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sábado, agosto 02, 2003

Post-it colado ao espelho, para quando a ilha acordar 

À medida que me apercebo de que todos os meus colegas de blog vão para férias, aceito a ideia de regressar ao trabalho, três semanas depois. Sinto-me a trabalhar num esquema de turnos e não sei se me alegre, se me entristeça, a ideia de correr as ruas de uma Lisboa deserta, enquanto o resto do País se morde e beija nos mesmos quilómetros quadrados de areia.
Ao mesmo tempo, a ilha permanece a ilha. Cheia de nuvens e abertas de fim de tarde, mar calmo e bares cheios de rostos familiares. A minha mãe a ir buscar o meu pai, a neta dos vizinhos a fingir que chora, o telefone desta casa a tocar, ainda que ninguém cá esteja para o ouvir.
Ainda há artistas exilados nos Açores e muitos outros a presumir-se assim, miúdos armados em gente grande e velhos convencidos de que passam por jovens, amigos cada vez mais maduros e tontos cada vez menos amigos.
Irei embora feliz por, de novo, constatar que nada muda muito e que no conceito de "casa" residem, em potência, todos os princípios para uma tese do eterno, no sentido extra-moral.
Deixo a parte mais pequena da minha vida dupla, enquanto ela ainda dorme. De manhã, depois do choro, compreenderá que casei com Lisboa e tenho posters de Nova Iorque nua, mas que é à amante que se ama, mesmo que os tolos digam que a bigamia é ilegal.
AB

Esclarecimento arrogante como eu gosto 

O Linhas de Esquerda ficou aparentemente chateado com o DC porque, depois de ver a reportagem do Telejornal sobre blogs, não percebe como pudemos atribuir a "génese" da blogosfera a Pacheco Pereira.
O que eu não percebo é a leviandade com que se escreve. Caríssimos, não se bota discurso sobre assunto que não se conhece ou pura e simplesmente não se percebeu. Na verdade nunca atribuímos paternidades a ninguém e se o fizéssemos jamais seria a Pacheco Pereira. Aliás, quem leia este blog com um mínimo de regularidade e atenção perceberá facilmente que a importância dada a PP roça o desprezo (como ele a nós, muito justamente).
Mais acrescento que nessa - fraquinha - reportagem, o que dissemos de Pacheco Pereira foi "que se tratava de um sujeito que se destacou nos blogs e foi logo agarrado pelo PSD" e pelos media como comentador avulso.
Para a próxima, programem o vídeo. LFB

sexta-feira, agosto 01, 2003

à beirinha de um esgotamento - parte I 

Zapping rápido para acalmar uma bruta ressaca. Tento encontrar no controlo remoto um substituto do café, o primeiro vício abandonado. A pele suada e o olhar cansado. Algumas coisas para fazer antes de regressar a Angra do Heroísmo no domingo. Súbito, uma batida fácil, um grupo de que nunca tinha ouvido falar, 3 miúdas lindas e 2 gajos de cabelo espetado e camisa espanhola, cores garridas, refrão de ficar no ouvido. Olho para aquelas imagens dinâmicas, os sorrisos colgate, o ritmo acelerado, a coreografia festiva. Tudo é plástico e artificial. Mas igualmente harmonioso, sem pontas soltas, orquestrado, sincopado, mecânicamente perfeito.
Quem me dera ser o 6º membro da banda. Sejam eles quem forem. LFB

último dia 

Estou sozinho no trabalho com a responsabilidade de trancar bem todas as portas e janelas, desligar os computadores, verificar se não fica aceso nenhum cigarro e se nenhum gato dos vizinhos se anichou à socapa num canto qualquer. Tenho a televisão ligada numa estupidez, os pés descalços por conforto e conveniência e uma grande dor de cabeça. Enviei por mail o último projecto antes das férias e não atendo o telemóvel apesar de serem amigos quem telefona. Não me apetece sair daqui: lá fora está muito calor, o Benfica vai dar na TV daqui a nada e tenho um dos melhores whiskies do mundo à minha frente. Posso deitar-me no sofá do local onde sonhava trabalhar desde os 17 anos e dormir se me apetecer. Mais importante que isso, só tenho ligação à net daqui.
Sim, vou de férias. Mas continuo a escrever. Não sei quem são 99% das pessoas que nos lêem mas gosto da alegria que me dão: o hábito, a tranquilidade da rotina, as 20000 visitas em 7 semanas. Porque é que isto me satisfaz? Não me dou ao trabalho de responder. Entrei de férias. Não me podem exigir uma punchline. LFB

Vou de férias 

Até à Figueira, aquela praia que uma amiga me desaconselha por ser uma neura. Não, eu não sou masoquista, vou assim-assim preparada para o pior e acreditando nalguma boa estrela.
De seguida, um pulo à Galiza. E, sim, vou resistir ao vício e não procurar um ciber-café, porque hoje estou em maré de achar que infinitamente mais importante que blogar é estar, falar e beber uns copos com os amigos, ver o mar e ler alguma coisa de jeito, já que, como diz um amigo meu: "há alguns blogs com algumas pessoas interessantes a escrever algumas coisas interessantes. Mas dez por cento de cinco por cento de um por cento é pouco para me fazer perder tempo. Ainda tenho tanta literatura por ler..."
Mas isto é hoje, amanhã não sei se vou resistir. CMC


Naipaul, again 

"Toda a sua vida tinha sido boa até então. E ele nunca se tinha apercebido disso. Tinha-a estragado com temores e medos.....
Foi para o quarto, deitou-se e forçou as lágrimas: era necessário que chorasse por toda a felicidade perdida". CMC

Milagre das bodas de Canã... 

O leitor vai desculpar-me, mas isto é uma coisa que me incomoda. Eu tenho andado um bocado nervoso, um bocado farrapo com esta história toda. Se não desabafar já, sou bem capaz de cometer uma asneira. Empreste-me o seu ombro, por favor, que são só dez minutos. Preciso dum ombro sadio onde encostar a cabeça e desatar num pranto histérico. Pode ser? Obrigado. Que Deus lhe pague.
Acho que vou desabafar. Se não o fizer, interno-me amanhã de urgência e sirenes no Miguel Bombarda. (Estou por um fio começar a fumar beatas do chão)
O meu problema, infelizmente, não é nas costas ou nas articulações, é nos vizinhos de cima. Desde que me mudei para a nova casa que tenho esta dor crónica nos vizinhos. Trocava, de bom grado e cara alegre, os meus vizinhos por um bom par de rijos joanetes. Ou por um par de joanetes e uma gangrena. Ou uma praga bíblica de baratas na cozinha.
Desde que me mudei que lhes oiço os passos, as discussões, as marteladas e os gazes. Em primeiro lugar, ele está sempre bêbado. Depois arrasta cadeiras, põe o volume da televisão aos berros (sintonizando até à loucura aqueles programas que dão à tarde para reformados) e prime incessantemente, até à exaustão mental, o fluxómetro da sanita. Ela está sempre a ralhar com ele, que o mata e esfola e trinta por uma linha. É como viver com os Pauliteiros de Miranda do Douro por cima, só que pior.
Quando me mudei para esta casa, tinha todas as condições para ter uma boa casa: era num bairro antigo, central, com muita luz e vista para o rio. Mas o preço a pagar eram os vizinhos. Aos poucos foram despertando em mim os piores instintos. Fui-lhes ganhando um pó tremendo. Até o netinho lhes odeio. (Os vizinhos têm sempre netos hiper-activos a gritar “Quero um xupa!” o dia todo) De cada vez que entro em casa, sinto-lhes um profundo rancor pelo botão da campainha.
A última gota de água - e a razão deste senil desabafo - foi o vinho. Tudo aconteceu ontem à noite e conta-se em duas palavras: inundação + vinho. Tive uma inundação de vinho em casa! Eu sei que isto contado ninguém acredita, mas é verdade. Eu estava na sala e ouvi um barulho estranho vindo da casa-de-banho. Parecia o som de pingos a cair. Pensei o pior. Que me tinha esquecido duma torneira aberta. Mas era muuuuuito pior. Do tecto da minha casa-de-banho chovia vinho. Literalmente. Todo o chão era um lago roxo e o tecto um torniquete de rega. Vinho, caro leitor - vinho! Dá para acreditar? E ainda nem é tempo das vindimas!
Não me pergunte como isso aconteceu, que eu não quero saber. Não sei se foi o meu vizinho que explodiu de repente enquanto via a televisão. Não quero pensar mais nisso. Não é sequer relevante para o caso. Quero-me ir deitar. Preciso de dormir. Ando feito um trapo. Sinto-me cansado. Um cavalo cansado. Nem sequer tive a sorte do Vasco Santana na Canção de Lisboa, quando este fez um furo na parede e começou a jorrar palhete. Não era palhete nem era whisky. Antes fosse. Era vinho carrascão. Áspero como uma lixa e forte como diluente.
Não se ria, caro leitor - e chegue-me aí esse lenço. Talvez daqui a muitos anos (quando tiver alta do Miguel Bombarda) eu consiga sorrir com este episódio. Eu sei que até tem alguma graça. O problema é que eu não consigo achar graça nenhuma. LCA

quinta-feira, julho 31, 2003

dolor cordis dolor mundi est 

Pelo fogo ou pelo fogo, either by fire or fire, só me vêm à cabeça as palavras do Elliot, nestes dias. As árvores (macieiras com crianças?) ardem. Os dias ardem. A cidade arde. As pessoas sozinhas ardem sozinhas. Sem fumo. Sem fogo. O calor é maior nas casas das pessoas sós. A solidão é maior quando o calor bate à porta. Há quem vá ver arder os homens e sorria de longe. Amanhecer é igual a ver-se arder, na companhia do seu calor intacto. MR

Arte Conceptual Ou Arte Exumada? (1º fragmento de uma estória embargada) 

O guia do museu Thyssen Bornemisza

«(...) Flemming Krovak planeava abandonar aquele ofício muito em breve. Pelo menos em Madrid, onde suspeitava que os seus esquemas eram já notados e em que por mais de uma vez escapara por um triz ao vexame. Uma rapariguinha francesa havia-o corrigido há bem pouco tempo, quando ele declarava que o dadaísmo nascera em França (provavelmente para agradar à clientela desse país), dizendo que o principal ponto de referência havia sido Zurique, na Suíça. Viu-se então obrigado a um exercício que detestava, mas no qual havia criado grande destreza e mobilidade. Sorriu um pouco, primeiro, afastando simultaneamente o susto que apanhara e conseguindo evidenciar, desde logo, uma certa complacência que lhe garantia o tempo necessário e a credibilidade para, segundos depois, inventar uma história mirabolante. Cruzou citações, épocas, estilos; fabricou personagens e ocorrências. No final, absolutamente baralhados, os franceses acabaram por achar que ouviam uma impressionante lição de história de arte, chegando mesmo a agradecer-lhe e a pedir desculpas pela impertinência da petiz. Estas coisas normalmente passavam; a sua verve era prolífera e a imaginação delirante, conseguindo construir rapidamente um universo complicado e dificilmente trespassável. Quando por vezes - e esses casos eram bastante raros -, se deparava com alguém cujos conhecimentos poderiam colidir com a sua farsa, dizia apenas as coisas óbvias, que qualquer leitura de encarta permite. Começava sempre, aliás, por apontamentos concretos, limitando-se às datas, aos estilos, a uma irrelevante informação sobre um aspecto qualquer. Só depois, quando se apercebia que estava a dar as boas novas aos tolos, é que iniciava o seu verdadeiro discurso: longos disparates, sem qualquer alicerce; tiradas avulsas de livros que deixara a meio; invocações de filmes que nunca vira; considerações metafísicas absolutamente diletantes e sem nexo. Vomitava tudo aquilo perante o olhar perplexo dos ouvintes, fazendo assim jus aos seus predicados de homem que «falava por dentro». Numa ou outra situação, em que se viu definitivamente enrascado, acabou por se desfazer em desculpas, num palavreado quase incompreensível, justificando-se com as múltiplas leituras a que procedera, recriminando-se pela desatenção e oferecendo com toda a reverência a taça ao estupor que teimava em desacreditá-lo. Era tão convincente nesse teatro que se assemelhava a um ministro acossado, esquivando-se dos golpes com frases técnicas e vazias. Falava tanto, e pedia tantas desculpas, que as pessoas quase se condoíam por havê-lo contrariado. Mas Juan Vitório estava farto. Farto do nome idiota que inventara, farto do penteado ridículo que trazia, e sobretudo farto de quase dez anos a impingir dislates sem fundamento. Percorrera toda a Espanha a reboque de um único guia intitulado As cem grandes obras do século. De resto, experimentara algumas leituras de filosofia e de estética, mas rapidamente se maçara, captando apenas alguns termos e conceitos que era depois incapaz de coordenar. O seu talento residia, precisamente, na forma como produzia atoardas a partir de informação dispersa, convencendo qualquer incauto da sua sabedoria. Nesse aspecto, sabia-se um mestre. Capaz de enganar qualquer turista deliciado por museus. Capaz, inclusive, de ludibriar a maior parte dos outros guias, mantendo-se sempre na esfera básica e falando, sobretudo, de comida - o salvo conduto perfeito para agradar aos mais cultos. Apesar de tudo isto, sentia que o disfarce estava em risco. Perdera o entusiasmo de outros tempos, limitando-se agora a um discurso minimal e recorrente. Com um domínio perfeito do inglês, chegara a fórmulas definitivas sobre este ou aquele quadro, abandonando, gradualmente, tiradas mais espontâneas e criativas. Naquele dia, limitara-se a reproduzir o panegírico que utilizava há já dois meses. Sem qualquer improviso, atalho ou diversão. Acercava-se, agora, das Cabines Telefónicas de Richard Estes, e o tédio era já antecipado pela torrente de baboseiras que aí vinha. (...)» RS

Sing Along aos Berros: The Stone Roses 

This is the One
A girl consumed by fire/ We all know her desire/ From the plans that she has made/ I have her on a promise/ Immerse me in your splendor/ All the plans that I have made
I'd like to leave the country/ For a month of Sundays/ Burn the town where I was born/ If only she'd believe me/ Bellona Belladonna/ Burn me out or bring me home

Made of Stone
Sometimes I/ Fantasize/ When the streets are cold and lonely/ And the cars they burn below me/ Don't these times/ Fill your eyes/ When the streets are/ cold and lonely/ And the cars they burn below me/ Are you all alone/Are you made of stone?

My suuuummer rockin. Don´t Stop...Sugar Spun Sister BR

a isto chama-se cobardia. 

Três linhas apenas para os comentários de Pacheco Pereira sobre o Rendimento Mínimo Garantido: não está em causa a sua opinião, o seu direito à discordância e à crítica. Mas fica-lhe muito mal abordar uma questão cujo interlocutor não se pode defender. Sabemos bem de quem se trata. E Pacheco também. LFB

jmf homenageia O Meu Pipi mas... 

...eu também aprecio o Ronaldinho Gaúcho. Ora bem: não seria complicado comprar um equipamento da selecção brasileira, umas chuteiras e bola oficiais. Com muito esforço até podia pintar-me de preto, arranjar uma peruca a condizer, e pedir a um amigo caridoso que me esfrangalhasse a cremalheira até ficar com a boca igual à do brazuca mas infelizmente, caro jmf, o talento não está à venda em lugar nenhum.LFB

TELEGRAMA DE AMOR E GUERRA EM QUE SE USA UM VERBO TOMADO DE EMPRÉSTIMO A ALEXANDRE O’NEILL 

Atenção stop atenção por favor stop as mulheres que acamamos agarram-se-nos à pele como se não tivessem mais nada para fazer stop encaixam-se-nos húmidas tão convenientemente que podem chegar a estrangular de uma vez para sempre o pulmão o coração dos versos que queremos dedicar às mulheres outras com quem sonhamos stop é urgente desbragar o sexo stop desbragá-lo stop é urgente stop. LDA

ERRATA GRÁFICA 

Por insondáveis desígnios da formatação informática, o meu último post surgiu com ignóbeis pontos de interrogação nos lugares onde eu, carinhosamente, aplicara travessões. Enfim, bygones. LDA

Solidão 

À noite, no carro, a caminho de casa, remoo solidões:

I- O meu pai, pela enésima vez: "queres ir jantar/ao cinema/ ao hard rock café? Então e a mãe? Está no vício ( bridge).
II- Os conselhos de uma amiga divorciada: "Tu não te enfies de férias nessa praia, ouviste? É uma neura, só casais com filhos, nem um único solteiro.."
III- O velho que capricha todas as noites em acenar aos carros, ali entre o Imaviz e o Saldanha a quem alegro com um aceno.
IV- Os dois sem-abrigo, um homem, uma mulher, de meia-idade sob o mesmo cobertor, à entrada da Duque de Loulé.
V- Eu, em frente ao écran a ler blogues de gente anónima, a postar para gente anónima.CMC

Algarve uncensored 

Vieram parar ao email do Desejo Casar duas respostas de turistas a um clássico questionário de Verão que foram censuradas pelos jornais portugueses.

Por que é que escolheu Portugal - em especial o Algarve - para passar férias?

Mohamed Rashid, afegão, 42 anos. Escolhi Portugal porque é um país hospitaleiro, com boa comida, gente simpática e porque, no Verão, é invadido por apetitosos ingleses. É um excelente país para as férias de um terrorista. Um tipo tanto pode estar a apanhar sol e a ver passar as miúdas como pode meter explosivos debaixo da areia que arrebentem com uma praia cheia de "bifes". Se os ingleses resolverem ir beber um copo ao T-Club então aí são as chamadas férias de sonho. É que assim também faço ir pelos ares aqueles tipos que se passeiam de calças vermelhas pelas marinas.

Ingrid Magnusson, sueca, 38 anos. A minha razão é só uma: aventura, regabofe, amor louco, novas posições, sensações únicas, prazer infinito, gemidos no aparthotel, gemidos na praia, gemidos debaixo de água, etc. Durante o ano todo estou, digamos, em repouso lá nas Suécias e, quando chego a este país, ponho fim à hibernação sexual. Gosto especialmente do Zezé, do Ruca e do Fanã. É tudo gente com muito chá. Os senhores do Algarve, para além de terem uma generosidade que só se encontra nos países católicos, são das pessoas mais humanistas que eu conheço. Aliás, mereciam ter apoios do Governo por promoverem internacionalmente o nome de Portugal. Aqui sou acolhida com verdadeiro carinho. Imagine que até me tratam por "égua loira" e por "grande cavalona". NCS

Prós e contras de um pater familiae 

Almocei ontem com o A., amigo dos tempos da Faculdade, que me lembre, o primeiro a casar e em Fátima, o que logo indiciava a prole que se seguiu, três invejáveis filhos para quem, como eu, nem um tem para amostra.
Pergunto-lhe pelos estudos dos catraios e ele sempre tão discreto e parco nestas matérias familiares, vá de me dizer que a mais velha tirou cinco a tudo, com excepção da ginástica, o calcanhar dos bons alunos, o do meio ainda é melhor que a mais velha e o benjamim, diz-me vaidoso: ? é a minha cara chapada?.
Fico a cismar com os meus botões e alto: ?Que sorte,hã! Logo, os três inteligentes?.
Diga-se, em abono da verdade, que o património familiar também era sempre a furar a escala, mas isso às vezes descamba.
Depois, A. entusiasmado, ainda me dá um vislumbre de uma amorável cena familiar, no aniversário de Mahler, A. melómano confesso, a quem perturba a perspectiva de a vida lhe não chegar para ouvir tudo o que de bom existe, põe os miúdos a ouvirem a 5ª sinfonia de Mahler, a sua favorita, uma das versões, sendo que ele possui _ das que foram até agora gravadas no mundo inteiro e que está sempre em busca da versão perfeita, explica-lhes os andamentos, e o miúdo do meio, no fim, pede: ?ó pai, empresta-me o c.d ? para ouvir na ausência dele, o que fez.
Conversa puxa conversa, diz-me que este ano, como de há 10 anos a esta parte e desde que os miúdos nasceram vai, uma vez mais para a Figueira, e eu sei o quanto lhe pesa essa rotina e quanto não daria por se ver fora de fronteiras.
E diz-me, ainda que este ano, repetirá o Club Med de Smir, em Marrocos, uma estância balnear tão querida aos portugueses quanto Cancun e onde pululam de Junho a Setembro, 8. 000 pater familiae desta Lisboa.
Não há bela sem senão! CMC

quarta-feira, julho 30, 2003

O bouquet ou 7 cães a um osso 

Mais tarde ou mais cedo havia de acontecer. O DC está à beira de uma convulsão. Um vírus que pode destruir-nos. Explico:
tudo começou ontem quando começaram a chover telefonemas entre membros da equipa. O motivo? 3 donzelas, ainda por cima irmãs!, enviaram uma foto magnífica que demonstra bem as graças injustas de Deus. Já tínhamos perdido a esperança, sobretudo depois de termos mostrado algumas fuças em pleno Telejornal. Mas eis que o inusitado acontece e agora a disputa entre os machos solteiros promete ser renhida. Uma delas não quer casar, restam duas. E agora? LFB

ps: ainda por cima vou para os Açores no Domingo, rai's parta esta #&%*!!

O Ciúme (que elas negam) 

O Amor traz em arrasto uma constelação de Vidas e Pulsões que só o tornam ainda mais vivível e apetecido. Desvaneçam-se em Paixões. Porém tenham viva uma certeza, este território voador traz os primos, os genros e os enteados atracados, disfarçados nas baías e enseadas. Ganham forma de Dúvida, Angústia, Medo, Possessão. Compulsão de quem ganha asas e o lento lume do Ciúme. Imperdível. Como disposição matinal ou chuva anunciada em tardes de verão. BR

O verdadeiro desejo de casar 

Lord David Charles, inglês, falecido há meia-dúzia de anos, detém o record Guiness para o maior número de matrimónios celebrados. O cavalheiro, que morreu antes dos 80 e cuja última esposa tinha menos de 30 primaveras, casou 24 vezes. Godspeed, Charles! LFB

O CIRCO DEIXOU A CIDADE 

Sei de uma história verdadeira. Passou-se há cerca de cinco ou seis décadas, entre dois jovens estudantes da Universidade de Lisboa (omito os nomes, que são hoje públicos). Ele interessara-se por ela, e queria conhecê-la. Certo dia, decidiu dirigir-lhe a palavra. O que disse não é relevante; ela respondeu-lhe assim: "Desculpe, mas não posso falar consigo ? ainda não fomos apresentados".

Naqueles tempos, o exercício social da apresentação era um arriscado número de circo que responsabilizava o apresentador pelos defeitos do apresentado. Quem apresentava uma pessoa a outra assinava fiança dupla pela qualidade de ambas; e o conhecimento que pudesse vir a surgir entre esses dois estranhos fundeava âncoras no cimento da amizade (ou coisa assim) que os unia ? a um e a outro ? a quem os tinha apresentado.

Digo bem, fiança: mais do que seleccionar amigos e amores, as pessoas seleccionavam os simples conhecidos e para tudo exigiam um selo de garantia.

Hoje não sucede assim: amigos e conhecidos apresentam-me outros conhecidos pelo simples facto de, por uma contingência social qualquer, nos encontrarmos todos no perímetro dos mesmos dois metros quadrados, sem que esse acto signifique um depoimento testemunhal sobre as qualidades de quem estão apresentando.

Agora já ninguém vem com um certificado de qualidade. E a taxa de divórcios vem aumentando, silenciosamente, ano após ano. LDA

Schopenhauer  

Escreveu um livro sobre cores, em homenagem a Goethe, frequentador dos salões literários da mãe deste (Schopenhauer). Este tributo (que lhe enviou pelo correio para revisão) é mais interessante pela ligação às teorias da matéria como fruto do nosso pensamento e da diversidade de existência como Vontade do que propriamente pela validade da contribuição à causa. Anos antes, Goethe tinha escrito um opíparo papiro na tentativa de explanação de uma teoria das cores. Valeu igualmente pela prosa e espírito fantasista sendo cientificamente incolor. BR

(Amanhã inicio rubrica Posts de Verão. #1 sobre a casa Malaparte em Capri, apropos Cores, apropos Il dolce far niente. Ou se calhar não.)

Rapazes, perdoo-vos 

Terem-se esquecido de me convocar para o "chat" com a T.V.
É que, afinal de contas, se não fosse a Charlotte, lá estávamos nós, mais uma vez, nos domínios senhoriais, inexpugnavelmente masculinos!CMC

S-FILE 

Caiu que nem uma bomba, junto da classe médica mundial, um insólito caso clínico de dois siameses à posteriori, recentemente descoberto em Portugal. O caso reveste-se de contornos tão extraordinários que foram convocados de urgência vários congressos pelo mundo fora, com o objectivo exclusivo de acompanhar a crise siamesa. O misterioso caso envolve dois portugueses adultos do sexo masculino - políticos considerados e proeminentes - cujas cabeças se foram gradualmente inclinando até se grudarem, ideologicamente, em torno do Rendimento Mínimo Garantido (RMG).
Pacheco Pereira, ao dissertar sobre os malefícios do RMG, acabou por se tornar no primeiro ser humano da história a unir-se ao seu siamês já depois da idade adulta. O outro irmão, Paulo Portas, já há muito que vinha dando sinais clínicos de uma veia que lhe latejava na cabeça (em especial durante as eleições), irringando continuamente os portugueses acerca do pernicioso efeito do RMG.
Gentil Martins, confrontado com a possibilidade de operar os siameses, escusou-se gentilmente a prestar quaisquer comentários. No entanto, em conversa informal, deixou escapar que qualquer tentativa para os separar configuraria uma operação muito complexa, com apenas 50% de hipóteses de sucesso clínico (o que equivaleria, na práctica, a ter de se optar por um dos dois siameses).
A síndrome siamesa, aliás, não é novidade no nosso país. É do domínio público a delicada intervenção sufrágica a que Paulo Portas foi sujeito, há cerca de um ano, no intuito de separar, com sucesso, o Ministro de Estado e da Defesa do Paulinho das Feiras - seu gémeo siamês à priori. LCA

A sorte de não gostar de filmes de terror 

Ontem, a Terra tremeu por aqui. Num jantar entre amigos, alguns deles açorianos, falou-se de algumas experiências sísmicas vividas nos Açores. Lembraram-se professoras que, muito humanamente, fugiram das salas, antes de todos alunos, na altura em que assistiram ao súbito nervosismo das mesas e das cadeiras. Foi contada a história de uma repreensão feita por um pai a um filho, convencido que estava de que este, ao desequilibrar o sofá, simulava, por brincadeira, um abalo. Recordei um episódio marcante para muitos açorianos. O filme da noite na RTP-Açores era o "Poltergeist". Exactamente na altura em que tinham acabado de passar os créditos finais e as famílias preparavam-se para ir dormir, ouviu-se um rugido assustador vindo de parte incerta e os móveis das salas começaram todos a tremer com alguma violência. Sim, pode-se tentar adivinhar o susto que foi. Estava a dormir nessa altura. Acordei com o barulho das portadas do quarto a baterem. Ainda hoje sinto felicidade por nunca ter gostado de filmes de terror. NCS

terça-feira, julho 29, 2003

Estrangeiro Em Toda A Parte 

Na semana passada, hospedei em minha casa dois amigos espanhóis e, durante alguns dias, limitei-me ao trabalho e às funções de guia turístico (nem uma moedinha para o blog). Tal como alguém aqui já referiu, receber visitas é uma oportunidade excelente para conhecer a nossa cidade como estrangeiro. Deambulei por zonas históricas, por onde não passava desde que o meu braço se erguia até à mão do meu pai; revisitei locais raríssimos, a que apenas levo criaturas que pretendo impressionar; e descobri novos espaços, todos ao alcance de 50 cêntimos de gasolina, mas que nunca me dei ao trabalho de explorar. É uma sensação estranhíssima - eu, que todos os dias bato nesta maldita cidade (o Porto), andava embevecido a apontar locais, azulejos, miradouros; a sugerir passeios; a recomendar visitas; a gabar as telhas e o casario (que normalmente me suscitam asco e indignação). Andava - imagine-se - orgulhoso com a minha bela cidade. Com um olhar contente, admirado, apreciando os portuenses nas suas rotinas diárias. E a efabular, claro. Exagerei no cerco do Porto, no desembarque do Mindelo, na tragédia da Ponte das Barcas (já haveria canhões de 88 mm?). E vi-me grotescamente proteccionista - ripostando qualquer reparo sobre o estado de conservação das casas ou sobre as acessibilidades à marginal. A minha cidade era perfeita; imune a críticas; e não admitia que um habitante de Barcelona tivesse o desplante de não desmaiar perante a visão do Douro ou do interior da igreja de S. Francisco. Quando se referiram às Francesinhas como muy contundente, tio, quase que perdia a calma e os recambiava de volta para as tortilhas e para os revueltos. Que é lá isso, não achar a minha cidade a melhor do mundo? Lá os convenci, e saíram daqui felicíssimos.
Eu continuei ébrio durante mais dois dias. A sair de casa com admiração e a analisar cada pormenor da rua com verdadeiro fascínio. Que verde é tudo isto, que bonito, que simpáticas são as pessoas, que bonitas são as mulheres, que alegria viver aqui no Porto, ai... A pedrada passou-me ao terceiro dia, e o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança.
Os donos dos cafés não sorriam, as ruas eram insuportáveis e esburacadas, o centro histórico era como Dresden em 44, as casas metiam nojo, as obras acumulavam-se por toda a parte, as intervenções recentes desfaziam-se com os seus materiais foleiros e os passeios alargavam-se retirando faixas aos veículos e impossibilitando a circulação normal do trânsito. A Sociedade Porto 2001 era um furúnculo, todos os autarcas uns inúteis, todos os vereadores uns sabujos, todas as medidas erradas, todas as soluções impossíveis; insegurança, «gunas» à solta por toda a cidade, trânsito, caos, falta de civismo, caça à multa, arrumadores, mimos esborratados nas esquinas; toda a cidade um horror insalubre e sem remédio. Arre, que nunca mais chegam os polacos! RS


Fumamos a pontualidade 

É quando percebemos que já estamos um minuto atrasados para uma reunião que puxamos do último cigarro e pedimos mais uma bica. É isso que nos distingue dos animais. É isso que nos aproxima de Deus. TR

Silly books 

Sempre existiu uma contradição que me intrigou. Porque é que é durante a silly season que os jornais falam mais de livros? Será que ler é silly? Ou os silly, vulgo tontos ou imbecis, lêem mais? Ou é apenas a época em que se lê que é chamada silly? Ou é sobre livros que se escreve quando não há mais nada para dizer? Já estou a ver dois adolescentes nas Docas, a tentarem o célebre desbloqueador de conversa:
- Qual é o teu irmão Karamazov preferido?
- Ah, eu prefiro o mais novo, o dos olhos azuis...
Ou, loucura das loucuras, alguém pensa que é o magro mês de férias e areia no banco de trás do carro que vai pôr a gente a ler? Ó senhores da imprensa, deixem-se disso de nos querer educar e dêem-nos mas é as fotografias dos pedófilos com as criancinhas ao colo! TR

Outros pequenos detalhes do mundo 

É claro para todos (comenta-se muito nos oblívios corredores políticos) que neste blog há gente de Direita. É transparente como sonhos que há igualmente neste blog muita gente de Esquerda.
Eventualmente haverá também alguns incolores, como eu, mais atentos ao movimento das nuvens do que ao indecoro dos dias, que decidem usar as duas pernas para andar, as duas mãos para escrever e desenhar e os dois lóbulos do cérebro (Rómulo e Remo das minhas estradas) para divagar. Conjuramos assim a Utopia, do direito ao sonho privado e do dever da justiça social colectiva. Aqui onde vivo (numa das luas da Insanidade) faz todo o sentido. Também é fácil, concedo, somos poucos, eu e o meu devaneio, há sempre um consenso conquistado, após o aplacar das certezas e o mergulho na Dúvida (Oceanos imanentes, Ehhhh Oh)...BR

Segredinhos de Amor 

A palavra Divórcio levanta neste blog alguns sobrolhos e muita susceptibilidade.
Já a expressão Cold Blooded Murderer faz alçar esgares pardos de contentamento silencioso...

(Não sei se têm reparado na estátua que há dois dias aqui colocamos no centro do pátio, na entrada do blog... Mármore de Carrara, alvo.
Já a luva sangrenta, escondida por entre as hortênsias é de mármore negro, Marquina, da Guatemala.) shhhh, é segredo...BR

Não Passarás Cartão (11º mandamento) 

Há uma coisa que gostaria de esclarecer às meninas dos supermercados, de uma vez por todas, em alto e bom som:
- Eu não tenho a porra do Cartão Dominó!!!!
Chiça. Já não se pode, neste país, com a conversa do Cartão Dominó. Uma pessoa vai ao supermercado e no momento em que se prepara para pagar perguntam numa voz aflautada, como uma ameaça velada: "Tem Cartão Dominó?". Chiça três vezes. Porra.
Mas afinal o que vem a ser isto do Cartão Dominó? Será uma espécie de livrete? Uma carta de condução para carrinhos de supermercado? Ou estaremos nós na presença de um identificativo que se mostra à entrada de uma taberna de aldeia? Nada disto faz sentido. É tudo muito estranho.
É uma coisa muito desagradável - de cada vez que vou às compras - ser barrado à má fila pela menina da caixa como se estivesse uma operação Stop, como se viajasse na IP-5 a duzentos à hora (em contra-mão):
- Tem Cartão Dominó?!
- Não, senhor guarda. Não sei o que se passa comigo ultimamente. Acha que se pode fazer um jeitinho?
E o único jeito que a menina da caixa nos faz é uma ligeira torsão da asa esquerda do nariz, em sinal de desaprovação. Será que, não se possuindo o famigerado cartão, não se é gente? Serei eu um Zé Ninguém das compras? Terei eu, à falta de um Cartão Dominó na algibeira, o telemóvel sob escuta? Sopra hoje em dia, nas empresas de retalho do país, uma leve brisa autoritária e fascista, atentatória das liberdades individuais, que vem oprimindo o consumidor nacional. Mas sejamos justos. Distribua-se o mal pelas aldeias. Neste siroco que nos afaga, dever-se-á também incluir o Cartão Minipreço, esse clone trangénico do Cartão Dominó. Como se não bastasse, temos ainda a praga do Cartão Galp, do Cartão Optimus e do Cartão Diabo Que o Carregue, dia e noite a verter pontos. Vive-se, em Portugal, a eufórica ditadura dos pontos. Portugal pode ser pequeno na Europa mas - chiça! - é grande nos pontos!
Não há nada neste país que não possa ser susceptível de ser convertido em pontos. Um pacote de farinha? 5 pontos. Vinte litros sem chumbo 95? 10 pontos. Duas chamadas no telemóvel? 20 pontos. Um traque à noite, enquanto vê o telejornal? 60 pontos. Um bobó na avenida? Pague um leve dois.
"Volte sempre, obrigado e até qualquer dia!"
Antigamente as crianças coloriam livros. Hoje em dia recortam cupões e enviam-nos para um apartado qualquer codex - invariavelmente em Linda-a-Velha. As pessoas avaliam-se não pelas suas qualidades pessoais, mas pela quantidade de pontos que amealharam. Pela quantidade de cartões conversíveis em pontos que armazenam na carteira. É triste.
Um dia, quando se lhes acabarem os créditos, morrem e vão parar ao purgatório. Mesmo aí já não se pesam as boas e as más acções da vida terrena. A primeira coisa que no purgatório lhes perguntam é se possuem um vale de 200 pontos (com 300 pontos transita-se automaticamente para o céu). No inferno, tirando as cartomantes, os dirigentes desportivos, os governantes e os dirigentes desportivos, sobram todos aqueles que, como eu, nunca se sujeitaram à indignidade e à degradação de transportar na carteira, ao lado do preservativo, a gaita do Cartão Dominó. LCA

PS - Se por acaso o estimado leitor se cruzar na rua com o inventor do Cartão Dominó, que fique desde já assente: na cabeça são 1000 pontos!

A subtil diferença entre viver e estar vivo 

Tennessee Williams acaba, amiúde, as suas estórias sem que qualquer coisa de verdadeiramente terrível ou grandioso tenha sucedido. Mal de nós, nem sempre aquilo que é belo em literatura consegue sê-lo, também, na vida. Lamento que muitos seres humanos passem pelo mundo sem apogeus nem perigeus, fugindo tanto das falésias como das bocas de cena, tendo por highlight das suas histórias a cerimónia precisa dos seus funerais.
AB

Eu é que sou o director do jornal 

Num momento em que tanto se criticam e debatem os limites e violações do segredo de justiça, repugna-me, particularmente, a atitude sobranceira de que está imbuída toda a comunicação social nacional. Perpassada de falsos heróis e moralismos beatos, jornais, revistas, rádios e televisões publicam, à segunda-feira, informações confidenciais dos processos; à terça, criticam a fuga de informações confidenciais; à quarta, lançam novos nomes para a fogueira; à quinta, enchem-se de artigos de opinião a defender a dignidade daqueles que têm sido lançados, injustificadamente, a essa mesma fogueira; à sexta, sábado e domingo, entre roteiros nocturnos e culturais e suplementos de verão, queixam-se de não se falar de mais nada em Portugal. Todos os dias, todas as semanas, escondem aquilo de que não querem falar e silenciam os nomes que talvez os conselhos de administração lhes peçam para não lançar.
Os Media nacionais, não contentes com a sua função de meta-realidade, decidiram ser a realidade ela própria. Portugal podia explodir que eles nem davam por isso. Continuavam a escrever, a exibir imagens exclusivas, a tecer análises especializadas.
Por mim, vou já registar a patente da ideia para um novo jornal e ficar rico: um título que cobrirá, exclusivamente, as andanças da vida jornalística nacional. Podem apostar que vai pesar mais que o Expresso
AB

Ladies & gentlemen... 

Gosto de dar entrevistas a mim próprio. Se viram o filme "The Commitments", de Alan Parker, perceberão. Uma das personagens, que reuniu amigos e desconhecidos no sonho de inventar uma banda de sucesso, deitava-se na banheira, com a escova de dentes a fazer de microfone, e imaginava-se numa espécie de "Larry King". Sempre me deram jeito estas entrevistas, sobretudo porque são um exemplo paradigmático da expressão "sonhar acordado". E tenho mesmo de fazê-lo porque recordo raríssimos pormenores dos meus sonhos. Além de poupar um dinheirão em psicanálise. Então desde que comecei a trabalhar tornaram-se cada vez mais necessárias estas pausas no quotidiano racional. Dou uma longa volta de carro, estaciono num sítio mais ou menos deserto, acendo um cigarro e falo em voz alta comigo próprio.
Hoje, perguntei-me uma série de questões que me deixaram emboscado:

queres escrever? sim. queres representar? sim. queres ter uma banda? sim. queres viver noutro país? sim. queres, um dia, dar aulas? sim. de quê? não sei. desejas casar? sim.
E não achas que já tens boa idade para aprender a dizer que "não" a algumas coisas?LFB

DE GINGER LYNN A HOLDERLIN 

David Duchovny

Este cavalheiro de ascendência francesa andou a fazer pornochanchada até que o senhor Chris Carter o descobriu para o papel de Fox Mulder, em X-FILES. Nesta galeria de ícones David é seguramente um daqueles que está bem lixado com a sorte grande. Depois dos ficheiros a única coisa secreta no futuro será a sua carreira cinematográfica. O homem bem tenta e, como fã, devo deixar uma lista de recomendações:
a) Playing God, filme em que atura o mau-génio de Timothy Hutton enquanto beija a senhora dona Anjelina Jolie (consta que ainda por cima deram-lhe dinheiro por isso!);
b) Return To Me, comédia romântica com Minnie Driver - para aqueles que não dispensam a dose mensal de romantismo lamechas (join the club);
c) Kalifornia, acção e suspense com Brad Pitt como Brad Pitt e Juliette Lewis como Juliette Lewis.
Escusado será dizer que Duchovny faz sempre de Duchovny, só que era - de facto - o Mulder perfeito. Restam-lhe as sequelas cinematográficas da série, algumas dezenas de milhões no banco e os carinhos da esposa, a belíssima Tea Leoni. Pobre desgraçado.LFB

POST-BLITZ 

Se preferes as crónicas do Amaral Dias ao estilo lynchiano de um Saraiva expresso vai mas é papar os textos da Júlia Pinheiro! Props pó people do Canal Saúde! Amaral: a tua filha forever!

um homem a dormir em cima do passeio 

Não sei se é do calor, mas a verdade é que tenho visto mais solidão nas ruas. Mais homens a caminhar em linhas oblíquas. Mais vozes a gritarem frases incompreensíveis consigo e com o mundo. Há pouco, durante uma caminhada após o jantar, avistámos um corpo deitado em cima do passeio. Aproximámo-nos. Era um homem de quarenta e cinco, cinquenta anos, com um ar cuidado, arrumado - a camisa de fazenda azul clara por dentro das calças, uma caixinha à cintura para guardar os óculos. Ao lado da cabeça estava um grosso relógio e um maço de SG Gigante. O homem ia-se virando e revirando, fazendo lembrar uma criança dentro do berço, e, de vez em quando, entreabria os olhos para espreitar o calor da noite. Chamámos ajuda e levantámos o homem, que foi cambaleando até um banco de jardim. Quando lhe dei o relógio e o maço de cigarros olhou para os objectos como se tivesse acabado de receber duas estranhas ofertas. Fomo-nos embora a olhar para trás. Exercício natural: especulámos sobre aquela vida. Tentação fácil: pensei em fazer do homem matéria-prima, para utilizar uma expressão do Ivan Nunes; em escrever um post que imaginasse um destino para ele - um destino que, no fundo, nos desinquietasse humana e esteticamente. Que acalmasse os nossos corações, ansiosos por histórias com rasgo e terminando com um qualquer sentido sublime. Talvez também seja vício de Verão: apeteceu-me, no entanto, deixá-lo assim - sem respostas, sem estilo, sem metáforas. Sim, "serviu-me" para escrever um post. Não um post sobre a minha história e as minhas conclusões literárias sobre um homem a dormir em cima do passeio. Um post sobre um homem e uma mulher que se cruzaram com um homem a dormir em cima do passeio. NCS

segunda-feira, julho 28, 2003

Que Invada 

Acabo de postar o amor (antes da ronda habitual nos blogs) e eis que encontro mais e mais... Isto, aos poucos, melhora, melhora sim senhor... que Invada. BR

O Amor 

O Amor ocupa-me hoje em cátedra alta, como água lenta nas serras, que se acumula e devagar enfeitiça encostas... Lembro-me sempre de ti em cada átomo (hoje sou uma montanha, mais, várias cordilheiras) convoco os rios. Encho-me de memória de ti e calmo, sempre mais calmo (porque és a mais incrível mulher que já conheci) lanço em dados o reflexo do céu por estes montes abaixo. Um atiçar (rumores frescos, os peixes por entre as algas, riachos de altitude montanhosa) em Desejo de mar (lembras-te daquele mar, Laura, antes de Rimini, depois da terra do Burri? És tu para mim este imenso Mediterrâneo).
A escala das coisas vivas que, como temperatura, nos explicam a câmara branda dos sentidos diversos. És um desígnio destas minhas vidas. Aí onde estaremos para sempre também, em Boschirollo, eu a andar de bicicleta nos enviesados caminhos do campo e tu, com a Matilde a crescer, a crescer dentro de ti... por entre as tílias ainda corres atrás para me dar um pouco de Parmigiano, Bérnaredooo...Bérnaardoooo...mangia, dai... BR

Citado a depôr 

aqui e aqui. BR

A ditadura do tempo 

Muitas das clientes do meu cabeleireiro são mulheres de meia-idade, em geral louras pintadas, com roupas entre o jovial e o sexy, ainda bonitas e, certamente, muito desejadas em novas. Hoje, olhando os vestígios que o tempo deixa nas suas caras, as manchas que põe nas suas mãos, sei que não despertam atenção nem desejo. E sei que isso tem mais de opressão que de alívio. E sei ao olhar o meu rosto no espelho onde rugas e brancas ainda estão camufladas, à espera de despontar, que um dia - não hoje, hoje é, ainda, belo, viçoso, prometedor, incapaz de o trocar por um só dia do passado - mas um dia chegará que lamentarei não ter mais esta idade, esta tão bela idade, não ter mais este rosto que me fita do outro lado do espelho.
CMC

Uma questão de gosto 

Há dias um amigo dizia-me preferir a poesia ou mesmo os contos ao romance, dizia-me do quão pouco o prendem vidas e personagens fictícias. Por mim, embora mais exigente do que fui, não abandonei esse gosto pueril, a que me agarrava para atravessar os dias, a noite, as insónias, o terror.
Sei de cor mais de uma dúzia de poemas, de cor significa à letra, trazer no coração, palavras e pensamentos que me provocam sensações, emoções, mas uma história, uma boa história, quantas vezes não a prefiro a um poema. Nada pode substituir uma boa história. Personagens com uma consistência, magnetismo e força, vidas com um som mais encantatório que qualquer belo poema.
Gostos. Apenas e tão só uma questão de gostos. Uma inexplicável e enigmática questão de gosto, talvez porque a poesia ao falar de uma maior interioridade me provoque uma menor projecção, empatia e compreensão.
Ouvindo Karen Blixen:
"Todas as dores são suportáveis se as incluirmos numa história ou contarmos uma história acerca delas",
percebo porque um romance me reconforta.
Ouvindo Hannah Arendt:
"É verdade que o contar histórias revela o sentido sem cometer o erro de o definir, suscita o assentimento e a reconciliação com as coisas tais como são na realidade",
percebo o quanto um romance me amplia num qualquer conhecimento, num indefinível saber. Será que um poema também suscita esta reconciliação com as coisas tais como são na realidade? Não me parece precisamente por falar, sobretudo, de um mundo pessoal e idiossincrático.
Em todo o caso, um gosto que é, afinal, o comum, o vulgar: alguém se pergunta pela poesia da sua vida?, não, perguntamo-nos todos é pelo(s) livro(s) da nossa vida.
Hannah Arendt disse, ainda, que qualquer vida é digna de ser pensada e de suscitar uma história que se possa contar, que

"contar uma história, é a única aspiração digna da vida que nos foi dada",
que à pergunta " Quem és tu?" deveríamos responder:

- "Permite-me que te responda, à maneira clássica, contando-te uma história".
CMC

Gy(m)naestrada, anual e eterna, já! 

Em adenda ao post anterior, só posso vir defender a Gymnaestrada. Que melhor coisa pode haver que, ao descer a Rua dos Jerónimos em busca de café e imprensa, apanhar todas as manhãs, naquela passadeira em que ninguém pára, um batalhão de jovens suecas louras, de ar saudável e bem disposto? Ou ver uma exibição de adolescentes austríacas a estontecer o Rossio?
E se a Gymnaestrada se associasse à Prevenção Rodoviária Portuguesa? Se substituíssem os guardas nacionais republicanos por voluntárias gimnaestradenses nas curvas do IP5? Melhor que soprar o balão para uma farta bigodaça em continência só poder mostrar os documentos a alguma soridente ginasta holandesa, que fizesse do nosso capot plinto para a verdadeira prevenção rodoviária.
Aliás, esta é uma preocupação antiga no nosso País, a da ginástica. Posso relembrar aos mais esquecidos que, já em 1953, a Lei n.º 2064, de 22 de Junho, que reorganizou a educação física nacional, previa, na sua Base V, que a educação física nacional deveria ter em conta "as condições mesológicas do nosso país e as capacidades fisiopsicológicas da Raça". Assim mesmo, da "Raça". Ora eu, que tenho a minha mesologia muito em baixo e as minhas capacidades fisiopsicológicas no limite... Ginastas suecas em Portugal, a solução para a crise, para os países de tanga, para os camarinhas de quarteira, para os sociólogos de algibeira, para o verão quente e para a república em forma de regime. MR

Gymnaquê? 

Uff! Finalmente acabou a Gymnaestucha - vulgo Gymnaestrada.
Já não se podia mais com aquilo. À conta de tanta cambalhota passei a semana toda com o estômago às voltas, a mastigar Dramanines para o enjôo. Ligava-se a televisão e, de imediato, era-me ministrada, directamente no córtex, uma injecção de coreografias, de cores e de jovens saudáveis. Fiquei extenuado com tanta alegria contagiante. Assim, não há neurose que aguente.
Terá sido um pouco indigesto, diria eu, para um país que se encontra em plena crise de valores, verem-se tantos meninos e meninas de todas as cores - tipo M&M’S - às piruetas e aos duplos mortais empranchados, entrarem-nos pela casa a dentro, córtex cerebral adentro. Houve ali qualquer coisa de muito salutar que me preocupou: o português não está habituado a tanta felicidade.
Pode cair-lhe mal. É como se acabasse de comer uma bruta de uma feijoada na praia e fosse de repente, com a boca ainda lambuzada, dar um valente mergulho à água. A alegria em excesso deixa o português apalermado. E o português não se quer palerma. Quer-se crispado. Um português crispado é um português atento. Um português palerma é um português que não se queixa do país há cinco minutos.
A bem da nossa saúde, Portugal precisa urgentemente de regressar ao seu estado larvar de exasperação constante. No sentido de se evitarem mais sequelas deverá, de imediato, dar-se início à Super Liga de futebol. Os portugueses devem regressar o quanto antes ao sofá. Deverão abancar sem mais delongas no café da esquina, defronte de tremoços e minis, e dar início às hostilidades. Só uma boa arbritagem - das más, das caseiras, das portistas – constituirá o tónico necessário para restabelecer a nossa autoestima. Urge insultar-se o sr. árbrito - esse boi preto. É premente que se mande um fiscal-de-linha à merda. Falta ao português amaciado, gymnaestrado, um bom murro na mesa, uma boa bofetada no cônjuge. O Benfica perdeu… Toma lá disto!
Para quando uma boa polémica – das boas, das ordinárias, das loureiras - envolvendo um dirigente desportivo? Para quando um boa rasteira, uma fractura exposta? Um penalty falhado? Uma cotovelada nos queixos? Será pedir muito um cartão vermelho injustificado?
A chincha está na marca de canto. O jogador aproxima-se. As claques insultam-se. Objectos são arremessados. Uma garrafa parte os cornos a um polícia. O jogador chuta. O árbritro marca um penalty inexistente. Dois jogadores levam amarelo. O treinador é expulso. No fim do jogo as culpas vão para o árbritro. Para a Liga. Para o sistema. No dia seguinte os jornais trazem em grandes parangonas “O Roubo do Século”, “O Relatório Fajuto”. E no Domingo seguinte recomeça tudo de novo.
Felizmente, a Gymnaestucha é só daqui a quatro anos. Arrotemos, pois então. LCA

Canso-me. 

Canso-me destes últimos dias antes das férias. Canso-me de encontrar o Pedro Lomba duas vezes em dois dias e esquecer-me de ganhar tempo com ele - para pôr a conversa em dia. Canso-me de ser obrigado a ter piada ao pé dos meus amigos íntimos. Canso-me de não saber despedir-me convenientemente das pessoas que amo. Canso-me de vir ao trabalho só para escrever algo e não atraiçoar o compromisso diário que temos com quem nos lê. Canso-me à procura do disco ideal para os últimos minutos desta noite. Canso-me de mim. Canso-me dos 25 anos que estão a terminar. Canso-me de contar os minutos que faltam para regressar à minha ilha. Canso-me destas linhas.
Não me canso do poema que vou escrever a seguir, sozinho no meu quarto, e que imagino há horas, depois de ver uma mulher bonita a dançar. De olhos fechados. LFB

Ainda há pessoas boas, meus amigos. 

Fui ver o "Tito Andrónico" ao Nacional e não vou falar da peça apesar da segunda parte ser claramente superior à primeira e Luís Miguel Cintra ter surpreendido pela sua grande forma.
Vou falar-vos do Nuno Lopes. Para quem não sabe, o Nuno é um actor de Conservatório feito que se revelou aos olhos da fama com a participação na equipa de Herman e, sobretudo, no "Programa da Maria" em que chegava a roubar as cenas a toda a gente. Penso que é a única coisa que o Nuno seria capaz de "roubar".
Depois de Portugal passou meio ano a gravar uma novela no Brasil, a beijar a Maria Fernanda Cândido e a sublimar a importância do Gyanechinni - e regressou ao nosso país como partiu. Íntegro, honesto, caloroso, simples, humilde, talentoso.
O Nuno faz um dos filhos de Tamora, "irmão" sublime de Ricardo Aibéo e abraça, no final do último espectáculo, os novos conhecidos que o felicitam como se de velhos amigos se tratassem.
A consequência deste post é o seu título, caros leitores. Ainda há pessoas boas, intocadas pelos prazeres fáceis da fama, cientes do seu futuro, interessadas exclusivamente na sua arte. Por isso digo, com ternura: obrigado, Nuno. LFB

Um romance soutomouriano 

Qual Júlio Verne em relação aos avanços científicos, Franz Kafka previu, ao seu tempo, o funcionamento da justiça portuguesa de setenta anos depois, nesse magnífico romance futurista: O Processo.
Aqui fica a sinopse, para os eventuais interessados:
Na manhã do seu trigésimo aniversário, um homem é detido em sua própria casa por dois agentes de uma justiça sem rosto, a fim de comparecer perante o juiz de instrução. Ao longo de um ano, carrega sobre as suas costas o castigo desta lei, pagando, ainda antes do julgamento, por um crime que ninguém sabe se cometeu. Passa de mão em mão, de serviço de justiça em serviço de justiça; todos o olham e sabem da sua situação. Ao fim desse ano, no dia em que completava trinta e um anos, o homem é levado até ao breu dos arredores da cidade e morto mais pela vergonha que pela lâmina da faca que lhe é rodada, duas vezes, no peito, sem que nunca tivesse chegado a saber do que era acusado. AB

Também o Carnaval é quando um homem quiser 

Pergunto-me que pensarão dele os madeirenses inteligentes? Como se desculparão do facto nas conversas com os amigos do resto do País? Ocultarão a sua naturalidade como um indivíduo de comportamento sexual duvidoso?
Na festa do PSD, Alberto João Jardim aproveita a ausência de Durão Barroso para entrar de punhos erguidos, qual ex-colega de ringues de Morais Sarmento, ao som de um tema ainda mais épico e messiânico que o pegajoso Vangelis que, anos atrás, acompanhava Guterres. Antes da entrada da alma-gémea no espalhafato Jaime Ramos, vocifera, como sempre, contra tudo e todos quantos tenham nascido no “contenente”, faz chantagens ao governo, diz que Portugal ainda está nas mãos dos comunistas e termina em grande: “Há muita gente que quer ver o Alberto João pelas costas, mas garanto-vos que, seja em que cargo for, onde quer que eu esteja, estarei sempre no meio de vós!”
Ter-se-á esquecido de referir a localização bíblica da frase que citava ou estará mesmo o homem convencido de que é o Messias?
Nem de propósito, a peça seguinte do Telejornal da RTP exibia um discurso de Fidel Castro, também ele fanático, também a recusar ajudas da União Europeia, também ele a falar na dignidade da sua ilha.
De qualquer maneira, neste curioso embate de domingo, vantagem para Fidel: dizem que há muitas mulheres que morrem por uma boa farda…
Às vezes, parece-me que só nos desfiles do Entrudo vemos a verdadeira face de Alberto João e, durante o resto do ano, apenas uma nem sempre verosímil máscara de político com responsabilidades.
AB

domingo, julho 27, 2003

Mallarmé ou Valery?  

Num bar do Bairro Alto, o elenco e os autores das Manobras de Diversão bebem um copo para festejar o último dia de espectáculo. Ao balcão, uma senhora de sexualidade alternativa crava os olhos numa das belas actrizes. Rabisca qualquer coisa num papel. Dá-me um valente encontrão e entrega o manuscrito à surpreendida beldade. Estava escrito: "O que um homem tem de mais profundo é a pele." - assinado Mallarmé. Pareceu-me que isto dava um bom post. LFB

E agora para um momento de introspecção 

Hoje foi o último espectáculo das Manobras de Diversão, "Fechado para Férias", no São Luiz. Fico sempre nostálgico nas estreias e nos últimos dias. O que me priva sempre de duas festas. Custa-me acabar um projecto apesar do que vem a seguir. Custa-me prestar atenção às reacções do público como se disso dependesse a minha vida. Custa-me ouvir as críticas, mesmo quando são elogiosas, porque um "obrigado" ou um "achaste?" soam sempre a timidez artificial e não foram escritos por nenhum grande guionista. Custa-me viver sem um grande texto para decorar, sempre à base do improviso e da bucha, sujeito a cair no passo seguinte. Preciso de férias. LFB

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