monteiro), lembram-me agentes funerários em início de carreira: todos ainda algo constrangidos com o cadáver. Nem levam até ao fim uma intenção, nem escrevem suficientemente bem, nem se comprometem com uma ideologia apesar de a perseguirem sem cessar. Querem ser o Vítor Espadinha da película: guionistas, realizadores, directores de actores, visionários. Como diria a minha mãe: "não querem morrer estúpidos". Mas então e nós?LFB

Extra! Extra! 

A TVI deu a notícia de um casal de virgens à espera do casamento. Soube que, no seguimento desta linha editorial, estão já previstas reportagens sobre grandes compositores portugueses vivos e uma entrevista a um australopitecus que mora no Estoril e tem um tiranossauro bebé a viver no quintal.LFB

Sabedoria 

Uma das frases favoritas da minha avó é:

"Você ainda vai resolver isso, encontrar uma solução, conseguir o que mais quer. Mas, se  não conseguir, não é problema".

Quer-me ela dizer que cada conquista esconde um reverso, um fracasso, uma dívida a saldar.CMC

Outra vez Naipaul em " Uma Casa para Mr Biswas": 

Mestre

"A segunda história era sobre um homem  que estava sem trabalho há vários
meses e tinha fome. Para manter uma família numerosa começou a vender os
seus bens, até ficar apenas com um bilhete de dois xelins das corridas de
cavalos. Não o queria vender, mas um dos seus filhos ficou muito doente e
precisava de dinheiro. Vendeu o bilhete por um xelim e comprou os remédios.
A criança morreu; o bilhete vendido ganhara o prémio das corridas....
- Mas que raio de história.
- As pessoas devem ter consciência disto- disse M. Devem ter
consciência do que é a vida".

Mais pessimista que um português só mesmo um indiano.CMC

Ter tempo 

Hoje vou jantar com uns amigos que vivem a setenta quilómetros de Lisboa, para onde vêm trabalhar todos os dias com uma criancinha de dez meses.
Mas não têm o ar stressado e gasto que eu tenho à saída do Arquivo Histórico-Parlamentar, onde tenho passado todo o dia sentadinho a ler coisas estranhas.
O movimento, logo, interessa pouco para o cansaço. A física está toda errada. Eu devia ter uma criancinha de 10 meses e não uma tese de 11. Pode ser que depois de entregar esta última pense nisso. Até lá, vamos ver o que dizem as actas. MR

Prémio "Link d’Ouro" 

And the Oscar goes to… The Extemporary!!
Como diz o outro, que tem as costas largas, não há, efectivamente, fome que não dê em fartura. O defunto extemporâneo conseguiu a proeza de colocar dezassete links num só post, sendo que dois deles são o mesmo (Desejo Casar)! 17! É obra. Infelizmente, como numa artéria aorta, acumulou-se no texto uma quantidade mortal de linkosterol, impedindo a regular circulação das ideias. Talvez por isso O Extemporâneo não terá resistido a um enfarte miolinkárdio, acabando por nos deixar...
A boa notícia é que o André vai reencarnar noutro blog, desta feita colectivo, pelo que vamos poder continuar em sua companhia. Mas o aviso fica feito: o consumo de blogs em excesso e a hiperlinkcémia, aliados à falta de exercício, podem provocar doenças mortais. Cautela, portanto.LCA

Desejo Casar foi à faca 

Há cerca de dois dias o nosso blog foi sujeito a uma intervenção cirúrgica, que tinha por objectivo retirar um sinal de nascença. A brilhante equipa de médicos - chefiada pelo Dr. Miguel Costa - retirou o Sitemeter do pescoço (junto ao mastoideu) tendo-o recolocado no pé (junto ao calcanhar). A operação decorreu com naturalidade, tendo o DC recebido alta cinco minutos depois de ter entrado no bloco operatório. Nas palavras do competente cirurgião:
- "O prognóstico é positivo, estando o Sitemeter a evoluir bastante bem e apresentando a cicatriz muito bom aspecto".
Segue-se o peeling... LCA

quarta-feira, julho 23, 2003

Um mito cai por terra 

Eskobar canta, "featuring" Heather Nova, uma música da autoria de ambos:

You're gonna find someone new
I really hope you do
cause I love you

may the sun shine for you
cause I adore you.

Há muito que não ouvia uma canção tão elegante sobre o amor. O desprendimento, altruísmo do amor. Logo a seguir, felicidade das felicidades, Carla Bruni canta "Quelq'un m'a dit". Carla Bruni nasceu rica, ficou ainda mais rica como top-model e agora mostra que é uma cantautora de elite. Camisa de homem, meias de desporto, sentada sobre as próprias pernas, um violão no colo. Mais perfeita do que nunca. E eu que defendia intransigentemente a tese de que as mulheres muito bonitas nunca souberam cantar o amor.LFB

as coisas em que penso quando penso que não sou feliz 

Dan Saxxon, norte-americano, sofre de Parkinson. No programa "60 minutes" uma reportagem acompanha o trabalho de dois neurocirurgiões que desenvolveram um mecanismo electrónico com ligação ao cérebro (uma espécie de pequeno pacemaker) que, quando ligado, reduz em 95% os problemas das vítimas. O mesmo que dizer: recupera a sua coordenação motora em 95%. Dan Saxxon experimenta o sistema. Um mês depois é entrevistado pelo "60 minutes":
"De que forma mudou a sua vida?"
Saxxon responde, sem controlar a emoção:
"De que forma?! Olhe... todos os dias, de manhã, levanto-me e faço a barba." LFB

Ó Sr. Professor, onde havemos de gastar o guito? 

Na última edição de "Os meu livros", o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, além de nos recomendar os habituais 150 livros para férias, diz o seguinte,
letras em destaque: "Com 50, 100, 150, 200 euros é possível encontrar livros interessantes para oferecer, e é muito difícil escolher muita coisa tão boa em roupas ou ofertas para casa".
Ora aqui está um aprofundado conhecedor das bolsas dos portugueses e das suas excelentes qualidades bibliófilas! CMC

Há thrillers felizes 

Ontem, na Bertrand do Chiado, encontrei um livro da editorial Presença que tem a mais divertida e desconcertante conjugação de título e de cinta dos últimos tempos. Chama-se "Um Casamento Feliz" e a cinta promocional vermelha traz a seguinte frase de Stephen King sobre o escritor: "Andrew Klavan é o mais original autor americano de thrillers". NCS

Óptimo preço! 

"Os dois filhos de Saddam Hussein - Udai e Qusai - foram mortos ontem, em Mossul, por forças americanas."
Vende-se Toyota. LCA

Amigos 

Tenho recebido demonstrações de afecto todos os dias. Até um tipo como eu que, com certeza, sofreu um choque no hipotálamo quando era pequenino, fica sensível. Ter amigos, amigos cada vez melhores do que eu, capazes de atitudes de cada vez maior amizade, faz-me perceber que também eu devo estar melhor. E que não errei tanto quanto às vezes penso. E que talvez até tenha tomado as opções certas. E que, se tudo o resto falhar, eles não só estarão ainda aqui, como farão ainda com que me ria do meu próprio fracasso. AB

Radiohead 

Pode dizer-se, com a mesma relatividade com que foram ditas todas as frases definitivas da História, que são a melhor banda do mundo. Todos os álbuns são grandes, nenhum tema é menos que bom. Se “Pablohoney” é datado e “Hail To The Thief” talvez não represente, ao contrário do habitual, uma progressão lógica, não encontro noutro grupo uma sequência mais sólida e brilhante que “The Bends”, “OK Computer”, “Kid A”, “Amnesiac” e mesmo os registos ao vivo de “I Might Be Wrong”. E ainda há que ter em conta faixas perdidas na net como: “Far Away”, “Innocent Civilians”, “Alligators In New York Sewers” ou “You Never Wash Up After Yourself”. Mesmo no já citado “Hail”, esbarramos em pérolas como “We Suck Young Blood”, “I Will” ou a minha preferida “A Wolf At The Door”, fora o single “There There”. Thom Yorke, Jonny e Colin Greenwood, Philip Selway e Ed O’Brien são os melhores do mundo porque, não tenho dúvidas, acordam e dormem, exclusivamente, para fazer música. AB

terça-feira, julho 22, 2003

Surdos, cegos e gulosos 

Segundo o Jornal da Tarde, o golpe de Estado em S. Tomé ficou a dever-se à "surdez de um governo cego pela gula de um enriquecimento rápido".CMC

A minha última distração 

- Viste aquele ? Mas, de onde é que eu lhe conheço a cara?
- É teu ex-namorado!
- Ah! CMC

Acontece 

C.Pinto-Coelho- Não deve ser fácil ensinar a língua portuguesa a crianças
cabo-verdianas e, agora, dos países de leste.
Professora de português- De facto, temos dificuldade.
CPC- O que é que tem sido feito para vos facilitar nessa tarefa?
Prof- Bem, agora criaram uns mestrados...
Ele há mestrados interessantes!CMC

LIVRO ABERTO às 22h, na NTV 

Logo à noite o nosso Bernardo Rodrigues representa o DC na 2ª edição do programa de Francisco José Viegas na NTV. O tema: a blogoesfera. Outros convidados: Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, Statler, e Cristina Fernandes. Boa gente.

Champô e semiótica 

No outro dia, no supermercado, ouvi uma informada conversa entre uma filha e uma mãe sobre uma nova marca de champô, acabada de sair. Espantei-me com o facto de haver pessoas que seguem, passo a passo, a carreira dos champôs. Gente que decora os folhetos - aqueles folhetos que, tão simpaticamente, depositam nas nossas caixas de correio -, que sabe tudo de champôs, que se junta de 15 em 15 dias no Grémio Higiénico para, entre bules de chá, dissertar sobre a perigosa nostalgia do sabão azul e branco na Era do Dois em Um. Sim, gente que segue a opinião dos especialistas (já estou a imaginar a Alberta Marques Fernandes: “E hoje, no Jornal da 2, temos connosco o dr. João Guedes, reputado crítico de champôs, que nos vai falar da importância da Pro-Vitamina B5 na capilosidade dos homens casados). Uma pessoa põe-se a pensar: será que, noutros pontos do supermercado, havia quem falasse sobre os novos modelos de esfregona e de fio dental ou sobre o último grito de tira-nódoas? Por momentos fiquei preocupado. Nada de novo, afinal - com o mesmo tipo de preocupação que teria uma dessas pessoas se entrasse na Bucholtz e ouvisse dois intelectuais barbudos a falar sobre um novíssimo manual luxemburguês de semiótica.NCS

Breve nota sobre a actualidade internacional 

NOTA: Passou a fazer todo o sentido a palavra embushte. HR

Como obter livros  

Livrarias – comprar ou roubar
Umberto Eco delimita as livrarias em dois tipos. «Há as livrarias muito sérias, ainda com estantes de madeira, onde mal entramos, logo somos abordados por um senhor que nos diz: Que deseja?, após o que nos sentimos intimidados e saímos; nestas livrarias roubam-se poucos livros. E há também as livrarias tipo supermercado, com estantes de plástico, onde, principalmente os jovens, circulam, olham, informam-se acerca do que vai sendo editado, e aqui roubam-se imensos livros, apesar dos sistemas de detecção electrónica». Através da troca de informações, os jovens saberiam qual a livraria mais fácil de roubar. Umberto Eco conclui que onde há um alto índice de roubos, há mais vendas: «roubam-se muito mais coisas num supermercado do que numa drogaria, mas o supermercado faz parte de uma grande cadeia capitalista, ao passo que a drogaria é um pequeno estabelecimento com uma declaração de rendimentos muito reduzida». Na Livraria Bucholz, a vontade de roubar é anulada pelo espaço em si, pelos tais sistemas de detecção electrónico (mesmo quando os não vemos, eles estão lá) e pelo apelo da música clássica para que fiquemos por ali, a folhear, até o intuito de cometer um crime se diluir. Inevitavelmente, acabamos por comprar – da primeira vez, Gonzalo Torrente Ballester, Ensaio sobre a literatura. Na Livraria In Folio, há um banco de jardim vermelho onde nos podemos sentar a ler; os livros comprados são colocados num saco de papel castanho, a lembrar a compra de pão quente ou de bolos.

Bibliotecas
Eco traça a evolução sumária da função de uma biblioteca. No início, teria uma função de recolha, «para não deixar dispersos os rolos ou volumes». Mais tarde, uma função de entesourar; «eram valiosos, os rolos». Depois, de transcrever: «o livro chega, é transcrito e o original ou a cópia voltam a partir». Em determinada época, a função de uma biblioteca seria a de fazer com que as pessoas lessem. Então nasceram bibliotecas «cuja função era de não deixar ler, de esconder, de ocultar o livro. É claro que essas bibliotecas também eram feitas para permitir que se encontrasse» - serviam para esconder e para se achar. Eco considera que a função de achar, de permitir descobrir, é a mais importante, afirmando que a biblioteca da sua casa «ou de um qualquer amigo que possamos visitar» serve para «descobrir livros cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós».
À pretensão de Jorge Luis Borges (a biblioteca enquanto modelo do Universo), Umberto Eco faz corresponder a biblioteca como universo à medida do homem, a biblioteca «alegre, com a possibilidade de se tomar um café, com a possibilidade de dois estudantes numa tarde se sentarem num maple e, não digo de se entregarem a um amplexo indecente, mas de consumarem parte do seu flirt na biblioteca, enquanto retiram ou voltem a pôr nas estantes alguns livros de interesse científico» - a biblioteca transformada em grande máquina de tempos livres. HR

Urgente 

Recebemos este e-mail. Só temos de o publicar:

"AMIGOS PRECISAMOS DE SOLIDARIEDADE E DE FAZER ESTE MAIL
CORRER RAPIDAMENTE. O TEMPO ESTÁ CONTRA NÓS...O DAVID ANJOS TEM 3 ANOS SOFRE DE LEUCEMIA (DIAGNOSTICADA HÁ CERCA DE 1 MES), E
ENCONTRA-SE INTERNADO NO IPO. PRECISA DE SANGUE B RH(-). O SEU ESTADO É JÁ MUITO GRAVE, POR ISSO SEJAM RÁPIDOS. PASSEM ESTE MAIL, OU SE TIVEREM ESTE SANGUE DIRIJAM-SE AO IPO E DIGAM QUE VÃO DAR SANGUE
PARA O DAVID ANJOS."

AVISO 

Agradece-se ao condutor do veículo com a matrícula AB-RU-PTO, estacionado à porta da igreja, o favor de o retirar desse local. Obrigado. LCA

Tá bem abelha 

Outro nosso amigo veio até ao DC através da busca “isabel figueira nua”. É só para dizer que há dois meses que aqui ando, de caçadeira em punho, e ainda não passou ninguém com essa descrição. Deixo aqui outra sugestão, menos colorida é certo, mas ainda assim com potencial: já tentou “isabel figueira robe de chambre”? LCA

Eu, Nostradamus. 

Alguém acabou de chegar ao DC com uma busca no Google por "Lena Coelho". Também tu, amigo? LFB

Não, isto não é sobre a blogosfera. 

Para todos aqueles a quem a fama subiu à cabeça, uma frase do escritor Fernando Vallejo:

A glória é uma estátua cagada pelos pombos.LFB

Uma da manhã, hei! 

Nos últimos dias fiquei sério: publiquei um e-mail com a história de amor de dois avós, respondi a correio sentimental e falei mesmo do tempo em que estive para casar. Ora bem, na senda de assuntos com este grau de importância sobra-me apenas abordar um último tema. Falo, claro, das mamas de Lena Coelho.
Pergunta o leitor, "quem é a Lena Coelho"?
Ora, pois: Lena era uma das meninas que integrava as DOCE, essa girls-band à frente do seu tempo. E foi devido a Lena que, um belo dia na adolescência, depois do 154º jogo de futebol da minha vida, suado e com borbulhas, exclamei - perdoem-me as leitoras o machismo brutal: "Ah! Então é para isto que elas servem!".
Foi Lena Coelho quem me despertou para as alegrias do sexo feminino e, em particular, o seu rotundo, robusto, poderoso, exorbitante peito, que raras vezes encontrou comparação. Recordo, nostálgico, a prateleira de uma Sabrina, as alegrias de uma Adjani, a exuberância de uma Sophia Loren (aliás, ainda hoje daria uma voltinha com esta anciã italiana, só para o currículo - mas isto fica para outro post...).
Tenho poucas certezas na vida mas uma delas é que só me levará ao altar a feliz proprietária de um busto de semelhante quilate. Com ou sem cirurgia plástica. Não sou esquisito.
Se escrevo isto foi porque vi hoje Lena Coelho no Canal Vivir... Não, mentes perversas. Foi à hora de almoço e a senhora discursava sobre ferros de engomar. Estavam lá as meninas dos meus olhos, maiores do que nunca. Infelizmente, tudo o resto aumentou também, tornando Lena Coelho uma espécie de lasciva boneca da Michelin. Ficarei com a última memória que tinha dela, numa inefável sitcom tuga, interpretando a esposa de Victor de Sousa. Um casal tão credível como Betty Grafstein e Cláudio Ramos. LFB

Há nisto sinceridade? 

Tenho visto, reiteradamente, os blogues conservadores propagarem o quanto detestam a mudança nas coisas mais prosaicas, com uma profissão de fé que não tem o correspondente nos blogues de esquerda a afirmarem que adoram mudanças.
Isto derivaria da falta de curiosidade do conservador perante o género humano, do seu pessimismo: o homem sempre igual a si mesmo não lhe mereceria falsos arrebatamentos.
Pergunto-me o quanto tem esta atitude de sincero, porque me soa a uma pose, a uma estética forçada.
Será realmente excelente comer há 20 anos nos mesmos restaurantes, ir ao mesmo barbeiro, livrarias, cafés, ter os mesmos amigos, dormir com a mesma mulher, porque tudo isto já foi testado, deu provas, satisfaz-me e para quê mudar?
Não ponho em causa a diversidade do género humano, há naturalmente pessoas mais dadas à estabilidade, à segurança, à rotina, e outras mais dadas à aventura e ao risco. Também não discuto o que dá mais felicidade, ou a profunda necessidade de estabilidade a várias níveis, como aliás o demonstrou, através de uma pirâmide, Bentham.
É que mesmo partindo desse pressuposto de que os conservadores são pessoas que sentem mais essa necessidade de estabilidade, amarras e âncoras para a sua felicidade, custa-me a acreditar totalmente que tenham realizado, com êxito, a amputação da natural curiosidade humana, que nunca tenham sido surpreendidos nas suas vidas por "ignóbeis" mudanças mais positivas que negativas, que nunca se surpreendam a si mesmos sobre as pessoas que julgam ser ou duvidem dos gostos que tomam por certos e adquiridos.
Pergunto-me pelas raízes desta atitude ? Há, claro, um terrível medo da mudança e da desilusão que todos partilhamos, conservadores ou não. Mas não é por pôr uma venda nos olhos, não é por não pormos um pé em falso, que a desilusão não nos vem bater à porta.
Até um conservador precisa de testar q.b., errar e desiludir-se para se auto-conhecer e saber do que o género humano é capaz. Nada é dado à priori, sem empirirismo. Nenhum ser humano se diz em honestidade a si mesmo, não vale a pena, não tentes, já foi testado.
Digam o que disserem os conservadores, as convicções, as certezas, que eles afortunadamente possuem em maior abundância do que os não-conservadores, só se adquirem com experiência pessoal. Não defendo a experiência pela experiência, a mudança pela mudança, mas se esta acontece não a odeio, vejo o lado positivo: a capacidade de adaptação, de superação, de nos redescobrirmos a nós mesmos, de descoberta da diversidade do humano e das possibilidades da vida.

CMC

segunda-feira, julho 21, 2003

Verdades sobre o tempo 

As tardes que não acabam cedo dão vontade de beber caipiroskas a partir das quatro.

Na Noruega, o Ministério da Justiça fecha às três da tarde.

Ir ao café às sete e meia da manhã, depois de comprado o jornal, é um acto de civilização novecentista.

O amor é tão intemporal que não permite qualquer certeza expressa por palavras.

Os abraços sentidos duram sempre mais do que de facto duram.

Os países onde as bibliotecas e as livrarias com café expresso fecham cedo são países que deveriam fechar no Verão.

Há palavras que quando são ditas não têm som, apenas o tempo da sua expressão.

A pontualidade dos animais é pouco apreciada e ainda menos discutida.

MR

A felicidade na praia 

Não foi o sol estendendo-se, como um imenso corpo de luz e calor, em cima de todos os corpos. Não foi a alegria das vozes e dos vultos agitando as raquetes para procurar o suor. Não foi a espuma trazendo pequenos heróis em cima de pranchas. Foi um sopro de ar marítimo durante um passeio rente à água. Um sopro contínuo e aberto, um sonho de algas que subia até nós. NCS


CALMA, NÃO DESISTA AINDA! 

Se acaba de chegar ao DESEJO CASAR, por PC, e o seu cursor (do lado direito) desapareceu, não desespere. Vá ao cantinho superior direito do écran e faça "restore down", o que abre uma caixa mais pequena onde o cursor já existe e pode ler todos os posts. Se quiser, depois de "restore down", clique em "maximize" e tudo estará normal. Bom proveito!

GRANDES SURPRESAS PARA BREVE...

Hipno-marcha-a-ré 

Digo-vos isto com a maior franqueza. Se eu fosse um legionário romano do século I a.C., acabadinho de morrer às mãos de um impetuoso Eburão na Gália Ulterior, ficaria bastante arreliado se soubesse que viria a reencarnar, vinte séculos depois, na marquesa do Sono da Verdade - em directo para todo o país - sob a identidade de Heldér Sarrabulho Castanhola, natural de Alijó. Verificando-se tal reencarnação, ela seria, para além da despromoção civilizacional, um verdadeiro dó de alma. Aliás, sempre me fez muita confusão que 90% das encarnações passadas recaiam sobre legionários e centuriões romanos (os outros 10% são sempre quadros superiores da Gestapo).
Nunca ouvi falar, por exemplo, de alguém que numa outra vida tivesse sido um labrego ou um energúmeno. Imagine-se uma sessão de regressão hipnótica, onde a cartomante ou a bruxa – como lhe quiserem chamar – hipnotiza um cliente (pato):
- Diz-me… quem és tu? – Pergunta a cartomante com uma voz cavernosa.
- Brrrrr… uuhhh… brrrr… – Delira o tipo, revirando os olhos, enquanto rabisca um papel.
- Diz-me… quem és tu?
- Brrrr… Sou o Amadeu… Uhhhh…
- Amadeu, fala connosco… o que tens para nos dizer?
- Brrrr… Ó Lurdes, trás-me as batatas! Já te disse duas vezes melher. À terceira levas nos cornos! Uhhh…

Vem isto a propósito do último episódio do Sono da Verdade da SIC, onde deitaram uma badochas numa poltrona a fim de se lhe administrar uma hipnose regressiva. A desgraçada - para além da cremalheira feita num oito - descobriu que nas três vidas passadas tinha sido sucessivamente esfaqueada nas costas, multi-violada e, para completar o lindo ramalhete, enterrada viva. Tenham paciência! A menos que a badochas fosse lixo cósmico, semelhante curriculum não podia ser imputável a uma só pessoa (mesmo que viva na cintura industrial).
Acho que se deviam levar estas coisas mais a sério. Sugiro que se convide alguém que dê prestígio ao programa – que o credibilize. Podiam chamar gente importante, gente do mundo do espectáculo, ou mesmo da política. Porque não? Podiam aliciar um presidente de junta ou um deputado ao programa. O sucesso seria practicamente garantido.
A cena quase se adivinha: o deputado da nação, estendido num divã, circungirava os olhos esbugalhados e exigia em directo - a toda a plateia, a todo o país – a indecência de um patinho de borracha no duche. Dispensavam-se desta forma as facadas nas costas e as inumações - tudo patranhas inverosímeis.
Imagine-se de seguida um presidente de junta, coradinho e abotoado, acabado de chegar de um corte-de-estrada, a refastelar-se num sofá, predispondo-se à hipnose. O tratante adormecia, iniciando uma viagem no tempo… Infelizmente, qualquer coisa corria mal e o desgraçado regredia tanto no tempo - mas tanto – que acordava estendido numa lamela, a tiritar de frio, no Instituto Dr. Ricardo Jorge.
Tá bem abelha… LCA

CORREIO SENTIMENTAL 

Cabe-me a honra de iniciar uma rubrica que se tornará regular no DC, na qual responderemos a propostas matrimoniais, indecentes, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Este é o primeiro e-mail - só a parte que interessa:

"(...) Agora quero falar em relação ao nome do vosso blog, eu não desejo
casar, porque de homem, estou bem servida, mas uma amiga minha deseja!
Eu, como sou casamenteira, e como acho que uma mulher sem homem, é como um dedal sem dedo, uma flor sem corola, um pente sem dentes, um dente sem raíz, uma raíz sem caule, etc, etc, poderia estar aqui a dizer uma série de banalidades, mas acho que já chegam. Portanto, vou dar-vos o perfil dela a ver se estão interessados: É meiga, culta, trabalhadora, gosta dos Açores..., é um bocadinho "low profille", como convém a uma mulher que deseja casar, enfim, é quase perfeita. Digam se estão interessados que eu mando o email dela. Claro que ela a seguir mata-me, mas depois logo se vê! Queriam saber quem sou eu? advinhem, dou-vos uma pista: sou branca e simpática.

sou moi meme"


Cara moi,

A recomendação da sua amiga começa muito bem. "Meiga, culta, trabalhadora". Faz-me lembrar a minha mãe... Freud explicará isto melhor do que sou capaz. O facto da sua amiga gostar dos Açores é um ponto a favor uma vez que os irmãos Borges - a quem dirige o seu e-mail - são orgulhosos ilhéus. O que me preocupa é a última característica do perfil: "low-profile". E acrescenta, "como convém a uma mulher que deseja casar". Reparo que evitou o epíteto "simpática" ou "muito-bonita-por-dentro", mas o low-profile da sua amiga não augura nada de bom em relação aos atractivos físicos da mesma. Devo dizer que o low-profile não me seduz. Procuro uma mulher espampanante, sensual, decotada, que dê nas vistas e seja cobiçada. Algo que resolva os meus traumas de adolescente. Veja o caso "João Lopes/Alexandra Lencastre": não durará mais de 3 meses mas que recordações desse tempo guardará o cinéfilo! Sou um homem imaturo e infantil, gosto de mulheres-troféu e de chorar baba e ranho quando elas partem. Não sei viver de outra forma. Se a sua amiga corresponder aos meus desejos, envie o e-mail da mesma:

prometo juras de amor, sedução à antiga, romantismo exacerbado, um casamento cinematográfico, e um divórcio litigioso ao fim de, vá lá, meio ano. Já me tremem as mãos de entusiasmo. Ah!, e depois de tudo, sim... desejarei ainda casar.

LFB

Sandro G. 

Foi por vê-lo que deixei ficar o televisor no “Herman Sic” que inspirou o post anterior. Um gigante musculado e tatuado, rapper luso-americano retornado aos Açores. Passada a agressividade da actuação, rebenta um sorriso pueril, distribui abraços fortes de rua e todos trata por “campeão”. Oferece uma camisola do Santa Clara a Herman e agradece-lhe, várias vezes, o tê-lo ajudado a tirar do buraco em que estava. Diz-lhe, perdido entre o jeito humilde e a total convicção, que, quando o for visitar a S. Miguel, terá casa, mansão, penthouse, BM ou Mercedes, peixe, carne, charros, o que quiser, por sua conta. Tudo numa retinta pronúncia de “micaelo-americano”. E eu comovi-me. Pensem o que quiserem, mas acho que não era para menos: no meio de tanto plástico, um momento singular de verdade.
AB

Herman 

Tenho dificuldades em aceitar a sua queda. Não compreendo como alguém tão genial se torna tão egocêntrico – e, escrevendo isto, de repente, parece fazer todo o sentido. Está mais louro que o Roberto Leal e fala mais em “gente bonita” que a Lili Caneças; não deixa um único convidado falar e é sempre amicíssimo de toda a gente. Gandhi podia voltar à vida e ir ao programa que, mesmo assim, não teria hipóteses: ouviria graçolas com a sua careca, analogias entre gostar do Ganges e de lutas na lama e elogios do tipo “Sabes, Gandhi, sempre acreditei em ti e no teu trabalho. Aliás, estava, aqui há dias, a ver uns iates em Miami, quando encontrei o meu querido amigo Al Pacino e lhe dizia isso mesmo. E agora, vou-te apresentar outro querido amigo meu de quem tenho a certeza de que também vais gostar muito. Senhoras e senhores, uma salva de palmas para… o Professor Herrero!”
AB

Post(iga) 

Dois jogos de preparação e já lá vão dois golos para Hélder Postiga – muito bem! É claro que não se fala de quem bem começa, mas de quem bem acaba, mas que o homem promete, promete. Não tem penteados mal aconselhados como Cristiano Ronaldo nem consta que tenha comprado um Porsche mal fez dezoito anos como Quaresma, mas corre, luta, finta, chuta e marca – serve? É certo que tem no rosto uma certa expressão “mourinhesca”, mas convenhamos que seria quase inevitável não a ter. Felizmente, quando Pauleta acabar – e ainda faltam uns tempos – Portugal terá ponta-de-lança para mais dez anos. Entretanto, o Tottenham é que fica a ganhar. E o Benfica.
AB

CONSTATAÇÃO FELIZ 

Tenho esperança num país em que uma bomba sexual troca um "Ken" rico e charmoso por um crítico de cinema com idade para ser seu pai.

LFB

domingo, julho 20, 2003

Justiça portuguesa 

Acabo de ouvir o vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura (CSM) no Telejornal da RTP 1, entrevistado pela jornalista Judite de Sousa.
Disse coisas estranhas e que me fazem temer o pior, se pensam, ajem e falam assim dirigentes da cúpula judicial, o cimo de um aparelho que a comunidade compreende mal e relativamente ao qual começa a duvidar.
Os juízes não estão acima da opinião pública, nem acima do poder político. É positivo que falem na comunicação social (já outra coisa é o modo levaiano e imberbe como a generalidade da comunicação fala de processos judiciais, de forma confrangedora e quase risível, se não fosse o trágico das situações). É também natural que não comentem declarações políticas.
Mas já não parece normal muito do que se retira das declarações do senhor vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura, magistrado judicial com especiais responsabilidades no estado da justiça portuguesa, para o bem e para o mal.
Os juízes são chamados e pretendem continuar a ser chamados a um esquema de auto-gestão, imune a sindicâncias e avaliações externas. São um poder soberano, para poderem continuar independentes. Só assim se percebe que, no fim de Julho, se possa dizer com aparente tranquilidade que o movimento anual de juízes apenas virá a ser tornado público no fim de Setembro, após terminarem as férias judiciais. Se alguém, numa empresa privada ou mesmo num serviço da administração, gerisse assim recursos humanos, já tinha ido para a rua há muito tempo. Como são os juízes, parece a tranquilidade natural da soberania. Aliás, também férias judiciais que ocupam o dobro do tempo da generalidade das férias dos funcionários, são uma coisa estranha, atendendo até à morosidade generalizada dos processos.
Afirma (e várias vezes o repete) também que não comenta decisões judiciais em concreto – as escutas a Ferro Rodrigues, necessariamente dependentes de despacho judicial, e a não apreciação do recurso da sua defesa pela Relação de Lisboa -, mas abusa das referências a uma outra decisão, esta já do Tribunal Constitucional... Já não está o Tribunal Constitucional na esfera do CSM, não é? Como são “juízes políticos”, vá de comentar. Agora, quando são os meretíssimos juízes do CSM...
Fica também da pequena entrevista ao vice-presidente do Conselho Superior de Magistratura a ideia de que os juízes acabam por não saber o que decidir ao abrigo do Código de Processo Penal. Repete várias vezes o senhor vice-presidente: “é uma das interpretações, é uma das possibilidades, é uma das vias possíveis...”. Será, eventualmente. A interpretação das normas é um negócio complicado, como se sabe – mas parece fácil ao senhor vice-presidente deixar nas entrelinhas e nas linhas que vai dizendo e silenciando opiniões sobre a legislação. Parece-lhe mal o Código de Processo Penal? Então, e já que tem assento no Conselho Consultivo da Justiça há vários anos, onde estiveram as suas propostas de alteração, sérias, fundamentadas, úteis para a justiça, para os cidadãos, para a clareza, simplicidade e justiça do sistema. Apresente-as ao parlamento, apresente-as ao Governo, apresente-as ao Ministério da Justiça. E, já agora, apresente-as publicamente.
Parte do problema da justiça passa pelo adensar de procedimentos excessivamente complexos, tecnicamente perversos em função do resultado final. Perdeu-se muito da ideia de justiça concreta, alimentou-se o ego de magistrados, professores e advogados. Qualquer mudança que acabe por acontecer, mais tarde, não poderá esquecer esta lição. O “keep it short and simple” (e vamos esquecer o “stupid”) da vida televisiva pode ajudar a justiça. A manutenção das meias palavras e da neblina não.
Há dois anos atrás, participando numa conferência com alguns magistrados judiciais, fiquei estupefacto com a situação de um magistrado que, do alto do palanque, se insurgia com o facto do seu email no tribunal terminar em @mj.pt... (Ministério da Justiça). Parecia àquele magistrado que este facto era um atentado à soberania e independência da magistratura judicial, ter um email do Ministério da Justiça. Depois de ver que ele estava a falar a sério e que ninguém mais parecia perceber o ridículo da coisa, achei por bem não comentar o facto, eu, o mais jovem orador da mesa e ainda por cima em representação do Ministério da Justiça, o bobo da festa habitual nestas andanças. Mas é complicado. Pode ser que isto melhore, em especial se se falar com seriedade, depois de ler um bocadinho e se falarmos uns com os outros, de boa fé e sem vivências corporativas de índole freudiano.
MR

País possível 

Pede-se a Ruy Belo o título: País Possível. Depois, é só remontar à noite de 27 de Maio de 1871. Decorrem as Conferências Democráticas e é Antero de Quental quem fala: Há, com efeito, nos actos condenáveis dos povos peninsulares, nos erros da sua política, e na decadência que os colheu, alguma coisa de fatal: é a lei da evolução histórica, que inflexível e impassivamente tira as consequências dos princípios introduzidos na sociedade. Antero continua: Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. É também de passado que escreve Eugénio de Andrade, de passado e de um país possível de onde se avista o mar. Quebra-se-nos então a exaltação ensinada por Antero.
Estou sentado nos primeiros anos da minha vida,
o verão já começou, e a porosa
sombra das oliveiras abre-se à nudez
do olhar. Lá para o fim da tarde
a poeira do rebanho não deixará
romper a Lua. Quanto ao pastor,
talvez um dia suba com ele às colinas,
e se aviste o mar.

O DIA DO MEU CASAMENTO 

Domingo, 20 de Julho de 2003,

há cerca de 4 anos marquei numa agenda este dia como data da celebração do meu casamento. Nessa agenda estavam muitas coisas mais: a igreja, Sé de Faro, onde decorreria a missa matrimonial ao bom estilo dos melhores filmes piegas; uma lista - feita por brincadeira - com os nomes dos 120 convidados; e até os nomes de 3 dos 4 filhos desejados. Miguel, Henrique e Catarina. A Catarina em último para que tivesse dois irmãos mais velhos que a defendessem da cobiça que a sua beleza invejável viria a despertar. Ao quarto filho não se podia dar nome. Seria um menino preto (os racistas sem espelhos em casa preferem dizer "de cor") a adoptar entre o nascimento do primeiro e do segundo rapazes.

Encontrei ontem essa velha agenda. Raramente voltei a Faro desde o tempo em que tudo aquilo foi escrito e nem me lembro da Sé. Pelo menos 50% dos "convidados" são pessoas com quem nunca mais me cruzei sequer. Mas os nomes das crianças continuam a ser os meus preferidos.
Passei este sábado a pensar na pessoa que era nesse tempo. Estava a viver há um ano com a mulher da minha vida, a um ano de terminarmos o curso, e perspectivava o meu futuro de fato e gravata, como advogado. Recordo-me que, se nunca gostei de Direito, também é verdade que esse hipótetico futuro era tranquilamente aceite pelo meu coração.

Tudo mudou. Não vejo a Sofia há mais de 3 anos. Nunca mais tive agendas. Mas espero que, se estiver casada, não tenha perdido a vontade de adoptar uma dessas crianças que os portugueses deixam para último nas listas de adopção. Espero que seja feliz. Espero que perdoe as coisas más que fiz num tempo em que ainda crescia. E espero, enfim, que não escreva detalhadamente numa agenda os planos importantes que tem para o seu futuro. Se a pena é mais poderosa que a espada vê-se nas páginas impossíveis que relemos uma última vez antes de as rasgar.

LFB

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