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sábado, novembro 22, 2003

Relato de um concerto por uma ignorante musical 

Bobby Hutcherson é californiano, tem 62 anos e é vibrafonista. Eu sou portuguesa, tenho muito menos anos do que ele e não sabia o que era um vibrafone até hoje. Porque hoje recebi uma prenda: um bilhete para o concerto de jazz que o Bobby Hutcherson Quartet acabou há umas horas de dar na Culturgest. Quatro músicos, quatro instrumentos: o tal vibrafone, comandado por Hutcherson; um piano; um contrabaixo; e uma bateria. Percebo muito pouco de música. Para grande parte das pessoas que assistiram ao concerto, não percebo mesmo nada (percebi-o pela erudição dos comentários à minha volta). No entanto, gosto muito de música e saio sempre feliz dos concertos a que vou. Foi exactamente isso que aconteceu esta noite. E fiquei surpreendida, porque a minha ignorância musical aumenta significativamente se a música em causa for jazz. Não percebo nem quando nem como quatro pessoas a tocarem instrumentos diferentes improvisam sem tornar tudo aquilo atonal. Mas hoje o concerto foi de tal modo soberbo que consegui sair de lá não só feliz, como também reconfortada: a minha ignorância relativamente ao jazz pode ser camuflada. De que forma? Seguindo as expressões faciais dos músicos (o que me lembra que desejo escrever sobre a extraordinária interpretação do TR na estreia de «Stand-up tragedy», principalmente sobre o magnífico momento em que simula as expressões faciais do riso e elas são simultaneamente as do choro, da angústia). É certo que o meu plano dependerá sempre dos músicos, mas, sendo que os de hoje eram muito bons (não sou eu que o digo, apesar de ignorantemente o subscrever), podem servir de modelo. Há ali uma cumplicidade desconcertante que lança os sons de um instrumento para o outro como se todos tocassem tudo. Cheguei a ter a ilusão auditiva e óptica de olhar para o contrabaixista e me parecer que eram os sons do piano que ele comandava.
E lá estava eu encantada, a perceber quando é que um deles teria direito ao seu solo, quando é que dois deles recomeçariam a tocar ao mesmo tempo, quando, de repente, aconteceu o inevitável. Comecei a associar tudo aquilo a poesia. Não só as músicas me reconduziam a poemas específicos, como todos aqueles sons possuiam o mesmo poder metafórico da linguagem poética. Bem sei que em toda a poesia há uma espécie de desejo de retorno à dimensão perdida e, por isso mesmo, mitificada do Silêncio. Só que ali foi exactamente a ausência de silêncio que despertou as associações poéticas. Cada som (e não creio que esta impressão tenha tido origem na minha obtusa inaptidão musical) funcionava como uma palavra num poema: remetia sempre para um qualquer indizível significado. Acrescentando a isto as já referidas capacidades performativas dos músicos, aconselho a todos os que perderam este concerto umas pancadinhas com a cabeça nas paredes. O contrabaixista e o seu contrabaixo eram um todo osmótico, como se aquele homem não fizesse sentido sem aquele instrumento. O baterista dominava as técnicas do malabarismo. A pianista deixava transparecer uma enorme capacidade de ler as reacções dos outros músicos. E o caro Bobby, com aqueles pauzinhos cuja terminação é uma bola branca e dos quais eu não sei, obviamente, o nome, transmite tudo aquilo que eu vou gostar de sentir aos 62 anos. Mesmo quando saía de palco e o vibrafone ficava em silêncio. Era um silêncio produtor de significado, o que, afinal, pode provar que tanto a música como a poesia possuem o mesmo centro mítico. Sendo ou não assim, uma coisa ficou para mim mais do que provada: que tudo acaba e começa sempre pela música e pela poesia. IFS

sexta-feira, novembro 21, 2003

A terceira casadoira 

Sou a terceira casadoira, gosto... mas não deixo de ser também a 13ª - como, aliás, fez o LFB questão de assinalar- a contribuir para que "este não seja um blog maricas".
Aviso já que, a partir deste momento, desejo arduamente casar...

um beijinho ao Luís, sem ele nunca teria conhecido este estado. FVO

este já não é um blog maricas! 

Ou muito me engano ou a terceira "casadoira" está prestes a entrar... LFB

quinta-feira, novembro 20, 2003

Os pescadores da meia-noite 

Um destes sábados fui de cacilheiro a Cacilhas jantar feijoada à brasileira no " Atira-te ao Rio", ao som de Chico e Caetano. Não estranhei a quantidade de góticos e góticas que embarcaram comigo estranhei, sim, no desembarque, um punhado de pescadores que ali fazem serão. À chuva e ao vento, à espera que o peixe-mutante lhes bique o anzol. É uma bizarrice digna de guiness. E que dirão as mulheres dos pescadores da meia-noite? CMC

quarta-feira, novembro 19, 2003

Problemas do indizível 

As sensações indescritíveis são normalmente lugares comuns. Como escrevê-las? «Com que palavras e sem que palavras?» IFS

dúvida breve 

será que uma coisa chamada "penal code" pode ser aplicada a uma coisa chamada "michael jackson"? MR

taxi driver 

A notícia de que uns quantos motoristas de táxi da praça do aeroporto de Lisboa foram detidos e constituídos arguidos por cobrarem valores excessivos parece ter causado grande escândalo na classe. Ainda bem que afinal são casos isolados. Ainda bem que a generalidade dos taxistas, em especial os do aeroporto, não fazem isso. Ainda bem que poderemos agora continuar a ter a confiança de sempre nos taxistas, esses amigos honestos, prestáveis e educados.
O problema deve ser meu, que tenho muitos amigos estrangeiros. Os mesmos amigos que quando chegam ao aeroporto de Lisboa e eu não posso lá estar pagam 40 euros do aeroporto para o Marquês. É mais do que custa uma ida e volta entre Londres e Dublin, só que de avião. Os taxistas de Lisboa não alinham no "low cost", no "light". Fazem bem. Um serviço de primeira deve ser bem pago.
E as facturas/recibos? O esgar prazenteiro que fazem os taxistas quando são pedidas deixa-nos bem dispostos para o dia.
Houve uma fase da minha vida em que andava muito de táxi. Era sempre um prazer. No meu primeiro dias de aulas na Faculdade de Direito, apanhei um táxi. Estava atrasado e nervoso. Quando indiquei o destino, ouvi "ah, vai para a faculdade dos aldrabões...". Nesse mesmo dia, no regresso, apanhei com um taxista que esteve a viagem toda a tentar vender-me um carro. O seu. Um Opel Ascona com quinze anos de táxi em Lisboa, mas que, naturalmente, estava óptimo. Noutro dia, viajei num táxi em que o condutor fumou dois charros (de erva) entre o Rato e Belém e ainda tive de aturar, durante toda a viagem, a Rádio Renascença.
Claro que também já apanhei taxistas simpáticos, mas, esses, já devem estar a fazer outra coisa na vida.
Até a própria expressão "apanhar um táxi" indica bem o espírito da coisa. Apanha-se um táxi, tal como se apanha herpes ou se apanha piolhos. As coisas boas da vida não se apanham - conquistam-se, merecem-se, oferecem-se. Não se apanham namoradas. Não se apanham garrafas de vinho. Não se apanham livros dos meus co-escribas casadoiros. Apanham-se táxis. E paga-se por isso. Há de chegar o dia em que alguém vai dizer, num jantar íntimo, "eh pá, olha, apanhei um táxi...", e as pessoas à volta vão levantar-se delicadamente e sair. Ou então, com um ar pesaroso, responder "deixa lá, isso já me aconteceu, agora tens de tratar disso, conheço uns tipos porreiros da IGAE...". MR

A porta 

Há sempre um dia em que se fica à porta –
Pode não ser hoje, não ter sido ontem, pode vir daqui por muito tempo,
Mas, um dia, sempre se ficará à porta.

Há sempre um dia em que se fica à porta,
À porta de um qualquer amigo,
Desencontrado entre agendas e entre amores.
À porta de nossa casa, a mais intransponível porta,
Quando a chave se perdeu.
À porta da tua casa, da tua casa de bonecas de porcelana
Que escondeste em Lisboa e que não abres sem que te
Toquem
trrim
toc toc
sou eu
À porta.

A porta preenche o espaço que fica vazio quando não estás lá para a abrir.

A porta resume o mundo para quem não tem tempo de espreitar pela janela.

A porta antecipa histórias de amor, quando se abre a medo.
Invalida qualquer lei da ciência, quando se fecha e se abre logo a seguir.

A porta é a última palavra, quando a última palavra ficar fechada do lado de dentro.
MR

terça-feira, novembro 18, 2003

António Lobo Antunes e a capacidade de acolher a morte 

São 23:18 e, há cerca de um minuto, o António Lobo Antunes acabou de dizer a seguinte frase na entrevista que está a dar ao R. Guedes de Carvalho na SIC Notícias: «A morte é um dia como os outros só que mais curto». Não me serviu de consolo, apesar de reconhecer a capacidade do António Lobo Antunes lidar com as palavras. Sempre que há qualquer coisa nele que parece querer transformar-se em palavras, puff!, lá estão elas. (Devo avisar que a frase anterior teve a colaboração de Paul Claudel.) E digo-o plenamente consciente do título deste último livro que acaba de sair. Mas voltando à frase. Ando numa daquelas fases de obsessão com a morte, talvez porque andam a nascer muitos bebés e ninguém me convence de que tudo isto não é uma maquiavélica questão de troca. Ainda assim, sempre que morre alguém, tento convencer-me de qualquer parecida com aquilo que o Lobo Antunes acabou de dizer. E o resultado acaba por ser uma outra coisa parecida com o que se segue.

Tarda a chover em mim. Nada se alaga, nada transborda para além da dor dormente do cérebro. Não controlo o suficiente de mim para absorver tantas angústias. Parem, por favor. A agenda e o «A fazer», a caneta e o não poder escrever, e novamente angústia, e ainda o lençol seco de amor, o cérebro e a razão latejante, a alma e a dissonância cardíaca do sentimento que a move... Alguém é capaz de uma desculpa para o medo?... Daquelas em que se acredita pelo simples motivo de serem enunciadas, como quando olhava para os olhos do meu pai na certeza da certeza com que usava as parcas palavras da explicação da vida.

- Um dia, minha filha,

e nem sequer tropeçava na possessividade da palavra,
nem eu nem ele,

- Um dia, minha filha, vais entender que a culpa das nossas falhas está em nós e não nas nossas estrelas,

pois, pai, sempre foi uma questão de iluminação, mas nem calculas como é difícil pagar a conta da electricidade que se gasta nesta casa. Na tua, havia estrelas, tu estendias esse manto iluminado para que eu caminhasse sobre as tuas certezas, e, agora, aqui deitada, rezo, consciente da heresia que pratico ao ser em mim mais forte a certeza da certeza das tuas palavras do que a daquela primeira que nos fez a todos ser o que deus quis sussurrar às almas, por quem te deixas abraçar, na lucidez do ar. Será que nem tu me inventas uma desculpa para a vida? Cumpri o teu destino, desde que ele se tornou a partilha da origem de uma vida. Claro! Como não ouvir-te mais a ti do que aos outros? Tu partilhas da essência dos deuses, tiveste o poder de criar, de me criar, e aqui estou eu, na compreensão do que deixaste de ti em mim, aguardando uma confirmação adormecida que me faça entender que, afinal, o papel das estrelas na minha vida é só eu ser mais uma ao lado de tantas outras, as que merecem o tempo de pó em que se fez a importância de hoje serem estes nomes que me enchem a cama, a alma, a vida, a agenda, a memória, numa torrente inesperada e inconsciente, carregada da responsabilidade de um desejo que se pede quando do céu elas se atrevem a cair, num desfalecimento encantado de dor.
Eu sei: a agenda encerra os nomes que sinto a viver. Sei isso. Sei do alcance, e alcanço: a alma escondida na junção das letras que os sustentam. Por isso, insisto: de quem é a culpa? Quem fez isto? Quem se acusa de ter aberto a porta à angústia? Vejam bem: eu estou doente. O corpo não me obedece. Alguém abriu a porta, deixou o medo entrar, deitar-se ao meu lado. Fui violada num sopro abafado de dor. Não foi nenhum de vós, pois não? É alguma dessas conspirações, pai? Alguma dessas teorias politicamente celestiais que tornam o presente incompreensível, não é? Uma dessas que eu ouvia do mesmo lado da tua linha telefónica, bebendo a incompreensão das tuas palavras, na ânsia de, magneticamente, fazer saltar o dicionário da estante, trazê-lo até mim, abrir uma página,

A
AMONÍACO
AMONTOAR
AMOR, s. m. (lat. amore). Sentimento de afeição de um sexo pelo outro: casar por amor. Afeição profunda, ditada pelas leis da natureza: amor maternal, amor filial. A pessoa amada: a nossa filha, o nosso amor. Dedicação: amor da Pátria. Sentimento vivo, intenso, de gosto por: amor das artes, amor do prazer. Esmero: fazer alguma coisa por amor. Carinho: tratar alguém ou alguma coisa com amor. Amor-próprio, sentimento do próprio valor, orgulho, vaidade. Prov. Amor com amor se paga, retribui-se o bem com o bem e o mal com o mal. Loc. prep. Por amor de: por causa de. ANTÓN.: ódio, aversão.

enfim, compreender-te.
Agora, sei do erro, tenho de procurar

M
MORTALIDADE
MORTANDADE
MORTE, s. f. (lat. morte). Acto de morrer: assistir à morte de alguém. Cessação completa da vida: morrer de morte violenta. A pena capital: ser condenado à morte. Fig. Grande desgosto, aflição profunda: ter a morte no coração. Falta de movimento, de vida: tudo ali era silêncio e morte. Causa de ruína: a guerra é a morte no comércio. Termo, fim: a morte do Império Romano. Esqueleto nu ou envolto em mortalha, e armado de uma foice, que representa a personificação da Morte. Morte civil, perda de todos os direitos de cidadão. Ódio de morte, ódio profundo, fidagal. Entre a vida e a morte, em perigo de morrer. Em artigos de morte, quase a expirar. Para a vida e para a morte, para sempre. Loc. adv. De morte, profundamente: aborrecer alguém de morte. ANT.: nascimento, vida.

mas um dicionário é obra de vivos e a morte queda-se na esperança de se ser para além dela o mais que esses nos impõem.
Fecha o livro. Encerra-te em mim com evidência. IFS


A minha Bábá 

Eu tenho a minha Bábá (assim mesmo, com os dois acentos) e a minha Bábá tem um coração enorme onde cabemos nós. Nós somos três gerações: o meu pai (que a conhece desde a era pré-Bábá e sempre a tratou pelo nome próprio); a minha irmã (que a baptizou inocente, certeira e, desde logo, autoritariamente com um novo nome tornado próprio para o que ou para quem interessa) e eu; e o meu sobrinho. A verdade sobre a minha Bábá é que ela não é nenhuma babá; ela é a oportunidade que me deram de ter três avós. De certa maneira, e para todos os que pensam que os bebés que têm babás, brasileiros ou não, são privilegiados, eu mantenho e supero essa condição. Não há matemática que calcule o mimo que a minha Bábá me dá desde que existo. Apesar de ser crente (no sentido mais básico do termo: acredito piamente em muita coisa que não vejo), não sei bem como foi com a primeira geração. Sei o que me contam. E o que me contam é o mesmo a que assisto todos os dias: à mais extraordinária relação de empatia entre uma criança de sete meses e uma velhota de oitenta e três anos. Talvez porque o meu sobrinho nunca tenha existido sem a minha Bábá que, agora, também é dele; talvez porque a minha Bábá veja nele o prolongamento de nós e, a não poder escrever para apaziguar a dor da distância a que nós ou a nossa infância ficámos, estar com ele é estar também e simultaneamente com o meu pai, com a minha irmã e comigo ao colo. Nunca lhe perguntei. Provavelmente não me saberia responder. Mas há uma canção e um poeta que, num exercício de mútua compensação, me conseguem explicar o fenómeno «a minha Bábá». Diz o poeta: «Infância e morte são limites sobre dois escuros abismos fundamentais». Diz a canção: «Let there be love/ Everlasting/ And it will live eternally/ Will we receive without ever asking?» Com a minha Bábá, sim. IFS

ESTREIA NA 5ª, dia 20 - "STAND-UP TRAGEDY" 



O primeiro link da nossa coluna da direita é do primeiro blog de um espectáculo de teatro em Portugal. O blog homónimo acompanha as últimas semanas até à estreia da peça, 5ª feira, pelas 21h30 - no Maria Matos, e durará enquanto durar a temporada.
Trata-se de um projecto de Tiago Rodrigues, Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges, um monólogo em que se reflecte sobre o papel e funções do RISO. O espectáculo de um comediante que deixa de ter piada ao fim de 10 minutos...

Estas fotos são para aguçar o apetite, salvo seja. LFB

ainda o livro, desculpem 

1. uma amiga conta-me porque se emocionou com o "Mudaremos o Mundo depois das 3 da Manhã". Nasceu exactamente a essa hora, e a frase que mais ouviu na vida, da boca de sua mãe, foi precisamente, "o meu mundo mudou depois dessa hora";

2. ao trocar livros com Daniel Sampaio (foram lançados no mesmo dia), o clínico dá-me uma posição científica que desconhecia, "muito bem escolhido. É precisamente a essa hora que os sonhos se tornam mais, e mais intensos";

3. a terminar o lançamento escolho um exemplar para atirar, como um bouquet de casamento. Foi parar à cara de um blogger. Seguramente, um Rude Golpe. Fico à espera do seu livro, Luís Artur. LFB

Notas primeiro tristes e funestas, depois alegres, por se referirem a futebol 

1. O que mais impressiona na tragédia de Nassíria, que vitimou militares italianos (entre outros), não é o facto de terem morrido pela pátria, como afirmou um cidadão italiano, mas o facto de terem morrido pelos Estados Unidos da América, país para o qual, nesta e noutras questões, quem não está ao seu lado, está contra si.

2. O jogador número 10 da selecção nacional, Rui Costa, disse, revoltado, que espera que no Euro 2004 sejamos todos portugueses. Bom, se eu até lá não mudar de nacionalidade, espero ainda mais: espero que os jogadores da selecção portuguesa joguem bastante melhor do que aquilo que têm jogado. Se a linha evolutiva for esta a que temos assistido, só falta mesmo perder o próximo amigável com a grande selecção do Kuwait (já treinada por Scolari).

3. Ainda a propósito de futebol, é interessante verificar que os jogadores da selecção do Kuwait falam tão mal o inglês como os nossos jogadores falam o português.
HR

segunda-feira, novembro 17, 2003

bem vindos ao tempo do bolo rei 

Os militares da GNR, os que não estão em prisão preventiva, estão no Iraque. Comeram, se bem vi numa televisão qualquer, "pastéis de Belém" a bordo do avião da Air Luxor que os transportou. A jornalista da SIC que foi baleada está no Hospital Curry Cabral, mas parece que o Hospital de S. José também a queria lá. Em quatro linhas, em quatro minutos de telejornal, quantas marcas portuguesas? Quer-se mais internacionalização e competitividade do que isto? Afinal, temos mesmo um "Portugal em acção", o tal Portugal de pasteleiros sabidos e de emplastros ingénuos que sempre se teve. MR

Brindes 

Paulo Gusmão é uma das principais caras do CDS-PP/Açores.
Eu já ficava arrepiado só de olhar para ele, mas agora dá-me vontade de rir. Este senhor teve a genial ideia de oferecer electrodomésticos e outros bens aos militantes do partido (bom, o partido em si também dá vontade rir, mas para não chorar) que consigam inscrever três (ou cinco, não me recordo) novos membros.
Só faltava mesmo ao PP assumir-se como aquilo que é: uma espécie de La Redoute ou, em versão melhorada, de Círculo de Leitores, aberto a novas inscrições e com oferta de brindes exclusivos e de qualidade. Resta saber se devolvem a inscrição caso o militante não fique satisfeito com o produto.
O que me parece mais estranho é que não haja nenhuma cláusula a la Portas, que exclua da militância cidadãos estrangeiros, salvo, naturalmente, se eles próprios contribuirem com um micro-ondas ou uma máquina de lavar para a casa do Sr. Paulo Gusmão.
HR

AVÓ ISABEL 

Quando ele sobe as escadas até ao último andar, desde cá de baixo, a chamar pela Isabel, as vizinhas já sabem que chegou o neto. Tira o molhe das chaves e abre a porta. Isabel estás boa? é o seu cumprimento.
É uma relação de avó-neto e, também, de homem -mulher. Há ali uma reciproca ternura, admiração e atracção.
Ele define-a, aos 87 anos, como uma força da natureza. Que avó resistiria àquele neto único- que herdou a sua queda para a música, lhe assalta o piano, diz piadas como quem fala e ainda por cima tão babado por ela como ela por ele?
A avó Isabel teve uma vida que podia ser a cara da tragédia mas é a da alegria. Morreu-lhe a mãe aos 15 anos, o marido há 25 anos, mas ela vive bem sozinha. É uma avó enérgica que arranca o dia com um café no estômago. Uns olhos azuis carregados de sentido prático, um cabelo curto e umas pantufas a assinalar a informalidade e a descontracção, um querer pular a todo o tempo.
A avó Isabel é pra frentex, aceita as namoradas que o neto traga para os jantares de terça e os músicos de jazz que lhe invadam a casa para jam sessions.
E o neto é assim, também, despreconceituoso. Mais frágil que aquela força da natureza que lhe marcou os genes. Homens sensíveis, ramificações de mulheres fortes. Homens que devem o muito amor que sentem pelas mulheres às mães, avós, irmãs e tias que os marcam. Sociedades matriarcais que, assim, obram maravilhas. CMC

Introdução ao Estudo dos Blogs 

Para quem já não via um dos melhores amigos há quase um ano, passar dois dias na sua companhia foi uma espécie de «operação matança da saudade». Sendo esse amigo o LFB, o reencontro (em carne e osso, visto que as mensagens de telemóvel são uma excelente forma de colmatar as lacunas de um contacto ao vivo e a cores) torna-se muito mais interessante por razões certamente partilhadas por todos os casadoiros e visitantes. Um dos momentos altos destes dois dias foi a minha primeira aula de Introdução ao Estudo dos Blogs. Foi uma lição muito produtiva, muito mais produtiva do que cinco anos na Faculdade de Direito (desculpem-me os casadoiros ligados à instituição), e fiquei de tal maneira instruída nas artes bloguísticas que dificilmente uma palestra minha sobre o tema não seria um sucesso. Até porque o Luís me forneceu todas as informações necessárias para apresentar um hipotético «Top +» dos blogs nacionais - sei tudo sobre quem é mais lido e sobre onde e como posso obter esses dados. Fantástico! A lição terminou como terminam todas as lições pré-teste escrito: com dúvidas metafísicas. A verdade é que, tendo entrado pela primeira vez na blogosfera há cerca de duas semanas, já li de tudo, substancial e formalmente falando. Mas o Luís tranquilizou-me com mais uma lição sobre liberdade bloguística. (É daqueles professores que não se importam de perder o intervalo em nome do esclarecimento total e absoluto dos alunos.) Posso escrever sobre o que quiser e da forma que quiser, o que torna tudo menos complicado, uma vez que a inspiração é, por natureza, intermitente. Nos casos em que se convive de muito perto com uma obra poética que quase nos esmaga, como é a obra de Manuel António Pina e como é o meu caso em relação a ela, sempre que se sente o impulso da escrita o resultado parece padecer de uma insuficiência crónica, como se as palavras ficassem desiludidas consigo mesmas e preferissem estar noutro sítio qualquer que não aquele papel ou, para actualizar a imagem, aquele ecrã.
Mas não é sobre nada disto que eu devia estar a escrever. Segundo o Luís, o primeiro texto de um casadoiro costuma ser sobre o casamento. O problema é que eu não tenho grande graça e parodiar o tema não me parece uma boa saída. E isto cria um segundo problema: como falar a sério sobre o casamento? Nem a definição legal (que já nem sei de cor… a memória tem razões que o coração conhece…) nem a do dicionário me entusiasmam por aí além, e nem eu própria, tendo em conta as amostras a que posso deitar o olho hoje em dia, consigo apresentar uma definição alternativa. Pode ser que este convívio casadoiro me ensine alguma coisa sobre a arte-de-viver-com-sujeito-a-contrato. É que, até hoje, de todos as uniões matrimoniais que pude testemunhar de perto só uma não esteve sujeita a prazo e cumpriu o requisito fundamental da felicidade. Mas não me peçam para falar de amor…
IFS

domingo, novembro 16, 2003

Guerras há muitas 

Eu digo como o outro: uma guerra não acaba quando o vencedor vem dizer que ela acabou. Se esse vencedor fizer tamanha afirmação a bordo de um porta-aviões, vestido de militar, de olhar entontecido e der pelo nome de George W. Bush, presidente da nação transformada no «sincretismo do mundo inteiro», então dá mesmo para desconfiar. Primeiro surgem as dúvidas quanto à verdadeira classificação da intervenção militar norte-americana e respectiva pândega, que soa mais a invasão de um país, sem estar justificada por uma legítima defesa de terceiros, mas por uma acção preventiva – afinal, sempre é melhor prevenir que remediar. Admitindo, o que apenas se faz por hipótese, tratar-se de uma guerra, logo surgem os “is” que a classificam, como sejam o “i” de ilegal, o “i” de injusta, o “i” de inquietante. Se se dissesse, também como o outro, que «o sangue é dos outros», talvez se compreendesse a passividade norte-americana; agora, vendo todos os dias nas televisões o número de combatentes mortos a aumentar, estranha-se a falta de soluções que os EUA apresentam. Ora, tratando-se de uma situação de guerra, de combate, então nunca se pode dar por justificado o envio da GNR (a troco de atraentes compensações monetárias, claro) para o Iraque, a quem cabe sobretudo assegurar a paz e que pouca preparação terá em situações extremas, como a que se vive na região iraquiana. Aliás, em relato telefónico para as televisões, os jornalistas portugueses atacados a caminho de Bassorá reconheciam que não estavam preparados nem se tinham apercebido do quão instável se encontrava o triste palco de operações militares. E digo isto sem querer cair, ao contrário do que parece pretender Ferro Rodrigues, na culpabilização do Governo, do género: se a GNR não tivesse sido enviada, então os jornalistas portugueses não teriam ido atrás, e se não tivessem ido atrás, então nunca teriam sido atacados, baleados e raptados.
Resta-nos esperar que George Soros e os amigos democratas consigam derrubar o mais ineficaz e obtuso presidente dos EUA, e que depois se lembrem do pequeníssimo Portugal e de ajudar a empurrar Durão Barroso, em definitivo, às boxes.
HR

aquele abraço 

Há cerca de dois anos, aquando do lançamento em várias cidades mexicanas de "Ventana a la Nueva Poesia Portuguesa", ouvi a frase mais extraordinária da minha vida: "ainda não tinha visto uma imagem absolutamente perfeita até ver-te escrever". Dita em espanhol pela Marina depois de uma sessão de autógrafos à magnífica audiência da cidade de Querétaro. É evidente que a Marina é mexicana e eu relembro que o México é um país muito quente, Querétaro fica no meio do deserto e é sabido que o sol pode provocar danos cerebrais graves.
De todo o modo, a Marina - separada por 10.000 kms de oceano - não pôde estar presente no lançamento. Mas foi uma das raras mulheres da dedicatória que não estiveram lá.
Este é o meu último post sobre o livro, apenas para agradecer a todos os amigos presentes a grande festa, o belíssimo dia que me proporcionaram. Para agradecer a notável solidariedade blogosférica, as palavras escritas de tantos amigos, conhecidos ou desconhecidos, a ternura que me ofereceram com tamanha generosidade e disponibilidade.
Fui surpreendido ainda com a presença de várias pessoas, bati o record guiness de beijos e abraços por segundo e metro quadrado e, apesar de todas as tentativas, não consegui embebedar-me. Não esquecerei o dia 13 de Novembro.

Agradeço também a todos os que escreveram mails a perguntar como e onde poderão adquirir o livro. Prometo responder a cada um de vós, até porque - se não o fizesse - seria espancado por 3 imigrantes ilegais a soldo da editora.
De resto, e para terminar, "Mudaremos o Mundo depois das 3 da Manhã" estará à venda de hoje a uma semana. Como disse Celina, a pessoa que apostou tanto neste livro, "Guarde bem os sentimentos deste dia. Nunca mais se repetirão".
É uma grande e triste verdade. Mas que tinha de viver. LFB

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