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sábado, novembro 29, 2003

precedência 

Inquieta-me e.e.cummings quando diz que «amanhã é o nosso endereço permanente». Mas a Alice, que é minha amiga e já existia antes dele, responde-lhe tranquilamente: «Sabes que dia é amanhã? (...) Sabias se tivesses estado comigo à janela.» IFS

Aceitam-se explicadores 

Chego de uma sessão na Eterno Retorno sobre as «Novas cartas portuguesas», organizada pela «Textos e Pretextos», a revista do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e constato que consideram o DC um blogue «neopintassilguista» (sou nova nestas andanças blogosféricas e não sei remeter para o lugar onde se diz isto, mas a CMC fá-lo aqui mesmo, mais abaixo). Expliquem-me porquê. Sou demasiado nova para perceber e as minhas revisões históricas pairam algures sobre a década de 70, como se prova. Depois vejo a imagem que o RIS entende servir de ilustração ao DC: o episódio babélico! Confusio linguarum no DC? Será isso? Expliquem-me também, por favor. Talvez a última frase da última das cartas (não do último texto) das «Novas cartas portuguesas» seja aplicável, por interpretação extensiva, a este caso. Ou não? Expliquem-me, por favor. IFS

sexta-feira, novembro 28, 2003

www.desejocasar.blogspot.com 




Pieter Bruegel
The Tower of Babel
1563
Oil on oak panel, 114 x 155 cm
Kunsthistorisches Museum, Vienna

RIS

o onanista do costume 

Hoje, pelas 18h, na rádio LUNA, podem ouvir uma agradável conversa entre Henrique Silveira e os casadoiros trágico-fictícios NCS, LFB e TR.

Penso que é na frequência 106.8 mas já não garanto nada. Tenho andado a postar lirismos sobre os 13 membros do DC e afinal somos 14! Bom, é aproveitar agora antes que o Nobre Guedes acabe com a irmã gémea da VOXX. E pensar no subsequente levantamento popular. LFB

A dizer mal dos pintassilguistas! 

Primeiro o RB a dizer mal dos católicos progressistas e logo depois o FN a bater no mesmo ceguinho!

Feio! E tenho que contestar o que o FN apelida de "autoritarismo moralista" !

A Sra Engenheira não tem nada de autoritário! E quanto a moralista?! Antes pelo contrário. É uma linha mais adepta do que eu definiria como relativismo antropológico.

As pintassilguistas que restam- e digo-o no feminino porque o Eanes já lá vai e sobram, quiçá, algumas amigas do círculo de amizades da Sra Engenheira - são dialogantes na linha guterrista. Aliás, em muitas questões alinham pelo BE.

Algum anti-americanismo, pacifismo, tolerância com as minorias e, sobretudo, defesa dos direitos das mulheres.
Que tal falarmos de violência doméstica e excissão?

P.S- mas essa da Catalina .... foi muito bem achada!

CMC

quinta-feira, novembro 27, 2003

Stand-Up Tragedy: uma semana depois 

Faz hoje uma semana que estreou STAND-UP TRAGEDY. A oito dias de distância, acho que está atingido o estado glaciar que me permitirá escrever sobre isto sem ser demasiado tendenciosa. A verdade é que, na quinta-feira passada, observei uma quantidade enorme de fenómenos que me deixaram estupefacta. Portugal é pequenino (e toda a gente sabe), Lisboa ainda mais (e toda a gente sabe), mas aquilo que eu vi prova, com grande pena minha, que as próprias pessoas estão a encolher. Quando andava no liceu, uma frase tornou-se a boca: «deves estar com falta de espaço». Deixando de parte a parcela de «rufiosice» (se é que isto existe ou, melhor, que isto se escreve) subjacente à boca, nunca ela fez tanto sentido. Eu já sabia que o Luís, o Nuno e o Tiago não iam, consciente ou inconscientemente, conceber um projecto que não provocasse algum burburinho. Não foi, no entanto, algum aquilo a que eu assisti no fim da peça (e durante!). Foi a muito. E só por isso eles já se deviam dar por muito felizes e deviam, inclusivamente, andar a passear-se pelo mundo com os trunfos todos na mão (entendam mundo e trunfos como quiserem…). Tinham-me dito que a peça deixa de ter graça ao fim de mais ou menos dez minutos. Tirando algumas cenas em que quase podia adivinhar quem as tinha escrito, deixei de me rir ao fim desses dez minutos. Abruptamente. Dada a intensidade das gargalhadas à minha volta, pensei que eu própria devia estar enganada, que devia ser a minha inabilidade para o humor, a minha incapacidade de rir. Mas não. Não só já tinha tido a experiência do riso, na qual me ri efectivamente, como rir nas barbas da tragédia não é o meu forte. E aqui surge uma das pedras no sapato. Quando o Ricardo Magalhães, o pobre comediante a quem a graça resolve abandonar (haverá algo mais trágico do que alguém perder o seu dom?), começa a falar de cancros, do IPO, de mortes e da morte, muita gente virou-lhe as costas e saiu. Uns talvez porque acharam o tratamento da coisa demasiado crua, acharam que aquilo não passou da exploração de um lugar-comum lamechas e aborrecedor; outros talvez porque não estão para se incomodar com coisas chatas e mais valia terem ido ver o filme sobre o amor com o Hugh Grant e a Lúcia Moniz, coisas ligeirinhas, interessantes que nos mostram a vida da mesma maneira (a pior) que reza o slogan do programa mais decadente do canal mais decadente da televisão portuguesa: tal como ela é. Aos primeiros, não lhes deve ter ocorrido que, tendo em conta aquilo a que já tinham assistido, nem o LFB, nem o NCS, nem o TR desenvolvem e tematizam estúpida e gratuitamente questões [lugares] que, de facto, são comuns a muita gente («Os lugares são/ a geografia da solidão./ São lugares comuns a casa a cama.», Manuel António Pina). Aos últimos, não lhes deve ter assomado ao pensamento uma qualquer imagem de uma ida ao IPO ou de alguém a morrer com cancro, o que justifica a inibição, o incómodo, os movimentos contorcionistas nas cadeiras: «para que é que eu sai de casa se este tipo passa o tempo a lamentar-se por já ter feito piadas sobre desgraças que eu posso ver a qualquer hora sem me mexer do sofá?». Pois é, porquê? Aí é que está a questão e quem não sabe a resposta devia mesmo ter ficado sentadinho no sofá da sala. Não há ali qualquer intenção de descrever a realidade concreta de uma pessoa real. Aquilo é uma personagem, senhores! O que importa é a eficácia do jogo dramático que, pelos vistos, foi tal que o «isto podia acontecer» se transformou ou no «isto nunca me poderia acontecer porque é demasiado banal» ou no «isto aconteceu-me e eu não estou para levar com isto outra vez». Imaginem o seguinte: quatro amigas resolvem esquecer as desgraças indo a um espectáculo de comédia. Querem rir-se, divertir-se, esquecer-se não sabem bem do quê, mas de uma coisa que as incomoda profundamente e que tanto tentam esquecer que já nem se lembram bem o que é. Uma das amigas está entregue a uma cadeira de rodas. Chegadas à sala de espectáculos, as três que não estão entregues a uma cadeira de rodas esforçam-se para sentarem a amiga confortavelmente. A peça fá-las rir durante algum tempo. Mas, depois, o actor que faz de comediante passa-se. (Não percebem que é o próprio comediante que se passa.) Reclamam. Ainda mais quando o actor começa a falar de desgraças, de cancros e desastres de carro. (Desconfiam de que aquilo, afinal, não é para rir.) Duas delas, demasiado incomodadas com tudo aquilo, levantam-se. (Parece que para não voltar.) Não se percebe se alguma delas teve uma má experiência sobre o tema. Não se percebe se a amiga da cadeira de rodas terá tido um problema relacionado com aquilo de que se fala na peça. Certo é que também não se percebe como é que uma delas irá conseguir tirar sozinha a amiga da cadeira do teatro para a instalar na cadeira de rodas. Talvez a pessoa mais incomodada com a situação tenha sido para ali abandonada, no meio daquelas palavras todas, daquelas palavras que incomodam e recuperam lugares perdidos na memória de pessoas que, esquecendo a própria dor, pensam entrar num qualquer paraíso especialmente fabricado para os pobres coitados que já passaram muito nesta vida. Será isto uma história? Não sei. Esqueci-me de reparar no fim da peça. Estava demasiada ocupada a bater palmas e a pensar que me devia levantar (coisa que nunca faço e de que, agora, me arrependo). Mas a dúvida subsiste: será que a menina da cadeira de rodas, a poder movimentar-se sozinha, teria saído a meio de Stand-up Tragedy? E será que alguma das zelosas amigas lhe perguntou? Provavelmente estou a ser injusta. E isto não tem importância nenhuma, é só uma história. Ficção. Quanto ao real, posso falar apenas da minha experiência enquanto espectadora. Passei a peça a tentar não perder pitada: nem da interpretação do Tiago, nem do texto, nem das reacções do público. O que levanta mais duas questões. A primeira tem a ver com a interpretação do Tiago. Tenho o terrível vício de isolar o texto da interpretação. O resultado é perdê-la, e já me começo a resignar. Mas desta vez a interpretação do Tiago não o permitiu. Eu não fiz esforço nenhum. Aconteceu assim e, por isso, reclamo um «cachet hollywoodesco» para o Tiago. Quanto ao segundo problema, se bem que já aflorado, faz-me (re)pensar que muita gente ali, tendo saído de casa para ir ver comédia, foi suficientemente obtusa para não se deixar conduzir pelo espectáculo e experimentar os limites que ali se questionam. Lamento imenso. Lamentei imenso. E deixei de lamentar. Para mim foi uma experiência muito interessante, em que o público fez o favor de participar sem se aperceber. Foi um instrumento maravilhoso nas mãos do texto e do Tiago. O que a própria personagem vaticinava ia acontecendo: «comédia, desgraça, comédia, desgraça, desgraça, desgraça, basta eu aparecer para toda a gente rir». Toda a gente ria. Maravilhoso! Público cooperante! Arrepiada, vinha-me à memória que, se calhar, tudo aquilo era, em alternativa ao levanta-te e sai, um modo de distanciamento, de aguentar ironicamente o embate. Ironia?! Demasiado refinado! Talvez um mais básico «rir é o melhor remédio». E será rir mesmo o melhor remédio? Não, não é. É uma rubrica inócua das Selecções do Reader’s Digest. Enfim, é tudo o que me ocorre por enquanto. Se calhar, daqui a oito dias, lembro-me de acrescentar mais qualquer coisa. Como o LFB, o NCS e o TR sabem, nenhum texto é intocável. Diria, em suma, que estes três meninos devem ter incomodado muita gente. (Facto.) E só não vimos mais gente a sair porque todo o bom português que pessoaliza cegamente uma questão que não lhe diz respeito e que o ultrapassa em larga escala aguenta com muita honra o massacre até ao fim. Talking about limits… IFS

Mais uma 

«Declina dentro de mim o sol lá no alto do céu.
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.»

ÁLVARO DE CAMPOS

IFS

Humoricídio 

É bem possivel que eu padeça de uma variante rara e pustulenta de enfermidade tropical que me corrói, de forma gradual, o sentido de humor. De cada vez que alguém se prepara para me contar uma anedota, eu já sei de antemão que não vou achar graça nenhuma. É fatal. Na altura em que o conviva destaca a presença de um inglês, de um françês e de um português, eu já estou a fixar um ponto no infinito, invariavelmente no alinhamento da sua orelha com o fundo da sala. Após a fase catatónica, apodera-se de mim um horror que me deixa os músculos da boca gelados, num esgar pateta e forçado. Por esta altura já perdi metade da anedota e só penso em cataclismos e catrástofes naturais - o único alibi que evitaria ter de ouvir o fim da mesma. Quando, por fim, o biltre acaba de contar a anedota, socorro-me duma mnemónica humorística na esperança de simular uma reacção: vou buscar a cabeça do Fernando Seara e coloco-a nos ombros da abelha Maia o mais depressa que posso (ou será a cabeça da abelha Maia nos ombros de Fernando Seara? Já não me lembro). O esgar de lagarto dá então lugar a um sorriso generoso, resgatando-se uma gargalhada de reserva. Evito assim a humilhação do opositor e mantenho a compostura, retirando-me de seguida ao bar para beber dois shots de tequila.
As anedotas deviam ser proibidas. O Fernando Rocha devia ir para o Iraque animar as hostes. Um soldado da GNR quando ouve falar que há um inglês, já se está a rir.
O problema da anedota é a obrigação. Uma anedota é um sinal de sentido obrigatório para a gargalhada. Quem não se rir está a cometer uma grave infracção ao código brejeiro. Está a chumbar na inspecção. Vai em contra-mão. E, para além de rimar com anão, é indubitavelmente uma manifestação fascista. Obrigação é um anão fascista em cima do Fernando Seara. Quem ouve uma anedota está condenado a rir no fim. E a boa disposição deve ser espontânea, tal como a combustão do Fernando Seara.
Contar uma anedota é uma maldade que se faz a alguém. Se, por um lado, é melhor do que arrancar a unha grande do pé, é menos doloroso levar um soco no estômago. A partir de agora vou passar a decorar as anedotas. Quando alguém me irritar - e para dar um exemplo completamente ao calhas vou buscar o Fernando Seara - chego-me a ele e começo: "Havia um inglês, um Francês e um português. Ou seria um alemão?..." LCA

Loto 3 

De vez em quando recebem-se estas coisas, que a Judiciária apelida de "cartas da Nigéria" e que é uma pena que não sejam verdade. O que eu não sabia é que podiam ser enviadas para um email chamado desejocasar@hotmail.com. Saberá o Sr. Martins Edore que quem deseja casar é uma má escolha para receber dinheiro de outras pessoas, nem que seja porque o vai estoirar todo em copos antes do dia da coisa? Por mim, receberia de bom grado a minha comissão do dinheiro do malogrado Eng. Bashir. E o Sr. Martins, quando quiser, que venha jantar connosco também. MR


"Dear sir,

I will like to solicit your help in a business proposition, which is by nature
very confidential and a Top Secret. I know that a transaction of this magnitude
will make any one worried and apprehensive but I am assuring you not to worry,
as all will be well at the end of this endeavor.

I am Mr. Martins Edore, General Manager of African Development Bank Group. My
partners and I have decided to seek your help in transfer of some amount of
money requiring maximum confidence from my bank.

A foreigner, Late Engineer Hussein Bashir who was an oil merchant and contractor
with the Federal Government of Nigeria until his death onboard the ill fated
Kenyan Airways bus {A310300}was our customer at the AFRICAN DEVELOPMENT BANK and
had a balance of US$32 million which the bank now expects his next of kin to
claim as the beneficiary.

So far, valuable efforts has been made to get to his people but to no avail as
he had no known relatives. More because he left his next of kin column in his
account opening forms blank. Due to this development our management and the
board of directors are making arrangements for the funds to be declared
unclaimed and subsequently paid into the federal government purse. Usually,
funds of this nature end up in the greedy pockets of some politicians due to our
corrupt society.

To avert this negative development my colleagues and I have decided to look for
a reputable person to act as the next of kin to late Engr. Bashir so that the
funds could be processed and released into his account, which is where you come
in.

We shall make arrangement with a qualified and reliable attorney that will
represent you in liaising with my bank for inconveniency of you coming to my
country. All legal documents to aid your claim for this fund and to prove your
relationship with the deceased will be provided by us. Your help will be
appreciated with 20% of the total sum (US$6,400,000).

Please accept my apologies, keep my confidence and disregard this email if you
do not appreciate this proposition I have offered you. Thank you very much for
your time. Also include your phone and fax number in your reply for better
communication.

I wait anxiously for your response.

Yours faithfully,

Martins Edore"


13+1 

Nos últimos posts tem-se vindo a escrever que somos agora 13, aqui no DC, com a chegada, auspiciosa, da IFS e FVO.... Tenho objecções a isto, divergências profundas, dúvidas assassinas: acho que somos 14. Já contei por dez vezes os nomes que estão no cabeçalho e conto sempre 14. E o LFB actualiza sempre estas coisas ao segundo, entre as 4h01 e as 4h02 da manhã, enquanto relê um guião, faz uma tosta mista e se enamora por alguém. Quando chegou o "13.º" membro, aproveitando a tradição judaico-cristã, preparava-me para escrever um post genial, cheio de espírito e verdadeiramente com piada ("the" post). Mas depois contei os nomes... Quando a diferença é entre 13 e 14, num blog, pode não ser muito importante. Noutras situações, uma unidade é tudo: "ah, desculpa lá, é verdade que o Manuel António também vai dormir hoje connosco...", "já te falei da Marisa, que vai mudar-se lá para casa hoje à noite?...", "tens razão, sou uma burguesa rameira, já não me lembro se foi uma ou duas vezes, aquilo com o Pedro, mas não foi importante...", etc., etc. Aqui, no DC, a comunidade está em permanente alargamento, rotativo. Um dia podemos jantar e organizar uma Convenção para o Futuro do Desejo Casar, podemos rascunhar na mesa um Projecto de Tratado Constitucional do DC. Só nessa altura saberemos quantos somos (e quem somos e para quê), mesmo que já se esteja a ver a dobrar.MR

Da Filipa 

Uns dias depois da sua entrada, tenho vontade de vos falar da Filipa. Não é apenas tradição, o apresentar um novo membro - no caso o 13º - é desejo mesmo. Identifico-me com a Filipa em muitas coisas: fomos colegas na faculdade e, tal como eu, pouco depois de acabar o Direito, levou a palavra ao seu mais extremo significado e acabou mesmo com ele. E era boa aluna, a Filipa. Mas tinha o coração noutro lugar.
Dedicou-se ao jornalismo. Esteve no Acontece, fez o Cenjor, o Fenómeno (em que fomos colegas - na RTP-2), a Sociedade das Belas Artes e, em tempo de despedimentos, entrou no quadro da SIC.
Lembro-me da primeira vez que vi, realmente, a Filipa. Ironicamente nem foi na faculdade. Foi no Porto, num Encontro da Imprensa Universitária, assaltada de todos os lados por jovens candidatos a jornalistas de todo o país mais interessados nos seus olhos do que num furo que os tornasse de imediato "grandes repórteres" do Público.
A Filipa e os colegas do "LexPress", eu e o Costa Santos pela "Inventio", fomos jantar ao Museu dos Presuntos. Na ementa, que me recorde, encanto apenas.
Revejo-me nos momentos suavemente melancólicos da Filipa, no temperamento calmo mas dado a explosões terríveis (quando lhe sobe a mostarda ao nariz), nas alturas em que aquele olhar parece esconder um qualquer segredo. Indecifrável.
Nunca contei à Filipa que a minha namorada de Faculdade tinha uns ciúmes terríveis dela. Fica escrito, para a FVO se rir.

De resto, Filipa, chegaste aqui por acaso, como uma leitora normal. Deste-me o prazer de ler diariamente o DC quando nem imaginava que soubesses da sua existência. E fomos buscar, naturalmente, a 13ª cadeira para a nossa mesa de queijos e vinhos. Senta-te tranquilamente, verás que é confortável. Este blog é apenas um grupo de amigos que se junta no único projecto que os poderia reunir todos. E o que fazem os amigos numa casa só deles? Brincam, tão somente. Bem-vinda. LFB

Está-se bem em Lisboa 

Há lugares que me fazem sentir, não na cauda da Europa, mas no seu embalo.
Repõem-me numa cidade europeia com serviços culturais e espaços de lazer que não envergonham.
Pequenos oásis. Pequenos redutos que podemos habitar e tornam a vida bem mais confortável. Nunca pensei, como até aqui, na importância da arquitectura, na sugestão que pode provocar um espaço.
Ontem à noite, por exemplo, jantei na cafetaria da Cinemateca, deitando olhos às caras lusas do mundo do cinema, antes de ver a adaptação que Orson Welles fez d "O Processo" de Kafka. Hoje, almocei no café Magnólia que abriu, a sua segunda loja, no cinema Londres (a primeira continua na Praça de Touros), aliás todo ele completamente remodelado. Ideal para nestes dias chuvosos e frios tomar café, almoçar ou lanchar e com espaço de leitura de jornais e revista à borla.
Simpatizo também com os franchisings, fnac, nannini, caffé di roma, para quem é tão amante de cafés e de cidades que se vivem nos cafés- como é o meu caso- e com as descontinuidades que nos reenviam para o coração da cidade: o jardim Amália Rodrigues que reanimou o alto do Parque Eduardo VII e a sua esplanada frente a uma linha de água; as livrarias do Bairro Alto, multifuncionais, que se aguentam por carolice dos donos: a Ler Devagar, a Eterno Retorno, que tanto lança uma tradução de Wittgenstein com uma dúzia de gatos pingados, como esporadicamente alinha na cultura mais light : a última conversa com Rita Ferro que esgotou a casa. É também simpático ir descobrindo os novos teatros: o CAL, próximo de Sta Apolónia e outros de algum bom gosto, na grande Lisboa. Em Algés, o anfiteatro Amélia Rey Colaço, em Almada, o belíssimo Forum de Almada onde decorre sem desprimor para outros, o melhor festival de teatro do ano.
Enfim, isto não deixa de ser um pueblo mas sopram-lhe uns ares europeus. CMC

a pólvora 

Só agora percebi por que é que os filhos do Michael Jackson andam sempre de cara tapada. Deve ser com vergonha do pai. LFB

quarta-feira, novembro 26, 2003

Réplica citada por efeito de dor localizada  

Cara Clara:

«A ultrapassagem de um certo limite é (…)
uma mudança de situação, nunca uma consequência.»
MANUEL DE CASTRO

(dói-me muito a garganta e, por isso, hoje, o melhor que posso fazer é citar) IFS

Do outro lado das evidências 

«Se te encontrar fora da minha memória, estou esquecido de ti. E, se não estou lembrado de ti, como é que te encontrarei?»
Santo Agostinho

IFS

Não há bem que sempre dure! 

Acabou-se. Já não sou a única rapariga do Desejocasar.
Sempre me comoveu a história do Peter Pan: atrás da janela, a espreitar a família, numa aparente indiferença pela sua ausência, o seu lugar já substituído por outras crianças. Pois, a mim sucedeu-me igual. Ausentei-me uns dias e quando volto tenho duas colegas: a Inês (IFS) e a Filipa (FVO).
Bem vindas e desculpem-me estas palavras, mas nada vai reparar esta perda. Ó doces tempos, em que me gabava, entre mimos e atenções, de ser a única rapariga do Desejocasar. CMC

LIVROS, HUMOR E CORRUPÇÃO NO "É A CULTURA, ESTÚPIDO!"  

Vai ter lugar hoje, dia 26 de Novembro, às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, mais um encontro sobre livros e escritores. Depois de António Mega Ferreira - que inaugurou o novo ciclo de encontros -, o convidado do segundo "É a Cultura, Estúpido!" é Gonçalo M. Tavares, um dos mais criativos e produtivos escritores da nova geração, autor de, entre outros livros, "O Senhor Henri", "O Senhor Valéry" e do recém-editado "Um Homem: Klaus Klump" (todos da editorial Caminho). A equipa mantém-se: a jornalista Anabela Mota Ribeiro, os críticos literários José Mário Silva e Pedro Mexia, os jornalistas João Miguel Tavares e Nuno Costa Santos, os colunistas Daniel Oliveira e Pedro Lomba e o stand-up comediant Ricardo de Araújo Pereira. Quem passar pelo Jardim de Inverno poderá, por exemplo, saber "O Que Não Andam a Ler" os críticos, conhecer as sugestões de "Baixa de Cultura" dos jornalistas, ouvir a crónica humorística sobre a actualidade literária e assistir a um debate a partir do livro "O Inimigo Sem Rosto - Fraude e Corrupção em Portugal", de Maria José Morgado e José Vegar (Dom Quixote).
Recorde-se que o "É a Cultura, Estúpido!", evento organizado pelas Produções Fictícias, continuará a realizar--se até Junho de 2004, nas últimas quartas-feiras do mês, no Teatro Municipal São Luiz.

E porque hoje só se fala de democracia e nós queremos é casar 

Sobretudo o amor (mesmo que, no outro dia,
me tenham dito que esta geração não é amiga
dos bons sentimentos, seja lá o que isso for).
Talvez sejam os tempos e sobretudo o tempo
que desgasta o amor como nos primeiros dias
depois dos primeiros dias de tudo. E, mesmo assim,
o que tenho dá para reconhecer pequenos nadas,
insignificantes nadas esquecidos num chapéu de feltro
em Entrecampos que já só deve existir aqui.

Mas é sobretudo isso e o esquecimento necessário dos primeiros dias.
Como se deus fosse uma desculpa para amarmos os mortos.
IFS

Os Rouxinóis de Hitler 

Não me recordo de ter visto Max em exibição nos cinemas portugueses, mas se calhar estava distraído. Max é um projecto que foi recusado por Spielberg e aproveitado pelo estreante Menno Meyjes. É um cruzamento de história com ficção. Que coloca esta pergunta: no momento decisivo de escolher entre uma carreira na arte ou na política, poderia o Fuhrer ter escolhido a arte?

Max coloca-nos em Munique, no final da Primeira Guerra. Há um comerciante de arte judeu, Max Rothman (John Cusack), e um jovem cabo de nome Adolf Hitler (Noah Taylor), que vagabundeia pela cidade e recebe uns trocos do exército. Max Rothman é uma criação. Adolf Hitler existiu e vagabundeava por Munique, sem eira nem beira, com o sonho de se tornar um artista.

O soldado alemão interpela o dealer durante uma exposição de quadros de Max Ernst e George Grosz e propõe-lhe apresentar o seu trabalho, que considera uma alternativa ao «modernismo decadente» que então vigorava. A história conta-nos que Hitler era um mau pintor, com uma técnica esforçadinha, mas sem qualquer laivo de criatividade ou de emoção. O Impressionismo e o Dadaísmo não passaram por aquela cabeça.

Em Max, porém, o comerciante detecta no jovem Hitler um manancial de fúria e de tormentas que, ao estímulo certo, se poderia libertar e dar corpo a uma arte apreciável. Rothman chega a tomá-lo por discípulo de Marinetti e a considerá-lo um «futurista», capaz de pintar na linha da Krieg Kunst. Hitler desconhece Marinetti e defende apenas uma arte de proporções harmoniosas, misturando as leituras diagonais de Nietzsche e Schopenhauer.

Entre os dois não há nada em comum, para lá da experiência na guerra. Max perdeu um braço, mas regressou à família e à conta bancária. Hitler saiu da sopa dos pobres em Viena, resistiu à guerra e regressou a coisa nenhuma. Não se cria exactamente uma amizade: o jovem procura expôr as suas obras, mesmo desprezando o estilo de vida do judeu; e o judeu pressente algo de terrível na criatura, mas procura convencer-se do seu potencial reprimido.

Max é o anjo bom, procurando aconselhar o impetuoso cabo e guiá-lo através dos sinuosos caminhos da criação. O íncubo é um oficial do exército, que percebe na violência de Hitler a semente de um porta-voz. Subtilmente, vai-lhe insinuando as virtudes da propaganda e do discurso público, convidando-o a partilhar as suas ideias na Alemanha vencida de Versalhes. Mesmo não o assumindo, Hitler é já um visceral anti-semita, influenciado pelos «racistas de Viena», por Gobineau e por revistas como a Ostar, que já no início do século instituía os conceitos de Heldings (raça dos senhores) e Afflings ( raça dos macacos).

Num dos seus primeiros discursos, realizado numa rua de Munique perante meia dúzia de gatos e alguns miúdos que brincavam, há um outro oficial que diz: «O tipo é um desbocado, não presta para nada». Ao que o íncubo responde: «Precisamente. É o homem indicado para a era do nada».

Pressionado pelos dois lados, Hitler encontra-se perto da explosão. Os dedos tremem-lhe entre a vontade de pintar e o desejo de conceber a sua obra política. Hesita. Escreve uma frase e mistura uma tinta. Os quadros não vendem. Max instiga-o a continuar.

Até que um dia se faz luz. O soldado andrajoso declara ter ido mais longe do que qualquer artista moderno. «A forma de reinventar a arte não é torná-la política; isso é um passo demasiado pequeno - a política é que é a nova arte!»

Max faz uma última tentativa e propõe-lhe uma exposição com os seus trabalhos mais recentes: desenhos premonitórios da iconografia nazi e dos edifícios monstruosos com que Hitler planeava semear a Europa (edifícios que vieram a ser desenhados por Albert Speer e que, felizmente, na sua maioria não passaram do papel).

O comerciante extasia-se com aquelas peças, baptizando-as como «kitsch futurista», onde se ressuscitam os deuses germânicos e os estandartes teutónicos. «É o futuro enquanto regresso ao passado». Infelizmente, alguns membros do jovem Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores impedem a exposição, condenando Hitler ao seu percurso político.

Fica a pergunta: poderia tudo não ter passado de um embuste artístico? RIS

P.S. O filme anda aí, num Blockbuster perto de si

terça-feira, novembro 25, 2003

O Medo IV 

Tenho com o mar a mesma relação que um filho tem com um pai que teme e admira. Digo mar e vem-me à cabeça uma centena de imagens. O nascer do Sol no porto da Lagoa durante uma saída para a pesca, as correntes fortes que levavam o meu corpo para longe, declamações raivosas da poesia de Antero contra um vento frio e salgado. Tubarões, tubarões percorrendo, à noite, o fundo dos Oceanos. Sempre me fascinou quem enfrenta ondas no Inverno. Quem atravessa a resistência das espumas para descer vagas de dois, três metros. Quem perde o respeito a esse pai imenso e indecifrável. Sinto-me, por isso, muito bem no novo blog Ondas - entre a belíssima tentativa de descrição dessa arte contemplativa maior e a boleia sentimental até um dos álbuns da minha adolescência. Leio, um a um, os posts e gosto de pensar que, quando os meus amigos vão para o surf, levam-me, de vez em quando, consigo. NCS

copy paste do ANTIARRUGAS ATÓMICO 

Lunes 24 Noviembre 20000003

Lisboa para mí fue un conjunto de bares, de melancolías, de espumosas cervezas. Fue la comodidad de un cuarto minúsculo en un piso antiguo de la Rua Tenente Raúl Cascais desde donde veía flores, tejados, las Amoreiras, el horizonte, mi propia libertad. Fue la feliz soledad, la falta de confianza en los demás. A veces. Fue Cid, Cat, María, Horácio, Borja (sí, no os riáis, un conjunto plurilingüe, extraño, y a veces guay). Fue pura poesía, no paraba de escribir. Mis paseos do Sol ao Rato. Aprendí muchas cosas en el Barrio de la Rata. Comía en restaurantes al lado de hombres trajeteados, siempre con mi cuadernito abierto sobre la mesa para que cayeran dentro los pensamientos sobrantes. Fue - cómo no - tranvías, el número 10 existía todavía. Fue ver la muerte en las casas en ruinas, abrazar a las ratas de mi barrio y comprar cosas inútiles en papelerías, descender por la Rua do Salitre, adentrarme en el metro, subir en Benfica, querer bajar otra vez y no poder. Fue el Frágil, bailar, saber, la pose. Fue el bar de las Catacumbas, o el Increible Bar Sin Nombre, como lo llamábamos entonces. Fue un beso dado sobre una roca en la playa, otro en el Largo da Escola Politécnica, otro no sé donde, ese último beso sí dió lugar a muchos más, los otros no. Fue vestirme de negro durante una semana cuando murieron mis amigos, llorar y sentirme horrible, mirar por la ventana y ver el cielo negro a las dos de la tarde. Fue beber, beber y beber. Fue la Macieira, la Superbock. Fue vestirme con botitas de colorines, chaleco de hombre, falda larga negra de encaje, mucho pelo, y bajar las escaleras de madera con pasamanos verde para salir por la noche. Fue el Bairro Alto. Fue el Bairro Alto. Fue el Bairro Alto. Nunca me ha gustado tanto una zona de marcha como el Bairro Alto. De alguna manera, sigo allí todavía. De alguna manera, siempre viviré en Lisboa.
Lo digo porque hoy han entrado muchas personas en mi blog desde Desejo Casar y quería daros la bienvenida. No sé si nos volveremos a ver, pero me ha hecho ilusión y algún día me gustaría escribir mucho mucho mucho sobre Portugal, porque en sólo un año tuve experiencias para cinco, y me gustaría contarlas. Desejo Casar é un bom blog. Falam de coisas interessantes, sempre. Gosto muito. Abro um outro blog em português? Acham que é uma boa ideia?

Seguro que si, guapa. Gracias! LFB

Luís de Matos fez desaparecer bigode 

Os ensaios realizados por Luís de Matos antes da inauguração do Estádio do Dragão - vimos agora a saber - não terão corrido nada bem para o mágico. Tudo terá acontecido no dia anterior, durante o aquecimento do artista. Quando tentava fazer o número do lenço, o mágico terá feito desaparecer inadvertidamente o bigode do dirigente portista, Reinaldo Teles. Enquanto procurava o bigode no fundo da cartola, vários elementos da SAD portista alertaram então Luís de Matos para o facto de ter surgido um coelho no lábio superior de Pinto da Costa. Visivelmente incomodado, mas sem se perceber o que dizia, o presidente do F. C. do Porto terá gesticulado na direcção de José Mourinho. Foi então que, perante o espanto geral, uma pomba branca saiu da boca do treinador portista. A fim de se resolver toda a confusão, o mágico terá telefonado a um veterinário seu amigo que se deslocou de imediato ao estádio e retirou cirurgicamente o lábio do presidente portista das costas do coelho. "O Coelho está a evoluir bastante bem e pode ter alta dentro de dias", adiantou ao DC o médico-veterinário, preferindo manter o anonimato. Relativamente ao bigode de Reinaldo Teles, fontes próximas do prestidigitador garantiram que este já foi localizado junto à porta do estádio, dentro de um cofre suspenso a sete metros de altura, ao lado de um papel que continha o resultado de um jogo de futebol. LCA

Marx vai dormir esta noite em minha casa 

Uma amiga que está em Heidelberg a fazer aquilo que quando se fazem doutoramentos em Direito se faz - que é passear uns meses por Heldelberg e aproveitar voos mais baratos para cidades que não se conhecem - pediu-me para alojar duas noites em minha casa, em Lisboa, uma amiga dela venezuelana, em trânsito para a América. Pareceu-me bem e a amiga chega esta noite e partirá na quinta-feira para Caracas. Nas combinações do stop over descobri que a minha hóspede se chama Marx, de primeiro nome. Já gosto dela, mas não sei rigorosamente nada sobre a sua vida, sobre o seu cabelo, sobre as suas virtudes. Como só troquei um email com ela, acabei por dizer que eu seria aquele de gravata encarnada junto de uma loja de jornais no aeroporto. Portanto, se me quiserem tornar a vida ainda mais complicada, basta juntarem-se cinco ou seis, com gravatas encarnadas, e ir para o aeroporto às oito e meia da noite. Se a polícia vos perguntar porquê, podem sempre dizer que estão à espera de Marx, que vem da Alemanha, para alegrar a noite lisboeta e os corações da burguesia masculina. Se ela for divertida, prometo pedir à minha amiga germanófila que arranje uma outra amiga, dinamarquesa, chamada Ricoeur e ainda uma outra lituana chamada Espinosa - assim, todo o tempo e todas as palavras se cruzarão no meu sofá-cama, como nos bons velhos tempos de Paris que nunca tive. MR

E agora?! 

E já está! O DC tem o prazer e o orgulho de anunciar que o blog do título está on-line desde há 5 minutos. Com uma equipa como esta, ganhamos todos. Pacheco Pereira, beware! LFB

suspense 

Salvo qualquer hecatombe de última hora, desconfio bem que a blogosfera portuguesa vai ter uma grande surpresa dentro de pouco tempo... LFB

competição feminina 

Nada como integrar mulheres na equipa. A nossa Clarinha, que andava há muito meio desaparecida, regressou em força logo que a Inês ingressou no DC. E a Filipa chegou entretanto... Uma coisa é certa, as jantaradas vão passar a ser bem mais animadas! LFB

segunda-feira, novembro 24, 2003

Mal com mal se paga (faltando um provérbio melhor) 

Ó Horror! Ó Desgraça! Que mal me sinto! Por dois motivos. Primeiro: andei a vasculhar nos arquivos do DC e eis que dou de caras com o post em que o LFB anuncia, no ido mês de Junho, a minha «contratação». Nunca cá apareci, nem com uma palavrinha, nada! Mais parecia o nunca contratado defesa esquerdo do Benfica. Vergonhoso! Todos os meus posts não servem para me redimir, mas julgo que o segundo motivo pelo qual me sinto mal é castigo suficiente. Quinta-feira recebi um daqueles avisos dos Correios para ir buscar uma encomenda. O remetente era o programa «Livro aberto», ao qual costumo assistir, mesmo nos dias em que o tema é o vinho. Não resisto a ouvir o Francisco José Viegas dizer que ali, àquela hora, se fala de livros, enquanto nos outros canais, àquela hora, passam novelas. É a frase mais óbvia mais vezes repetida num canal português cujo significado menos me choca. E lá fui eu, entusiasmadíssima, para os Correios, onde estive quarenta minutos à espera da encomenda, cujo motivo de recepção remonta ao dia em que participei no passatempo do programa. Perguntavam, numa noite dedicada à poesia, na qual marcaram presença Eugénio Lisboa, Eduardo Pitta, Pedro Mexia, Fernando Pinto do Amaral e o meu caro professor Fernando J. B. Martinho, quem escreveu «Um adeus português». Tudo aquilo criou uma expectativa enorme, e eu respondi. A partir das 23h30, lá foram as palavras com que escrevemos Alexandre O'Neill via mail para a NTV. No programa seguinte, no qual marcaram presença Nuno Costa Santos, Ricardo Araújo Pereira, Nuno Artur Silva, Zé Diogo Quintela e julgo que mais ninguém, lá apareceu o meu nome, esplendorosamente circulando em rodapé. E hoje lá fui eu, entusiasmadíssima, para os Correios, onde estive quarenta minutos à espera da encomenda. Sabia que eram livros. O Francisco José Viegas dissera-o, a mim e às outras dez pessoas que, segundo fontes bem intencionadas, assistem ao programa. Quarenta minutos à espera, à espera de livros de poesia, de livros que estão espalhados na mesa à qual o Francisco José Viegas se senta com os seus convidados, de livros que tivessem a ver com os convidados do dia em que participei no passatempo do programa. Abro o envelope e constato: A identidade e a diferença - Marcas impressas pelo educador em cada criança, de Maria José Câmara; Animal triste, romance de Monika Maron, cuja capa contém o seguinte «aviso»: «Jamais alguém contou assim uma história de amor»; e À minha filha em França..., «um testamento inesperado, a uma filha desconhecida, que vai alterar a vida de duas famílias», escrito por Barbara & Stephanie Keating. O que é isto? Ao contrário de Mallarmé, eu ainda não li tudo, apesar de a carne já ser fraca. Mas o que é isto? O que é que eu vou fazer com isto? Eu vejo o «Livro aberto», participo nos passatempos à hora que me dizem para o fazer e recebo isto? Desconheço o que isto é. Vou continuar a desconhecer o que isto é. Não sei a quem oferecer isto no Natal. Não ofereço prendas de Natal a pessoas de quem não gosto. O livro da Maria José Câmara vai para uma amiga educadora de infância porque eu, por acaso, tenho uma amiga educadora de infância. E se não tivesse? E os outros livros? Estou triste. Queria uma prenda do «Livro Aberto», um livro de poesia, um romance daqueles sobre que o Francisco José Viegas fala com os seus convidados. Mas isto eu não sei o que é, e nem as capas, nem as primeiras páginas, nem os títulos me aguçam a curiosidade. Há dias assim, há dias em que descobrimos a posteriori porque somos castigados. Eu resisti a juntar-me ao DC e recebi livros que não queria. São estas pequenas dores à portuguesa que simultaneamente me fazem tropeçar de ternura por um amigo e desencantar-me com as variações do «modo funcionário de viver». IFS

Há ir e lá voltar 

Há mar e mar, ..., dizia o Alexandre O'Neill. E neste oceano blogosférico também há ondas. Desengane-se aquele que, como eu, achar que o surf tem alguma coisa a ver com pranchas. Pelo que pude aqui perceber, a essência do surf reside num ponto invisível e metafísico a que só se chega por mar. De férias, na praia do Malhão, sempre que o Pedro se mete mar adentro com a sua prancha debaixo do braço, assomam-me as rugas e a espondilose, como a um Velho do Restelo que fica a ver partir as caravelas. A Índia, para mim, ainda fica demasiado longe. É pena. LCA

Crepuscular 

Ele tem o mau hábito de perguntar «qual é a tua cor preferida?».
Ela tem o mau hábito de responder, quando questionada sobre o assunto,
«a minha cor preferida é o azul do princípio da noite de Lisboa».
Assim mesmo.

Em nenhuma outra parte do mundo ela é compreendida.

IFS

Conselhos do lado de lá 

Do lado de lá do Atlântico, telefona-me a minha avó.
Planos? Não faça planos. A vida é o momento.
No fim da vida vai ver como tudo isto não passou de um conjunto de momentos. Então, não desperdice um único. CMC

Gincana 

Ferreira Leite foi ao parlamento contar uma piada tendo aproveitado, de seguida, para defender o orçamento. Disse que a oposição se parece com aqueles condutores que atropelam um peão na rua e fogem a seguir. No fundo, a oposição é uma espécie de homicida "toca-e-foge" do volante.
Para além de hilariante, a metáfora faz todo o sentido. Contrariamente àquele que tem consciência do seu crime, o governo faz lembrar o velhinho de roupão xadrês e cabelo desirmanado, que mete pelo nó do Cartaxo às seis da manhã, iniciando uma viagem em contra-mão até Valença. De pantufa no acelerador e lábio tremelente, ele ouve a dada altura um alerta pelo rádio: "Atenção srs. condutores! Vai um louco em sentido contrário na auto-estrada!" Enquanto se desvia dos carros e os lança pela ribanceira, o velhinho reage furibundo: "Um? Só um?! Mas vão uma data deles!!". LCA

Y viva españa 

Depois de uma directa a trabalhar, sabe bem ir aos referrals e descobrir que nuestros hermanos têm links para o DC. Bizarro, mas saboroso. LFB

domingo, novembro 23, 2003

Sobretudo isso 

«Sei bem que não mereço um dia entrar no céu
Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra.»

DANIEL FARIA

IFS

domingo à tarde não se pode esquecer que é domingo à tarde 

Domingo à tarde na FIL. Três exposições. O magnífico "Salão Imobiliário 2003" parecia a feira de emprego de ornitólogos de Coruche. Teria quinze visitantes? Talvez. Eu, como ando à procura de casa, como me acontece mais ou menos de seis em seis meses, fui lá. O maior "stand" era o da Câmara Municipal de Lisboa, com uma maqueta da cidade enorme e cartazes em inglês com erros ortográficos. Descobri também que não me apetecia viver no Vale de Santo António, um lego monstruoso de habitação social que virá a estar pronto em 2127. Noutro stand, da EPUL (continuamos na Câmara, portanto), um senhor ficou com os meus dados pessoais, para supostamente me avisar quando começarem a comercializar mais umas casas (não no Vale de Santo António). Isto deve ser uma coisa mais ou menos secreta, pelo ar dele, e eu assumi o mesmo look conspirativo enquanto lhe dava o meu número de telemóvel. Fico à espera que o Sr. Q me ligue um dia.
Passei pelo "stand" da novíssima Marina de Albufeira, que tinha uma grande fotografia aérea da coisa e um casal a ouvir a explicação maternal da menina do deck. Estive para lhes dizer que aquilo era mentira, porque estive lá ontem, em Albufeira, provavelmente no mesmo sítio de onde a foto tinha sido tirada e em vez da meia dúzia de casinhas amarelas e vermelhas que se viam ali existiam era dez blocos de betão com andaimes e ar de que iriam acabar em 2078. Mas não quis estragar a tarde a ninguém.
Vinte minutos bastaram, portanto. Depois fui até à Arte Lisboa, que sempre tinha mais visitantes e era mais divertida. A arte contemporânea se não faz sorrir não presta. Arrancaram sorrisos um Jesus Cristo que transmitia um jogo de andebol televisionado no peito, uma gaiola com passarinhos e um 727 da Lufthansa e uma Samsonite com um pé de fora.
Na saída, passei pela Feira do Livro. Nas feiras do livro, ao contrário do que me acontecia há uns anos atrás, já não compro tudo o que me aparece à frente. Estou a ficar criterioso. Vim de lá só com duas magníficas obras. Pelo caminho, deixei, por exemplo, a "Cozinha fácil em microondas" ou os "Prefácios" de Hegel. Veio a Hannah Arendt, ficou a Maria de Lurdes Modesto. Para o ano, trocam, que isto tem de dar para todos.
E, no próximo domingo, vou tentar o parque de exposições de Chefchaouen, que não só é mais animado como se compram coisas muito mais úteis. MR

Friendly Fire 

Um jantar com uns amigos relativos antecedeu a estreia do Stand-Up Tragedy- produção da casa que muito se recomenda.
À mesa um relativo assegura-me que é rapaz muito fácil. Os requisitos mínimos que exige de uma mulher são: 1)- ter a barriga menor que o peito, 2) ter os ombros menos estreitos que as ancas. Basta-se, portanto, com tudo o que mexa.
Ora se aplaudo a testosterona ao nível de um Pipi, deploro a falta de selecção daqueles cérebros. Critérios masculinos? Os mesmos da pré-história. Mulheres, para quê rivalizar? Um dia querem a Lady Di, no outro dia, a Camila. CMC

AMEAÇA 

Três. Uma, duas, três. Fui três vezes à Segurança Social pedir que me enviassem para casa uma carta que me permita pagar o que devo (imaginem o que isto significa em termos de tempo de espera em salas apinhadas). Uma confissão grave: à terceira, subornei um segurança. Teve de ser. É feio, não se faz, eu sei. Não me crucifiquem. Subornei-o com palavras amáveis - com as palavras mais amáveis que consegui achar no momento e ele deixou-me chegar à fala com a responsável pela minha categoria. Permitam-me o exagero juvenil: foi dos momentos mais felizes da minha vida. Depois de, tomada por uma euforia inesperada, me ter informado que tinha acabado de receber o meu "caso" , a senhora prometeu que iria enviar tudo logo, logo que o sistema informático se recompusesse (aqui está a novíssima desculpa para o atraso dos serviços). Não recebi nada até hoje. Estou nisto desde Fevereiro. Acabou-se o tempo das delicadezas de café tipo "era a continha, se faz favor". Nunca pensei escrever isto: eu quero receber uma carta do Estado. Eu quero receber uma carta do Estado com uma conta de alguns zeros para pagar. Digo mais: ou me mandam isso na segunda ou o terrorismo vai conhecer uma nova causa. NCS

«A literatura é uma arte/ escura de ladrões que roubam a ladrões» 

Às vezes, eu, que duvido tanto, enfrento e aceito a maior das evidências, uma evidência que me diz respeito e que me sabe bem, apesar de, de certa forma, me atormentar. «Reacção infantil» talvez seja a expressão que melhor traduz o fenómeno. Das últimas vezes que a «reacção infantil» tomou conta de mim estava em público, na Fnac do Colombo, com o último livro do Manuel António Pina nas mãos. Sabia já que o livro ia sair, sabia já quase tudo o que se pode saber sobre um livro, mas aconteceu o mesmo que acontecia quando, aos 7 anos, no meio dos desenhos animados, passava a interminável sequência de anúncios sobre as mais recentes novidades do sector infanto-juvenil. Fiquei tão entusiasmada que peguei logo em dois e começaram todos a cair, os do Manuel António Pina e os outros todos em volta. Ele era José Agostinho Baptista a voar, Manuel de Freitas no chão e mais uns quantos que ainda não comprei a ostentarem o facto à medida em que caíam - um por um. A verdade é que sou filha da sociedade de consumo. Aliás, sou uma respeitável vítima da mesma. E, se não compro livros e discos, fico deprimida. E quando estou deprimida, a cura passa por comprar mais livros e mais discos (cf. algumas das reportagens dos telejornais dos últimos dias, que têm dedicado peças de 10 minutos ao tema). Mas há, sem dúvida, uns livros que sanam melhor a ferida, tal como as Barriguitas sempre foram melhores confidentes do que a Barbie. «Os livros», de Manuel António Pina, é um desses livros. É um livro belíssimo, equilibrado, que retoma os temas recorrentes da poesia deste autor, demonstrando, mais uma vez, como o poema pode de súbito transformar-se numa dupla reflexão sobre a condição poética e sobre a condição humana. Estão ali, num só livro, todos os livros: os que o poeta escreveu e os que o poeta leu (e ler acaba por ser uma outra maneira de escrever), mesmo que, no fundo, tudo se reconduza à exemplaridade, a um paradigma, cuja inexistência ganha relevo ao ser permanentemente questionada. Acho possível afirmar que este é um livro de poesia que, mais do que defender, acolhe uma tese, uma tese que lhe é inevitavel dada a sequência em que se integra. Livro sobre livros, pode inclusivamente funcionar como balanço poético, como se o poeta reescrevesse secretamente a sua obra. Afinal, «Tudo isto é antigo e repetido.» Aqui fica um exemplo:

O grito

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;

e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra ?cerejeira? ainda em carne na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração..

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

IFS

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