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sábado, setembro 06, 2003

mensagem cifrada (que pode ser útil)  

Gostos não se discutem, lamentam-se. LFB

piadola gratuita 

Ele era tão estúpido, mas tão estúpido, que pensava que o canal da Mancha era da TvCabo. LFB

sexta-feira, setembro 05, 2003

Classe: 1 Portugal: 0 

Minuto do jogo no Portugal-Turquia de hoje: não o do 2º golo turco, que matou o jogo, mas sim o momento em que Portugal empata. Guarda-redes e defesa atrapalham-se e a bola ia para a baliza em auto-golo. Lourenço faz o favor de, em cima da linha (ou para lá dela), reivindicar esse golo cretino para si. Pior, festeja o miserável golo do empate, quando - a jogar em casa - Portugal precisava mesmo de ganhar. É nesse preciso instante que acontece uma daquelas imagens memoráveis que me fazem adorar este jogo. Hugo Viana, o único português à altura dos turcos, vai atrás de Lourenço com cara de poucos amigos e puxa-o pela camisola, impedindo-o de continuar a festejar o golo. A classe empurra a patetice para o meio-campo. Como existe no futebol uma peculiar justiça poética, Lourenço viria a falhar duas claríssimas ocasiões de golo.

Já agora, alguém seria capaz de explicar a Cristiano Ronaldo e Quaresma que o futebol é um jogo colectivo há, pelo menos, mais de 100 anos?
Em vez destes dois, preferia ver duas modelos nas suas posições. Em termos de eficácia, o resultado era o mesmo: perderiam sempre a bola para o adversário directo. Mas ao menos, em vez de dois "meninos mimados" que se destacam no início dos jogos por fazer uns bonitos, teríamos duas mulheres bonitas a quem fazer miminhos no fim dos jogos. LFB

Senhor comerciante, senhor industrial da restauração, esta é para si 

Pede-se a gentileza de, quando pretender vender no seu estabelecimento a iguaria apelidada de

COXA DE FRANGO

não o indique através de formulações habitualmente vistas como ?cocha, coucha, côcha, couxas?, etc., que podem induzir em erro quanto à verdadeira natureza do produto em questão.
?Cocha?, por exemplo, significa ?gamela?, pode designar ?uma espécie de canudo onde os corticeiros guardam a roupa ou a comida? e é também sinónimo de ?cocho?, este último podendo apelidar um ?tabuleiro para transportar a argamassa?, a ?caixa onde gira o rebolo dos amoladores?, uma ?vasilha para dar água a gado? ou mesmo ?porco?. No Brasil, cocha significa também ?empenho?.
Não obstante a generalidade das coxas de frango à venda poderem assemelhar-se dramaticamente a canudos onde se guarde roupa suja, terem ar de serem transportadas em tabuleiros de argamassa, serem efectivamente aguadas e provavelmente nutritivas para o gado, serem, em suma e numa palavra, porcas, não creio que seja esse o sentido que o senhor comerciante pretenda realçar.
Da próxima vez que uma menina, brasileira e simpática, ao balcão me quiser vender uma cocha, não hesitarei em dizer-lhe:
- Deixe lá... Mas até que podemos aproveitar essa sua cocha. Não quer antes que lhe mostre o meu rebolo? MR

Fiat Lux  

Encostado a um puf - a propósito, destesto pufs, mas isso será matéria para outro post -, dizia eu, encostado a um puf encarnado (de proporções paquidérmicas) numa das salas do Lux, medito sobre duas ou três banalidades, como a de já não ter a mesma paciência para discotecas nem para banalidades. À minha frente, semi-ocultada pela fauna dançante e ululante, está uma rapariga com um cigarro na boca à procura de lume. Pego na minha carteira de fósforos e avanço.
- Assim é mais giro, é como nos filmes. - exclamo, riscando um fósforo que acende à primeira - Pelo menos nos antigos, naqueles a preto-e-branco...
Ela ri-se e segue à sua vida. Eu sigo à minha.
Uma hora depois, falando com os amigos, reconheço-a novamente perto do bar, de cigarro apagado na boca. Faço-lhe sinal e um sorriso. Ela avança.
Sem dizer nada inutilizo três fósforos que não acendem. À quarta é de vez.
- Isto nos filmes antigos nunca acontecia - enquanto lhe estendo o lume - Pelo menos naqueles com o Humphrey Bogart.
- Ela sorri e agradece.
Isto até podia ser o princípio de uma bela amizade, penso. Mas não estamos num filme a preto-e-branco, nem o Sam está sentado ao piano. Estamos no Lux e os cigarros advertem no maço os perigos para a saúde.
Conversamos um bocado e os meus amigos chamam-me. Antes de sair ofereço-lhe a minha carteira de fósforos. Ela recusa educadamente. Eu digo-lhe para aceitar.
Se fosse num filme a preto-e-branco teria deixado um número na parte de dentro da carteira de fósforos. Como não é, deixo-lhe uma morada: www.desejocasar.blogspot.com.
Pode não ser o princípio de uma bela amizade, mas pelo menos ganhei uma leitora.
Play it again Sam! LCA

E o D. Duarte, afinal, não fica a dever muito ao António Banderas… 

Lendo, por razões laborais, uma antologia da Reader’s Digest acerca da monarquia portuguesa, encontrei a melhor lista de eufemismos de todos os tempos.
Na secção dedicada à cronologia e breve biografia de cada um dos nossos reis, as margens acompanham com um retrato e a sucinta descrição física legada por alguns historiadores antigos. Ficamos, então, a saber que nenhum rei, note-se, nenhum rei português era feio ou baixo ou gordo ou careca. Dos baixos se dizia que tinham “estatura média, mais para o menor que para o maior”; dos gordos que eram “bem proporcionados” e dos carecas que tinham “testa alta”. Mas o óscar para a melhor caracterização vai para aquela a que cumpre descrever a fealdade do Cardeal D. Henrique (óbvia na imagem): dele se pode ler que era “não feio, mas pouco agradável na presença”.
A isto, amigos, calculo que se chame poesia ou, na pior das hipóteses, boas maneiras. Da próxima vez que uma gorda sardenta se atire a si na pista de uma discoteca qualquer, ou que a quarentona coxa do seu escritório lhe passe a mão pelo pêlo ou que a amiga da sua amiga, meia-roda e estrábica, lance um olhar ao seu ombro, julgando que o está a fixar nos olhos, desculpe-se, amavelmente, e recuse, alegando que nenhuma delas é feia, mas que gosta mais de raparigas amáveis na presença…
AB

quinta-feira, setembro 04, 2003

Por favor, vão-me explicando o que é isso do futebol 

Apesar das declarações de alegria de Mourinho pelo facto de o Benfica não ir à Liga dos Campeões, puxei pelo Porto durante o jogo com o AC Milan. Sim, fui ensinado a responder à brutalidade com boa educação. E, para além disso, continuo a ter um lado de patriota barato. Ainda hoje ao almoço, alguém me disse que esse patriotismo significa que não percebo nada de bola - mais, que não gosto verdadeiramente de bola. Foi apenas mais um a avisar-me disso. Já havia sido confrontado com essa evidência através da voz autorizada de alguns amigos. Inclusive, já me disseram que puxar pela selecção é coisa de mulheres. Agradeço os ensinamentos. E, do chão, do húmus da minha ignorância futebolística, peço imensas desculpas por me esquecer de introduzir os clubes e a clubite nas minhas opiniões sobre futebol, por achar que, em muitos casos, as derrotas do Benfica se devem mais à inabilidade dos jogadores e da equipa técnica do que à incompetência dos árbitros, por, em nome do meu nacionalismo açoriano, trocar, de vez em quando, o Benfica pelo Santa Clara, por já ter sido adepto, por exemplo, do Salamanca, do Desportivo da Corunha e do Bordéus, só pelo facto de estes clubes terem contado com a ajuda de um jogador nascido na freguesia ao lado da minha, por, tal como o PM, hoje em dia, só reacender o meu benfiquismo quando o SLB está a ser demasiado atacado, por manter uma relação afectiva com o Belenenses, que tem exactamente a mesma idade do meu avô (nascido em Belém e ex-praticante de atletismo no clube), por ter vibrado com a vitória do Porto frente ao Bayern na final da Taça dos Campeões Europeus, por ficar triste quando o Boavista não vai tão longe na Europa, por ver em alguns jogos da selecção uma luta saudável entre nações, por, desde pequeno, ter, à semelhança do LFB, a esperança de que os (à partida) mais fracos possam derrotar os exércitos "invencíveis", por desejar que em certas partidas de equipas das quais me sinto próximo haja muita competitividade (muitos golos, de um lado e do outro), em nome do interesse dos jogos. Peço desculpa por tudo isso. Vocês é que sabem de futebol. Eu sou apenas um amador a precisar de ajuda. Talvez um dia possamos finalmente falar sobre bola, com uma imperial e uns tremoços à frente. Por enquanto, vou tirando notas das vossas doutas opiniões. NCS

Um contributo para o dicionário do Não Esperem Nada De Mim 

Bota que tem! – expressão idiomática terceirense que ninguém sabe, ao certo, o que significa. “Bota”, isoladamente, corresponde à terceira pessoa do singular do presente indicativo ou, neste caso, do imperativo, do verbo “botar”, isto é, “pôr” ou “colocar”. O conjunto da expressão revela-se, no entanto, um complexo mais difícil de traduzir. Vulgarmente, é utilizado como afirmação de concordância com uma proposta feita supra por outrem. Exemplo: alguém diz “Óme (homem), bora aí (e se fossemos) esbagaçá (destruir) as pernas à Barbie da tua prima?” e outro completa “Bota que tem!” Ou: “Ê… (ei!) Bora-se (vamos) comê (comer) uma amberga (um hamburger) ao Marcelinhos (na verdade, “Marcelino’s”, um café da ilha, passível de ser, no uso, substituído por uma pastelaria ao gosto e região do interlocutor) e o outro “Ô… (ora) bota que tem!”
Espero que dê jeito.
Como vêem, a língua de Nemésio é um pequeno tesouro que resiste ainda e sempre a esse invasor zarolho que por cá governa.
AB

foi, sem mais nem menos, que me deu para partir sem destino nenhum 

Regresso a Lisboa e reduzo o ritmo de posts. O trabalho estava à espera com o ritmo frenético de sempre e, mais importante que isso, tinha uma dívida a ajustar com o meu conta-quilómetros. Um mês de férias provocaram-me saudades do meu carro. Era preciso bater a barreira dos 18.000 kms. Está feito.
Já muitos escreveram, disseram ou pensaram das vantagens terapêuticas contidas num passeio de carro. Não fujo a essa regra. Poucas dúvidas ou neuras resistem a uma volta longa de mãos no volante e cd apropriado.
O 206 tem quase dois anos. É nele que, todas as manhãs, venho a cantar os temas em que me deixo viciar. Por estes dias, melodias dos Mew e os inevitáveis Tribalistas. É no trânsito que escrevo mentalmente a maioria dos posts e é viajando à noite que alinho a agenda do dia seguinte. Mais simbólico que estas mundanices, é no carro que recordo kilómetros antigos, como diversas etapas de um paris-dakar do coração. Enfim, quando penso nisso as imagens costumam ser menos pirosas... Mas gosto de me lembrar dos co-pilotos que partiram.
Olho para o conta-quilómetros e recordo-me dos primeiros 200 kms, feitos directamente a partir do stand, ao lado de F., que deixei abandonar o carro cedo de mais; lembro-me da travessia entre os 2000 e os 5000 kms, feita à banda-sonora da voz desafinada de R.; penso no dia em que cheguei aos 10.000, num silêncio nervoso partilhado com S.; e deixo-me angustiar com uma viagem de Leiria para Lisboa, que durou 4 horas, porque algures entre os 13000 e os 13200 kms, eu e A. parámos em todas as estações de serviço para nos permitirmos aquilo que o carro não deixava.
Tinha estúpidas saudades do 206. Até mesmo da grande maioria dos kms passados, percorridos em solidão. E regresso a ele com prazer, apesar de demorar tanto tempo a arrancar por ser tão difícil apertar o cinto às paixões perdidas que se acotovelam, educadamente e como convém, no lugar do morto. LFB

quarta-feira, setembro 03, 2003

Suspeição generalizada, aproveita a quem? 

"O sistema funciona", garante o Bastonário da Ordem dos Advogados, a propósito do último incidente no Processo Casa Pia, justamente no primeiro dia da videoconferência, com vista a obstruir o começo da inquirição das testemunhas, com vista a afastar este juiz do processo.
Funciona? Interroga-se o cidadão anónimo. A obstrução, a inércia, a burocracia, o arrepiar caminho, sim, isso funciona, com a ajuda de tudo: mentalidade, leis, quem as sabe manejar.
É necessário que se avance para que acabe este clima de suspeição generalizada que nada poupa, que se abate sobre as instituições, os arguidos, as testemunhas, que põe em causa a separação de poderes, a justiça material.
O arrastar deste processo com este tipo de incidentes, só descredibiliza a investigação, o M.P, a imagem dos advogados e da advocacia e agrava a sensação de que isto não passa de um jogo pouco sério, de regras não pré-definidas mas ainda por definir, alimentado pelo "show"televisivo e, pior, que tudo, aumenta a sensação de impunidade e de falta de confiança dos cidadãos em que alguma vez a justiça chegue a bom termo. CMC

A última "Grande Reportagem" 

Vale a pena comprar a " Grande Reportagem" deste mês, a última em edição mensal, pois a partir de Novembro passa a tiragem semanal (a acompanhar a edição de sábado do DN) pelo ensaio de Pedro Mexia, surpreendentemente optimista, sobre " A cultura no futuro", o ensaio de Ribeiro Telles: "Como será a vida nas cidades" e as notas do editor, o Aviz, sobre " a necessidade de amar as árvores". CMC

Um post para ti, maninho. 

O meu mano Zé deve estar, por estes dias, a fazer a sua iniciação à blogosfera, por enquanto, apenas como leitor.
O Zé é um alentejano feito homenzinho nos Açores que vive em Coimbra. É um guitarrista do catano e, dentro em breve, será um geógrafo da mesma espécie. Tem a melhor vista sobre a cidade e corre o País num Renault Super 5, há-de casar com a Marisa e ter os filhotes mais adoráveis do mundo. O Zé é gente grande, tudo quanto alguma vez quisemos de um amigo, a pessoa junto da qual sabemos que podemos fechar os olhos porque ela nos guiará a um sítio bom.
Se já chegaste ao Desejo Casar (isto é, se ainda não perdeste o post-it que por aí deixei com este endereço), é preciso, talvez, que te faça uns esclarecimentos iniciais. A blogosfera é o mundo dos blogs, posts são os textos, Pedro Mexia, Francisco José Viegas e Joel Neto três privilégios de quem frequenta estas páginas e “Desejo Casar”, o nome deste burgo, não significa que a malta ande mesmo toda por aí a correr casamentos, à cata de um bouquet. Os blogs eles próprios são uma coisa que não serve para nada em especial, mas que sempre dá, amigo, para fazer este tipo de homenagem.
Aparece sempre que quiseres.
E toma lá um abraço blogosférico com a força de um real!
AB

"Alguém vai ter de pagar!" 

Epifania:

O FC. Porto não só é a melhor equipa portuguesa como tem todos os traços de um certo tipo de portugueses. Explico: vai ao estrangeiro e diz à mulher que é "em negócios". Passa uns diazitos no Mónaco a seduzir a cosmopolita, fatal e sedutora amante italiana. Esta, insensível aos avanços do macho ibérico, recusa-o. Ofendido na sua masculinidade, o português regressa a casa enfurecido.
Da primeira vez que encontra a mulher, submissa e maneirinha, prega-lhe uma valente surra. Ela, desesperada, ainda lhe acerta com um tacho na cabeça.
Resultado: 4-1.
O português está vingado.

Venham daí essas caneladas. Temas para debate: poderá a vítima vingar-se amantizando-se com o vizinho da 2ª circular? Serão as expressões faciais de Mourinho quando festeja os golos uma reminiscência genética do Homem de Neanderthal? Se Jim Carrey fosse um sapo poderia Maniche ser um girino? LFB

terça-feira, setembro 02, 2003

Ainda e Sempre 

Após quase vinte dias a cumprir o anátema da crise («vá para fora cá dentro»), percorrendo mais de 2000 km por estradas portuguesas de norte a sul, com paragens no Sotavento Algarvio, no Guadiana, no Alentejo e na Serra do Soajo, posso afirmar aos quatro ventos, com todo o orgulho do mundo, que mesmo com 5% do seu território devastado por incêndios, mesmo com as estradas povoadas de assassinos e imbecis, mesmo com a bandalheira das rotundas e dos PDM, e mesmo com autarcas corruptos, caciques, casapianos, escândalos, incúria, o regresso do Big Brother, o excesso de conservadores na blogosfera e o afastamento temporário do nosso Bernardo (que seja breve, ó campãlegre!), mesmo com todos os seus defeitos, que são tantos e tão graves, este País continua, simplesmente, Lindo. RS

Vocação: famoso 

Prontos, isto é assim: há mesmo aí uma nova geração de jovens-que-querem-ser-famosos-a-todo-o-custo. Alguns portugueses com idades para estudar voltaram a entrar dentro de uma casa em nome da fama. Antigamente, queríamos ser médicos, astronautas ou dentistas de esquilos. Hoje, há uma data de gente que nasce com a vontade de ser famosa. Os miúdos têm conversas deste género com os pais: "Ó pai, quando for grande quero ir àquele programa da Dona Teresa Guilherme!". Ser famoso tornou-se, aliás, uma profissão a tempo inteiro. Imagino que o Cláudio Ramos, quando preenche um recibo verde, não tem dúvidas. Actividade exercida: famoso. Simples. Há uma variante para afortunados como o José Castelo Branco: frequentador de festas. Na verdade, ninguém tem culpa disso - "é um negócio que nasce com a gente", para citar um cantor brasileiro referindo-se à alegria de estar em palco e a uma série de outras alegrias. Famoso - deve ser este o resultado que, hoje, mais sai nos testes psicotécnicos. E um tipo não tem outro remédio senão explicar à família o que é que aconteceu durante os exames vocacionais: "Prontos, isto é assim: eu ia com ideias de ser, prontos, advogado ou doutor, como os pais queriam, mas os senhores psicólogos disseram que eu estava condenado a ser conhecido… Prontos, isto é assim: foi tudo assim muita rápido. Eles deixaram-me falar um bocado… Mais nada. A gente hoje não percebemos nada, não é?". É. NCS

O passado nas palavras de Naipaul 

"E o avião tem outra coisa boa. Pode-se voltar muitas vezes ao mesmo sítio. E acontece uma coisa estranha quando se volta muitas vezes ao mesmo local. Uma pessoa deixa de afligir-se com o passado. Começa-se a ver que o passado é uma coisa que só existe na nossa cabeça, mas que não existe na vida real. Uma pessoa acaba por pisar o passado, esmaga- o. A princípio, é como pisar a relva de um jardim. Mas, no fim é como se passeássemos nesse jardim. É assim que temos de aprender a viver agora. O passado está aqui- e levou a mão ao coração- não está ali- e apontou para a estrada poeirenta."

"A Curva do Rio"

CMC

A revolta de um benfiquista 

A simpática atenção do Aviz ao meu "11 notas sobre futebol porque a bola é redonda" originou reacções feridas de vários leitores benfiquistas (como eu). Cá vai o melhor mail, com a devida recomendação para a próxima Águia d'Ouro. LFB


Sr. Luís Filipe Borges,

Embora a opinião seja livre e só leia os blogs quem quer, não quero deixar de
lhe dizer o quão lamentável é o seu texto "11 notas sobre futebol..."

O derrotismo é inadmissível no desporto: é contrário ao espírito da coisa!!

E se isto é verdade em geral - e portanto o seu texto já seria mau se fosse do
Cascalheira (ou mesmo do Porto) - então sendo, e declarando-se, do Benfica
torna-se ofensivo para os benfiquistas e até, como diria um alto dirigente, para
a Instituição.

Não sei se tem consciência da alegria que o seu texto provoca aos que são contra
o Benfica, mas sucede que já antes da referência ufana do portista do Aviz eu
havia recebido o seu texto com emails de cobertura regojizantes de dois amigos
lagartos.

Assim, admitindo que é mesmo do Benfica, não deveria nunca ter escrito e
divulgado o texto em causa mesmo que estivesse coberto de razão.

Sucede porém que não tem razão nenhuma como entretanto já se viu no que diz
respeito ao Porto/Milão e ao Deco/Rui Costa.

Sempre lhe digo ainda o seguinte:

1. O Moreira, embora muito bom rapaz, é obviamente um dos pontos fracos da nossa
equipa. É novo e pode melhorar, mas tem mesmo de melhorar e depressa senão
estamos lixados.

2. Estive no Bessa e o detalhe da garrafa de água que tanto o chocou não pareceu
nada de mais a ninguém. Só quem nunca praticou desporto é que vê naquilo uma
ofensa.

3. Mais e ainda mais grave: procurar reflectir o espírito de um país através do
comportamento dos jogadores de uma equipa de futebol é ridículo, provinciano e
anti-desportivo. São estupidezes dessas que fazem com que os deputados sintam
que têm direito a faltar ao trabalho para ir ver a final do Porto.

4. Embora seja óbvio que o Porto tem mais hipóteses que o Benfica de ser
campeão, está longe de ser líquido que o venha a ser - e isto não é porque a
bola seja redonda!

5. As comparações que faz entre jogadores actuais e jogadores do passado são
despropositadas. É óbvio que comparar os pontos fracos por todos reconhecidos da
actual equipa (Cristiano e centrais) com jogadores que são dos melhores que
tivémos (Mozer, Ricardo e Schwarz) é exercício de desmoralização bastante fácil.

Já na comparação entre o Petit e o Sousa tenho as minhas dúvidas. Adorava e
adoro o Paneira, mas o Geovanni é certamente um jogador de nível mundial tal
como ele. Já o Roger pode ser até melhor que o Isaías - mas é preciso que o
Camacho tenha o talento de o por em condições físicas e sobretudo mentais. Se
conseguir é outro de nível mundial indiscutível. Ainda contra o Lazio - todo
roto que até faz impressão! - participou activa e decisivamente em três lances
de perigo real.

6. É óbvio que o Lazio esteve melhor - na verdade só na 2ª mão - e mereceu
passar. Mas a imagem dos homens comuns com fisgas contra paredes de aço é um
disparate total e de um irrealismo aberrante (porque miserabilista).

7. O único ponto interessante da sua "crónica" consiste na referência "porque é
possível que o herói de um dia humilhe o tradicional Golias;e porque, quase
sempre, isso não acontece. O futebol recorda-nos, amiúde, que a vida é dura."

Isto, que é óbvio mas não deixa de ser interessantemente bem observado, não é
verdade no que diz respeito ao Benfica, ao Porto (até ao Boavista como se viu a
época passada) no confronto com as melhores equipas europeias.

O desporto profissional está equilibradíssimo: No ténis, por exemplo, ninguém se
surpreende muito se o nº 100 ganhar ao nº 1. Quase todos os dias um até então
desconhecido aparece a disputar mano-a-mano com os melhores e a ganhar.

O Porto ainda há bem pouco tempo estava uma miséria e agora bate-se de igual
para igual com os melhores. Tem melhores jogadores que o Benfica? Duvido muito.
Teve foi treinador/preparador físico que foi capaz de extrair o melhor que eles
tinham para dar e pô-los a jogar organizados como equipa. (Atenção que o
Mourinho é um asco e não pode nunca mais por os pés no Benfica!!). 

Ainda não há tanto tempo como isso o Benfica estava muito em baixo a nível
europeu. Chegou o Eriksson e, logo no 1º ano, chegámos à final da UEFA depois de
uma campanha europeia imperial e depois mantivémo-nos em alto nível durante mais
de uma década com 2 idas à final da Taça dos Campeões e lugar certo entre os
8/10 melhores.

Enfim, se quiser praticar a auto-comiseração deixe o futebol de parte e,
sobretudo, não invoque o nome do Benfica que não tem direito de apoucar como o
fez.

Peço desculpa pela extensão mas não tenho tempo para ser mais sucinto.

Cumprimentos,

José Jácome

Re-sentimento. 

Um passeio pela verdadeira universidade, a meio da noite, iluminado pela escassa luz dos monumentos, faz-me, de um assalto, desejar voltar ao estudo. As estátuas, as paredes velhas e esmagadoras, as pequenas escadas e pátios e a escadaria monumental, D. Dinis e D. João III, a biblioteca, a Via Latina e, é claro, a mítica torre, tudo isto abala o coração a uma múmia. As faculdades todas distantes umas das outras por uns escassos metros acordam a vontade de conhecer toda aquela gente, de andar de pasta debaixo do braço, espreitando os títulos dos livros dos outros, sentados nos degraus, trocando olhares por entre as árvores. E, de repente, é demasiado tarde; essa hora já passou e passou noutro lugar, muito mais árido, com muito menos paixão.
Regresso a Lisboa, as bolas ainda lá ficarão e caio em mim: felizmente, a vontade já se calou: livros sempre, manuais é que nunca mais.
AB

segunda-feira, setembro 01, 2003

Pode não parecer, mas é uma pergunta séria! 

Sem querer fazer do DC um espaço de classificados absurdos (o que poderia ser, aliás, um óptimo blog), venho pedir ajuda a alguma alma caridosa e culta. Assim, pergunta:

Alguém conhece alguma bibliografia acessível que me possa falar sobre os Tartessos (povo que habitou as margens do rio Guadalquivir, cerca do séc. VII a. C.), em especial sobre o facto deste povo cantar as suas leis, como modo de as decorar e dar a conhecer?

Muito obrigado. Qualquer resposta pode ser enviada para o nosso email DC ou para o meu, miguelromao@mail.fd.ul.pt.
É assim, para post manhoso já chega. Obrigado. MR

Coimbra. 

Ainda e sempre um encanto, mesmo à chegada, sobretudo ao regresso. A cidade está um pouco abandonada, o que se torna mais evidente nesta altura do ano em que as trupes estudantis ainda queimam ao sol de verão. Coimbra abandonada pela História, pelos novos academismos, pelos arquitectos e urbanistas, pelo amor dos seus cidadãos. As casas estão velhas, constrói-se sem ordem, o Mondego resiste aos ataques, mas dá sinais de cansaço. E, ainda assim, Coimbra, a da baixa e a da alta, dos ecos e da cabra, dos gritos solitários e distintos a meio da noite, dos jardins e dos becos. O prazer de passear pelas travessas da Rua da Sofia é ainda o mesmo, sobretudo madrugada fora, quando a nossa voz perpassa as esquinas e nos ultrapassa, até que se cruze com a de outro romeiro. O Choupal e o Penedo da Saudade, a Sé Velha e o Machado de Castro são ainda os mesmos, como os cantos pelas escadarias e os fados em casa própria. Só o tempo é outro, um tempo em que Coimbra parece ter cada vez mais rugas, ser mais deixada à sua própria dor.
Quando é que um tuno a canta, uma guitarra a embala e um jardineiro a torna flor?
AB

domingo, agosto 31, 2003

Diálogo com a ilha 

Sábado saio de casa cedinho com uma mochila cheia de livros, discos, jornais e comida. Durante um dia faço 150 km de carro - marca considerável para uma ilha açoriana - percorrendo a Terceira desde a estrada das Veredas até aos Biscoitos, daí para o Porto Martins, deste para as ruelas da Praia da Vitória. Daqui para a heróica baía da Salga, atravessando depois o interior da ilha por furnas e tentaderos, grutas e colinas onde ainda não chegou qualquer incêndio. Depois vou lentamente, de freguesia em freguesia, de falésia em falésia, passando pela Serra do Cume, evitando Santa Bárbara que está enevoada, até chegar a Angra pela Vinha Brava - daquela perspectiva em que o Monte Brasil personifica uma mulher deitada da qual nasce Angra do Heroísmo.
Procurei evitar a "pedra no coração" que o ilhéu sente quando parte. Vou partir daqui a 3 horas, olhar pela janela do avião a minha terra que se afasta dizendo, como sempre, "não sei se voltas". Procurei nessas 24 horas de ontem pôr a conversa em dia com o pedaço de terra em que me calhou nascer. Da qual nos custa sempre sair, mesmo quando os dias foram cinzentos e monótonos; tal qual a casa de família, que dói abandonar mesmo que, de véspera, tenha havido gritos e acusações entre parentes. Regressei a casa um pouco antes da meia-noite mas evitei o blog. Não quis atraiçoar o diálogo com a minha ilha. Uma conversa com recriminações e ternuras que implicou um dia inteiro de silêncio. LFB

DNices 

"(...) Não há dúvida de que sou o mais teimoso dos conservadores: acredito no casamento para toda a vida. Um em cada dois de mim já se divorciou. O outro, quer casar."

Pedro Rolo Duarte, in Impressões Digitais, DNa - 30/08/03

Lamentamos. O seu currículo é razoável e a carta de apresentação não está mal, mas não estamos a contratar de momento. Melhor sorte para a próxima. LFB

Então até logo, Bernardo! 

Demorei uns dias a despedir-me do Bernardo porque quis falar com ele antes. Perdemos o "grande arquitecto", um dos casadoiros mais produtivo e mais comentado, no seu estilo único de Mia Couto meets Thomas More meets Nick Hornby (o que estou pr'aqui a escrever?).
Foi-se um dos nossos homens no Porto - mas o nome dele fica no cabeçalho até que volte.
Como o NCS já disse, nenhum de nós sonhou - em criança - ser blogger. Há outras prioridades na vida. Muitas outras. Entretanto, outro dos fascínios deste mundo sem dono, sem código de conduta, sem hierarquias, é a certeza de que os blogs são casas cujas portas não têm fechadura. Quem nelas mora pode sempre voltar, mesmo que surpreenda os outros durante uma refeição. Bernardo, a tua cadeira fica no sítio do costume, à cabeceira, junto à tábua dos queijos. Um abraço forte, meu amigo. LFB

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