<$BlogRSDUrl$>

domingo, janeiro 25, 2004

Cimento, logo existo 

Há dias, em declarações à Sic Notícias, acenando a Manuel Maria Carrilho, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa dizia mais ou menos o seguinte: "Não sou empreiteiro, mas sou político e de um bom político o povo espera obras, não espera filosofia."
O tom com que a frase é dita ajuda ao carácter definitivo e absoluto que a ideia nela contida procura ter, o que me recorda uma velha regra de vida, segundo a qual um disparate dito em voz alta passa por verdade. Neste caso concreto, não é difícil imaginar que, no jeito de herói injustiçado a que Santana Lopes nos habituou, se dita num congresso ou num comício, tal declaração arrecadaria, de pronto, uma imensa ovação ao público empolgado.
A verdade é que esta ideia encerra o pecado capital de que padece a política portuguesa: o de que o suposto pragmatismo da mesma se traduz em cimento e não em pensamento.
Não consta que Churchill ou Franklin ou Rousseau tenham andado em andaimes ou fossem habilidosos com o martelo pneumático nem que a grande muralha da China seja melhor obra que a Teoria da Justiça de Rawls. As revoluções liberais não foram feitas à custa de pontes ou castelos e a democracia não saiu da cabeça de um trolha. Se Lincoln foi mestre de obras também não há relatos e a Declaração Universal dos Direitos Humanos não terá sido escrita nos intervalos da construção de nenhum palácio.
O que Santana Lopes esquece, como a assustadora maioria dos portugueses, é que a política, a verdadeira pol?tica, a que muda alguma coisa para sempre, foi e será feita pela filosofia, pelo pensamento, pela compreensão dos problemas e pela capacidade de vislumbrar um caminho duradouro em direcção ao futuro. Já a política das grandes obras de betão está, se pensarmos a História, frequentemente associada aos regimes ditatoriais.
Muito mais que o conteúdo das emissões televisivas, que a desintegração das famílias ou que os maus programas educativos, é o esquecimento da necessidade deste organismo político pensante e a ignorância atrevida com que são tratados aqueles que mudaram o mundo que lançaram Portugal na profunda estupidez em que vive.
A quem concorde com Santana Lopes aconselharia a, nas próximas eleições, votar Somague.
AB

Hello again, naturally 

Num momento em que a blogosfera perdeu já o seu ímpeto inicial e parece condenada a ver sair, a pouco e pouco, alguns daqueles que dela fizeram objecto de dossiers na imprensa e debates nas estações televisivas, torna-se estranho regressar. Pergunta-se, com mais veemência, de que serve um blog, um post, o tempo despendido, a nossa opinião acerca do que quer que seja. Torna o pavor do monitor em branco e o receio de escrever um disparate imenso ou qualquer coisa que, simplesmente, a ninguém importe.
Mas as promessas devem ser cumpridas e, bem feitas as contas, fica sempre bem entrar em cena fora de moda, sem nenhum timing, contra o sentido de oportunidade.
Depois de quatro meses de exílio, volto ao Desejo Casar sem qualquer noção do que se tenha escrito entretanto, do que esteja quente ou frio, do que tenha sido já esgotado e daquilo que esteja mesmo na hora de ser dito. Talvez seja, afinal, a forma mais verdadeira de se postar.
O Luís Borges e o Hugo Rosa já saíram; a Inês e a Filipa entraram. A todos eles e àqueles que nos visitam, peço que me perdoem o silêncio e condescendam no fora de forma que devo estar. Qual jogador da bola acabado de chegar do Brasil, prometo apenas muito trabalho. Com a graça dji Deus, a gentxi vai consegui!
AB

sexta-feira, janeiro 23, 2004

À ESPERA DE GODOT  

Pedro Wilson, esse grande maluco, encena o clássico de Beckett. Os actores são Ricardo Baptista, Ana Paula Lopes, Filipa Violante e Henrique Gomes, a última brilhante fornada a sair do decano Cénico de Direito, que celebra os seus 50 anos de vida. O espaço é a mítica Sociedade Guilherme Cossoul e os dias são 23 - hoje -, 24, 29 e 30 de Janeiro; e 5, 6 e 7 de Fevereiro. Ainda por cima, os bilhetes são baratinhos que a retoma não chega.
Como diria Mickey Rourke para Kim Basinger: "Atão?! De que é que estás à espera?"

quarta-feira, janeiro 21, 2004

This is the new post 

Show items - e nada para mostrar
Show posts from this day - e este dia esconde-se atrás de outros que não conheço
Post and publish - como se os dois momentos se cindissem para sempre, como se fossem mãos que se largam debaixo do lençol
MR

Exorcismo musical 

A última edição do Blitz – que, diga-se, está bem melhor - traz o regresso de Miguel Esteves Cardoso à crítica de música – uma peça inspirada, que fala do seu respeito pela pop, dos seus erros enquanto jornalista musical (o facto de ter "ignorado" Chico Buarque, por exemplo) e que relembra que a sinceridade e a paixão são as palavras que melhor deveriam encaixar entre nós e a música popular. Senti-me de consciência pesada ao ler estas frases: "Graças à Internet e aos blogues, há toda uma nova geração com profunda vergonha dos gostos de há uns anos atrás. (...) Fingir que se passou a infância e a adolescência a ouvir os dois primeiros álbuns dos Velvet Underground já não pega nem sequer em Tashkent. Se a paixão é a alma da música Pop – na maneira como é feita e ouvida – então a honestidade absoluta é o único modo de falar dela". O MEC tem razão – ninguém começou a existir musicalmente a partir da adolescência. Por isso, assumo aqui e agora o meu cadastro musical – que conta com nomes como Huey Lewis And The News, Baltimora, Bros, Climie Fisher, Heart, T’Pau e Bon Jovi – e permito-me então regressar ao dia em que mandei vir da Contraverso o "Indie Top". Pronto, já me confessei. Agora já posso voltar a fazer elegias dos Wolfgang Press e dos Dinosaur Jr. NCS

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Cutileiro copy/paste? 

É o que dá escrever banalidades: mais tarde ou mais cedo, acabamos por vê-las repetidas pela pena de outro.
Em Junho do ano passado escrevi aqui um artigo chamado “O pior defeito dos portugueses”, onde dissertava sobre alguns dos “nossos” piores vícios, sem, no entanto, anexar um juízo laudatório ou crítico, relativamente ao poder político.
Na passada Terça-feira, o embaixador José Cutileiro escreveu um artigo no Público chamado “Culpas do Governo”.

Escrevo eu: O pior defeito dos portugueses é exigir dos outros aquilo que não exigem deles próprios. Os portugueses exigem tudo.
Escreve o embaixador: Nunca achamos que os males que nos aconteçam sejam culpa nossa e achamos sempre que tudo nos é devido.

Meu: A forma como o fazem, como assacam responsabilidades ao outro, é geralmente sempre a mesma: indignados.
Dele: E todos entendem que melhorar a sua sorte não é tarefa que lhes caiba - é obrigação de quem os governe.

Meu: Com as faces enrubescidas e as carnes intumescidas, o português grita, chora, lamenta, vocifera, espuma, gesticula, maldiz e meneia a cabeça para os lados em sinal de lamento, como quem diz, consternado, “Não há direito! Fazerem-me isto…”.
Dele: Entra o ano, sai o ano, sem reparar no que coma, no que vista, no que goze ou no que opine, toda a gente que eu conheça se queixa da vida que tem.

Meu: O que mais ofende o português, destacado em primeiro lugar na lista negra, é o Governo.
Dele: Continuando o Governo, bem entendido, a ter culpa de tudo quanto corra mal.

Meu: O português exige aumentos mas, sempre que pode, não paga os impostos.
Dele: Quem não trabalhe por conta de outrem, pagando IRS na fonte, evade afincadamente o fisco: industriais, comerciantes, advogados, médicos, engenheiros, declaram fracções exíguas do que ganhem.

Meu: [O português] Lamenta que o país não anda para a frente mas, sempre que pode, faz ponte, faz gazeta, mete baixa.
Dele: […]; descobri há dias que "estar de baixa" é visto como um bem em si por não se ter de ir ao emprego.

Meu: [O português] Chega contrariado ao trabalho, cola três pirilampos mágicos no monitor do computador, descasca cinco laranjas e joga paciências até à hora de picar o ponto.
Dele: Dele: [É preciso…] Chegar a horas, pagar impostos, cumprir a palavra dada, ter gosto e brio no que se fizer.

E o modo como ambos os textos terminam:

Meu: Como dizia John F. Kennedy, “Não perguntem o que a América pode fazer por vocês, perguntem antes o que vocês podem fazer pela América.”
Eu apenas acrescentaria: não se queixem daquilo que Portugal não faz por vocês, queixem-se daquilo que vocês não fazem por Portugal.

Dele: Tal como Jack Kennedy exortou os americanos, Durão Barroso deveria exortar os portugueses a não perguntarem o que é que o meu país pode fazer por mim mas sim a perguntarem o que é que eu posso fazer pelo meu país. Todas as manhãs, quando se levantassem da cama.

Eu também quero uma coluna no Público. LCA

PS - Ainda a propósito leiam-se os post do Ivan "Magalhães Démodé" e do Rui Tavares "Lá está ela: a lamúria da lamúria", no Barnabé.

This page is
powered by Blogger. Isn't yours?