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sábado, outubro 25, 2003

Viva! 

O jornal "A Bola" revela a existência de um placard, de autor anónimo, no interior do novo Estádio da Luz, que brinca com todo o processo de construção da Catedral:

"As 10 fases da obra":

1. optimismo geral
2. fase de desorientação
3. confusão total
4. período de tumulto incontrolável
5. busca implacável de culpados
6. salve-se quem puder
7. castigo exemplar dos inocentes
8. recuperação do optimismo perdido
9. conclusão inexplicável da obra
10. condecoração e prémios aos não participantes."

Correio do Leitor: 

Já todos experimentámos vários exemplos de leitores que não nos conhecem e, por apreciarem o DC, preferem não nos ver a cara. Hoje recebemos um mail que, pela mesma ilusão e romantismo, provoca o mesmo efeito só que inverte as coisas. Sou eu que prefiro (apenas) receber as cartas desta leitora, e sonhar, sonhar...LFB


Sou leitora assídua do vosso Weblog,por isso achei pro bem desejar-vos um bem aja!
 
Confesso que tenho uma certa dificuldade em compreender os graus de parentesco , afinidade ou amizade que vos une..pois sois muitos, mas gosto de ler os vossos posts , pois o trabalho aqui no escritório nem sempre é suficiente para me ocupar as terriveis 8 horas diárias...
 
Visto estar a ser constantemente actualizado, dispenso algum meu tempo de dolce fare niente a ler-vos...
 
Obrigado pela companhia,
 
Marisa Cruz
 
 
Ps- Se bem em apercebo sois todos de uma classe um tanto ou quanto intlectual ou elitista (em comparação com a em que me insiro) mas isso faz-me renovar os parabéns, pois a vossa escrita e os assuntos são bem agradáveis e de fácil compreensão.

sexta-feira, outubro 24, 2003

Batam em Latas 

Um amigo regressado das Antilhas conta-me a seguinte história: na localidade de St Anne, em Guadeloupe, desfilava um cortejo fúnebre. Do interior do carro, onde seguia o caixão, escutava-se, em alta potência, as canções de Bob Marley. E os acompanhantes, vestidos de negro, sorriam, fumavam erva, esbugalhavam os olhos. A área tresandava a marijuana. Oh yeah. Batam em latas. RIS

O mundo em 1976 

Há uns anos atrás, a minha mãe ofereceu-me uma edição de 1976 do dicionário prático ilustrado da Lello. Dado termos a mesma idade, o Lello (como lhe chamo) tem acompanhado o meu crescimento e passei muito tempo infantil a observar, encantado, as cerca de 6000 gravuras a preto e a ler as histórias sobre reis e conquistadores. Num momento sentimental, comecei hoje a folheá-lo e descobri que naquela época o haxixe [s.m. (ár. haxix)] era uma composição que se tirava do cânhamo-indiano, possuía propriedades excitantes e narcóticas e era mascado e fumado pelos Árabes. Mais adiante, escrevia o Lello que os homossexuais [adj. 2 gén. (gr. homos, semelhante, e sexual)] eram pessoas que praticavam entre si actos contra a natureza . No mundo actual, esta definição passou a aplicar-se aos destruidores da floresta da Amazónia. REC

Viagem à Sicilia 

A stream of thought
1. Sobre o mediterrâneo sente-se o peso variante e louco da história, uma linha de pensamento começa no avião, ao partir de Roma, terna e sem dar muito por isso, devagar, se inventa e vive um outro lado da realidade, habitada por Ulisses e seu barco à deriva de Ithaca, os Gregos construtores da harmonia, os Etruscos adivinham-se, até a sombra de Sto Agostinho aqui paira, a ver-se livre de manicheístas desejos, uiiiiiii, Il vento, il teeeeeeeeeeeeeempo, via! A Invenção da Luz.
2. Em Palermo aterra-se entre montanhas ingremíssimas. Os nossos raptores esperam com sorriso afoito. No fundo da mala do carro trocamos as primeiras impressões, entre bairros neo-coloniais espanhois. Enjoo. Crinas. Cabeças de jovens cavalos assobiam.
3. Uma casa cheia de livros e plantas. Do chão ao tecto, nos quartos, nos corredores, nos alpendres. Um velho cão, a sabedoria. Certezas em quatro passos. Nesta cidade trocam-se tiros com mais acuidade e subtileza...já quase me tinha esquecido do magnífico Harlem. Saravá New York, ti Esalto di qua...
4. Epopeia de Pirandello e Verga, deste, do Malavoglia o lado trágico deste mar a quem as costas se oferece. Do outro, genial obsessão destes últimos anos, roubamos o Uno, Nessuno e Centomila para o sonho a efectuar.
5. O melhor início com alunos (experiência 1ª, do foro do incrível) é sempre um passeio entre árvores. Assim se evoca o mar, entre um sôfrego respirar, inalar, expirar, este ar húmido, pesado, prenúncio de Africa. (shh Canollo Siciliano).
6. Teatro dell´ Eco, um Porto Mentale per la Isola Volante. Ehhhh.....Centro do Mundo, Olhos fechados...Asas.............................................................
7. Caras Sicilianas, Africanas, Italianas...mercados de vegetais, carne, chinelos, gelado de limão, la Norma, Mangia-te la Norma, Re, dai, ti fará dimenticare............Botarga. Evocações do Cairo, Jerusalém...Estarei perdido, nu, atento ao dispersar das noites. Farei uma conferência sobre nuvens, darei autógrafos. Brindaremos com limoncello.
8. Serei um outro. Efebo, professo, um sopro do nada. As montanhas do fundo do mar. E já vivo, sabemos, bem dentro de ti. BR


O portão da minha casa 

A porta de entrada da Amizade é, na verdade, um velho e pesado portão de quinta. É curioso verificar que mesmo uma Amizade recente é feita através de um portão antigo, quase sempre enferrujado e frequentemente envolto em silvas. Não é por acaso que é assim.
A Amizade é uma casa importante. Não é um barraco qualquer. Uma pessoa até pode ir visitar um amigo que viva numa barraca mas, ao entrar, fica automaticamente instalado num duplex com vista para a alma. A Amizade é um solar Minhoto, todo em granito e encimado por um brasão. Transposto o portão, somos tratados com todas as mordomias e salamaleques. Somos uma espécie de fidalguia sem bigode retorcido, a quem um mordomo de libré passa a vida a perguntar com sóbria reverência: "Vossa Senhoria vai desejar o café servido no salão ou no jardim?".
Ao pé dos meus amigos eu sou sempre o Duque de Palmela. Dão-me palmadinhas nas costas e perguntam-me, como se a sua alegria disso dependesse, se passei bem. Sou um autêntico Marquês do Alegrete. Ando sempre bem disposto e anafado.
E assim passo Verões inteiros.
Por outro lado, se entrarmos numa casa e formos tratados como um lacaio, como um Sancho Pança a quem entornaram o café a ferver por cima das pernas, significa que não somos bem vindos. Quando isso acontece - e por vezes acontece -, não devemos passar lá um fim-de-semana que seja. Devemos agradecer cordialmente e abandonar a casa imediatamente. Não ser bem vindo a essa casa não é o fim do mundo. Apenas não é o princípio de nada. Por muito que isso nos possa custar, devemos sempre aceitar que em casa alheia mande o seu legítimo proprietário.
Devemos aceitar que em muitas casas apetecíveis possa habitar um Sebastião José de Carvalho e Mello, que nos trate como a um Távora. Mas, no intímo, sabemos sempre que a cabeça decepada de um Távora vale muito mais do que um Marquês de Pombal inteiro - dos pés à peruca.
No solar da Amizade não se pode entrar de qualquer maneira. Tem de haver sempre um portão antigo, quase sempre enferrujado e frequentemente envolto em silvas. E esse portão, quando empurrado, logo faz soar as dobradiças e as próprias silvas se eriçam. É assim por uma simples razão. Porque todas as coisas que são importantes na vida levam o seu tempo. Não porque sejam coisas difíceis - a amizade não é uma coisa díficil - mas porque merecem.
E o seu tempo, será sempre aquele tempo do qual guardaremos sempre a certeza, no meio das incertezas que temos.

Ao Luís Filipe Borges e ao Nuno Costa Santos, comparsas desta casa, dedico todo este relambório.LCA

post rápido porque o lançamento é daqui a duas horas e ainda preciso de arrefinfar 3 whiskies 

O Tiago Rodrigues lança hoje o seu primeiro livro de poesia, na galeria Parthenon, Rua das Fontainhas, Alcântara. O belíssimo "Para Onde Vão os Poemas Quando Morrem?". O Tiago é brilhante. O livro custa 5 euros. Estão à espera do quê? LFB

ps: como todos os génios têm momentos de dispersão, o Tiago convidou-me para dizer umas palavras no lançamento. Terei o privilégio de fazer aquele "cof, cof" que convoca as pessoas para o discurso. Um discurso que espero sereno e curto, apesar do teor alcoólico que ainda preciso atingir para aliviar a pressão, mas que - sei - terminará muito bem. Porque acabo com um poema do meu amigo. Um grande poema de um grande amigo.

Correio do leitor: 

De : 
"Luisa D. Santos"  
Para : 
desejocasar@hotmail.com  
Assunto : 
comentário  
Data : 
Thu, 23 Oct 2003 17:08:18 +0100  

Curioso! E se calhar nem tanto. Os vossos últimos 4 posts (do medo ao casamento) abordam o relacionamento entre pessoas. A gestão da distância, da intimidade, da intrusão sentida, afastamentos e aproximações, solidões sozinhas, solidões de multidões, ambas insatisfatórias? afastamo-nos quando os outros se aproximam ou apenas estão perto, ficamos com aquela sensação de incompletude por não conseguirmos partilhar aquilo que nem nós próprios sabemos bem o quê. Por isso o "casamento" enquanto espaço de intimidade ansiado (desejado) mas ao mesmo tempo sufocante comporta a ambiguidade dos nossos próprios sentimentos relacionais.

O nosso sentido e presente individualismo já não "aguenta" a aproximação de um outro, de "estranhos" intrusivos que julgamos nada ter a ver connosco. Será mesmo que não tem? Se calhar até não tem, mas custa tanto dizer "olá" e passar à frente? Não são estes pequenos gestos de humanidade (não apenas pelo outro, mas por nós próprios) que fazem com que nos sintamos mais pessoas, e aos outros sentirem-se alguém (que existe) neste mundo? Ou então serão "pedras" que nem merecem ser olhadas? Ou melhor, são intencionalmente ignoradas? E se ocupam por um momento o nosso pensamento, porque não, e custa-nos menos (também porque nos ocupa menos, no fundo), vivenciarmos esse momento com naturalidade humana e relacional. Mas há os chatos, dizem-me. Claro, mas por detrás desses não há também tantas carências, tantas solidões, tanta necessidade de se mostrarem como alguém?

Assim como não há cursos para ser pai, mãe, filho, cônjuge, não há para as outras nossas relações. As aprendizagens relacionais são as mais difíceis, porque são aquelas que têm a ver connosco próprios, com a nossa essência; sem os outros como espelhos, a nossa substância não teria um único reflexo. Construímo-nos, criamo-nos através dos outros.

Imaginemo-nos, por um instante, num mundo de uma única pessoa, nós próprios. Existiríamos mesmo?

Há momentos assim 

Um dos melhores momentos de televisão a que assisti ocorreu, pasme-se, num telejornal da TVI. Por exclusão de partes, esse telejornal só poderia ser o da terça-feira, com Miguel Sousa Tavares, ou o de domingo, com o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.
Foi o da terça, há algumas semanas, quando Miguel Sousa Tavares recorreu a alguns versos do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto para comentar a actual situação do governo deste nosso triste país. Foi um momento de rara e curtíssima beleza nos frequentemente abjectos telejornais nacionais, e que me pôs a pensar: se eu não soubesse, diria que este senhor (Miguel) é filho de uma poetisa. Só os serões, enquanto criança, em casa de Sophia, sua mãe, ouvindo poesia e, talvez mais importante, ouvindo poetas, explicam o genial atrevimento do jornalista que, sendo pago para comentar no seu estilo habitualmente mordaz e certeiro, citou João Cabral, um dos maiores poetas de língua portuguesa do século XX.
Há momentos assim, em que finalmente compreendemos por que é que existe aquilo a que se chama poesia.

«Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar a sua voz inenfática, impessoal;
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta;
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação de pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No sertão a pedra não sabe leccionar,
e se leccionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.»

João Cabral de Melo Neto, "A educação pela pedra"

HR

Para onde vão os posts quando tiram férias? 

Dizer que “Para onde vão os poemas quando morrem?” é o meu primeiro livro, como eu já ouvi em várias pastelarias da Baixa, é incorrer num caso claro de publicidade enganosa.

Na verdade, o que hoje vai ser lançado às 19 horas em Alcântara, não é um livro. Trata-se de uma brochura poética. Um folheto. Uma coisinha.

É apenas um livrinho composto por 20 poemas. Mas, feitas as contas, cada poema custará 25 cêntimos sem IVA. Nos dias que correm, é uma pechincha! Estará à venda a partir de Novembro.

O lançamento desta edição de autor está marcado para hoje, 24 de Outubro, sexta-feira, às 19 horas. É na Galeria Parthenon, no número 40 da Rua das Fontainhas, em Alcântara. Mesmo ali ao pé do Largo do Calvário.

Para os companheiros de Desejo Casar, fica aqui o atrasadíssimo convite. Para os leitores, a porta igualmente aberta. Há comes e bebes. O Dinarte Branco, a Cláudia Gaiolas e o Alfredo Brito vão ler um poema cada um. O Miguel Borges também ia, mas tem estreia hoje no Teatro Taborda (Muita merda para o “T1”!).

O Luís Filipe Borges vai apresentar o livro e cometer outras loucuras. Eu estarei lá o tempo suficiente para assinar dedicatórias, rever velhos amigos e pedir desculpas pela saída antecipada, justificando-me com a birra que a minha filha Beatriz estará a fazer. TR

quinta-feira, outubro 23, 2003

Desejo liderar 

Estranho, estranho mundo. A Bárbara engravidou e o marido é que está com desejos. NCS

Última Hora! 

Através da gabardina, cheguei a esta notícia: Women who perform the act of fellatio on a regular basis, one to two times a week, may reduce their risk of breast cancer by up to 40 percent, a North Carolina State University study found.
Não acredita? Veja aqui.
Tudo pelo bem estar da mulher.LCA

O relógio do meu irmão 

Estalou, enfim, a polémica. Durante um jantar em família, reparo que o meu irmão traz apenso ao pulso (experimentem dizer "apenso ao pulso" muito depressa) um invulgar spécimen bi-ocular. Ele está contente. Ele está orgulhoso. Ele tem um relógio com dois mostradores acoplados. Se um é para indicar as horas, o outro, por seu lado, contém uma bússola que lhe indica os pontos cardeais. Senhores, estamos em verdade na presença de um Sr. Relógio!
E pergunta o estimado leitor: qual a utilidade de semelhate objecto no pulso? Ora bem, vejamos a seguinte situação, por exemplo, no trabalho. O primeiro mostrador, substancialmente maior do que o segundo, diz-lhe quanto tempo falta para a reunião. O segundo (manifestamente subnutrido) indica, numa bifurcação, qual a direcção da sala de reuniões. É de facto uma mais valia.
Vejamos, por ora, a reacção feminina a semelhante alfaia:
- O que é isso? É uma bússola?!
Ora aqui está uma boa oportunidade para introduzir a conversa do bandido. Ela está encantada. Ela está distraída. Ela está confusa com o mostrador extra.
No fundo, é como se andássemos todos os dias com um busto de Napoleão debaixo do braço.
Vou comprar.LCA

edital 

Informam-se os caríssimos André, Miguel, Joel, Pedro, Domingos, Ana e Maria, Henrique,Paulo e Luís Artur de que posso ser uma besta, mas cumpro as minhas promessas.

Almoços e jantares para breve e em força! E quem me acompanha, e ao NCS e MN, no jogo do Glorioso com o Beira-Mar? LFB

uma criança com o seu brinquedo novo 

O Natal de 84 foi o melhor e o pior da minha vida. Nesse dia recebi um fantástico avião "made in Italy", amarelo dourado e azul, que só precisava de balanço com o braço para carregar a sua corda. Depois saía disparado e, no fim da recta, levantava as rodas da frente ameaçando voar. O vidro do cockpit permitia ver que, lá dentro, estavam 3 pilotos misteriosamente fardados de azul - aliás, azuis até na cara e nas mãos - que encaravam o horizonte com determinação. Infelizmente, poucas horas depois, com a minha subtileza natural de elefante em loja de porcelana, estampei o avião contra a parede por trás da árvore de Natal. A corda avariou, o cockpit partiu-se, dois pilotos perderam a cabeça e descobri que o corpo do terceiro acabava na cintura. Nunca me custou tanto perder um brinquedo. Talvez porque, naquele momento, na plenitude dos meus 7 anos, a profissão de piloto de caças ganhava vantagem sobre as de bombeiro, astronauta e piloto de F1.
Vem isto a propósito de um comentário que ouvi hoje, como reacção ao meu entusiasmo com as primeiras semanas de encenador de um grupo de teatro: "parece uma criança com o brinquedo novo". Curioso, foi logo hoje, no dia em que reparei na primeira loja enfeitada para o Natal.
Estou, de facto, entusiasmado. Mais do que. Pela primeira vez na vida, um grupo de pessoas - entusiastas, ainda por cima - colocou-se sob a minha responsabilidade. Melhor ainda, não precisam que lhes dê corda e não são azuis. Só querem saber por onde ir.
Estou feliz porque desconfio que terei um grande natal. Apesar de ainda haver vidros e paredes, este brinquedo não vou partir. LFB

quarta-feira, outubro 22, 2003

HISTÓRIAS DE AMOR - de Alexandre Borges 

O Alexandre é a única pessoa que me trata por Filipe e eu sou o único que o chama de Paulo. Nenhum de nós aprecia especialmente esses nomes próprios mas fomos formatados assim pelos nossos pais, que os preferiam ao Luís e Alexandre. Eles usam o composto e é Luís Filipe para aqui e Paulo Alexandre para acolá. Tudo bem. Isso agora até não interessa nada. O que importa é que acabei de devorar o primeiro livro do meu irmão, uma encomenda da Editorial Notícias, intitulada "Histórias de Amor (em Portugal), a abrir a colecção "10 +". Finda a leitura percebi, se é que tinha dúvidas, porque é que gosto muito do Paulo e admiro tanto o Alexandre.
O AB, que anda sem tempo devido ao trabalho, escreve muito, muito melhor do que eu. E mais do que publicidade ao livro - bem merecida, aliás - este post é para recordar essa evidência e mandar um grande abraço ao meu irmão, que não vejo há um mês e escreveu este volume com elegância, carisma e conhecimento. Algo bastante simples para ele, uma vez que é assim mesmo que vive. LFB

ps: comprem e entendam o que digo.

Não te deixarei morrer Miguel Sousa Tavares! 

Miguel Sousa Tavares, um dos três jornalistas de quem não prescindo (a par com Vasco Pulido Valente e António Barreto) zangou-se ontem com a Feiticeira da TVI. A dada altura, visivelmente irritado, colocou Maga Moura Guedes no seu lugar- e à má cara.
David Crocket está vivo - e no local onde menos esperávamos reencontrá-lo.LCA

O Medo III 

A Dona Arlete é uma senhora santomense de sorriso fácil que trabalha cá em casa há cerca de um ano. Era só isso que sabia dela. Minto: também sabia que a Dona Arlete foi-nos recomendada por um amigo do Miguel Romão e que mora do outro lado do rio. Na semana passada, fiquei a conhecer melhor a Dona Arlete, com quem já mantive vagas conversas sobre São Tomé. Tive uma ilustre visita na quinta-feira: dois polícias quiseram entrar em minha casa. Um pormenor: quiseram entrar em minha casa sem que eu estivesse cá dentro. Não, a minha casa nada tem de parecido com o pátio do ISCTE. Levantei-me agora, fui espreitar a sala e não encontrei lá no meio nenhuma exuberante planta ilegal. A vizinha de baixo chamou a autoridade e um bombeiro para saber se era da nossa casa que vinha o mal que afectava o tecto de um dos seus quartos. (Pediu-nos, depois, desculpa pelo abuso; mas essa parte da história é, neste momento, irrelevante). A pequena Dona Arlete negou-se a aceitar que qualquer das pessoas que ali estavam pisasse o nosso chão de madeira. Os donos da casa não estão, ninguém entra. A Dona Arlete não passou, por exemplo, os nossos números de telefone, como lhe foi pedido. Manteve o rigor da sua posição até ao fim, perante um exército: o nervosismo verbal da minha vizinha e da sua filha, os resmungos dos polícias e os palavrões do bombeiro. Barrou-lhes o caminho mesmo depois de os agentes lhe terem exigido o seu nome e a sua morada e de a terem a ameaçado de notificação (curiosíssimas, estas modernas ameaças). É isso, na semana passada, fiquei a saber mais uma coisa sobre a Dona Arlete: que é mulher de coragem, que envolve o medo com gargalhadas tropicais. NCS

Paulo Galvão e Luís Hipólito 

Gosto quando os títulos são nomes de pessoas. São títulos simples e que não custam nada a escolher. Porque são pessoas de que gosto muito. Neste caso, o Paulo e o Luís, que não vejo há muito, demasiado tempo, por incúria minha.
É estranho pensar que trabalhamos a 500 metros uns dos outros e há meses que não consigo decidir-me a dar corda aos sapatos para partilhar uma refeição com estes dois, que me dão o prazer de ler o DC todos os dias, encurtando as distâncias e conservando os afectos.
Conheci-os na Mínima Ideia, produtora de televisão, onde fizemos - em 2 anos e meio - meia dúzia de programas, com destaque para o ZAPPING, editado pelo nosso TR, e onde também estavam o NCS, o AB e o MR, todos com a gratificante tarefa de fazer omoletes sem ovos, a inventar um sistema televisivo alternativo e a vestir e despir rapidamente as roupas de guionistas, actores e jornalistas.
O Paulo ainda é o maior humorista secreto deste país, escondido na sua timidez e sem pachorra para levanta-te-e-ris. E o Luís é apenas, como diria o anúncio, "provavelmente o maior jornalista de televisão em Portugal", incansável caçador de histórias e de personagens literárias nas mesmas ruas que nós.
Como escreveu o Joel Neto, no "3º Servo", e cito de cor: "um homem também é aquilo que escolhe não ser, ainda que o seja para o resto da vida". Há cerca de um ano, escolhi deixar a Mínima Ideia, deixar - talvez definitivamente - a companhia do Galvão e do Hipólito mas, apesar de me ter revelado um péssimo amigo, preguiçoso e esquecido, gosto de pensar que tenho a vida toda para me reencontrar convosco. Mesmo que seja de ano a ano, mesmo que continue a ser uma besta. Aquele abraço,
LFB

terça-feira, outubro 21, 2003

O Duelo 

Dois homens detectam-se ao longe, julgando, cada um para si, terem sido os primeiros a avistar o outro. Conhecem-se vagamente, por intermédio de uma prima ou de uma amiga. Falaram durante cinco minutos, há cinco meses atrás. Agora cruzam-se novamente, sem qualquer intenção de se cumprimentarem. Aproximam-se, rejeitando qualquer fuga ou mudança de passeio. Mantêm-se firmes, estudando um olhar, um movimento, um gesto preciso – é necessário que o outro não o reconheça, ou melhor, é necessário não reconhecê-lo. Os olhos vacilam em ambos os personagens – é na sua expressão que tudo se joga. Qualquer fraqueza, qualquer desvio, qualquer choque inadvertido com o olhar... E é o fim: um deles terá de se decidir a cumprimentar, um deles será o vencido.

Estas questões assaltam-me frequentemente: a quem cumprimentar? A quem sorrir? A quem evitar?

Há categorias fáceis e definidas, que obviamente escapam ao problema: as pessoas que conhecemos e gostamos (ou pelo menos conhecemos o suficiente) e que naturalmente cumprimentamos, sem pensar sequer se fomos os primeiros ou os segundos (mas mesmo aqui, há certas nuances); e depois aquelas que não representam qualquer questão – porque é tácito que já era: ou por motivos pessoais, ou por motivos de tempo (uma declarada antipatia ou o colega de escola que nem temos certeza se o é).

Onde o problema se põe é nos casos ambíguos: os indivíduos com quem falamos uma vez, duas; o empregado do café a que não vamos muito; aquele fulano que conhecíamos, mas que agora, por uma razão ou outra, não temos qualquer interesse em conhecer. Há pessoas para quem o problema é simples: não cumprimentam e pronto. Para outras, o caso é mais complicado.

Principalmente nas cidades, e sobretudo na nossa, onde já conhecemos tanta gente e onde supomos arquétipos em quase todos os habitantes, torna-se difícil lidar com esses «ambíguos». Que interessa alimentar uma relação baseada num cumprimento de fugida, ou numa breve troca de palavras sobre o tempo? Para quê parar diante de alguém que não nos suscita o menor interesse para cumprir dois minutos de chacha? E se esses dois minutos se tornam cinco? E se criam a oportunidade para, numa próxima vez, a fita se repetir e – horror dos horrores! – se desenvolver?

Há múltiplas razões para este tipo de cenas: desde a tal conversa de dois minutos, sem significado, até qualquer comprometimento que essa pessoa implique (o tipo que nos vendeu haxixe quando tínhamos quinze anos).
E como proceder, quando inevitavelmente chocamos? Entra aqui um verdadeiro duelo, pois em muitas situações o embaraço é mútuo e a falta de interesse também. Que fazer? Ocorrem-nos milhares de estratégias: virar a cara, olhar os sapatos, inventar uma frase para alguém que esteja perto, olhar sem cumprimentar (para os que têm mais nervo), ou sucumbir, pateticamente, a um breve esgar que se espera inócuo e inconseqüente. Acima de tudo, rejeitamos a iniciativa. Não será por nós que o sujeito terá vontade de falar e contar a vida. A haver algum contacto, a responsabilidade será dele.

Mas nem sempre corre bem. Ou porque o nosso esgar foi suficiente para o outro se sentir em casa (e então desata a vir ter connosco cheio de confiança). Ou porque não fugimos com os olhos no momento do tiro, e foi ele, interessadíssimo na nossa pessoa, a fazer-se de convidado. Ou ainda quando manifestamos algo que eventualmente possa ferir o outro (como já me sucedeu: encontrar briga num bar por supostamente ter sido arrogante com um tipo que não me interessava cumprimentar e que se sentiu ofendido pela minha rejeição). Nem sempre corre bem. Nem sempre encontramos o tratamento adequado a cada situação. E isto porque, muitas vezes, somos apanhados desprevenidos e não temos a menor ideia de como agir.

Esta problemática refere-se, obviamente, a casos de «desinteresse» - seja por razões pessoais, preconceito, ou simples cansaço de conhecer mais gente. Mas há um outro universo, infinitamente maior, que se prende com as razões «informais» (como o sexo oposto [no meu caso] ou os conhecimentos que de algum modo não são «desinteressados»). Mas isso dava um longo post. Muito mais longo que este. Fica o excerto de um filme.


Um homem e uma mulher detectam-se ao longe, julgando, cada um para si, terem sido os primeiros a avistar o outro. Conhecem-se vagamente, por intermédio de uma prima ou de uma amiga. Falaram durante cinco minutos, há cinco meses atrás. O homem recorda-se dela, e sente todo o interesse em cumprimentá-la. Desconhece se o interesse é mútuo. Aproximam-se, rejeitando qualquer fuga ou mudança de passeio. Mantêm-se firmes, com o homem a estudar um olhar, um movimento, um olhar preciso – é necessário que ela o reconheça, ou melhor, é necessário reconhecê-la (mas devagar... Ou depressa?)
Os olhos vacilam no personagem – é na sua expressão que tudo se joga. Cumprimentá-la à distância, anunciando simpatia? Manter o olhar firme até ao encontro, revelando mistério e ambiguidade? Fazer de conta até à última hora, e passar por distraído? Esperar por iniciativa alheia, granjeando desde logo uma vantagem? Ou borrar-se nas calças e não dizer nada?
Estão quase a cruzar-se, a mulher em passo ligeiro, o homem a acelerar. Falta pouco, falta muito pouco. «Deixa cá ver-deixa cá ver-deixa cá ver...» RIS

de william wallace a william lawson, contributo para o Casamento 

Em conversa com um amigo, entre whiskies e cigarros, falamos do seu casamento. Diz-me exactamente o que penso: "O casamento é, hoje em dia, um dos últimos gestos românticos. E simultaneamente heróicos."
Assim é, porque as últimas gerações descobriram que qualquer um de nós pode ser feliz com... enfim, fazendo as contas por baixo e para adiantar um número redondo, cerca de 10.000 pessoas. Escolher uma, uma só, assinar um papel, fazer uma festa, e ir para a cama a pensar que aquele corpo nos vai amenizar os invernos para sempre, é coisa digna de um Willliam Wallace.
Paguei a conta à pressa e, com William Lawson a mais no sangue, fui acelerando rápido para o próximo destino. É que ainda me faltam, hmm... cerca de 9.990 pessoas. Hic. LFB

A ditadura do riso 

Já se falou disto antes neste blog. É até um assunto recorrente entre alguns dos que assinam os textos do DC. Deveria ter honras de dossier temático.

Falo da ditadura do humor.

Não posso deixar de me sentir incomodado por aqueles que, por vezes muito mais cultos do que eu, se sentem na obrigação de dizer "aquele paneleiro holandês da auto-mutilação" para não serem acusados de pedantismo ao referirem o nome de Van Gogh.

Ou aqueles que imitam o francês macarrónico de Soares ao citarem uma frase de uma personagem de Chabrol, quando na verdade falam perfeitamente francês e choraram no final do filme.

Na verdade, estes são os Prados Coelhos do futuro, ainda cheios de pudores de citarem em demasia, receosos que alguém os leve a sério e, por isso, possa dar-se ao trabalho de discordar deles.

Ou então são Esteves Cardosos adiados, demasiado cultos para correrem o risco de caírem no disparate que é ser sério.

Seja como for, por muito que nos façam rir, são intimamente sérios. Sérios demais. Tão sérios que receiam que nós descubramos isso e, mesmo que por um instante, paremos de rir. TR

segunda-feira, outubro 20, 2003

21h36 

A partir daqui, já não há mapa, não há carta de escala aumentada, não há bússola que se tire da algibeira com um sorriso pequeno. Aqui, são os medos que mandam, que filtram o que se vê, que ameaçam o peito de rebentar e tapam a boca. Lembro-me desta sensação como uma imagem antiga, que volta de longe. Pode ser que passe um minuto e tudo passe a fazer sentido, pode ser que daqui a pouco já haja caminho outra vez, pelas estrelas ou pelo chão. Ou pode ser que não e terei de esperar alguém que desenhe o mapa, para ganhar corpo e poder voltar à primeira palavra, a que começou a viagem sem saber porquê. MR

you must remember this 

Todos temos canções que se colaram à nossa vida. Algumas, normalmente partilhadas com alguém, são tão indescritivelmente pirosas que coramos só de as recordar. Hoje, há poucas horas atrás, fiquei a saber pelo telefone, pela voz dela, que o meu primeiro amor divorciou-se há uma semana. Nesse momento, no café, na rádio, uma canção dessas começou a ouvir-se. Uma canção que nós escutámos, por acaso - como convém -, num dos raros dias em que estivemos realmente juntos.
Saí do café. Como faço sempre quando abandono os locais onde já fui feliz. É que as memórias, lá na dimensão paralela onde vivem, precisam de espaço para viver em harmonia com os fantasmas e os móveis bafientos.
Nesse instante lembrei-me de que temos, eu e ela, 26 anos. Lembrei-me de que no leitor de CD's do carro tenho o "Absolution", dos Muse. Lembrei-me de que posso simplesmente pôr a chave na ignição, aumentar o volume, e cantar "Our Time is Running Out" como se não houvesse amanhã. Porque não há. Amanhã, já cantaram outros bem mais sábios que nós, "é sempre longe demais". LFB

Desejo Casar teve acesso ao verdadeiro contexto das escutas telefónicas entre os dirigentes socialistas 

António Costa: Ó pá, o Dr. Lopes já falou contigo?

Ferro Rodrigues: Não, não! O Dr. Lopes foi com o Marcelo e o gajo da Álvares Cabral no carro do Guerra ao Ministério Público.LCA

LIVROS, POLÉMICA, HUMOR de regresso 

No próximo dia 29 de Outubro, às 18.30h, voltará ao Jardim de Inverno do Teatro São Luiz mais um ciclo de encontros sobre livros e escritores. O primeiro "É a Cultura, Estúpido!" desta nova série terá como convidado principal António Mega Ferreira, que lançará em breve dois novos livros: "O Que Há-de Voltar a Passar" (Assírio e Alvim) e "Uma Caligrafia de Prazeres" (Texto Editora). A equipa entrará em campo com o sete inicial - a apresentadora Anabela Mota Ribeiro, os críticos literários José Mario Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, o colunista Daniel Oliveira, o stand-up comediant Ricardo de Araújo Pereira - e uma nova aquisição. O também colunista Pedro Lomba juntar-se-á ao grupo para jogar à direita, no confronto de ideias com Daniel Oliveira. A polémica deste mês girará à volta do livro "La Face Cachée du Monde", de Pierre Péan e Philippe Cohen, sobre as "ligações obscuras" do jornal Le Monde - ponto de partida para discutir as relações entre o jornalismo e a política. Serão mantidas as rubricas "Leitura Obrigatória", "O Que Não Ando a Ler" e "Baixa Cultura", bem como o stand-up final sobre a actualidade literária.
Marque já no seu moleskine este evento organizado pelas Produções Fictícias: "É a Cultura, Estúpido!", últimas quarta-feiras do mês, até Junho de 2004.

domingo, outubro 19, 2003

quando não tem nada melhor para dizer, cite 

in the street of the sky
night walks
scattering poems

e.e. cummings

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