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sábado, outubro 18, 2003

Lisboa que adormece 

Em casa, o dia todo, arrumando papéis e inquietações. Sabe bem, sabe muito bem nesta fase de mais trabalho (que me relega para a melancólica condição de blogger de fim-de-semana). No CD do computador, Sérgio Godinho canta com Caetano Veloso sobre o despertar de Lisboa. Mas, da janela ao meu lado, vejo uma Lisboa que adormece. E olho. Olho melhor. Olho demoradamente. Olho anónima e intensamente, seguindo a sugestão de "Ausência Próxima", último livro do poeta Rui Machado. Depois de "Um homem para ser feliz" (1988), Rui continua a procurar o essencial - lembrando palavras suas, "a cartografia possível da felicidade". "Olha à tua volta e concentra-te naquilo que vês". Sigo o conselho - límpido e simples, como todos os bons conselhos. Volto a olhar pela janela. Desço, vagaroso, a encosta de casas e parto com as nuvens para Oeste. NCS

O professor e o seu óbido 

O professor Ferrer Correia morreu há dois dias. Nunca foi meu professor, nunca li com grande entusiasmo os seus livros. Mas, para quem se interesse pelo Direito, é uma referência incontornável, que marcou um tempo na universidade e na ciência jurídica. Não sei ao certo se foi fascista ou salazarento. Se calhar foi, se calhar não. Dava aulas em Coimbra e espero, ao menos, que se tenha livrado do tempo em que, no pós-revolução, os professores eram acabrestados e montados no pátio da Universidade, em gáudio colectivo. Num país pequeno, são poucos os citados e admirados pelo estrangeiro - mas Ferrer Correia era um desses. E escrevia bem, com elegância e com clareza, mesmo para quem escrevia livros de Direito, não obstante escrever sobre o que mais detestei durante o curso, que é também o que de mais difícil há no Direito - o Direito Internacional Privado.
Ontem à noite, no telejornal de uma televisão, aparecia em rodapé: "O óbido de Ferrer Correia". Foi um lapso, pois foi. Foi o óbito de Ferrer Correia, no tempo do óbito comum. MR

Perguntas para todos 

Chego à Terceira no terceiro dia de interrogatório do advogado e arguido Hugo Marçal, feito pelo juiz de instrução criminal Rui Teixeira. É o segundo interrogatório a que está sujeito Hugo Marçal (na prática; em teoria será o primeiro), e ainda bem para ele. Se houvesse um terceiro interrogatório, um quarto ou um quinto, o tempo de perguntas e respostas aumentaria proporcionalmente: tivemos as 11 horas do primeiro interrogatório, os três dias (até agora) do segundo, com intervalos para descanso, e teríamos uma semana no terceiro, 42 dias no quarto, 176 dias no quinto...

Neste mesmo dia, Angra do Heroísmo é o palco do IX Congresso do PS Açores, do qual a televisão regional transmite, em directo, algumas intervenções. Por entre alguns ex e para-caciques, deitam-se indiscretos olhares às câmaras da televisão, pelo canto do olho, pedinchando alguma questão ao jornalista de serviço, para aparecer na televisão e poder depois dizer: "Vês, eu estive lá."

Uns fogem de interrogatórios, outros procuram-nos.

HR

sexta-feira, outubro 17, 2003

Mein Pipi 

Contrariamente ao que tinha pensado, aqui na Alemanha também existe uma cena bloguista que não se compara no entanto ao fenómeno português. O blog que está a ter mais sucesso chama-se “Mein Pipi” (que se pode traduzir por “O Meu Xixi”) e caracteriza-se por textos indecorosos de indubitável qualidade literária a relatar as façanhas sexuais e urinárias do autor. Deixo aqui um excerto de um dos posts:

Die Fickathon
“In den letzten Tagen habe ich einige der schönsten Momente der Geschichte des Fickens geschrieben. Ich habe ein robustes Loch dazu aufgefordert sich mit dem Schwanz eures Freundes in einem Widerstandskampf zu raufen, als grandiose Zeremonie zum Abschied des Urlaubes. Eine ganze Woche habe ich mich mit einer Fotze beschäftigt, aber eine Fotze die ich in all ihrer Fotzigkeit erforscht habe. Der Marathon begann am Mittwoch morgen und endete erst am Sonntag. Es war ein Pfützenepos. Ein solches Fickvolksfest sollte von einem Dichter in einem heroischen Dekasyllabus gesungen werden. Nach dem siebten Fick spritze meine arme Rute nur ins Trockene...“ MEIN PIPI


teoria geral da fumaça 

Uma árvore de cannabis com quase 2 metros está plantada em pleno pátio de uma faculdade, o ISCTE, e só agora é que o Estado deu conta. O reitor veio mesmo dizer que não sabia que se tratava de uma planta de droga, "porque nunca tinha visto uma". Entretanto, parece que alguns estudantes reagiram a esta afirmação, declarando: "Tudo bem. Nós também só agora é que percebemos que o ISCTE é uma escola". LFB

arnódoa schwarzenegra 

Arnold Scharzenegger lá conseguiu ganhar a Califórnia apesar das 11 mulheres que afirmaram ter sido assediadas sexualmente pelo Mister Músculo: "Arnold tem a mania de dar apalpões", disseram.
Parece-me, para difamação, adoptaram uma perspectiva errada. É que um apalpão do Schwarzenegger não é assédio sexual mas sim ofensa corporal grave. LFB

quinta-feira, outubro 16, 2003

António Lobo Antunes on tour  

Acabei de voltar da Literaturhaus Köln (Mediapark 6), onde foi apresentada a edição alemã do romance “Que farei quando tudo arde?” de António Lobo Antunes, com a presença do mesmo, actualmente em digressão pela Alemanha. A fina flor do meio intelectual enchia solenemente a sala e o silêncio era entrecortado pelas mesmas tosses envergonhadas que frequentam as salas de teatro por esse mundo fora. Após a introdução ao romance, a cargo de um conceituado crítico literário, este decidiu surpreender o escritor, pedindo-lhe que lesse excertos do livro, realçando que se trataria de uma estreia a nível mundial. Como era o único com uma edição portuguesa, o meu livro foi parar às mãos de Lobo Antunes, visivelmente embaraçado. Mas lá consentiu, muito contrariado, e catapultou assim o meu livro para a história da literatura contemporânea. A conversa que se seguiu permitiu concluir que o apresentador, que até àquele momento pensava que sabia falar português, apenas conseguia traduzir uma ínfima parte do que o escritor dizia, omitindo aqui, distorcendo ali e inventando acolá. Coube aos poucos portugueses na sala corrigir as parvoíces que este transmitia ao público, e assim íamos saltando das intervenções do público para a repetição da pergunta: “póde rrépétir, náo perrcebi baim ó ké ácábô dé dicér?”. Lobo Antunes não disfarçava a falta de vontade de estar ali, certamente a pensar no tempo que estava a roubar ao próximo romance, mas ao notar que o apresentador começava a suar, deve ter decidido que era altura de desmascarar todo aquele pedantismo. Com um sorriso nos lábios, começou a embrenhar-se em explicações filosóficas algo surrealistas falando em Deus como um invertebrado gasoso, na escuridão congénita e confidenciando que os seus livros eram lidos com pouca luz. O apresentador quase a pegar nas suas coisas para se ir embora, os portugueses no público a traduzirem para os alemães que não percebiam patavina, Lobo Antunes a contar que os seus pais pensavam que ele vivia noutro planeta e que quando era pequeno fugiu de casa para ir à China, e eis então que uma senhora portuguesa de idade, muito humilde, certamente pertencente à primeira geração de emigrantes, se levanta e exclama com uma voz estridente: “O senhor quando era criança era muito ordenadinho, lembro-me de si, eu era empregada da vizinha dos seus pais em Benfica, e você e os seus irmãos eram muito arrumadinhos.” Lobo Antunes que, recorde-se, é algo surdo, encarou-a com muita ternura e declamou: “O que o amor é capaz de fazer!”. Ao meu lado, alguém ria, histérica, e gerou-se um sururu intelectual (para repescar um comentário futebolístico). Lobo Antunes continuou impávido e sereno a discorrer sobre o estado do mundo, elegendo o rabo como o melhor crítico de teatro, porque se mexe de um lado para o outro quando a peça é má. O apresentador, que tinha aproveitado para se refrescar, voltou a empalidecer e com muito pudor traduziu: “A melhor crítica literária faz-se com ...(longa pausa)... a picha.” Voltaram os berros de indignação dos portugueses, de espanto dos alemães e a velhinha: “Olhe que o seu avô não gostaria de o ouvir a falar assim!”. Lobo Antunes virou-se para nós e perguntou aflito: “Mas o meu português é assim tão mau?” e um dos organizadores decidiu então salvar a honra do convento, anunciando o início da sessão de autógrafos. Como o meu livro estava em cima da mesa, carregado de impressões digitais de um quase-Nobel da Literatura, tive a honra de ser o primeiro. Lobo Antunes assinou, entregou-mo, e virou-se para mim com um grande sorriso: “Com este livro é que me lixou!”. Quando saí com o meu livro inchado de orgulho não pude deixar de desconfiar que tinha presenciado uma excelente encenação, organizada pelo escritor. REC

Ser branco é o contrário de ser preto 

Lili Caneças disse esta semana: "Só era capaz de me apaixonar por uma Lili no masculino". Ora vejamos... portanto um homem pálido, famoso, habituado a cirurgias plásticas e com um passado relativamente enigmático. Mas então… querem ver que a Lili está apaixonada pelo Michael Jackson? LFB

Esplendor na relva 

No novo estádio de Alvalade foram inauguradas 16 salas de cinema. Ora bem, isto de fazer cinemas em estádios de futebol parece-me um desperdício de tempo e de dinheiro. Com tantos "filmes" no futebol português, sobretudo de comédia, quem é que vai pagar para ir ao cinema quando a relva é mesmo ali ao lado? LFB

Desejo Mastigar 

Viver sozinho tem muitas vantagens. Toda a gente sabe. O que nem toda a gente sabe é que viver sozinho tem uma desvantagem. Uma única. A grande desvantagem de viver sozinho revela-se à hora das refeições. Não, não estou a falar da solidão. Falo das maneiras à mesa.
Viver sozinho é sempre uma grande aventura: preparam-se jantares para os amigos, jantares românticos para as namoradas, ouve-se música até às cinco da manhã, vagueia-se de cuecas à vontade, estacionam-se as meias por várias divisões da casa e a caixa da telepizza descansa em cima da aparelhagem há quinze dias. Ora isso, como todos os solteiros sabem, é bom. Depois, longe do olhar e protecção dos pais, vamos perdendo as maneiras, sobretudo à mesa.
Para começar, com o passar dos meses deixa-se literalmente de mastigar. Devora-se a comidinha como uma garopa engole, duma só vez, cinco chocos que lhe passam à frente. E se nos salta um grão de bico para a mesa, fazemos como o camaleão faz quando quer chegar àquele gafanhoto pendurado num raminho ao longe. A nossa cabeça, outrora altiva e orgulhosa, vai-se inclinando javardamente até ao puré, apenas se erguendo, a espaços, para respirar.
No início ainda somos civilizados. Somos uns queques fazendo tudo como nos ensinaram em casa: o individual em cima da mesa, os talheres agarrados efeminadamente, e até fazemos uma saladinha de tomate a acompanhar. Passado um ano a jantar sozinho o cenário é o de um filme de terror: o prato onde calha, os talheres agarrados como quem pega numa enxó e se prepara para lavrar uma omeleta, o nariz enterrado no arroz até às sobrancelhas.
Meus amigos, é um verdadeiro quadro de miséria o que se passa lá em casa! Os comedores de batatas do Van Gogh, ao pé de mim, são príncipes flamengos da mais fina estirpe habsburga.
Há dois dias dei comigo em frente da televisão a comer batata palha com os pés. Sou um Simpson! Sou o Homer. Sou um camionista da Luís Simões a almoçar na Mimosa.
Um título nunca se empregou tão bem: Desejo casar. Urgente.LCA

Ó mãe o que é aquilo ali na sarjeta? É Portugal filha, deixa-o estar. 

O Afonso fala - aqui - de Portugal.
O Afonso está zangado.LCA

quarta-feira, outubro 15, 2003

Para depois da tua meia-noite 

Antes, há muito pouco tempo atrás, pensava que já tinha conhecido as
raras pessoas fascinantes que nos calham nas quotas do género. Na vida.
As pessoas que nos fazem sentir a necessidade de ser melhores.
Pessoas que nos provocam, estimulam, desafiam. Fazem-nos querer ir
espreitar ao armário a roupa mais bonita, escolher - de todas - as grandes
ideias (apenas), proferir as frases mais significativas. Perdoar.
Tu, que chegaste sem pedir licença e sem espalhafato, fazes anos amanhã.
O meu desejo é que, depois da tua meia-noite, o resto do tempo seja teu. LFB

Sulada 

Na edição do jornal A Bola de ontem, terça-feira, Miguel Sousa Tavares, enquanto explicava, pela milésima vez, por que razão a sua verdade tem a cor azul, relatava uma situação ocorrida na redacção da TVI aquando do jogo Partizan de Belgrado-FC Porto: assim que o Partizan empatou o jogo (1-1), a redacção do noticiário daquele canal explodiu histérica, festejando o golo. Lembrei-me logo da recepção feérica de vários adeptos portistas à comitiva da Lázio, desembarcada no Porto para ir jogar no emprestado (e não tanto pedinchado, como Miguel Sousa Tavares quer fazer crer) estádio do Bessa, com o Benfica, jogo esse que acabaria por determinar o afastamento do clube português da Liga dos Campeões. Entre adeptos portugueses que vão esperar e desejar as boas-vindas a um clube estrangeiro e adeptos portugueses que festejam a marcação de um golo por uma equipa estrangeira frente a uma equipa portuguesa, venha o diabo e escolha.
Todavia, Miguel Sousa Tavares pretendia atingir, não o simples adepto, mas o adepto enquanto jornalista ou profissional do jornalismo, que pouca ou nenhuma isenção terá, como acabam por comprovar, quer a reacção da redacção da TVI em pleno horário de trabalho, quer os artigos (não as crónicas, entenda-se) publicados na imprensa escrita, como o artigo do Expresso do sportinguista Daniel Reis, a que também aludiu Miguel Sousa Tavares. Neste aspecto, tenho que lhe dar razão. E quanto à celebração do golo do Partizan, também. Portugal tem de subir uns pontinhos no ranking da UEFA, para voltarmos a ter, pelo menos, duas equipas apuradas directamente para a Liga dos Campeões (que uma delas seja o Benfica). E, por enquanto, só poderá ter esses pontinhos através do FC Porto, honra lhe seja feita. Outra coisa é a irresistibilidade de festejar um golo que representa uma séria amolgadela na arrogância com que o treinador do Porto, José Mourinho, se pavoneia, reconhecendo embora que ele é um bom treinador, que até já passou pelo Benfica, de onde talvez não devesse ter saído, pelo menos da forma como saiu.
Não gostei, por isso, de ver o Porto a perder por 3-1 frente ao Real Madrid, mas deve-se sublinhar que os três golos madrilistas foram marcados quase de uma assentada só, com a defesa portista a ver jogar, vagarosa, os avançados do Real, que demonstraram assim que este poderosíssimo (e, nessa noite, desfalcado) clube não precisa de trabalhar muito nem de estar em grande forma para derrotar, sem apelo nem agravo, a melhor equipa de futebol portuguesa da actualidade. Outra coisa é ver essa derrota assentar que nem uma luva à tal arrogância de José Mourinho, que depois vem dizer coisas como "alguém vai ter de pagar", como quem diz "alguém vai ter de pagar o que fizeram ao meu Porto, como é que se atrevem?".
E não consigo perceber o regozijo dos portistas (Miguel Sousa Tavares incluído) quando relembram, ano após ano, senão mês após mês, a derrota do Benfica frente ao Celta de Vigo por 7-0. Não consigo perceber, por duas razões: primeiro, porque o jogo ocorreu há alguns anos, depois, e mais importante, porque essa derrota benfiquista traduziu-se na perda dos tais pontinhos tão preciosos para Portugal no ranking da UEFA, os pontinhos que os portistas agora reclamam, com alguma razão, como sendo da responsabilidade do FC Porto. Mais importante do que a subida no ranking acabou por ser, afinal, a volumosa derrota frente aos espanhóis. Estranha maneira de ser e de ver a verdade, sem distinguir mais cores para além do azul.
Estou para ver os portistas como Miguel Sousa Tavares a torcerem pelo Benfica, no jogo de hoje frente ao La Louvière, no emprestado (não pedinchado) estádio do Bessa, e a torcerem, em simultâneo, pelo Sporting, frente ao Malmö, e ainda a torcerem pelo União de Leiria, frente ao Molde. É que nenhum destes clubes veste de azul...

HR

Ainda desejo. 

Gostaria de vos deixar um texto comovente, capaz de encher todos de saudades minhas, com o equilíbrio preciso entre a tragédia e a comédia e uma frase ou duas com a clarividência bastante para ecoar por qunze dias na memória de quem lesse. Mas não creio que me seja possível, ainda para mais, estando enferrujado e fora de forma como estou.
É bem verdade que o tempo passa na blogosfera com muito mais velocidade que no Mundo e parece-me, agora, que deixei de escrever há um ano. Contudo, que terão passado? Três, quatro semanas? Foi indelicado afastar-me dos posts sem aviso e gostaria de me redimir agora, se ainda mo perdoarem.
Não foi o caso que me tenha casado ou que o peso de um móvel antigo tombado sobre mim me impedisse de alcançar o teclado do computador. É apenas o motivo óbvio, o trabalho (e, de novo, lamento não ter razão mais exótica ou, o que já não seria nada mau, filosófica).
A verdade é que tenho passado os meus dias e noites numa sala de montagem, mal vendo a luz do dia, sem fins-de-semana nem jantares nem bairros nem luxes nem passeios, longe de terminais com net e com uma folga que, volvida a recuperação do sono, é gasta em tentar contabilizar quantos compromissos falhei entretanto.
É magnífico ver como o Desejo Casar continua a crescer. É bom, também, receber boas notícias acerca da festa. Folgo em ver o Bernardo de volta e em constatar que seduzimos ainda mais leitores.
Por mim, só poderei voltar com regularidade lá para os primeiros dias de 2004. Aqui e ali, escaparei às garras de directores e realizadores e aqui virei, como hoje, acender uma pequena luz junto dos outros nomes.
Entretanto, continuo a editar programas para as massas, a escrever histórias sobre reis e a explicar aos meus amigos que depois desta é que ninguém mais me apanha e que passarei a ter tempo, muito tempo, para ser o melhor amigo do mundo.
Alexandre

terça-feira, outubro 14, 2003

O DC até já me afasta a concorrência, até para a semana. 

Vou estar a próxima semana fora, em Palermo na Sicília, de onde tive gentil convite para ser professor e apresentar conferência sobre os meus projectos. Isto por si não é notícia fora dizer aqui aos que me emailem elogios e insultos, de que por uma semana replicarei silêncio. Porém este convite está envolto em contorcida história que aqui quero partilhar com a blogoinércia.
Há uns meses dei uma conferência na Faculdade de Arquitectura do Porto à qual assistiram uns Italianos que, num acesso de vã loucura, me convidaram para a jornada de amanhã agora descrita. Na altura disseram-me, Ó pá convidamos também um tipo novo aqui do Porto, um miúdo que tá a começar e tal, até tem uns projectos malucos mas ainda não concretizou nada por aí além, um tal de Siza Vieira. E eu, ó pá, traz lá o miúdo, um gajo diverte-se lá em Itália.
Prontos. Não é que agora o novato, à custa de ter sabido que eu colaboro aqui com este Olimpo das oníricas liras e, à ultima hora inventa uma desculpa esfarrapada inacreditável (diz que tem coisa grave nos olhos e tem operação marcada) vinda, claro, do ciúme de ter lido tão lindas larachas e tão doces sonhos, aqui. Ainda se tentasse uma desculpa mais verosímil, tipo, as Italianas não me entusiasmam muito, pá, isto de hotel e tal, não me agrada, a comida Italiana é pastolenta, ou ainda, ó pá o voo da air france parar uns dias em Paris e Roma vai-me dar uns gases, não gosto do adoçante que têm, as baguettes do Café de Flore andam por sovacos que não conheço, um gajo até percebia, coisas sérias.
Mas, prontos, é assim, por outro lado é sempre um tipo novo da concorrência que se desvia. E foi o Blog, parabéns e obrigado.
BR

Há coisas do Demo 

Pausa no trabalho para verificar a coisa que mais me intriga logo a seguir aos pólos de Pedro Namora: as pesquisas no Google que conduzem ao DC. Ora bem, entre os habituais "marisa cruz nua" e "isabel figueira mamas", deparo-me com este aterrador "Pedro Mexia e as criancinhas inocentes".
Bom, eu não sei que espécie de ser humano faz uma busca destas mas, como amigo do Pedro, devo dizer o seguinte: o Pedro anda ausente, sim, mas a contas com a literatura. Além disso, o Diabo não procura criancinhas inocentes. Mas suspeito que o atrasado mental que digitou esta pesquisa deve ter um caldeirão bem quentinho à sua espera, com miúdos de frango e rabanadas por acompanhamento. Ele há coisas... LFB

Hino sofre cortes orçamentais 

Na fobia predatória de suster o défice público, de esmifrar todas as despesas como quem esfrangalha uma carcaça de zebra no Serengueti, Manuela Ferreira Leite vai tomar a decisão inédita - e ao que parece irreversível - de alterar drasticamente a letra e a música do hino nacional. Depois de efectuada uma sondagem telefónica a nível nacional, A Portuguesa (como ficou conhecida a marcha composta por Alfredo Keil em 1890) vai assim ser substituída pela frase "Este país é uma vergonha!".
À pergunta "O que pensa de Portugal?", a resposta dos inquiridos não deixou, aliás, margem para dúvidas:
a) Este país é uma vergonha! 98%
b) Antigamente é que era! 1%
c) Estou a ficar sem rede! 0.5%
d) Mãe, és tu? 0.3%
e) Lisgráfica boa tarde! 0.2%
Depois do perdão fiscal, das portagens da CREL e da voragem que recentemente engoliu o Fundo de Pensões dos CTT e uma quinta na Amadora, a ministra aponta agora o dedo ao hino português, acusando-o de ser uma fonte de despesas desnecessária para o estado. A medida vai de encontro àquela que parece ser a prioridade fundamental deste executivo, a de proceder a severos e restritivos cortes orçamentais no sentido de controlar as contas públicas e os agrafes do ministério. Entrevistada no fim-de-semana junto à tenda dos plásticos da feira de Carnide, Ferreira Leite foi parca nas palavras, comentando apenas que se tratava de um excelente conjunto de tupperwares, pelo módico preço de 2 euros e 30. "É genial! Arrumam-se todos dentro uns dos outros!" - terá ainda acrescentado.
A polémica medida - virtualmente subscrita por 10 milhões de portugueses - pretende suprimir a totalidade da letra do hino nacional numa tentativa desesperada de poupar mais uns milhares ao erário público. Pelas contas do ministério, o antigo texto (846 caracteres) era demasiado oneroso para o estado, razão pela qual se terá optado por uma versão mais económica e actualizada de apenas 21 caracteres.
Com esta falaguice a ministra conta fazer um encaixe financeiro na ordem dos 70 000 euros, socorrendo-se para o efeito de apenas de cinco palavras: o adjectivo vergonha (o estado poupa 50 000 euros); o substantivo país (aqui o estado poupa somente 15 000 euros); o verbo ser (poupa o estado 5 000 euros); o pronome demonstrativo este (vá directamente para a cadeia sem passar pela casa de partida); e o artigo indefinido uma (avance até ao Rossio).
Relativamente ao antigo hino, a ministra pretende banir os heróis marítimos (poupando deste modo nos custos de representação) e vender os canhões a preço de custo à oposição da Guiné-Bissau. O nobre povo, segundo o DC apurou, seria arrumado sob a terra e sob o mar, enquanto que os egrégios avós, por seu lado, serão enfiados num asilo da Brandoa.
Quanto à música do novo hino, na senda simplista e coloquial do texto, esta deverá também sofrer mudanças. Está já no prelo um projecto lei a fim de se proceder a um despedimento colectivo da orquestra, "menos o gajo que está lá atrás a tocar com duas tampas de panela gigantes." - assegurou ao DC o secretário de estado, adiantando no entanto que o "músico paneleiro" deverá ficar a recibos verdes. Deste modo, à frase "Este país é uma vergonha!", seguir-se-ia o ribombar dos pratos metálicos.
Conforme nos adiantou a ministra, "as pontencialidades do novo hino são um mundo de possibilidades e até será mais fácil de decorar pelos futebolistas durante os jogos internacionais." Contactado pelo DC, Costinha, o conhecido jogador do FC Porto, foi taxativo: "Sim, agora tudo fica mais fácil. Do hino antigo eu só sabia aquela parte do contrós cabrões, marrar, marrar! E depois, para fingir que conhecia o resto da letra, tinha de cantar para dentro a música dos Sugos de Fruta, aquela em que o sinaleiro era homemsexual (risos)."
O novo hino nacional deverá assim celebrar o Portugal moderno e contemporâneo, numa composição simples e concisa, directa ao coração de todos os portugueses. LCA

Press the REC button and start the speech  

Eu bem tentei, mas nunca consegui estar totalmente a par das novas tendências que ocupavam os nossos tempos juvenis. Foi a minha irmã que me apresentou aos Smiths e decorei a maior parte das letras, para mais tarde as cantar com um ar muito sofredor aos amigos do bairro que se encontravam na rua, depois do jantar. Usei o mesmo bâton do Robert Smith para impressionar as raparigas mais velhas do liceu, mas elas não gostavam do meu cabelo. É verdade que tinha uma popa algo ridícula, mas bolas! Quando começou a onda de Madchester, andava extasiado com a música e seguia ansiosamente os artigos que iam surgindo no Blitz, mas o meu aspecto exterior não conseguiu acompanhar o estilo desmazelado de um Shaun Ryder. Sabia tudo sobre a Factory, passava as tardes a imitar a dança frenética do Bez com umas matracas compradas nos chineses do Martim Moniz, mas agora acredito que nunca teria conseguido entrar na Hacienda, porque as minhas calças largas eram uma imitação made in Feira do Estoril e o casaco da Rucanor era mais barato, mas não se comparava ao da Adidas. Por isso lá me decidi a tentar ser sónico e pensei seriamente em inscrever-me na Escola Superior das Caldas da Rainha, para, nos intervalos da produção das pilinhas de barro, ensaiar com o Rafael Toral. Juntei-me a uma banda lá de Telheiras, os PLASTIC ICECREAM EXPERIENCE. Com ar muito compenetrado e com uns óculos de sol à maneira, lá segurava no baixo e produzia um som “noise” na garagem do pai do Álvaro. Éramos o mais suburbano possível, mas sem que déssemos por isso a moda já tinha passado. Tive que procurar um novo passatempo e juntei-me assim a grupo de hippies que iam acampar no Alentejo. As coisas estavam a correr bem, os meus colares de missangas até tinham sucesso e dizia coisas como “As vibrações da lua são transcendentalmente positivas” e a mim perguntavam-me “Sentes o pulsar da areia?”, ao que eu respondia “A aura é tal...”. Mas expulsaram-me da comuna quando, ao tentar cuspir fogo, queimei os cabelos da Sara. Disseram que tinha mau karma, mas eu acho que foi porque nunca concordei com as teorias esotéricas sobre os calhaus da praia. Ao apanhar na Zambujeira o expresso das 17 para Lisboa, tinha consciência de que já não haveria muitas mais oportunidades para conquistar um lugar ao sol. Ainda estive determinado em juntar-me a um grupo de poetas da Zona Sul que, segundo consta, seguiam em grandes grupos pelo Barreiro a declamar poemas sobre pessoas que não sabiam nadar, mas desisti. Decidi ser um solitário orgulhoso, um lobo das estepes alemãs. Algo magoado com o mundo, entretinha-me a conversar com o espelho até ao dia em que, há coisa de um mês, recebi um convite para participar num blog. Não sabia o que era, mas agarrei-me à oportunidade com unhas e dentes e desde então posso dizer que pertenço a um grupo. Isto tudo para dizer que foi um prazer conhecer a grande maioria dos participantes no desejocasarpontocóme durante a curta estadia em Lisboa. Não posso dizer que tenha sido uma surpresa, apenas a confirmação daquilo que os vossos textos já indiciavam. Para a próxima, espero ter a oportunidade de ver o Hugo, o Alexandre e o Tiago. Fica o convite para reviverem o concerto do Keith Jarrett numa visita a Colónia.

Press the Stop button and give me tape.

segunda-feira, outubro 13, 2003

O PRÉMIO DA MONTRA 

Li a loquaz diatribe da autoria de FR no seu conspícuo blog Montra de Prémios. Num primeiro momento, chocou-me tamanha ignomínia, mas depois sentei e chorei, expurgando o que de mais belicoso há em mim. Truncado, para-tétrico, enfim, estiolado, reconheci ensimesmado a minha sandice no exacto momento em que mastigava uma sanduíche.

Aquelas palavras incisivas irrompiam a minha confrangida e plangente mente como uma litania, provocando uma lassidão que me soçobrou. Eu era agora um ser alvar e miasmático, para além de asmático.
Pensei ainda num subterfúgio, numa palinódia, no viçoso, rutilante e sobrepujante regresso de Nuno Gomes à pândega benfiquista. Para quê? Acometido de uma sofrível abnegação e de uma inusitada indigência, recordei as avisadas palavras que ouvira certa vez nos corredores da magnânime Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e que agora me eram repetidas através do blog de FR como um axioma: “I told you nice and easy, é´sle!”

Eu era não só o tal ser alvar, miasmático e asmático, mas também o verdadeiro "é´sle" (também se escreve asshole) que aprendera de uma forma pragmática a repudiar nos filmes de Hollywood e no jogo entre o La Louvière e o Sport Lisboa e Benfica – acabara, portanto, de cometer a maior das aleivosias - a auto-aleivosia - e não merecia mais nada senão uma paulada na cabeça.
Obrigado, FR.

HR

E já agora, ó tiógue 

Porquié que nam se manda em Club Med tambám todes os deputódes da esquerdalhóda pa onde nunca deviim tê saíde...das estepes da Sibéria, onde com certeza a justiça social e igualdade de oportunidades reina, junto com os opíparos hinos e marchas comunistas, bem longe da exploração e do nefasto abuso que os governos ocidentais fazem de todos nós, sempre a bater com as canículas canas nos toquinhos dos dedos das criançinhas... até pode ser que aí também encontres, nestas míticas Ithacas paraísos de leste, ex estados do sonho soviético, todas as oportunidades que, com toda a certeza, a tua filha aqui no abusador ocidente se verá arredada. Talvez até a fome compense a certeza de uma menor probabilidade de abuso pedófilo, dadas as extremidades congeladas dos possíveis abusadores. É tudo pensado, carambas...BR

Ó setôra, como é que se diz Mota Amaral em húngaro? 

Foi uma agitação nos Passos Perdidos quando Pedroso, acabado de sair da prisão, foi rever o seu gabinete. Muitos jornalistas, muitos abraços, algumas lágrimas, uma mesa partida e uma conferência de imprensa.
E quando, finalmente, acontece alguma coisa na Assembleia desta República, Mota Amaral sente-se indignado! Já viram isto... O homem do "curioso número" 69 a falar dos limites da ordem e do respeito pela instituição democrática? Há décadas que aquelas paredes clamavam por atenção e agora o senhor presidente tem medo que os flashes estraguem os mármores? Bem sei que tem todo o aspecto, mas a AR ainda não é um museu.
Mota Amral devia era dar-se por contente por não deslocarem a AR para a Hungria, de forma a aproveitar a mão de obra barata. Diz que os deputados húngaros fazem ainda menos e saem muito mais baratos. E o presidente da assembleia de lá do sítio fala a mesma língua que o resto dos deputados, o que facilita bastante os trabalhos parlamentares. Bem vistas as coisas, era o trespasse perfeito. TR

domingo, outubro 12, 2003

Variações sobre o mesmo tema 

- A vida devia ser como uma canção dos Belle & Sebastian...
- Continuas com a mania que és poeta? Vê mas é se arranjas um emprego decente!

- A vida devia ser como uma canção dos Belle & Sebastian...
- Depende do álbum de que estás a falar. No entanto, considero essa afirmação algo redutora, porque a vida também devia ser preenchida pela poesia melancólica de um Leonard Cohen, ou por uma raiva delicada de uns Pixies, na sua fase “Surfer Rosa”, para não esquecer aqueles laivos de um certo surrealismo extemporâneo que só os New Fast Automatic Daffodils nos podem dar. Evidentemente, quando ainda gravavam para a Play It Again Sam, porque depois....(blablabla).

- A vida devia ser como uma canção dos Belle & Sebastian...
- Iá, essa é buéda profunda...Mas roda aí a cena, não te estiques.

- A vida devia ser como uma canção dos Belle & Sebastian...
- Não, não tenho nada. Anda aqui um gajo a esfalfar-se o dia todo e estes gatunos na boa vida.

- A vida devia ser como uma canção dos Belle & Sebastian...
- Que frase tão bonita. És tão sensível. Sabes ... os teus olhos quando brilham são como o pôr-do-sol numa praia deserta. Gostaria que esta noite nunca acabasse, tu e eu, juntos para sempre...

REC


PRÉ-PUBLICAÇÃO - "Mudaremos o Mundo depois das 3 da Manhã" 

assim, discretamente, numa noite de sábado para domingo, deixo um poema do meu primeiro livro. Parece-me justo e lógico que o DC assegure a primeira pré-publicação (talvez a única).
O livro sai a 6 de Novembro, a editora é a Tágide, e a capa - lindíssima - é do nosso grande designer e escritor Luís Camilo Alves. Daqui a uns 15 dias começarei a fazer publicidade à séria, pela blogosfera fora. É que, ou isto vende, ou a minha editora apedreja-me até à morte com o que sobrar da edição.
E como já faz frio, já chove, já vale a pena ter dois cobertores na cama e sabe bem vestir o casaco, deixo este poema e um abraço:



CONTO DE INVERNO


termino agosto na casa-mãe

voltarei depois do verão

quando outubro for outubro outono

e o outono outubro já

e o teu coração – setembro ainda,

desejar (já) o Natal.


21 de Março de 2000, Angra do Heroísmo
LFB

Contrariado Não Quero 

No dia a seguir à festa acordei grogue, como é o costume. Saí de casa do Nuno, comprei o bilhete do comboio e fui pastar o resto da tarde para Lisboa. Com todos os meus conhecidos a trabalharem (ou a ressacarem), pus-me a girar sozinho, a apreciar as coisas que mais me encantam na cidade: o cosmopolitismo da baixa, os fios dos eléctricos, a fragilidade das casas e as suas cores; os azulejos, as escadarias, a luz poeirenta de algumas ruas. Príncipe Real, Chiado, Rossio. Como qualquer turista, pus-me a ler o jornal no Café Nicola. Ou a tentar lê-lo, limitado pela ressaca e pelos mendigos. Aos poucos, Lisboa ia-me apresentando as suas tripas em vagas sucessivas e ininterruptas. No espaço em que lia dois textos do Inimigo Público cravaram-me em português, em ucraniano e em senagalês (?). Um cravanço cosmopolita, também ele. Os estrangeiros à volta acenavam automaticamente que não, que não, que não. Um assédio constante, a assumir a forma de velhinhas, de crianças, de mancos, de magros, de barbas, de pretos, de loiros. Que não, que não, que não. Fossem alemães, polacos, noruegueses, acenavam que não, cada vez mais fartos, cada vez menos em Lisboa, cada vez com menos calor, cada vez menos atentos aos fios dos eléctricos e às fachadas. Eu era mais paciente por ser português, mas mais envergonhado. E dizia que não, de olhos culpados. Até que me irritei. Entre o décimo quinto e o vigésimo, incapaz de me concentrar na leitura e cansado de dizer que não, olhei para o pedinte que estava, sem defeitos físicos e português, a meter a mão à boca e a falar, e dei-lhe o troco que recebera: 50 cêntimos. Mas dei-lho de modo tão grunho e antipático, que o mendigo recusou. Uma réstia de orgulho, uma esperança: «Contrariado não quero». RIS

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