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domingo, março 07, 2004

O fim da Rádio Luna 

Desde que aqui bloguei sobre as exéquias da radio luna, algum tempo passou porque a Média Capital tardava em consumar o negócio. Mas agora é de vez. O que aí vem ainda se desconhece. Peço que mantenha a qualidade e erudição que fidelizou os seus ouvintes e que não se torne em mais uma rádio de saturação e publicidade. O último programa vai para o ar domingo, às 15h10. Despeço-me com dois poemas. CMC

A vida não é para cobardes ( Mme Curie) 

Almoço na Sociedade de Geografia. Conheço um violinista italiano, fundador de um agrupamento musical de música antiga, relativamente conhecido em Itália e há dez anos a viver em Portugal. Afirma-me que Portugal é um excelente país para se viver e que só nós não o valorizamos. Em Itália, garante, é o caos e pouco se cria, ocupados que estão a preservar o património. Ignorância também há muita. Chegou a ouvir a edilidade de uma pequena cidade medieval, justificar o empréstimo de instrumentos musicais desafinados e o atraso nas horas do concerto com a frase: “não temos tradição de música barroca”.
Entretanto, gera-se uma contenda germano-italiana, Bach versus Corelli/Vivaldi/Purcell, de um lado a superioridade de Bach, o pilar da música moderna, do outro a sua falta de emoção, obras menos geniais como a Paixão segundo S. Lucas, o decalque que Bach fez de peças de Purcell e Bomporti.
O grosso da conversa, coisas bem mais rasteiras, cachets pagos apenas num terço, lista de sponsors para bater porta a porta, contas feitas ao aluguer, limpeza da sala de concerto e venda de bilhetes, pois um concerto só rende depois dos primeiros 100 bilhetes vendidos. Ossos do ofício. CMC

sexta-feira, março 05, 2004

Subjectivo 

«Para o CDS-PP, que na discussão de ontem se fez representar pelo deputado Miguel Paiva, a importância do clitóris é, conforme o próprio disse ao PÚBLICO, "algo subjectiva". O deputado reconhece que tem uma função essencial no prazer sexual mas "para além disso a sua mutilação não afecta nenhuma função vital", nomeadamente, como sublinha, "a função reprodutiva".»

Retira-se do «Público» este fragmento, que serve de ilustração clara do estado das discussões parlamentares. Quer o CDS/PP criminalizar autonomamente a mutilação genital feminina e perde-se em dúvidas sobre se o clitóris é um «órgão», um «membro» ou um avião ou o Super-Homem, com base na sua leitura do artigo 144.º do Código Penal.
Diga-se desde já que qualquer mutilação, incluindo a genital e a feminina, está naturalmente já hoje criminalizada. Mas parece que não chega e quer-se por na lei a protecção em especial devida ao clitóris. Com todo o respeito por este órgão/membro, parece-me desnecessário, face às previsões legais em vigor. As leis fizeram-se também para evitar este tipo de casuísmo e quaisquer particularismos indevidos. Hoje à tarde, é suposto o parlamento discutir a natureza do clitóris. Louvem-se as intenções, naturalmente... Mas somos tão legalistas, tão legalistas, que o bom senso e lógica às vezes parecem ficar ali ao fundo, já um pouco antes de Badajoz... Quer-se resolver um problema? Venha a lei! A lei cria mais outro problema? Venha nova lei e venha também portaria e decreto e despacho!... Mutilando o Woody Allen, "quem sabe, resolve os problemas; quem não sabe, faz leis". MR

Dignidade ao Toalhete 



A experiência dos blogs deixará marcas na literatura. Em breve, menos breve ou lá para o fundo. Haverá ficções baseadas na blogosfera, como o caso dos bloggers que se apaixonam e largam as respectivas famílias, apenas para descobrir que, afinal, tinha havido um equívoco, e o autor do blog Maravilhas não era o Nuno, mas sim um Nélson, com o mesmo apelido, mas não importava, a blogger gostava dele na mesma, ou talvez mais, muito mais, que se lixe. Haverá policiais, do estilo psicopata de esquerda que se infiltra num jantar da UBL para despachar toda a gente. Ficção científica, o extra-terrestre que já blogava há bué e veio a saber de um planeta onde se utilizavam ferramentas parecidas, e fica espantado, e estabelece contacto, e sobe à brava nas audiências. E a literatura islandesa, claro, terá uma palavra a dar, com a história de Ramppflick, o jovem que nunca gostou de blogs mas se vê apanhado numa viagem interior à custa de um post que, misteriosamente, lhe cai na sopa enquanto dormia. Haverá tudo isto mas também a interferência no modo como se escreve. O estilo posting entrará nas poéticas de alguns autores e poderá apontar novos caminhos para a literatura. A coisa mais confusa acaba por ser o reverso: de que modo entrará a literatura no mundo dos blogs? Não a escrita literária, há blogs literários e bem escritos, e há aqueles onde se colam excertos de romancistas. Como entrará o carácter perene, anti-histórico, da palavra publicada neste rolo de toalhetes onde o post de ontem vale menos que o recorte de jornal? Por onde entrará a resistência? Parece-me que A Praia aventa hipótese com as suas homenagens.
RIS

P.S. Entretanto, em tempo real, a Formiga voltou.


cinco canções americanas para Março (e talvez para a vida inteira) 

- “I See Monsters”, de Ryan Adams.
- “Umbilical Town”, de Gary Jules.
- “Each Time I Bring It Up It Seems To Bring You Down”, dos Lambchop.
- “Bermuda Highway”, dos My Morning Jacket.
- “The Evening Of My Best Day”, de Rickie Lee Jones. NCS

quinta-feira, março 04, 2004

Dicas de um jovem escritor Jacinto Lucas Pires 

Sentei-me no chão, com todo o auditório. No meio de malta universitária e de sonhos, protecção e certeza, todos os possíveis por agarrar, toda a magia por encetar. Onde já não me podia diluir, nem em corpo nem em alma. Sem idade para ser mãe deles mas com idade para ser uma professora. Uma dúzia de anos entre nós e que se evaporaram num instante.
Para ouvir falar o Jacinto. Ouvi-lo responder com honestidade a tudo, pôr o auditório a rir, comunicar uma serena realização. Disse-nos muita coisa. Como falar e nomear é já procurar o sem sentido das coisas, é como ir ao psiquiatra, disse, já resolve parte do problema, tema que desenvolve no livro “ Escrever, Falar” que vai subir ao palco no Porto, em breve.
Como escrever é resolver a um nível microscópico as questões que o perseguem. Por que amamos, nos apaixonamos e desapaixonamos, sofremos, partimos. Como nem todos somos artistas mas todos procuramos responder a estas questões nem que seja a fazer o pão. Como se está nas tintas para consagrações, tops de venda.
Que não gosta de escrever na primeira pessoa e a um nível autobiográfico, embora projecte experiências porque passou devidamente transformadas, nessa transformação reside o segredo da arte. Como não gosta de entrar no quarto de alguém que esteja a carpir as suas dores, por isso fala sempre de um outro e se o leitor se projecta nessa alteridade, pode aquecer o seu solitário quarto.
Que gosta do difícil e citou Sophia: “Odeio o fácil” e, por isso, não gosta que lhe contem logo tudo, que se mostre logo o ombro e se dê de barato.
Falou de tensões que o escritor tem de criar e de resolver, de personagens a resvalar da instabilidade para a estabilidade. De personagens sugeridas e não ditas, sem um dedo acima delas a indicar o que está certo ou errado. Personagens de Hitchkok, uma Ingrid Bergman que diz a alguém que o ama enquanto o está a matar. Porque na vida as pessoas são bem mais assim. Ambiguidade, véus que vão caindo, até se chegar a um osso, a uma revelação. Uma escrita que acompanhe o movimento do mistério. Que eleja o argumento, a história, o plot, a personagem que ganha vida e encontra o seu lugar no puzzle. Mostrou a escrita como trabalho de sapateiro, de escrita e reescrita, de ter a coragem de deitar ao lixo o que se escreveu numa noite de insónia e ter a coragem de ir à editora (apesar de achar que aqueles que têm que ser artistas lutam e chegam a isso), escavar e deixar levedar.
Apresentou a escrita da ficção como um trabalho mais solitário, a do teatro como mais aberta à intervenção do encenador, dos actores e da produtora e a do cinema a meio caminho entre as outras duas, como o seu quê de solitário e de trabalho de grupo.
Jacinto lê muito, afirma que todo o romance tem a chave para a sua compreensão, diz-se influenciado pelos anglo-saxónicos, Hemingway e Trumann Capote, gosta de Lobo Antunes, Caetano, internet, até lê blogues.
Gosta da cidade, de Lisboa (embora não se importasse de passar uns tempos fora), de viver, do possível e existente e não do inexistente. Por isso, tem sonhos bem concretizáveis: acabar o seu primeiro romance, a peça que tem em mãos, fazer um cd, viajar mais.
Embora ateu, acredita numa força que vem do coração que passa de geração para geração e lá nos cantou uma canção do Caetano. E como a literatura é provocação, mas não panfletária, e é pôr os outros a sonhar acordados, sugeriu-nos uma história inverosímil mas com fôlego para nos prender. Imaginem um policial em que um japonês se apaixona no local do crime por uma mulher de rara beleza que acaba de ser morta. CMC

quarta-feira, março 03, 2004

Sobre a instalação de um telefone fixo 

Era nas tardes de domingo, com o som dos relatos ao fundo, que conversávamos. Durante horas pai e filho discutiam os temas da semana – aquilo que vinha nos jornais, a queda de um ministro, alguma política regional. A partir do momento em que o telefone – um daqueles velhos aparelhos negros com um disco ao meio – tocava, ali pelas 16h, abandonava a meu fim-de-semana melancólico e indolente de estudante de Direito contrariado para ficar sentado na alcatifa, discutindo com o meu pai as contingências da actualidade e ouvindo, aqui e ali, o eco das nossas vozes sobrevoando o oceano. Aconteceu depois algo pouco memorável: o telemóvel livrou-nos dessa feliz obrigação. Continuamos a telefonar-nos amiúde mas agora somos cerimoniosos na abordagem – temos sempre medo de estarmos a interromper algum compromisso relevante. Hoje falamos menos por causa do crédito e para não sermos considerados anti-sociais. Não, não sinto nostalgia pelo telefone negro e pelo seu disco emperrado – há por aí máquinas esteticamente mais apetecíveis e de manejo mais eficiente. A questão é apenas esta: quero voltar ao melhor daqueles domingos. Quero continuar a resolver os problemas do mundo com o meu pai de uma forma demorada, preguiçosa. Percebi-o nestes dias de gelo: o combate à distância deve evitar ter problemas de rede. NCS

terça-feira, março 02, 2004

Interrupção Voluntária da Democracia 

Avelino Ferreira Torres vem desempenhando, com esmero, um papel essencial na nossa democracia. Assim de repente, ele é o melhor argumento que alguma vez vi a favor da despenalização do aborto. LCA

Religiões em Coimbra  

Estive em Coimbra quinta e sexta feira passadas para assistir a um encontro sobre religião, organizado pelo Departamento de Filosofia da Faculdade.
Claro que o melhor destas coisas, está sempre nos amigos que se revêm, pessoas que se cruzam, passeios e comezainas, sugiro “O Burgo“ em plena serra da Lousã a ouvir os frescos afluentes do Mondego e a saborear um estupendo cozido, servido em broa.
A maioria dos oradores, a ler de papel na mão, estafou a paciência do auditório. Mas, ainda assim, valeram as participações do Prof. Nuno Nabais sobre Nietzsche e a morte de Deus, os representantes do cristianismo, do xiismo ismaelita (comunidade Aga Khan) que entoou um guinan (hino religioso) e do budismo (para grande pena minha falhou a representante do judaísmo). Evocaram-se nomes como Heideggeer, Paul Ricoeur, Michel Henry, Jean-Luc Marrion, Husserl, Sartre, Merleau-Ponty, Holderlin. Frases como : “Se vires o Buda, mata-o”, “ Eu sou Aquele que É” ( Exodus, Cap.III, versículo XIV), “ Na verdade, Tu és um Deus escondido” (Isaías), “Deus não responde ao porquê do sofrimento, da dor e da humilhação. Ele faz-se sofrimento, dor e humilhação” (Leonard Boff), “A Deus mais do que dizê-lO ou escrevê-lO, deve contemplar-se” .
A propósito de “ Ecos Artísticos do Divino”, Siza Vieira revisitou a sua Igreja de Santa Maria, em Marco de Canavezes e ouviram-se extractos de peças de Messiaen ( quarteto do fim dos tempos) e Palestrina ( como representante de música da Contra-Reforma).
A palestra mais popular acabou por ser a de Miguel Portas que afirmou que “os sentidos da vida sem Deus são quase tantos quanto os sentidos da vida com Deus”, que o encanto e a tragédia do comunismo reside em ser uma religião laica, e que se retirar ao marxismo o humanismo, só resta o lado mau do marxismo. Apresentou o sobrenatural feito à imagem e semelhança das comunidades que o instituíram e foram transformando (e por isso, a questão de Deus passa a ser um problema da Antropologia, como afirmou o Prof. E. Chitas). Nessa linha, surgiram os mesopotâmios, um povo que para fazer face às imprevisíveis jogadas do Eufrates (ao contrário do Nilo, rio previsível e que em tudo viabilizou um império para gerir o seu ciclo) criou o primeiro Deus da Bíblia, à imagem e semelhança dessa natureza tirana e caprichosa contra a qual se debelavam as suas vidas; Noé, cópia de Ziusudra, rei dos sumérios que conseguiu escapar ao dilúvio e é o primeiro humano a ir para o paraíso; os deuses da Mesopotâmia que tal como os do Egipto antigo criaram o homem a partir do barro; o deus de Babel, deus invejoso a lançar a praga das línguas porque só ele pode construir cidades. Realçou o paradoxo de as construções mais sumptuosas do divino terem sido protegidas pelos poderes mais corruptos, de papas e califados. E a circunstância de o véu islâmico ter sido, ao tempo do Profeta, instrumento de libertação das mulheres, para diferenciar as muçulmanas das escravas no cerco de Meca/Medina, evitando que fossem violadas nas ruas, tendo-se hoje transformado em instrumento de opressão e de resistência identitária. Miguel Portas concluiu dizendo que perdido o optimista da juventude, vê como sentido da vida a busca da decência, o não nos envergonharmos a nós próprios, a resposta que um dia, todos teremos que dar, ao sermos transportados para sete palmos de terra: “ o que é que fizeste ao teu irmão?” CMC

Mais ou menos, o centésimo post 

Terminei, mesmo há pouco, uma viagem pela história do Desejo Casar, com particular atenção àquilo que eu próprio tenho vindo a escrever aqui desde o princípio de Junho de 2003, e confesso que tive algumas surpresas.
Em primeiro lugar, pela minha desnorteada contagem, este será, mais ou menos, o meu centésimo post. Não sei se é muito ou pouco, mas pensava que havia produzido mais. Por outro lado, o mais importante, pensava que tinha escrito melhor, mas esse já é outro problema. Escrevi muito mais sobre política do que imaginava e muitas vezes acorrentei-me aos acontecimentos da actualidade. Fui, também, mais agressivo do que alguma vez me pensei. E tive constantes desabafos e quedas na sinceridade, como quem, ainda que inconscientemente, se tenta desculpar pelo quanto vinha sendo diferente do que, até então, se acreditava.
Vi, quando olhava à volta, as apresentações e as despedidas de muitas pessoas, o puro e simples surgir e eclipsar de outras, e, de repente, o espaço de tempo entre as chegadas e as partidas era breve e este universo também já não me parecia tão longo como, amiúde, se foi afigurando no decorrer dos meses.
Aproveitei e espreitei, igualmente, o site meter e o mail. O mínimo que posso fazer, dado que bem poucas vezes respondi a quem nos escrevia, é agradecer-lhes a contínua atenção que nos dedicam e todas as palavras simpáticas que nos vêm oferecendo ao cabo de quase um ano.
Entretanto, é tempo de mais um adeus. O Tiago assumiu a sua condição de homem casado e mudou-se do desejo para a completude de um mundo perfeito. Mas mantém-se na vizinhança virtual.
Quanto a mim, dei um pulinho rápido às ilhas. Amanhã, dou uma entrevista e foi por isso que por aqui andei em pesquisa, à procura de coisas inteligentes que já tivesse dito para lá repetir.
Tenciono fazer história e ser o primeiro tipo a plagiar-se a si próprio.
Mas prometo fazê-lo com muito carinho.
AB

segunda-feira, março 01, 2004

www.mundo-perfeito.blogspot.com 

A única surpresa que este post pode ou deve causar é o meu regresso fugaz ao Desejo Casar. Passou-se mais de um mês desde a última vez que publiquei algumas linhas aqui. Tenho estado fora, o que não é desculpa. Tenho estado ocupado, o que às vezes é justificação. Mas, na verdade, contento-me em ler o DC.
Quero escrever e continuo a fazê-lo. Faço-o profissionalmente. E faço-o como amador. Às vezes, faço-o sem querer.
Como outros antes de mim, sinto que o meu percurso no DC chega ao fim. Simplesmente, porque apenas escrevi no DC quando senti a necessidade de o fazer. Agora, a minha necessidade tem outro alvo, porventura mais utilitário, mas também mais pessoal. O projecto que criei no ano passado, chamado Mundo Perfeito, tem agora um espaço na blogosfera. É nele que devo investir.
Aos meus companheiros de DC deixo um abraço e a promessa de permanecer um leitor fiel. Com algumas naturais infidelidades pelo meio. Imagino que estejam habituados.
Aos que me quiserem ler, mesmo que na diagonal, fica o convite: www.mundo-perfeito.blogspot.com
Tiago Rodrigues

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