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sábado, julho 19, 2003

Um e-mail sobre o "desejo de casar": 

Esta é a primeira vez que tenho vontade de publicar um e-mail (com excepção da divertida colecção de sentenças sobre o casório que o Francisco José Viegas nos enviou). Não esperei pela autorização da Rita - que não conheço, mas fará o favor de me perdoar. Espero que nos escreva mais textos como este.

LFB


"O meu avô tem 81 anos. A minha avó tem 86. Esta é a história que justifica o desejo de casar.

Parece que foi uma paixão assolapada, a minha avó deixou-se perder nos olhos dele e logo imaginou o que seria perder -se nele todo o resto da vida.
Eram outros tempos. Moravam na mesma rua e não tinham outro remédio senão namorar janela - a - janela. E para manterem a intimidade das palavras e os segredos secretos dos amantes falavam no silêncio: escreviam frases inteiras no ar, com o dedo a rasgar o infinito desenhando todas as letras que são necessárias para se dizer tudo o que se sente quando se ama. Poesias inteiras foram escritas no ar, ditas em silêncio.  Discussões acaloradas sobre a ditadura ficaram suspensas no ar. Muitas vezes a minha avó não desenhou o ponto final da conversa e bateu a janela, perdida de ciúme, pois o seu amor, por vezes vadio tão tarde chegara, naquela noite, ao parapeito.

Assim foi durante muitos anos. Aquele amor cresceu naquela janela e com ele o desejo de casar . E um dia casaram. No mesmo segredo, no mesmo silêncio da conquista, o meu avô pediu à minha avó para descer da janela e abrir a porta da vida. Ela abriu, sem hesitar. Deixaram de escrever no ar, mas não há noite que se deitem sem afirmar ternamente ao ouvido um do outro o amor que ainda espreita no parapeito da vida.
Achei que esse código de amantes se tinha perdido nos baús da velhice.

Há um par de anos o meu avô, depois de um almoço com amigos, caiu no chão do Rossio.
Durante um  mês esteve internado. Na primeira visita, levei a minha avó. Confesso que era eu quem  tremia pensando que ela não resistiria e foi perplexa que dei pela minha avó, antes de sair de casa, a pentear o cabelo com cuidado, a perfumar o rosto, a escolher a roupa, como uma noiva em dia de namoro.
À chegada ao quarto do meu avô, num breve presságio, deixei- a entrar sozinha. O meu avô estava consciente mas entubado e por isso não conseguia falar. A minha avó aproximou-se, pegou -lhe apenas na mão e desenhou a primeira palavra. A essa seguiram-se outras e desataram a conversar um com o outro, no silêncio da brancura hospitalar, numa conversa que só eles entenderam  e  que espelhava a fragilidade da vida e a força do amor.
Por esta altura, já as lágrimas me escorriam pela cara abaixo. Senti-me a mais, e sai.
Já da rua e ainda atordoada, olhei a janela do quarto do hospital onde a cena por certo ainda se desenrolava. Estava aberta de par em par, desafiando destemidamente a morte, numa celebração assumida da felicidade de quem agarra a última declaração de amor como de facto da última se tratasse .
Foi a primeira vez que desejei casar.
Chamem-me criança mas gosto de pensar que aquele parapeito foi o início de uma profecia familiar que condena todos aqueles que, como eu, do parapeito vieram, ao parapeito voltar pelo menos uma vez na vida."

Rita Rodrigues

Explicação da Ausência (ou, sem poesia, falta justificada) 

Estive uns dias ausente, como o Joel do seu Não Esperem Nada De Mim e, agora, os rapazes do Posto de Escuta e ainda como o Sol dos céus dos Açores, até hoje.
Os blogs obrigam-nos a marcar presença e inibem-nos de fugir; mais grave que isso: a hora a que postamos, como diz o Nuno, parece dar indicações preciosas acerca das nossas vidas sociais. E eu, desde que estou de férias, apareço sempre por volta deste belo horário (confira abaixo) - tirem as vossas ilacções...
Entretanto, escrevi, por fim, qualquer coisa para o meu mestrado, comecei a ler Carver, conheci uma mulher linda, apanhei uma carraspana terrível, nadei entre a Terceira e o Pico e abracei alguns amigos. [Uma destas acções é falsa - descubra qual. (Lembrei-me de fazer um destes testes tão próprios da silly-season. Deve ser das horas...)]
AB

Poema inédito de Afonso de Melo 

CARTA DEIXADA ESCRITA DE ANTEMÃO
PARA O CASO DE NÃO CONSEGUIR EVITAR
SUICIDAR-ME DE UM DIA PARA O OUTRO


Se um dia a vontade me puxar para o suicídio,
não sei o que escrever nesta nota que vos deixo,
mas deixo-a de qualquer forma, escrita como um adeus,
rabiscos informes de uma loucura de letras; um subsídio
para a compreensão dos loucos com tendências de desleixo,
uma carta de recomendação para o Exmº Senhor Doutor Deus
(na linha de baixo)
Presidente do Conselho de Administração do Céu
(e ainda mais abaixo)
Céu
(vá lá saber-se a porra do código postal/talvez eles a saibam nos correios/deve ter morrido muita gente nos correios nos últimos anos/ talvez um dos velhinhos da secção de filatelia/talvez um dos carteiros/haviam de ver como ser carteiro é uma profissão de risco/ não fazem ideia dos riscos que correm os carteiros/as sopeiras e os cães de guarda a correrem atrás deles/sempre a subirem e descerem das carrinhas das entregas/sempre apressados para entregar os telegramas/sempre ajoujados com sacos carregados de erros de ortografia/ser carteiro é um perigo!)

Morrerei de madrugada,
que é a hora em que morrem os que sabem morrer.
Morrerei de uma assentada,
que é para não dar trabalho a mim nem a ninguém.
Morrerei pela calada,
porque o silêncio é o melhor amigo dos que morrem.
Morrerei à beira da estrada,
como a folha abandonada do malmequer.
Morrerei de uma pedrada,
saída de uma fisga que funcionava bem.
Morrerei de uma cornada,
de um touro da feira de Santarém.
Morrerei de qualquer forma, tenho hora marcada,
que me importa que vá morrer de madrugada,
mesmo que a madrugada seja a hora certa de eu morrer,
ou pelo menos a hora mais adequada à minha morte,
que me importa que ninguém se importe,
levo o copo de whisky na mão com o gelo a derreter,
sei lá quanto tempo irá durar a puta da viagem,
sei lá para onde vou, sei lá em que paragem
devo descer.
Quem me avisa?

Levo o copo de whisky, ‘tá decidido! Levo o copo!
Que ninguém se ponha para aí com merdas!
Levo o copo! Vou em mangas de camisa!
Rebento o canastro a quem me enfiar um fato,
não abusem da minha pachorra pelo simples facto
de estar morto. «Amazzato ma non troppo»...
Levo o copo! Levo o copo!
Se calhar um na mão direita e outro na mão esquerda,
nós os mortos somos assim: de excessos.
Ponham-se a pau connosco, os mortos
ainda por morrer, os mortos incompletos,
os mortos ainda sem processos
de admissão, os mortos em projectos.
Ponham-se a fancos!
Sim, é com vocês que falo!...
Sua cambada de vivos com perspectivas de vida;
tranquilos leitores de jornais sentados em bancos
de jardim; passeadores profissionais de avenida;
inconscientes felizardos proprietários de futuros sem intervalo;
pais e mães de família com crianças pela mão;
ursos amestrados de ciganos e saltimbancos;
palhaços pobres sem gargalhadas; trapezistas sem trapézio;
D.Quixotes sem moinhos; Gary Cooper sem cavalo;
náufragos sem mar; Evas sem Adão;
igrejas sem altar; sortes grandes sem vigésimo;
luas cheias sem luar; malucos sem confusão.
É com vocês que falo!
Tomem atenção!!!
Foda-se!
Não tenho corda! Esqueci-me de comprar a corda!
Eu sabia que haveria de esquecer-me de qualquer coisa importante.
Esqueci-me da merda da corda! Que um macaco me morda!
Enfim, que se lixe! Agora é tarde. Adiante!
(vendo bem como é que um gajo/entra numa mercearia e pede/um pedaço de corda para enforcamentos?/Que quantidade de corda é preciso?/Um rolo ou um baraço?/Depende do cachaço?/Qual é a qualidade da corda ideal para o efeito?/Vai de nó ou vai de laço?/Que diacho! Com’é qu’eu faço?/ Vou à loja e peço com jeito: «Bom dia senhor Antunes, tem cordas para enforcados?»/E ele mede-me o pescoço, diz-me adeus, boa sorte, e dá-me um abraço?/Que se foda a corda!!!/ Bebo antes um bagaço)

Não tenho corda mas tenho janela,
cuidado aí em baixo!
Saiam da frente, cambada de cretinos;
corja de imbecis;
cães de trela;
não vêem que vos esborracho?
Vejo-vos daqui, gente feliz!
Pobres diabos sem almas; pombas em desatinos;
figuras ridículas que dão à taramela
sem que ninguém acredite no que diz;
bêbados sem vinho; lezírias sem campinos;
piratas sem rum; descobridores sem caravela;
livros sem letras; hipotenusas sem catetos;
pirâmides sem faraós; São Franciscos sem Assis;
Cristos sem cruzes; saladas sem pepinos;
línguas sem aftas; Camões sem sonetos;
versos sem rimas; cauteleiros sem cautela;
Romeus sem Julietas; gargalhadas sem meninos;
brasileiros sem feijoada; rosas sem lapela;
soldados sem espingarda; Braga sem canudo;
revoluções sem cravos; putas sem esquinas;
perus sem Natal; Lafões sem vitela;
escolas sem recreio; estudantes sem estudo;
avôs sem netos; alegrias sem meninas;
frascos sem veneno; pescadores sem sediela;
peitos sem dores; namorados sem namoradas;
rebanhos sem pastores; Lisboa sem varinas;
noites sem sono; Sherlock Holmes sem mistérios;
polícias sem ladrões; Sintra sem queijadas;
índios sem cowboys; Antonietas sem guilhotinas;
perguntas sem respostas; mortos sem cemitérios.
Vejo-vos daqui: vocês não sabem nada de nada!
Se soubessem, subiam cá cima ou compravam uma corda,
ou deitavam-se ao comprido no meio da estrada...
tal e qual como eu, afinal,
aqui pronto para a viagem inaugural
que me conduzirá do parapeito pela borda
fora da vida num percurso elipsoidal
que pode meter até, vejam lá a ironia,
um ou dois saltos mortais pelo caminho,
sempre mais agradáveis, pelo menos em teoria,
do que um nó corrediço em redor do colarinho.

Um momento!
(tenho que encher o copo/este palavreado faz-me sede/vou encher os dois/por causa das coisas/é muito provável que entorne umas pinguinhas/daqui até lá baixo/nada como estar prevenido/homem prevenido vale por dois/vou então encher quatro copos...)
Ora bem, já é tarde,
não vejo lá muito bem com esta escuridão,
não pensem, no entanto, que estou a ser cobarde,
gostava apenas de ver em que espécie de chão
irei cair.
Enfim, é madrugada...
Não morrerei em Buenos Aires;
não estarei morto em ponto quando forem seis horas da manhã;
não ouvirei a voz lavada a whiskies de Amelita Baltar;
nem o bandoneon enlouquecido e sofredor de Piazzolla;
não sentirei o cheiro ácido da romã
que a minha mãe descascava por minha preguiça;
não sentirei o sabor salgado do mar
que vinha no vento à mistura com acordes de viola
e com um brilho de estrelas que enfeitiça;
não sairei hoje de casa pela porta como de costume;
vou voar!;
há muito tempo que não desenferrujo as asas,
não sei se terei todas as penas em condições;
talvez me resolva a pedir ajuda a um vagalume
mas eles parecem-me demasiado ocupados a brilhar
e a apagar e a acender o cu como se dissessem palavrões;
não sairei hoje pela porta, vejam bem!;
já ninguém passa na rua, são quatro da matina;
não vou morrer em Buenos Aires, suicido-me mesmo aqui,
sem corda nem nada, voando apenas
em linha recta com uma ou duas curvas pequenas
e um ligeiro bater de asas que, porém,
por via desta minha existência de anjo clandestina
não devem funcionar grande coisa por aí.
A melancolia chegou, levo-a comigo,
levo a tristeza, e o whisky sobretudo,
levo um desinteresse que só peca por defeito,
levo a solidão que tenho por castigo,
levo o que vejo - Lisboa, Tejo e tudo,
vamos a isto: subo ao parapeito...
UPA!
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PUM!!!

O meu primo mais velho 

O Afonso formou-se em direito mas, no fundo, ele não se queria endireitar. Vai daí, pegou na caneta e começou a escrever. De entre os muito sítios por onde passou destacam-se O Semanário, O Século, O Jornal, A Bola e O Jogo, bem como a conhecida revista francesa France Football. Publicou dois livros (Tantas Vezes Tu e, recentemente, Portugal em Calções, da "Oficina do Livro"). Já visitou mais de noventa países, o que o torna mais “cidadão do mundo” do que de outro local qualquer. Excepção feita, talvez, à Índia.
Ele foi um dos nossos compinchas para esta aventura casadoira mas, afazeres vários (bem mais importantes do que este devaneio) têm-no mantido ocupado. Há dias mandou-me um email, dando-nos o privilégio de publicar aqui o seu primeiro poema.
O Afonso é o meu primo mais velho mas, no fundo, também é como se fosse o meu irmão mais velho: esse irmão que nos ensina, aconselha e nos paga copos. A propósito man, para a semana o Nilesh faz anos outra vez! LCA

sexta-feira, julho 18, 2003

O espírito Savonarolesco que surge... 

Francisco José Viegas, na primeira verdadeiramente brilhante análise deste mini-mundo de vislumbres:


Irrita-me quem veio aos blogs para moralizar e evangelizar, espalhar a verdade, ganhar adeptos, praticar a pior das coisas que é o proselitismo no meio da tempestade e da desgraça(...)


Sublinho e incentivo, pelo menos a fasquia do sonho, ou então viagens. Dois terços da mediocridade que abunda, furiosa, citadora e laudatória advêm da triste condição territorial, o provincianismo.
BR



Cuidado com o casamento, moços e moças 

Já o ZMS destacou a solidariedade que existe, amiúde, na blogosfera. Esta é apenas uma pequena introdução para apresentar um divertido mail que o Francisco José Viegas fez o favor de nos enviar. Em que outro media pode haver uma proximidade assim? E, já agora, tão propícia ao sentido de humor? Obrigado, Francisco.


"Sem qualquer intento moralista e moralizador, aqui vai uma lista de frases sobre casamento, casadoiros e casadeiras. Encontrei o ficheiro por acaso e talvez «vos sirva de exemplo» ou de «guia de boa conduta». Há coisas que são assim."

Um abraço

Francisco

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*Frases retiradas de revistas femininas dos anos 50 e 60 no Brasil...

- Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas.
  (Jornal das Moças,1957)

- Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho
e provas de afeto.
(Revista Claudia,1962)

  - A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa.
(Jornal das Moças,1945)

  - A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, nada de incomodá-lo com serviços domésticos.
  (Jornal das Moças,1959)

  - A esposa, depois de casada, deve vestir-se com a mesma elegância de
solteira, pois é preciso lembrar-se de que a caça já foi feita, mas é preciso
mantê-la bem presa.
(Jornal das Moças,1955)

  - Se o seu marido fuma, não arrume briga pelo simples fato de cair cinzas no
tapete. Tenha cinzeiros espalhados por toda casa.
(Jornal das Moças,1957)

- A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar uma mulher por não ter resistido a experiências pré-nupciais, mostrando que era perfeita e única, exatamente como ele a idealizara.
  (Revista Claudia,1962)

  - Mesmo que um homem consiga divertir-se com sua namorada ou noiva, na verdade ele não irá gostar de ver que ela cedeu.
  (Revista Querida,1954)

- O noivado longo é um perigo.
  (Revista Querida,1953)

- É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido.
  (Jornal das Moças,1957)

MESTRE 

Naipaul, em "Uma vida pela metade", define magistralmente o que é um mau
escritor e um mau romance.
Eis as críticas  que um dos personagens, Willie Somerset Chandran, escritor,
recebe do  crítico R., depois de lhe apresentar as primeiras aventuras
literárias:
" Eu sei que quem te deu o nome ( Somerset Maugham) e é um grande amigo da família diz que uma história tem de ter princípio, meio e fim. Mas, na realidade, se pensares bem no assunto, a vida não é assim. A vida não tem um princípio claro e um fim definido. A vida está sempre a fluir. Podes começar
no meio e acabar no meio, e está lá tudo".
E, ainda: " Tenho passado muito tempo a ouvir tipos dissimulados e, estas
histórias dão-me a sensação de que o escritor tem segredos. Se esconde."
Uma coisa vos garanto, aqui não há dissimulações, Naipaul mostra o vulgar
que o homem é, por mais extraordinárias que sejam as paragens em que viva.

CMC

Bárbara vai-com-as-outras 

Começou na TVI a ler notícias ao lado de Albarran, fez "Furor" na SIC,e agora é a Agustina Bessa-Luís dos pivots - não se percebe bem como. É um facto: só dão programas de cariz cultural a Bárbara Guimarães. A Sic-Notícias já a tinha no SBA, no Oriente, mas agora - como se ainda não bastasse - deu-lhe Páginas Soltas, uma conversa com intelectuais sobre livros.

E depois disto? Luiz Pacheco num programa sobre religiões?

LFB

aves e fábulas 

Traduzidos por Pedro da Silveira, e incluídos no riquíssimo volume "Mesa de Amigos" (Assírio e Alvim), aqui ficam dois poemas de Giuseppe Ungaretti (1888-1970), a antecipar o fim-de-semana:

AGONIA

Morrer como a cotovia sedenta
na miragem

Ou como a codorniz
passado o mar
nas primeiras moitas
porque de voar
não tem já vontade

Mas não viver queixoso
como um pintassilgo cego

ESTRELAS

Voltam a brilhar no alto as fábulas.

Cairão com as folhas ao primeiro vento.

Mas venha outro sopro,
um novo resplendor voltará.
NCS

Coimbra B - Esperando o comboio 

Abrem os livros espiando a medo as páginas sem desenhos, com o terror de quem espreita para dentro de um forno da Marinha Grande. E lá se vai lendo, correndo sérios riscos de ficarem desfigurados, Diários de Magos e Sei Lás mais o quês. LCA

Natureza humana 

É típico, é da condição humana, é inevitável. Expliquem-no como quiserem. O que é certo é que é no momento em que estamos acorrentados a mil deveres, a prestações de casas e carros, a compromissos de trabalho e reuniões, muitas vezes à beira de realizar sonhos para os quais trabalhamos há meses ou anos, é nesses momentos que deitamos tudo a perder apenas para nos sentirmos livres.

É na tarde em que está marcada uma reunião que vai definir o nosso futuro que decidimos ficar em casa, enterrados no sofá, a ver um talk show para domésticas.

É no dia em que podemos tornar-nos alguém que decidimos ficar em casa, deitados, a descansar de não ser ninguém. TR

Amélia e os homens 

A Amélia, no seu procuro marido, nossa cara metade, desancou-me totalmente. Chamou-me portador de bigode e afirmou que não queria a minha fotografia. O bigode posso já desmentir, nem seria coisa que me ficasse bem. Aliás, os portugeses ficam muito mais favorecidos quando podem passar por dinamarqueses ou holandeses (o que também não é o meu caso, mas é o do Pedro Mexia), dispensando tal acessório.
Basicamente, a Amélia mandou-me ter juízo e crescer. Assumir a minha fragilidade, evidenciar a minha costela feminina, aleitar as minhas crianças. Mas, Amélia, eu gosto de cozinhar, gosto de animais, tenho poemas publicados no México...
Vou desde já começar a arrolar testemunhas do sexo feminino, que possam, inquestionavelmente, demonstrar que sou o homem mais doce, atencioso e pós-moderno que conhecem. As mães não contam. Minhas queridas amigas, atendam o telefone, abram os emails, é agora que podem começar a retribuir tudo o que vos dei.

MR

Confissão séria 

Às vezes encontramos mulheres tão bonitas que só dá vontade de chegar junto delas e dizer, simplesmente, "és linda". Assim só, sem querer mais, sem querer dizer mais nada. Hoje aconteceu-me isso. É claro que, na maior parte das vezes, não chegamos a dizer nada, porque ficaríamos quase sempre a parecer uns tontos, mais uns a assediar raparigas, tarados de jardim público quase a abrir as gabardines. Mas não é nada disso que nos passa pela cabeça, juro.
Da próxima vez, se tiver coragem, vou dizer-lhe "és linda". E seja o que Deus quiser.

MR

Urbanismo e café expresso 

Quando acordo, a cada manhã em que olho para o rio (sim, sou um dos lisboetas privilegiados que pode tomar um café em casa a olhar para o rio e pretendendo sê-lo sempre!), parece-me que cada dia existem mais construções na margem sul, mesmo sobre o Tejo, aparentemente desordenadas e feias.
Lembro-me que, há alguns anos, viam-se os silos, aqueles cilindros de cimento, e pouco mais. Entretanto, vieram os hospitais, as pousadas da juventude, prédios atrás de prédios, e o horizonte do Tejo começa a ficar acimentado, sem sentido, sem beleza, sem noção.
Mal por mal, se calhar mais valiam aquelas falésias descampadas, a parecerem um baldio imenso, de entulho e plantas rasteiras, com pedras e pequenas praias, na impossibilidade de se fazer uma coisa gira e democrática, como um grande parque verde a descer para o rio. O que é que querem afinal? Querem substituir o baldio grande por uma arquitectura de subúrbio, feia e sem plano, como já não se faz nos países civilizados há décadas?
É que quando lixarem a margem do rio, toda a gente perde. Perde Lisboa, que passa a ter vista para prédios cizentos e cor de tijolo, emparedada na sua luz e na sua sombra. Perde Almada, que podia aproveitar a sua magnífica costa ribeirinha e está a deitá-la fora. Isto é daquelas coisas que nos vão envergonhar durante décadas e não vejo ninguém a falar disso. O facto da vista de Almada para Lisboa ser muito mais bonita que a inversa não significa que se deva pontear a margem com betão armado. O que virá a seguir? Hipermercados com acesso pela praia?
Será que, antes de rebentar com o resto, podemos ao menos pensar um bocadinho no que queremos fazer ao nosso rio?

MR

A Ordem das Palavras 

A partir de hoje passo a escrever também no blog A Ordem das Palavras (http://ordemdaspalavras.blogspot.com). HR

Segredo de Justiça 

A propósito de recente polémica (já vão ver qual), importa transcrever o n.º 1 do art. 371.º do Código Penal (violação do segredo de justiça): «Quem ilegitimamente der conhecimento, no todo ou em parte, do teor de acto de processo penal que se encontre coberto por segredo de justiça, ou a cujo decurso não for permitida a assistência do público em geral, é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias, salvo se outra pena for cominada pela lei do processo». Ora, o que fez o Bastonário da Ordem dos Advogados (em recente entrevista à TSF) senão dizer por palavras suas o que se encontra redigido na lei penal portuguesa? Lembra o tempo das orais na faculdade de Direito. Os elementos que compunham o júri inquisitório pediam-nos frequentemente que disséssemos por palavras nossas o que se encontrava em determinado artigo, sendo que a tendência era, ainda assim, para ler a norma em causa. José Miguel Júdice limitou-se a interpretar objectivamente (e bem) o conteúdo do art. 371.º do CP e a concluir pela prisão para os violadores de facto do segredo de justiça. Exactamente o que a lei faz. Que serene alguma magistratura, pois então. HR

quinta-feira, julho 17, 2003

Estamos a fazer escola. 

Só para dar as boas vindas ao Procuro Marido, que tem a seguinte epígrafe: "Desejo casar com rapaz entre os 27 e os 50 anos (sem bigode!)". Amélia, my dear, you've come to the right place!

LFB


A propósito, 

Há cada vez mais jornalistas louras. Acho isso muito positivo.

LFB

Trilogia Estática* - A minha Apologia Estética (que muda, e muda....) 

1. Movimento. Passeamos em Verona, por vezes encontramos os carros e os campos cobertos de uma fina camada de areia. A planície Padana (norte de Itália) é ciclicamente revisitada pela areia do Sahara, dizem, por força dos poderes do vento, o Siroco. Vem de noite, atravessa o mar e traz o rumor com histórias secretas de África, um fulgor.
Dédalus foi um mítico escultor da antiguidade grega. Atribuem-lhe (Platão no Ménon) ter sido o primeiro a esculpir estátuas em aparente movimento. À noite, os donos, amarravam as estátuas ao chão com medo que estas, durante o sono reparador destes, fugissem, incorporando vento talvez.
Um dia entraram-me pelo escritório uns engenheiros da Viaponte. "Arquitecto, faça-nos em dois dias uma ponte que una as margens de um rio no encontro com o mar". Fizemos a Ponte de Dédalo, apontando o deserto, empolgado com desejo de mar.

2. Olhar. As civilizações grega e romana diferenciaram-se em muito, apesar da empatia e do roubo. Talvez a diferença maior, que explique todo um universo de variações e subtilezas, esteja encerrada na forma como representavam o olhar na sua estatuária. Uns representavam sempre os olhos a fitar superiormente, quem sabe, os Deuses e o Eterno, os outros alinhavam a linha do olhar com o espectador e os ciclos da vida e morte.
O restaurante que estamos a desenhar para a encosta de um monte alimenta-se desta dislexia visual. Por um lado fitamos o monte e o seu cume, com a pequena Igreja no topo (a ideia do eterno). Por outro pousamos um panorâmico e lento olhar sobre a cidade e o mar, em baixo. (a certeza do cíclico fluxo das coisas).


3. Pensamento. Os Mares contêm correntes internas violentas que fazem as águas circular ferozmente nas profundezas, apesar de, por vezes, a complacência marcar a superfície finita no horizonte. Por vezes o pensamento reflecte este facto. O Teatro (que estamos a desenhar) encerra este ciclo eterno, a impermanência consistente. Encena-se o infinito. E o eterno mergulho é proposto, em pensamento e segredo.

BR
*equilíbrio gravitacional

Enlarge Your Chef Silva - Remix 

OMELETA "DIVINAL"

Ingredientes:

- 3 ovos
- 1 colher de azeite
- sal e pimenta q/b
- meia cebola média
- 1 garrafa de wiskey
- 1 pano
- pensos rápidos
- Betadine
- 1 extintor
- 1 telemóvel

- Apesar de lhe apetecer comer um belo bife suculento - retire do armário a única coisa que lá dentro se encontra: 3 ovos, um resto de azeite e meia cebola.
- Reserve o azeite e a cebola.
- Como não tem jeito nenhum para a cozinha, é perfeitamente natural que um dos ovos tenha caído ao chão. Restam-lhe dois.
- Parta-os para dentro dum sapato, forrado de antemão com um saco de plástico.
- Dê um golo no wiskey e relaxe.
- Coloque o tampão de uma roda ao lume.
- Dê outro trago no wiskey.
- Verta o azeite na parte côncava do tampão.
- Pique a cebola.
- Distribua os pensos pelos dedos ensanguentados.
- Beba um pouco de wiskey – alivia a dor.
- Bata os ovos com o cabo da escova de dentes, não esquecendo de adicionar o sal, a pimenta e a cebola finamente picada.
- Ultimamente tem andado muito tenso: pegue no wiskey e beba-o até ao brasão que está no rótulo.
- Neste momento, depois de um quarto de hora a bater ovos - para além de bêbado - tem o azeite a arder. Mantenha a calma.
- Retire com cuidado o tampão do lume para não entornar o azeite incandescente.
- Infelizmente, aquele ovo que há pouco deixou cair pode ser uma armadilha…
- Unte os braços com a Betadine.
- Deite fora o que resta do azeite a ferver.
- Por esta altura, com os dedos ataviados, a cabeça a andar à roda e os braços com queimaduras de segundo grau, comer uma omeleta é a última coisa que lhe apetece.
- Dirija-se à janela e grite.
- Feche a janela violentamente, libertando a raiva.
- A fim de mais tarde ser cosida, apanhe a falange que ficou presa na frincha e coloque-a no bidé cheio de água fria.
- Entrape a mão com um pano e vá ao corredor buscar o extintor para apagar o incêndio que neste momento deflagrou – ateado pelo azeite a arder – aos cortinados da pensão rasca onde nos últimos meses tem vivido.
- Verificando o extintor fora do prazo - e estando o quarto a arder - pegue de imediato no telémovel. Terá de ser extremamente rápido a digitar o 112.
- Se não estivesse desempregado há três meses e tivesse dinheiro para recarregar o telemóvel - a única coisa que a sua mulher não lhe levou depois do divórcio – não estaria agora nesta posição tão ingrata.
- Mas não tão ingrata ao ponto de não agradecer ao dono da pensão que, entrando no quarto com um potente extintor, apagou o fogo.
- Ressacado, sem dinheiro, sem omeleta, com os braços queimados e os dedos cortados, deverá, seguidamente, perguntar ao homem se existe alguma maneira de o compensar pelos estragos causados.
- Como ele acabou de lhe gabar os olhos, acrescentando uma referência às suas nádegas, deverá aproximar as palmas das mãos e, ajoelhando-se, repetir comigo: “Pai Nosso, Que Estais No Céu…” LCA

Faça você mesmo a piadola: 

Maria Barroso comparou a família Soares aos Kennedy. Hmm... mas os Soares estão vivos e de boa saúde (num ou noutro caso para pena minha, devo admitir). Mas mais misteriosa que a comparação é o timing da mesma: a senhora dona Barroso afirma isto precisamente na semana em que peças da roupa interior de John F. Kennedy foram a leilão nos EUA...

LFB

ps: the truth is out there.

Phosga-se! 

Ruy de Carvalho, numa revista do social, afirma peremptório que "vibra quando vê representar bem". Infelizmente fonte próxima garante - tendo em conta as 387 telenovelas da TVI onde o actor tem participado - que Ruy de Carvalho já não vibra desde o tempo em que "farmácia" se escrevia com "ph".

LFB

JURA?! 

Britney Spears admitiu em entrevista à "W Magazine" que já não é virgem há que tempos e até experimentou drogas. Parece impossível! Depois disto só falta, sei lá, o Michael Jackson admitir que fez plásticas ou o Papa confessar que acredita em Nosso Senhor...

LFB

Deixa cá ver na agenda 

As vidas estão cada vez mais organizadas. A cada hipótese de combinação segue-se normalmente uma frase: “Deixa cá ver na agenda…”. Recuperando a temática que aparece, aqui e ali, neste blog, daqui a pouco os pedidos de casamento serão seguidos da consulta da agenda electrónica: “Querido, gostava tanto, mas nesse sábado não me dá lá muito jeito… Já tenho pedicure marcada há muito tempo…”. Agora, com as férias aí à porta, podemos visualizar uma agenda de Verão de um executivo: “10h – visita matinal à praia. 10h10 – pequeno-almoço com os banhistas vizinhos para planear a ordem de banhos. 10h15 – briefing com os nadadores-salvadores sobre o estado do mar e assuntos afins. 10h18 - pequena conferência no areal sul subordinada ao tema “A Importância do Fio Dental na Produtividade Masculina nas Praias Portuguesas”. 10h20 – mergulho nas ondas seguido de reunião de emergência para decidir o despedimento imediato do grupo heterogéneo constituído pelos tipos que jogam à bola, pelos que levam o cão para a praia e pelos que têm filhos irritantes que passam o dia a gritar: "Ó pai, quero um gelado!”. Esta mania das agendas faz surgir várias inquietações. Como é que será, por exemplo, a agenda de um terrorista? “21h – ir ao cinema do bairro. 23h15 – deixar uma mala com uma bomba dentro à porta de uma embaixada. 00h10 – ir ver uns telediscos da Jennifer Lopez antes de adormecer”? Fazendo a ponte para a blogosfera, podemos imaginar os pensamentos de um polemista profissional, na altura em que consulta a sua agenda da rentrée: “Ora, deixa cá ver onde é que vou encaixar esta polémica com o Rorty com Chocapic sobre o fim da História e o tamanho dos parafusos na Nova Zelândia. No dia 15 de Setembro não posso, estou completamente cheio. A partir das 11h15, vou polemizar com o Zé Ricardo, do Galifão Transcendente, sobre o amor nas sociedades pós-estruturalistas e isso deve durar o dia todo. Bem, só se for no dia 17 de Setembro, ali pelas 12h05, logo a seguir à polémica sobre andebol feminino com o Filipe Matos, do Figura de Husserl…”. NCS

O Amor Nas Paredes 

A cidade de Espinho, no norte do País, é conhecida por três razões principais: o jogo (que, para além do Casino Sol Verde, se espalha por quase todos cafés e tascos das redondezas, tornando a cidade uma espécie de mini-Havana à portuguesa, com menos mojitos e muito mais parolos); o vólei de praia (que em Espinho é quase uma religião oficial: o bebé começa a andar e leva com uma bola; além de que os campeonatos mundiais passam sempre pela Praia Azul e os mais destacados atletas do País nesta modalidade foram, obviamente, ali produzidos); por fim, a cidade tornou-se célebre pelas suas ruas: Espinho começa na Rua 1 e termina na Rua 40 ou 46, interseccionando-se, de caminho, com a Praça 13 e a Alameda 4. Na realidade, não haveria muito mais a dizer sobre Espinho - talvez o restaurante Peixeiro fosse também digno de nota. Mas o mais fascinante desta pequena urbe encontra-se no Amor - ou melhor, na falta dele, associada a uma boa dose de loucura.

Maria (chamemos-lhe assim) era casada com João ("") e vivia feliz em Espinho. Habitavam numa pequena casa perto da lota e ocupavam-se com as actividades normais de qualquer cidadão. Até que um dia, o João começou a trair a Maria (não se sabe ao certo se começou a trair, mas supunhamos). Maria passou a fazer cenas, a acusá-lo de traidor e a espalhar a história pelos vizinhos. Como se tratam de 40, ou 46 ruas, em breve o caso se tornou público e objecto de comentários. João, no entanto, continuou a traí-la. E Maria a acusá-lo, cada vez com mais rancor e estridência. As suspeitas foram aumentando, auxiliadas pelos vizinhos, e o casal passou a discutir de manhã à noite. Tornou-se um «inferno» aquela casa. E a relação, aos poucos, absolutamente inviável. Até que um belo dia, o João se fartou e saiu de casa. Maria não resistiu à dor; caiu em pranto várias semanas e desapareceu das ruas. Os vizinhos sempre a acharam esquisita, mas encontravam-se solidários com ela. «Coitada, foi abandonada».

O que ninguém contava foi com a intervenção que se seguiu. Uma intervenção amplamente artística que iria acrescentar um novo ponto de interesse à cidade de Espinho. Depois de várias noites de trabalho, em absoluto silêncio e sob o olhar da lua, Maria completava a sua master piece. Munida de um pincel, um balde de tinta preta e a lista telefónica de Espinho, inundou a cidade com os contactos telefónicos de todos os habitantes. Igrejas, casas, escolas, passeios, muros, bancos, árvores, postes, janelas, vidros e até tampas de saneamento - todo o espaço foi útil para acolher os números de telefone dos espinhenses. Toda uma zona, entre os quarteirões das ruas 24 e 37, serviu de testemunha ao amor de Maria. Aos primeiros números, acrescentava ainda o nome dos proprietários e algum insulto; na recta final, visivelmente cansada e já sem tinta, limitou-se à enumeração. Eram milhares de dígitos, muitos dos quais ainda sobrevivem nos dias de hoje (aí está uma boa razão para visitar Espinho), a atestar do desgosto de Maria. Como se aqueles números acusassem individualmente cada responsável; como se a catarse dependesse de um edital público onde se expressam todos os ódios, a negro, pelas paredes da cidade.

RS

quarta-feira, julho 16, 2003

Invejo o Durão Barroso 

Invejo o Durão Barroso por uma razão acima de qualquer outra: consegue ter em mim o impacto que eu gostaria de ter nos meus inimigos, se porventura existem. Falo da entrevista que deu esta noite, mas não só. Refiro-me também aos debates no Parlamento, às inúmeras respostas à entrada ou à saída dos conselhos de ministros, aos discursos depois de uma reunião com o Presidente. Discordo de muitas das coisas que diz e faz, embora na maior parte dos casos não tenha capacidade nem conhecimento que me permitam contra-argumentar de forma cabal (dito assim, até parece que tomamos o pequeno almoço juntos ao fim-de-semana). Não tenho qualquer simpatia pelo Governo ou pela maioria parlamentar. Não sinto qualquer afinidade com o ser humano José Manuel e chego a antipatizar com o Primeiro Ministro Durão Barroso. Mas devo admitir que invejo, digo-o não sem sofrimento, invejo a clareza e a convicção do discurso. Não sei se o discurso é político, mas é um discurso e às vezes é brilhante. Esta noite, sobretudo na defesa das reformas na administração pública, dei comigo a torcer para que as respostas lhe saíssem bem. Como um membro da claque do Porto mesmo antes de um livre do Deco. Exactamente como no futebol. Eu fiz a onda e, na minha cabeça, ouvia Durão, Durão, Durão, alê, alê! Com a mesma dose de irracionalidade que teria num estádio. Até porque amanhã acordo sereno, preparo o biberão para a minha filha e continuo a não gostar dele. E a invejá-lo. TR

VIRGEN GORDA RELOADED 

Acabo de abrir o meu email. Que vejo?... Mais publicidade à Virgen Gorda!! Meu Deus, será que isto não acaba? Por favor, eu não quero saber da Virgen Gorda. Juro!

MR

VIRGEN GORDA: THE TRUTH 

Para onde quer que me vire, nos últimos dias, duas palavras por todo o lado: VIRGEN GORDA. Revistas, televisão, outdoors, sempre a tal virgem gorda. Eu tinha vivido bem até agora sem este suposto destino de férias de sonho. Agora, tenho de sentir sempre que estou no meio de um pesadelo. Virgens gordas everywhere. Repeti comigo: não irei à Virgen Gorda. Mal por mal, a Manta Rota.

MR

É favor apagar depois de ler 

Ontem alguém me deu conta do comovente impacto que provocou no público feminino um cavalheiro e o seu relato televisivo de como gostava de dar banho ao seu pequenino bebé, religiosamente todas as noites, na companhia da esposa. É a velha ideia de que “são estes homens que me fazem acreditar no amor”, “afinal não são todos iguais”, etc., etc.
Aquele é o tipo de discurso óbvio e ideal para comover trintonas solteiras ou jovens mães já desiludidas.
Posso aliás enunciar mais algumas situações capazes de levar às lágrimas a “dealer” mais frígida:

1. Contar como gosta de fazer o pequeno-almoço em silêncio para surpreender a companheira de leito, ainda adormecida, com um sumo de laranja e dois pastéis de Belém
2. Dizer várias vezes, junto de mulheres que não conheça, coisas como “estou com tantas saudades do(a) meu filho (minha filha)!” (não é, nesta fase, indispensável tê-lo) ou “aquele por-do-sol fez-me lembrar os dias que passei com o meu amor nas Antilhas...”
3. “Podemos marcar a reunião antes para as cinco? É que combinei fazer um jantar para a x e ainda tenho de passar pelo supermercado....”
4. Afixar imediatamente na secretária uma fotografia sua com uma criança pequena, bonita e bem disposta
5. Comentar com intencionalidade “Os morangos estão tão caros, mas são tão bons...”
6. “Gostava muito de ir ao casino convosco, mas estou a poupar para comprar um anel à Teresa...”
7. “É giro ir ao San Payo de vez em quando, mas não há como a minha mulher...”

...

Naturalmente, frases deste tipo tanto podem resultar junto das mulheres e ficarem a ser identificados com o “homem ideal” como serem imediatamente alcunhados de “meninas”. É um risco, mas normalmente compensa.

MR

Longos Namoros (o verão é sempre interminável...) 

o silêncio, a aba e e o duro cerne. Deus e a Mesquita, muito bonito. Todos bons pensantes...

o meu abraço

CÓDIGO DE ÉTICA 

Nada como sair de casa cedinho e assistir a uma discussão de taxistas. Em 2 minutos revê-se toda a matéria sobre o calão português e ainda dá para aprender expressões novas. Ponto fulcral: porquê esta mania de insultar os outros com termos sexualmente conotados? Ponto 2: porque são essas palavras tão feias?

Não sei a resposta mas aqui vai uma discussão de taxistas segundo o meu Código de Ética:

- Então, pénis? Não viu o sinal vermelho, fornique-se?!
- Não estava vermelho, seu homossexual com parque de estacionamento no ânus!
- Ah não, fezes?! Que cor era então, seu filho de uma concubina daltónica?
- Estava amarelo, meu caro indivíduo vítima de diminuição mental!
- Amarelo é a cor da sua icterícia. Sugiro-lhe que vá sodomizar primatas.
- A sua vida privada não me diz respeito, excremento! Aconselho-o a praticar cunnilingus com a senhora sua progenitora.
- Mais um comentário desses e ponho-lhe fim à vida a toque de pontapés nos testículos.
- Mas que coito do... olha, 'tá verde! Adeuzinho, bom trabalho!
- Adeus, força!

LFB

Pronto para "O Padrinho - parte IV" 

Vejo, no Canal História, um documentário sobre Andy Garcia.
Fico a saber que, muito, muito antes de ser escolhido para incarnar o filho problemático de Michael Corleoni em "O Padrinho III", começou por ingressar no teatro a partir de duas nobres razões: o abandono forçado do basketball universitário por ter menos de 1m80 e por achar que impressionaria mais raparigas no palco do que no ringue.
Caro Andy, como te compreendo. Também eu falhei o metro e 80, também eu quero impressionar o maior número de raparigas permitido por lei e também eu faço teatro. Quando fizeres uma pesquisa no "Google" ao teu nome e encontrares este post, passas os meus dados ao tio Francis Ford?
AB

Quê-macho?! ou - ensaio para uma manchete de A BOLA 

Camacho confessa numa entrevista que esteve interessado em Rui Costa e... Ronaldinho Gaúcho. Eu também estou interessado na Angelina Jolie mas tenho a decência de não o tornar público. Até para não perturbar o Nicholas Cage.

LFB

Desejamos mesmo casar? 

A Ana Sá Lopes com a melhor das intenções e simpatia desejou-nos, a todos, a
benção do casamento.
Vá-se lá saber porquê?! É tempo de confessá-lo, rapazes: no fundo, no fundo,
este nome, Desejo Casar, é mais um chamariz às audiências do que um real
desejo de muitos de nós e do qual, aliás, alguns, prontamente, se
demarcaram.
Vem isto a propósito de um telefonema que recebi, hoje, da minha avó de 80
anos que, do alto da sua sabedoria, me fala:

"Minha querida, você está muito melhor que todos os casados deste mundo.
Depois do entusiasmo só ficam as obrigações. Viva a relação, sem papel
passado e enquanto dura esse entusiasmo. Olhe à sua volta, a idade já não
prejudica ninguém, homem ou mulher, sempre a tempo de recomeçar  e sem
problemas de escolha".
Abençoada libertária!

CMC

INTEIREZA 

Vivemos as vidas do exagero. Tudo nosso exageramos.

(lda)

terça-feira, julho 15, 2003

Uma vez ri MTV 

Hi, i'm Kevin from the Ten Hundred Assassins of Christ, and I welcome MTV-Portugal. É verdade. Há uma MTV Portugal, anunciada com relativa pompa e circunstância. Como é que se percebem as diferenças? Com a receita diária de David Fonseca, The Gift e Abrunhosa, por esta ordem, podendo variar o comprimido do bandemónio com uma pastilha de Toranja (a propósito, bela surpresa!). Mas onde se percebe melhor é mesmo no nível dos separadores. A MTV-tuga consegue destruir uma tradição de qualidade que a empresa-mãe vinha mantendo com particular assiduidade. Além de péssimas vozes-off são sobretudo inenarráveis os spots com jovens vítimas da acne a proferir parvoíces para uma sony-camcorder. Acabam invariavelmente em "MTV" mas deviam acabar em "Ah, Leão".
Minto, o Sá Leão - pelo menos - não é pretensioso.

LFB

PS: próximo tema - os separadores da Sic-Notícias, com particular incidência nas peúgas de Mário Crespo e no perfil de Marta Atalaya.

Blogogenealogia 

E eis que - começando eu a achar que já tinha visto quase de tudo num blog – surge, assim, do pé para a mão, da mão para o teclado, sem mais, …a receita de bacalhau da minha trisavó!
Sim, leram bem. Uma receita de bacalhau; atríbuida à minha trisavó; e com batatinhas a murro - e tudo - à volta (do bacalhau, entenda-se). E parece que é uma delícia.
Para onde caminha esta blogosfera? LCA

O Murmúrio 

Não sou nostálgica no sentido de achar que a felicidade passou por mim, leve
e inconsciente, e que só a retomo fria, com o travo melancólico da perda.
Também não sou optimista.
Mas não sendo nostálgica encontro um valor substancial no passado: a
dilatação do tempo, do presente e da experiência por referência a esse
passado.
O passado torna o presente menos perecível e fugaz. O passado oferece ao
presente a resistência à voraz passagem do tempo. E só ele ajusta e serena a
dimensão do presente, em mágoas e exaltações.
Em " A morte de Vergílio" de Hermann Broch, Vergílio, personagem principal
que se prepara para morrer, descobre uma única forma de dilatar o tempo da
morte e de prender o presente: a atenção desmesurada ao instante, aos sinais
do seu corpo, ao que se desenrola fora dele mas, sobretudo, ao murmúrio da
sua vida.
Gosto desta ideia: ouvir o murmúrio da vida das pessoas. Um eco, um som. O
que se desenrola através do silêncio.

CMC

esquizofrenia 

Ao que parece, não há dois posts intitulados Agradecimento no nosso blog pelo que o meu pedido de desculpas pela gaffe cometida é que foi a verdadeira gaffe, explicando os pormenores mais esquizofrénicos de um simples post de duas linhas que foi um erro invisível tornado visível por quem o cometeu sem ninguém dar conta. Nunca devia ter deixado de tomar o Dinintel. Hoje não escrevo mais. SOS. TR

Pedido de desculpas 

Ainda há pouco, durante o almoço numa pastelaria chamada E.Piaf que serve Hamburgers à Piaf, confessava a minha tendência para a «gaffe». A única coisa que me alivia é nunca ter tido qualquer ambição política, pelo que as minhas trapalhadas não implicam, à partida, o desperdício de dinheiro dos contribuintes.
Como devem ter reparado, os últimos dois posts, ambos intitulados Agradecimento, não são cópias exactas. O primeiro era um rascunho, que publiquei sem saber como. O segundo era o definitivo.
Podem notar como, logo na primeira vez em que sou mandatado como porta-voz da equipa do DC, meto o pé na argola. No entanto, como se aprende na commedia del'arte, o actor deve sempre acusar o erro. É a única forma de tornar o erro interessante. Por isso, descubramos as diferenças.
No rascunho escrevo a "simpática referência", que logo perde o qualificativo na segunda versão, porque o julguei displicente e arrogante.
Escrevo também "do" José Mário Silva que passa a "referência que nos fez José Mário Silva". Isto para não andarem a dizer que aqui nos blogues somos todos amigos.
Depois alterei "texto elogioso que a cronista Ana Sá Lopes nos dedicou" para "texto que Ana Sá Lopes nos dedicou". Porque tenho pudor em dizer que o texto é elogioso e é, além disso, uma redundância. Porque a Ana Sá Lopes é uma jornalista e, apesar de nos ter referido numa crónica, não deve e não pode ser confundida com uma simples cronista.
As minhas desculpas pelo facto. TR

CONTINUAÇÃO DE UM PRESÉPIO 

Ora bem: tomemos, pois, uma pequena boneca que se passeia de madrugada numa dessas ruas, com o cigarro aceso entre os dedinhos de madeira. Está sozinha, naturalmente: não pode haver gente de mais, porque é de noite, e com mais pessoas sempre se dissiparia uma paisagem assim. Já o disse: como um presépio urbano feito à mão, de onde estão arredadas todas as figurinhas. E enquanto se passeia, experimentando os sons raros que os seus passos produzem no silêncio dessas horas de sono, há-de ela vir pensando em algo. Podemos pintar-lhe na face, com a ponta de um pincel fino mergulhado com arte em tinta encarnada, um semblante carregado, e isso faz-se com apenas um movimento decidido do pincel - assim, exactamente - lançando uma expressão desgostosa na cabecinha polida da boneca. Ninguém se passeia a estas horas, desacompanhadamente, sem uma preocupação. Que preocupação? Para onde se dirige? Quem é essa boneca? E que nome tem?

LDA

Agradecimento 

Queremos agredecer a referência que nos fez José Mário Silva, no seu Blog de Esquerda, chamando a atenção para o texto que Ana Sá Lopes nos dedicou no Público do passado domingo e acrescentando uma carícia da sua própria lavra. A EQUIPA DO DC

A propósito de Greguerías 

Acabo de ler o teu post, Tiago, e faço um esforço tremendo para me recordar de alguma das greguerías de Ramon Gomez de la Serna (que não aquelas de que te lembraste, que, devo concordar, não são as melhores). Se bem me lembro, ou se bem não me lembro, uma das greguerías relaciona a mulher e o pecado original com as saladas de fruta. Esta greguería é porventura a minha favorita, mas não parece.
De Ramon Gomez de la Serna recomendo ainda "O médico inverosímil" (nalgumas situações, um verdadeiro pleonasmo).

Beckett e a minha descendência 

Hoje, Beckett arruinou, para sempre, a relação do meu olhar com as grávidas.
Nunca mais as poderei ver com ternura, ou pressentir o milagre, ou achá-las mais belas do que as outras mulheres. Sobretudo, Beckett e a leitura do seu Primeiro Amor vão causar problemas terríveis à minha vida conjugal futura, se, um dia, essa gravidez também me disser respeito. Ou será que, quando esse momento chegar, já terei sido capaz de esquecer este relato: "Ela teve a audácia de me anunciar que estava grávida, e há quatro ou cinco meses - de mim, ainda por cima. Pôs-se de perfil e convidou-me a olhar para a barriga dela. Chegou mesmo a despir-se, sem dúvida para me provar que não escondia uma almofada debaixo da saia e depois, claro, pelo puro prazer de se despir. Talvez sejam gases, disse eu para a consolar."
Obrigadinho, Sam...
AB

greguerías 

Quem já o leu, sabe que este madrileno seria, caso estivesse entre nós, o maior dos bloggers. Chama-se Ramon Gomez de la Serna e, entre mais de uma centena de livros editados, publicava diariamente as suas «greguerías» num diário espanhol. Estão compiladas e foram editadas em Portugal, há cerca de quatro anos, pela Assírio e Alvim numa notável tradução do Jorge Silva Melo. Não tenho o livro aqui comigo. Nem sei bem onde está. Escrevo isto porque sinto a urgência de o ler e não o tenho. Além disso, sei muito poucas de cor. Sei aquela que diz: "uma papel a voar é como um pássaro ferido de morte". Ou outra: "os parêntises são as pestanas do escritor que caem na folha em branco". Mas estas nem são, de longe, as melhores.

Projecto para o futuro: tatuar no corpo as minhas greguerías preferidas. Estarão sempre comigo. Mesmo que engorde ou emagreça, estarão sempre lá. Só muda a caligrafia. No dia em que as quisesse apagar teria que me lançar às chamas. Como uma das fogueiras de livros da Inquisição. Mas só eu ardia.

Tiago Rodrigues

RIR 

A comédia é um terreno sujeito diariamente à invasão de vândalos que deixam o seu rasto de garrafas partidas e beatas de cigarros. Não há nada pior do que um tipo que tem sempre piada. Uma piada cujo autor não sofre e não receia o fracasso, pode até ser uma boa piada, mas será sempre uma piada indigna. A comédia devia estar reservada aos infelizes, os desafortunados, os miseráveis, os abandonados. Quem é feliz e rico e sereno, não devia ter direito a fazer humor: não precisa. Aliás, daqui lanço um apelo a conhecidos e desconhecidos com que um dia me possa cruzar: no dia em que eu já não disser piadas, no dia em que a minha companhia nunca vos faça rir, abracem-me, digam-me parabéns ao ouvido e saibam que sou feliz. É o meu sonho, chegar ao dia em que não faço rir ninguém.

Tiago Rodrigues

Underwater Love 

Chego tarde à celebração de Camus, um dos meus autores preferidos. Francisco José Viegas referiu-se há dias a uma trilogia essencial - “Mer, soleil et femmes” – que foge ao peso normalmente associado ao pensamento filosófico e literário do autor de “A Peste”. "O Estrangeiro” não me marcou apenas pelo "sentimento de não-pertença" que se descobre em cada página. Do livro ficaram-me também as breves e simples imagens de sensualidade de Maria, mergulhando no Mediterrâneo e enrolando-se nas vagas com o homem que não sabia ao certo a data da morte da sua mãe. Curiosamente, lembrei-me dessas imagens - espuma da minha imaginação adolescente - quando lia “Lourenço Marques”, de Francisco José Viegas. Maria de Lurdes (aliás Sara), a mulher que motiva o regresso do protagonista a Moçambique – 27 anos depois de ter saído –, mergulhando o fato de banho azul-marinho na piscina do Hotel Polana. Uma das belíssimas memórias do livro.

“(...) Quando veio à tona da água sorriu-lhe, ele estava sentado à beira da piscina, de calção de banho vestido, ele lembrava-se desse sorriso, e lembrava-se do gesto que ela deixou suspenso com a mão erguida. E, então, como num filme mudo, de cores antigas, voltou a mergulhar, lentamente, ele viu o corpo de Maria de Lurdes descer rente aos azulejos da parte menos iluminada da piscina e, quando os pés pareceram tocar no fundo, viu também as suas mãos subirem, soltar o fato de banho de uma só peça, soltar o maillot, como então se dizia, descê-lo até à cintura, as famílias reunidas no almoço do buffet do Polana(…)”. NCS

ENLARGE YOUR CHEF SILVA 

Os tempos são outros. Hoje um moço casadoiro tem de ser um homem "moderno" o que, entre outras coisas, implica avental e talento na cozinha. Não tenho nenhum dos dois mas abalanço-me a meia dúzia de comeres. Aqui vai a minha massa à La FB:

- panela grande em lume brando, margarina vaqueiro misturada com duas cabeças de alho e uma de cebola bem picadinhas
- dois minutos depois dar-lhe com o molho de tomate até encher o fundo, refogar 5 minutos
- trocar de camisa
- água até metade da panela, sal grosso a gosto, deixar ferver
- um pacote inteiro de esparguete nacional
- telefonar aos 3 amigos que vêm jantar
- contar as manchas na t-shirt
- abrir uma lata de cogumelos laminados e depositá-los num recipiente
- cozer ou escalfar 4 ovos
- sweat-shirt para lavar
- aumentar o lume
- pausa para escrever um post que não interesse ao Menino Jesus, como este
- cortar 3 ou 4 salsichas Nobre e acrescentá-las à massa
- saída para umas compras relâmpago / não é de bom tom receber os convidados de tronco nu
- provar a massa, apagar o lume, misturar os cogumelos, tapar totalmente a panela
- abrir uma garrafa de Duas Quintas para deixar respirar
- confecção rápida de uma salada de pepino, tomate e alface / acrescentar os ovos
- servir em travessas e pratos que pareçam, no mínimo, datar dos anos 90
- abrir a porta, comer, beber, fumar umas cigarrilhas ILHÉUS no final.

Quem quer casar com o João Ratão?

LFB

CAIR CEDO E CEDO ERGUER 

Jantar no Movie's, Monumental. Um miúdo de 3 anos, acompanhado da irmã adolescente, enfrenta a correr os 3 degraus que dão acesso ao restaurante. Tropeça no 3º e cai com estrondo. A irmã olha-o, serena, como se soubesse o que ia acontecer. O menino não altera a expressão, nem um esgar de dor, nem um pio. Levanta-se de pronto, volta atrás, ganha balanço e arranca de novo. 1, 2, 3 degraus saltados com galhardia e só depois entrega a mão à irmã que espera, tranquila.
Uma previsão: com tal tenacidade aposto que esta criança vai ser um grande homem.

LFB

tudo o que já escrevi 

Já escrevi algumas coisas desde que a cartilha de João de Deus começou a produzir o seu efeito mágico nas minhas mãos sapudas e toscas. Comecei setecentos e trinta e quatro diários. Na primária, escrevi um poema para uma professora que foi viver para a Suécia e se chamava Glória. No liceu, fiz uma péssima adaptação para teatro do Principezinho. Pensei chamar-lhe O Aviador, mas depois deixei ficar Principezinho. Depois, escrevi vários inícios e finais de contos que, caso tivessem sido completados, teriam revelado ao mundo um contista de génio que não sou porque não os completei. Escrevi uma curta metragem. Escrevi guiões para televisão. Escrevi notícias breves e notícias longas para jornais, uns respeitáveis e outros de expansão nacional. Escrevi vários poemas, mas não os suficentes para pensar em fazer uma edição de autor das que se oferecem a amigos. Estou a escrever duas peças de teatro. Escrevo no Desejo Casar.

Até ao passado domingo, nunca me tinham dito que devia escrever mais. Foi a primeira vez que alguém disse que tinha pena que eu não escrevesse mais. Prometo que escreverei mais. Não prometo que melhore. Não prometo sequer que algum dia seja realmente bom. Mas prometo que escreverei mais. Nem que para isso tenha que me fechar numa cela, com um portátil à frente, alimentando-me apenas de pão e rosas.

Tiago Rodrigues

segunda-feira, julho 14, 2003

HULK LEE 

Aconselho vivamente que reservem espaço na agenda para escrever "Não verei Hulk". É, de facto, uma perda de tempo. 2h30 de tiros ao lado. Mal concebido - porque é que Nick Nolte passa tanto tempo à solta se o general Sam Elliot o considera uma ameaça? - e mal escrito: o epílogo faria as delícias de qualquer veículo para Van Damme ou Seagal, "You wouldn't like me when I'm angry"...
Mas não é uma surpresa total. Ang Lee, penso, é um caso sério de over-rated. "O Tigre e o Dragão" era pouco mais que uma ovelha Dolly de Matrix: o mesmo budismo de pacotilha com magníficas coreografias só que os fatos Armani eram substituídos por túnicas Maria Gambina. Lee é, essencialmente, um bom director de actores. Veja-se o caso de "Ice Storm" ou "Riding with the Devil" - neste último descobriu a magnífica cantora sexy/intelectual Jewel para o cinema.
Precisamente o que nos fica de "Hulk" é o esforço dos actores: Jennifer Connely, que - mais do que na xaropada que lhe valeu o Óscar - já fez filmes a "sério" (era a pequena Deborah em "Once Upon a Time in America", secundária de luxo em "Pollock", protagonista em "Dark City" e nos excelentes "Waking Up the Dead", com Billy Crudup, e "Requiem for a Dream", de Darren Aronofsky) num interessante percurso feito essencialmente pelo cinema indie. Sobre Nick Nolte já tudo se disse, Sam Elliot é um carismático secundário e Eric Bana o último australiano a rebentar em Hollywood. O problema é que o esforço destes actores não tem correspondência na densidade do perfil que lhes desenharam para as personagens. No caso de Bana tenho de discordar de Pedro Lomba quando diz que o actor é melhor fazendo Hulk do que "dele próprio". Mesmo que o diga com ironia. O "monstro" é todo ele uma criação virtual, péssima por sinal, que valeu ao filme o epíteto de "Shrek II" por parte das más-línguas. Eric Bana revelou-se portentoso em "Chopper" de Andrew Dominik, inquietante em "Black Hawk Down" - destacando-se no elenco de luxo que Ridley Scott reuniu - e a sua angústia permanente e encarnação do sofrimento em "Hulk" são tão mais significativas se pensarmos que a sua formação é na "stand-up comedy".
Quanto a Ang Lee, atendendo ao facto de ter sido o próprio realizador a interpretar os movimentos da criatura, coberto de sensores para posterior digitalização pelos técnicos dos efeitos especiais, percebe-se melhor o verde-alface da personagem. Trata-se de Lee verde de inveja por não ter a drive de Sam Raimi nem a visão de Tim Burton.

LFB

LILI EM ATENAS 

Diz-se normalmente que nos textos dos antigos gregos se encontra já "tudo"; é bem verdade. Foi Aristóteles, por exemplo, quem escreveu que "uma andorinha não faz a primavera", ou certo dito sobre a democracia que frequentemente se atribui a Churchill.

Ora, nas minhas leituras platónicas a que me tenho entregue por renovado dever discente, pude encontrar - textualmente! - uma frase que muito boa gente julga (rindo-se) ser da autoria da Sr.ª D. Lili Caneças. Mais precisamente: no Fédon (em 71d6) pode ler-se que "o contrário de estar vivo é estar morto".

Tive então uma iluminação: a Sr.ª D. Lili Caneças, como é evidente, leu extensivamente a doutrina do mestre de Atenas. Rirmo-nos dela é rirmo-nos de todos nós. Que vergonha. Que vergonha.

LDA


P.S.: Descartei a hipótese inversa: a de que tenha sido Platão a inspirar-se na sabedoria da Sr.ª D. Lili Caneças. Não que não seja provável que a Sr.ª D. Lili Caneças fosse já viva no século V. a.C. (suponho mesmo, após o exame de algumas fotografias, que o fosse); mas duvido de que se tenha alguma vez cruzado com Platão: Lili não frequentaria decerto a Academia, e Platão, como sabem, não tinha por costume aparecer nas festas.


Desejo Subliminar... 

Ele há coisas do diabo! De repente comecei a ler, distraído, os títulos do Desejo Casar, saltando os textos. Juntei os dez primeiros num compacto, mudei aqui e ali a pontuação, e o resultado foi este:

Porra! Em silêncio e, como isto anda muito sensível, cá vai uma piadola (esperem tudo de bom): Desejo amor; mini-croissants e nostalgia; casa (um hábito nasce ao segundo dia); vozes, várias vozes; coisas boas e serenas...

Perante isto, só uma coisa se admite dizer: haverá por aí algum psiquiatra? LCA


Porra! 

O Abrupto (José Pacheco Pereira), abriu aspas (“), citou Camus (NOTAS CAMUSIANAS 5), e, antes de fechar de novo as aspas (“) - de uma forma inesperada (zás!) e um tudo-nada abrupta (bonc!) -, disse merda.
A blogosfera nunca mais será a mesma (snif!). LCA

Em silêncio 

Meu caro Luís Borges,
Só agora me apercebi desse silêncio, do «silêncio em que se lêem as mensagens dos colegas», do «silêncio com que se recebe o jornal comprado», do «silêncio durante a leitura de uma crónica tão bonita para nós», do silêncio com e em que escrevemos. Só agora, quando lia esse teu delicioso (e embebido em whisky) post, no silêncio do escritório, a aproveitar a saída definitiva do patrono, só agora me apercebi desse silêncio. Que estranho. Lia em silêncio (e também é em silêncio que escrevo, mas lamento não ter comigo o último CD dos Camera Obscura, irmãos mais novos dos Belle and Sebastian), mas esse silêncio assentava-me tão bem (ao contrário da gravata) que o ignorava.
Afinal, pensando bem, é o mesmo silêncio que por vezes cai sobre nós, velhos amigos, mas que não incomoda, não causa estranheza. É o silêncio que dura enquanto pensamos: "Que bem sabe estar aqui".

E como isto anda muito sensível cá vai uma piadola... 

Menezes e Gaia. Santana e a Figueira. Menezes e o Porto, ou Portaia ou Gaiorto, Santana e a Lisboa das promessas. É impressão minha ou estes dois parecem aqueles jogadores medianos que fazem uma grande temporada no Moreirense ou no Braga e desatam a dar entrevistas sobre o grande clube com que sonham?

LFB

Esperem tudo de bom 

As boas notícias sucedem-se: agora é o Joel Neto que chega à blogoesfera. Grande repórter, autor de "O 3º Servo", "O Citroen que Escrevia Novelas Mexicanas" e "Al-Jazeera, Meu Amor", aprendiz de clarinete e vencedor do prémio Luís Borges para melhor ser humano do Planeta, o Joel é um diamante nesta mina imensa. E bom... como as imagens metafóricas estão a sair-me com este nível, e uma vez que estou chateado com o Joel por se ter aventurado a solo e não connosco, não escrevo mais. Deixo-vos bem melhor: os dois primeiros posts de JN.

LFB


"Quero desperdiçar dias 

Às vezes percebo que se possa ser feliz com coisas simples. Não acontece sempre. Mas ontem passei a tarde a arrumar os CD's -- e cheguei ao fim do dia. Dantes isso não era possível. Algo por dentro me censurava: "Estás a desperdiçar o teu dia!" Ir às compras, tomar café, passar nas Finanças -- a morte transfigurada, lenta e inexorável, extinguindo-me tranquilamente a vida. Ontem arrumei os CD's, brinquei com o filho do Peixoto, contei-lhes tudo sobre a minha casa de férias nos Açores e fui com a Estela fazer planos para ter um filho também. Não escrevi. Não toquei clarinete. Não revelei o sentido da vida a ninguém. Não troquei emails com intelectuais. E, apesar de tudo, fui profundamente feliz. Não esperem mais de mim."
Posted by: Joel / 12:06 PM


Sábado, Julho 12, 2003
MANIFESTO EDITORIAL 

"I'm going fishing
I got me a line
Nothing I do is gonna make a difference
So I'm taking my time
And you ain't never gonna be happy
Anyhow, anyway
So, I'm going fishing
And I'm going today
I'm going fishing
Sounds crazy I know
I know nothing about fishing
But just watch me go
And when my time has come
I will look back and see
Peace on the shoreline
That could have been me
You can waste a whole lifetime
Trying to be
What you think is expected of you
But you'll never be free
May as well go fishing"
(Chris Rea, GONE FISHING)

Desejo Amor 



Há cerca de dez anos que tenho esta fotografia pendurada em casa. Tirei-a, certo dia, quando fazia um trabalho para a faculdade. Foi no Rossio, em frente à Loja das Meias, que eu conheci o sr. Carvalho. Demorei imenso tempo a tirar a fotografia. Queria que saísse bem. Tive medo que quando acabasse de a tirar, ele se tivesse divorciado. Que em vez de Desejo Casar, se lesse Desejo Advogado. Convém aqui dizer que eu não tenho jeito nenhum para fotografia, mas, se há fotografias que se tiram sozinhas, esta é uma delas.
Só mais tarde reparei num senhor que almoçava ao meu lado na cantina da faculdade. Entrava sozinho, calado, cabisbaixo e pensativo. E assim voltava a sair. Contaram-me que os meus colegas da Associação de Estudantes tinham um acordo com ele: algumas vezes por semana, ou sempre que precisasse, o sr. Carvalho iria almoçar ou jantar à faculdade, oferta da associação. Curioso, explicaram-me que vivia sozinho e que passava dificuldades. Lembro-me de me dizerem qualquer coisa sobre a sua biblioteca, dos livros que vendia para poder sobreviver. Certo dia, em vez do habitual almoço, pediu-lhes que desenhassem umas palavras num cartaz.
Durante os anos que continuei na Faculdade, deixei aos poucos de o ver. Depois encontrei uma fotografia parecida com a minha na rubrica “Portugal No Seu Melhor”, do jornal O Independente. Quando tirei a minha fotografia também me lembrei de a mandar para lá, mas como não tinha a sua autorização, nunca a divulguei. Até hoje.

Até hoje, o sr. Carvalho foi o único pobre que conheci que não pedia dinheiro. Pedia Amor. Engano-me, ele desejava Amor. Há aqui uma enorme diferença. Se fosse um pedido ele teria escrito Quero Casar. Mas não era um pedido, era um desejo. E ele tinha razão. O Amor não se pede, dá-se. E, por vezes, recebe-se. É algo que se oferece. Não é uma oferta desinteressada, é certo, mas é generosa. O único interesse do Amor é o próprio Amor.
O sr. Carvalho pedia Amor mas, no fundo, o que ele queria era dá-lo. E quando é assim, não se é pobre, mas rico. Dir-me-ão que isto é uma grande laracha… Dir-me-ão, convictos, - Isso é tudo muito bonito, mas ninguém vive sem dinheiro. Talvez, mas o sr. Carvalho, que não tinha uma coisa nem outra, escolheu o Amor. Dir-me-ão que o homem era maluco. Talvez, mas não andamos nós… doidos pelo dinheiro?
Eu cá tinha pedido dinheiro. Mas isso sou eu que sou uma besta. E tenho trinta anos e ainda julgo que vou a tempo de me tornar bestial aos olhos de alguém.
Pode até ser que ele apenas quisesse uma companheira; uma companhia que o aliviasse da solidão em que vivia. Talvez, mas sei perfeitamente que o que ele queria mesmo era Amor. Está na cara…
Se naquele cartaz estivesse escrito Desejo Amor em vez de Desejo Casar, não o iam levar a sério. Diriam com desprezo - Olha, o gimbras quer amor! e rir-se-iam.
Hoje o Amor não se leva a sério. Leva-se a jantar à Bica-do-sapato. E o Amor - não tendo nada a ver com arroz-de-pato - é o melhor alimento que a alma pode querer. Tem proteínas, hidratos de carbono e todas as vitaminas do abecedário. É uma salganhada de emoções. Uma sopa de letras. Com que se escreve a alma e, por vezes, se reescreve a vida.
O sr. Carvalho foi a poesia mais bonita que eu alguma vez vi sobre o Amor. Ou, pelo menos, a mais original. Não sei se ele alguma vez se chegou a casar. Ou se teve o Amor que merecia. Gostava de pensar que sim. Gostava de lhe desejar essa felicidade. Gostava, também, de lhe agradecer a lição que me deu. Ele ensinou-me esta coisa importante: que todos nós - sejamos quem formos e estejamos onde estivermos - temos sempre este dever para com o nosso Amor: o dever de procurá-lo.
E, encontrando-o, o dever de tirar o cartaz para fora do casaco, para fora da alma, e dizer em letras gordas, com todas as letras, que ele é o nosso Amor. LCA

Mini-croissants e nostalgia 

Andei este fim-de-semana a mostrar um bocadinho de Portugal a um amigo belga, que recebi em Lisboa, com a sua família. Fomos a Óbidos, a Sintra, jantar ao Guincho... Fomos àqueles sítios onde se levam as pessoas de quem se gosta, só para as ver sorrir com as pedras, as árvores, as casas, o mar, que nos farão sorrir também.
Eu gostava muito de ser estrangeiro em Lisboa, de ser estrangeiro em Portugal, mas agora acho que já não posso. Já me comovi demasiado com a cidade e com as suas histórias, já me sinto muito dentro do seu mundo próprio, ainda feito de gente triste, cães sozinhos, chupa-chupas em mãos pequenas e um rio sem cor definida. Só posso fingir que sou estrangeiro com amigos de fora, quando passo pelas ruas muito devagar, a ouvir os sons que nunca ouvi e a olhar as pessoas com tempo, dizendo “I didn’t know that story” aos relatos doutrinários do Michelin do meu amigo.
Este meu amigo descobriu uma padaria, na rua por detrás da minha casa, que eu não conhecia. Falou-me entusiasticamente do barbeiro Vítor, o barbeiro da minha rua. Tudo muito longe da sua empresa milionária e dos seus clientes que nem sonham com o que possa ser o bairro da Ajuda. Acho que construi uma experiência limite, ao colocar um yuppie belga em contacto com o barbeiro Vítor, cujo estabelecimento não muda desde os anos quarenta. Mas a experiência correu bem. Ele pedia mini-croissants em neerlandês e a menina da padaria sorria-lhe de frente para o sol das sete da manhã.

MR

Casa 

Dei por mim, há poucas horas, de regresso às ilhas e recordei-me de uma das ideias fundamentais do excelente "Moonlight Mile", provavelmente, o melhor filme em cartaz, aí pela capital: a noção de casa. Sei que cheguei a casa no primeiro passo que dou, ainda no asfalto da pista. Não porque o pondere nem porque o decida, mas porque o sinto nos ossos, porque o sei em absoluto.
Tal como Brad Silberling coloca em evidência, a nossa casa não é, necessariamente, o lugar onde se nasce, mas o abraço que se encontra durante a vida, o corpo a que se chega a meio da noite. A descoberta da chegada a casa pode não ser o prazer definitvo nem a felicidade suprema, pode não ser aquilo que sonhámos nem os ideais que esculpimos em poemas e canções juvenis, mas é a nossa verdade.
Assim como a personagem de Susan Sarandon contempla a sua realidade na de Dustin Hoffman, dizendo "I found home.", eu, diante do deslumbre e dos pecados dos Açores, vejo a minha verdade e, já retomando um pouco do sotaque, murmuro: "Cheguei a quiasa..."
AB

Um hábito nasce ao segundo dia 

Os únicos hábitos que percebo exactamente onde começam são os bons hábitos. E os bons hábitos têm sempre que ver com boas pessoas. Não é costume falarmos directamente de pessoas do próprio blog. Perdoem-me o "umbiguismo", mas verão que se justifica falar aqui do Luís Maria, o nosso LCA.
Conheço o Luís há sensivelmente dois meses e foi a blogoesfera que permitiu esse encontro. Já conhecia o seu tio Luís Artur, pintor de mérito e coordenador editorial da Prefácio, e o filho deste - Pedro Adão e Silva, do País Relativo, outro amigo (que bom é ler-te sobre música!). Ao segundo dia de convívio com o Luís percebi que nascia ali um bom hábito.
Talvez por ser o desastrado e orgulhoso irmão mais velho do Alexandre, procurei sempre um irmão mais velho que soubesse ser mais sábio do que eu nessas funções. A vida deu-me alguns, como o nosso NCS. São aqueles amigos que não temem ser cruéis (prefiro a palavra "frontais") se for essa a atitude que decidem ser melhor tomar para com os que amam. Preciso dessas pessoas como preciso de escrever. E se me lembro nestes minutos do Luís Maria é essencialmente por duas razões: porque percebi que com ele essa lealdade, essa frontalidade existe e existirá sempre;

e porque o nosso queirosiano de serviço foi o inventor do nome do DC (ao agradecer há pouco a Ana Sá Lopes descurei este facto nada despiciendo). Criou-o e defendeu-o com a mesma convicção e ternura com que expõe os seus pontos de vista, com que admira poetas e romancistas, com que narra as histórias que partilhou com o amigo e referência Miguel Esteves Cardoso.

Luís, já vai sendo tempo de recuperares a foto e a história do Sr.Carvalho. Um grande abraço,

LFB

Vozes, várias vozes 

“A multiplicidade de vozes – que no próprio blogue já foi apontada como problema – é uma virtude máxima neste casamento”, Ana Sá Lopes, “Público”, 13 de Julho de 2003


Estava para escrever sobre o tema. Mas Ana Sá Lopes – a quem também agradeço o elogio e o incentivo de ontem – antecipou-se. Há dias que pensava em deixar aqui duas ou três notas sobre o facto de, nesta casa de solteiros e casados, sermos muitos e de termos registos bastante diferentes uns dos outros. Nas últimas semanas, ilustres bloguistas chamaram-me a atenção, de forma elegante e delicada, para esse facto – que consideravam nocivo para a identidade do blog. Alguns revelaram-se incapazes de acompanhar a nossa (por vezes torrencial) produção quotidiana de posts. Repito aquilo que disse a cada um deles: num blog não é necessário ler tudo. Neste ponto, os blogs equiparam-se aos jornais. Há que seleccionar a leitura de cada post – pelo título, pelas primeiras linhas, pelo tom, pelo escriba em causa. Ana Sá Lopes disse gostar – especialmente - da escrita do Hugo Rosa e do Tiago Rodrigues – já está a seleccionar, dentro do Desejo Casar, aqueles que lhe dizem mais. E isso é bom. Em relação à “barafunda” de vozes do Desejo Casar, considero também isso uma virtude. Convoco novamente o exemplo (formal) dos jornais. Quantos jornais de que gostamos não acolhem vozes tão diferentes umas das outras? É exactamente por ter vozes tão contraditórias entre si como Ana Sá Lopes, José Manuel Fernandes, Prado Coelho e Miguel Sousa Tavares que o "Público" é um jornal interessante. Cada um de nós poderá, um dia, criar um blog individual (ou a dois, ou a três), propício a um registo mais ou menos uniforme. Mas, enquanto por aqui andarmos, iremos mostrar-nos distantes uns dos outros nos temas, no estilo, na frequência com que postamos. Ou seja, enquanto este jogo estiver a decorrer, vamos assumir - e estimular - as diferenças no toque de bola, na corrida, nas faltas, no drible e na maneira como, à frente do guarda-redes, definimos o nosso destino. NCS


Coisas boas e serenas 

Acordo às sete da tarde. Durante 5 minutos penso que sou um dragão. A noite de ontem teve tais efeitos que dá-me ideia que seria capaz de expelir fogo pela boca. Enquanto repito na minha cabeça a frase: "só voltarás a beber whisky quando o Benfica for campeão", verifico as mensagens de telemóvel. Quase dez. Penso, "quanto tempo dormi afinal?!". Leio coisas do género: "Liga quando puderes", "Já viste o Público?", "Compra o Público e mais não digo", "Parabéns!".
Enfim, lá vou correndo à banca mais próxima. "Desejo casar", na última página. Ana Sá Lopes lembrou-se de nós. As mensagens eram dos amigos e companheiros do DC.
O Hugo, na sua timidez, brincou com o facto de Ana lhe ter trocado o "Rosa" por "Rocha". Para minha surpresa, a jornalista teve a elegância de nos enviar um mail a desculpar-se. Não era, de todo, preciso.
Uma coisa é certa e comum a todas estas. O silêncio. O silêncio em que se lêem as mensagens dos colegas, o silêncio com que se recebe o jornal comprado, o silêncio durante a leitura de uma crónica tão bonita para nós, o silêncio em que Ana, Hugo, e eu e todos os que escrevem escrevemos. O silêncio com que recebemos, felizes, um carinho pelo trabalho feito com a mesma dose de afecto.

Outra coisa é certa, tudo isto são coisas boas e serenas.

LFB

domingo, julho 13, 2003

Prémio PAULA BOBONE 

Uma das coisas que mais me encana a perna à rã (para além desta insólita imagem), acontece quando alguém me entrega o seu cartão pessoal (ou da empresa), dobrando o cantinho do mesmo. Como se de um ritual voodoo se tratasse, esticam o mindinho, engelham uma esquina, e entregam-me o retalho de cartolina, esmiuçando um sorriso pateta.
- Aqui tem. É o meu cartão.
Na verdade, esse gesto singelo, essa marca esotérica que é a dobra no cartão, constitui uma das maiores patetices comportamentais do português contemporâneo.
- É sinal de boa educação! – Dizem “educadamente”, explicando o tão inusitado vinco ao interlocutor atónito.
Eu, como sou razoavelmente ordinário, nunca dobrei o canto a um cartão. Nunca o fiz porque não sabia para que servia. Como nunca fui à Feira do Oculto nem acredito no destino, sempre achei que o cartão deveria permanecer impoluto e simétrico, com os cantinhos por desflorar, mesmo que ao virar da esquina me fulminasse um trovão divino. Ora, como o melhor a fazer no caso de não se saber alguma coisa é estar quieto, calado e atento, eu nunca entortei esquina nenhuma de nenhuma porra de esquina dum cartão.
Na realidade - e ao contrário do que se pensa -, não existe qualquer desígnio superior subjacente a este gesto. Até hoje, que constasse, ninguém que se tenha esquecido de dobrar um cartão, acordou no dia seguinte com as tíbias inexplicavelmente reviradas para dentro, ou a boca à banda. Do mesmo modo, ninguém, ao receber um cartão dobrado, deve esperar regressar a casa e surpreender a boazona da vizinha de cima, derramada no sofá, toda nua, com os pés em cima da mesa e os joelhos revirados, lascivamente, para fora.
A explicação para a misteriosa dobra não reside em qualquer manifestação telúrica ou feitiço obscuro, mas num hábito social banalizado no século XIX.
Encontrei-a, enfim, depois de muitos anos de busca em bibliotecas esconsas, arriscando a própria vida sobre os sobrados apodrecidos. Foi num desses dias que, vasculhando avidamente prateleiras bolorentas e abrindo ao acaso fólios bafientos - ao mesmo tempo que me contaminava com toda a espécie de esporos e ácaros - encontrei, por fim, a explicação, a revelação …o tão almejado Graal: “Durante as nossas visitas sociais, não encontrando os donos da casa, devemos deixar o nosso bilhete, rasgando ou dobrando um dos ângulos, como prova de visita.”
Assim nos reza Henrique Zeferino no seu delicioso Código de Civilidade e Costumes do Bom Tom, da Livraria Editora (à Rua dos Fanqueiros 87), datado de 1894.
Ao grande Henrique Zeferino - esse “Paula Bobone” do séc. XIX - o nosso muito obrigado. LCA

Enfim, as ilhas 

É possível que as ilhas nos inspirem na escrita.
Basta recordar Raúl Brandão e Cristóvão de Aguiar, Vitorino Nemésio e Antero de Quental.

Sim, Hugo Rosa 

Sim, o meu nome é Rosa, Hugo Rosa.
Conheci um Hugo Rocha, na faculdade. Foi meu colega de turma ao longo de quatro anos e convidou-me para o lançamento do seu livro. Penso que nunca o paguei. Lamento este facto. A única ligação que o Hugo Rocha tinha com os Açores, todavia, era o surf (ou o bodyboard), nos mares de S. Jorge. Nunca mais o vi.


O meu nome é Rosa, Hugo Rosa 

Cara Ana Sá Lopes,
Agradeço a crítica elogiosa na última página do Público de domingo, em meu nome e, se me é permitido, em nome do Desejo Casar. Já não agradeço o facto de me ter chamado Hugo Rocha. O meu nome é Rosa, Hugo Rosa. Ou Hugo Louro da Rosa. "Louro" por parte da mãe, "Rosa" por parte do pai. Melhor, "da Rosa" por parte do pai. É um nome pequeno, devo reconhecer, embora justificado pela grande quantidade de nomes pequenos surgidos na década de 70 (nasci em 1977; julgo que por isto passo a pertencer à Geração de 70). Um dos meus irmãos sofre frequentemente do síndroma da troca de nomes. Os meus pais deram-lhe o nome de Gerardo (do francês Gerard), mas para os devidos efeitos, trata-se do Geraldo (do brasileiro Geraldo).

Crónica sobre o Verão para aumentar o número de visitas 

Sempre apreciei o Verão. Acho que Marisa Cruz nua o Verão é das alturas mais hard porn estimulantes da vida. J-Lo assfucked Na verdade, a desinibição toma conta de nasty bitch cada um de nós, incentivando os devaneios Bárbara Guimarães stripped e alimentando a ilusão a que, asian teens verdade seja dita, aspiramos o resto do anal queens tempo.
Talvez seja da pausa wild housewifes profissional, talvez seja do próprio blowjob book of records sol, o que é certo é que todos gostamos de Angelina Jolie "laurear a pevide" - como diria a Chasey Lain masturbating sabedoria popular. E o povo, meus caros sex crazy motherfuckers amigos, é que sabe.

LFB

ps: se já alguém fez Alexandre Lencastre isto, peço spanking scenes desculpa. Não consegui hot babes resistir.

POST-BLITZ 

Se preferes as tangas bissexuais da Joan Baez à simplicidade cândida da Suzanne Vega vai mas é engasgar-te no Trumps! Props pó people da cantautoria. Luka forever!

PROVÉRBIOS POPULARES - REMIX / summer 2003 (ou angústias de uma madrugada de domingo)/ ou: trocadalhos do carilho 

Filho de peixe, águas mil.

Santos da casa, todos ralham e ninguém tem razão.

Homem prevenido, trancas à porta.

Quem te avisa, não petisca.

Quem não arrisca, não morde.

Ladrão que rouba ladrão, enche a galinha o papo.

Mais vale um pássaro na mão que um espeto de pau.

Dá. 

"Mas tenho mais uma questão: dá-lhe gozo citar descontextualizadamente um perfeito desconhecido com ideias completamente abjectas?"

Pedro Robalo, O Complot

LFB

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