<$BlogRSDUrl$>

sábado, janeiro 17, 2004

Life On Mars? 



Imagem captada no dia 10 de Janeiro de 2004 pelo robô Spirit durante um passeio pelo solo de Marte
RIS

sexta-feira, janeiro 16, 2004

A Pintura Islandesa Naturalista 



















Depois do périplo em torno da literatura e do cinema islandeses, brilhantemente analisados por REC e por RIS, não ficaria de bem com a minha consciência se não dedicasse aqui meia dúzia de linhas aos maiores expoentes da pintura islandesa naturalista do séx. XIX.
O que dizer da pintura naturalista islandesa? Muita coisa. Mas comecemos, por ora, por falar em Djörk Ölaffsön (pronuncia-se Djörk Ölaffsön). Este pintor genial cedo começou a dar nas vistas, já que o seu nome era o único na aldeia de Seydhisfjördhur que tinha seis pintas. Embora o seu grande amigo de infância Haljerk Öraekjön - um pintor menor mas de raro sentido cromático – tivesse somente quatro pintas no nome, Djörk numa deixou que duas caganitas de formiga fizessem a diferença na amizade que existia entre ambos.
A importância da obra de Ölaffsön na pintura naturalista islandesa é fundamental para melhor compreendermos a história da pintura naturalista islandesa. Sobretudo porque Ölaffsön é o único sobrevivente de um grupo inicial composto por 14 pintores naturalistas. Este grupo inicial, de que me abstenho de pronunciar os nomes, cedo se emancipou das rigídas convenções académicas da época, procurando outras formas de expressão pictórica que melhor traduzissem o seu amor pela estepe islandesa. Repudiados pelos seus pares na academia, que cultivavam o gosto ultrapassado por composições demasiado elaboradas e por temas retirados da literatura clássica islandesa (vide “Os Prazeres da Literatura Islandesa", REC), os naturalistas saíram para o campo à procura do efémero e do bucólico. A partir deste momento, Ölaffsön e os seus discípulos iriam beber todo o esplendor dos efeitos passageiros da luz, da cor e do motivo, no “plein air” islandês.
Dois meses apenas decorridos, o grupo abriu o seu próprio Sallon na pequena vila de Ísafjördhur (pronuncia-se Ísafjördhur), a fim de expôr os seus trabalhos que entretanto tinham sido recusados pelo Sallon oficial de Hafnarfjördhur. Varrus Hefnjökasön, o director da academia, ao observar uma das pinturas de Ölaffsön terá exclamado “Föhjdaçe”, baptizando assim o novo movimento que tanto desprezava.
A pintura “plein air” islandesa era sobretudo caracterizada pela quantidade de tinta branca que os seus expoentes utilizavam na produção de telas. Aliás, só se utilizava o branco na produção de telas. Quando Börrik Lafkysën utilizou pela primeira vez um tubo de tinta encarnada, foi imediatamente ostracizado pelo resto do grupo, que o acusou de se armar em börrik-esperto. A pintura ar-livrista da época dispunha apenas de três cores possíveis: o branco titânio; o branco de zinco; e o branco de chumbo. E, mesmo assim, o branco de chumbo era considerado demasiado arrojado por alguns dos seus membros. Recorde-se a este propósito o célebre episódio em que Vayjöfhur, utilizando o branco de chumbo para pintar o focinho de uma foca bebé, viu os seus colegas deixarem de lhe falar durante uma semana.
Depois de um longo inverno de seis meses, a técnica ímpar de Ölaffsön destacou-se dos seus pares e o genial pintor começou a ganhar fama no estrangeiro. Por esta altura manteve intensa correspondência com Claude Monet, onde dissertavam sobre o estilo rápido das pinceladas e os efeitos passageiros que a luz provocava no motivo ao ar livre. Inesperadamente, a troca de correspodência cessou em 1881, dado que Monet não percebia nada de islandês.
Um ano após o início do movimento naturalista ter literalmente dado os primeiros passos na paisagem islandesa, Ölaffsön era o único pintor do grupo que ainda se mantinha fiel aos princípios do “plein air”. Não que os restantes membros se tivessem desviado dos seus princípios, mas porque acabariam por morrer, a pouco e pouco, vítimas de hipotermia.
Ölaffsön, ao que tudo indica, terá dado ouvidos à sua mãe, enquanto saía para a rua com o cavalete e as telas debaixo dos braços: “Djörk, tu agasalha-te filho! Olha que estão 50 graus negativos lá fora!”.
Só pelo facto de ter sobrevivido, Djörk Ölaffsön terá o seu lugar de excelência reservado nos anais da pintura naturalista islandesa. LCA

PS – No topo do texto está reproduzida a obra prima de Djörk Ölaffsön: “Paisagem de inverno com glaciar, 1884”.

regresso ao estúdio 

(o meu pai, quando me apanhava a ouvir o “Loveless”, dizia que os My Bloody Valentine eram esquizofrénicos - e tinha toda a razão. Um amigo meu, a quem emprestei uma cassete de “Ecstasy And Wine”, pensava que havia um problema na gravação - e estava enganado. Aquele “noise” todo era produto do perfeccionismo do grande guru da maior parte das bandas presentes na compilação “Feedback to the Future” e de muitos grupos com som "indie" que por aí andam - Kevin Shields. Sabemos disso: para além de todos os diagnósticos e equívocos, os My Bloody ficarão na História como uma das bandas mais marcantes da música alternativa de guitarras. Uma espécie de anjos ruidosos e indolentes que conseguiram escapar ao controlo anti-dopping. Contaram-me que Kevin, depois de ter composto quatro canções para a banda sonora de “Lost in Translation”, voltou a reunir a banda num estúdio. Tenho as mesmas preocupações em relação ao regresso dos autores da obra-prima "Loveless" que o Pedro tem relativamente ao ressurgimento dos Pixies. Mas, ainda assim, com a ajuda de uma dose diária de utopia, espero que o resultado seja uma das concretizações felizes de 2004) NCS


quinta-feira, janeiro 15, 2004

A preceptora 

Depois de ler posts sobre cinema islandês, isto é um verdadeiro downgrade, mas lá vai... Hoje, em conversa com um amigo sobre escolas para os filhos, descobrimos que o melhor sempre é arranjar uma preceptora e ficar por casa - mas uma preceptora para nós. Quando tivermos trinta, tinta e cinco, vamos chegar à conclusão de que há imensa coisa que não sabemos, imensa coisa que não tivemos tempo ou paciência para ler... Nada melhor que arranjar uma preceptora, paciente e dócil, que nos entenda e nos ensine, com tempo e com dedicação. As crianças vão para a escola pública, para aprenderem a ser homens e mulheres de barba rija ou aparada. Nós ficamos em casa com a preceptora, a apurar o alemão, a redescobrir a geografia, a reler os gregos sem pressas. Este meu amigo, e agora colega de projecto educativo, é o mesmo que, há algum tempo atrás, me dizia que só devíamos dar aulas até ao dia em que deixássemos de achar piada às alunas, que depois estávamos velhos e já não valia a pena... Claro que lhe disse que melhor crivo era o dia em que as alunas deixassem de nos achar piada, que aí sim, estávamos mesmo acabados. Enfim, conversas de bar de faculdade... MR

Champagne Supernova 

(o reparo do Francisco Mendes da Silva ao meu texto sobre o Ryan Adams fez-me recordar uma passagem de ano em que ouvi um tema ‘épico’ dos Oasis; sim, nostalgia pura e simples)

Uma passagem de ano de há uns anos. Eu e o meu amigo Bernardo Rodrigues, aperaltados com um smoking à justa, de copo de champanhe ou de whisky na mão e prontos para ir muito nostalgicamente dançar o “Meu Amigo Charlie Brown” (como fazíamos quando tínhamos 14, 15 anos, empurrados pelo arrojadíssimo Pisang Ambon e pelo desejo de conquistarmos as debutantes). Lembro-me bem: a televisão estava ligada na MTV e uma das músicas escolhidas pela estação para o início do ano novo foi o Champagne Supernova, dos Oasis. Gesto automático: aumentámos o volume do monitor e erguemos os copos para as estrelas ao mesmo tempo que cantarolávamos o refrão vezes sem conta - “Some day you will find me/Caught beneath the landslide/in a champagne supernova in the sky”. Depois, bem, depois, acabámos de beber, endireitámos os laços e arrancámos, como os nossos pais e os nossos avós faziam, para o escorregadio território das danças de salão. NCS

Cinema Islandês: Um Fogo Intenso Dos Géisers 

Foi com grande entusiasmo que li o post do REC acerca dos «prazeres da literatura islandesa». Finalmente alguém fala da literatura islandesa! Uma das mais injustiçadas e esquecidas da Europa. Em Portugal, há sempre um anglófilo, um francófono, um germanófilo, agora um Islandófilo... Ninguém se chega à frente. Há muito pudor ainda, e basta ignorância, no que toca à cultura deste país.
Pena é que o REC, certamente por descuido, tenha omitido outra das vertentes essenciais da criação islandesa: falo, naturalmente, do cinema. A cinematografia islandesa é um géiser, uma potência branca e boreal. Uma estepe azul, percorrida solitariamente por alguns génios da sétima arte que, assim como os compatriotas escritores, se vêm sistematicamente ostracizados pela crítica e pelos espectadores do continente. É uma ignomínia afastar nomes como Tryggvi Guðmundsson, Hermann Hreiðarsson ou Lárus Orri Sigurðsson. Assim como não há castigo na terra para os que ignoram os mais recentes Arnar Grétarsson, Lorrus Trigvinsen ou o magistral Rekeijan Brublusson.
O REC não desconhecerá as sublimes adaptações de Nefariatta e Trypass Dil, verdadeiros opus que resgatam os textos homónimos de Brynjar Björn Gunnarsson e Helen Finnbogadottir – assim como estará ciente das colaborações de Gunnlaugur Thorsteinsson na transcrição para a tela da sua obra prima Acazia.
Sobretudo nos anos 60, quando surgiu o movimento Lagatrann, que se opunha ferozmente à nouvelle vague e ao cinema imperfeito, houve uma autêntica «cuspidela» saída da boca de Tryggvi Guðmundsson, com o seu 163 Pflamye, ou o escarro prodigioso de Arnar Grétarsson, com a sua obra de estreia Destruktion. À época, a crítica assobiou para o lado e fez de conta. Ignorou a pujança daqueles manifestos, em que o cinema reclamava o seu contacto com os deserdados, desviando-se porém dos miserabilismos neo-realistas. Era um cinema da força, da reunião, que se opunha às estratégias de fuga e aos artifícios (mascarados de sabedoria experimental e despojamento) de alguns realizadores brasileiros e franceses. Era um corte com o cinema clássico, mas no sentido de deslocar as temáticas e não apenas pelo banho formal em que então submergia grande parte da cinematografia europeia. O inesquecível Marrus, de Rekeijan Brublusson, será um exemplo maior de transladação. Filmando apenas os lugares e os objectos, e omitindo qualquer personagem de carne e osso (exceptuando os gatos), Rekeijan afirmava a sugestão, rejeitando qualquer discurso objectivo ou de proximidade. Assim, por aqueles lugares, pegadas, ou vestígios da presença humana, perpassavam as idiossincrasias de um povo, os seus ódios e os seus amores, sem que na realidade os víssemos. E nem precisávamos: no cinema de Rekeijan, assim como no dos seus pares, interessava, sobretudo, a reflexão e a nossa capacidade projectiva. Como se lêssemos um livro ou observássemos um quadro. Era um cinema despido, mas fulgurante como o gargarejar de um vulcão.
Finalmente, nos anos 80, emergiu esta nova geração, já rescindida do contrato Lagarann, e mais próxima de alguma cinematografia oriental e mediterrânica. Seria interessantíssimo aprofundar as intensas colaborações com alguns autores cipriotas e paquistaneses, sem esquecer as magníficas co-produções com a Eslovénia, a Eslováquia ou a Bielo-Rússia.
Que libelos extraordinários são aqueles Hamatampz (trilogia sobre afinidades), que aliaram os esforços de Lorrus Trigvinsen e do turco cipriota Ozmar Cavyan. Ou o indiscritível Quimerus (de Arnar Grétarsson), uma fábula que percorre o Norte de África e as desventuras dos irmão Saguian. Finalmente, será impossível não referir o espantoso Gibflingd Aup Poospoost e a sua falsa sequela Grimgramp Erflandgrist – que reuniu o génio de Taralhoko Trevic, da Eslovénia, e a visão oblíqua de Sampoor Erklast (a nova coqueluxe do cinema islandês).
Fica esta breve e leviana listagem, na esperança de que o leitor se espreguice, sacudindo as certezas cinéfilas que até agora possui, e se mova finalmente para esse território fascinante de pedra sulfúrica, onde pululam alguns glaciares mais quentes do que o meio dia em Rabat.
RIS

P.S. Seria também interessante abordar o «pensamento islandês» e as suas gloriosas produções no campo das ciências humanas e da filosofia. Mas neste campo não serei o mais habilitado, pois apenas tomei contacto com alguns volumes que o Bernardo Rodrigues me emprestou. Entre eles, o recente Tratado das Incompatibilidades Solares, por esse grande vulto chamado Teovór Grandlata.



quarta-feira, janeiro 14, 2004

música para Janeiro 

Wonderwall
Tenho seguido com interesse o percurso do músico que todos os dias tem de ouvir um trocadilho irónico com o seu nome: Ryan Adams. Devo confessar que não é a rockalhada que me interessa ali. São as canções, as canções tristes de songwriter inspirado e, por vezes, birrento. Não sabia que o mesmo se aplicava às versões que faz de músicas de outros. A recriação de “Wonderwall” (incluída em “Love Is Hell”, pt. 1) é simplesmente assombrosa. Noel Gallagher, ao ouvir o tema, deve ter partido a aparelhagem com uma cerveja.

Pale Saints
A compilação “Feedback to the Future” inclui, entre muitas outras bandas, os Pale Saints (“Sea of Sound” foi a canção escolhida para figurar nesta mostra de shoegazers). Apesar de ter muito respeito e afecto por quase todos os nomes aí presentes (os Ride e os Slowdive, sobretudo; bandas como estas modelaram a minha forma de sentir o mundo), não colocaria os Pale Saints nesse grupo de rapazes (e raparigas, no caso dos Lush) que tiravam prazer de misturar explosões sónicas com vozes cândidas. Os Pale Saints, os Pale Saints de “The Comforts of Madness”, uma expedição sem interrupções ao centro dos sonhos, são de outro patamar. Escondiam um segredo. Os subúrbios de Leeds estiveram, durante algum tempo, na agenda dos deuses. NCS

Os prazeres da literatura islandesa 

Fui introduzido nos prazeres melancólicos da literatura islandesa pelo Nuno, num destes dias, há uns anos atrás, quando ambos nos esforçávamos por terminar o curso de Direito e frequentávamos a mesma subturma, desterrada para as temidas “catacumbas” da faculdade, local soturno e esconso, propício a torturas medievais. Na nossa sala de aulas, cerca de trinta alunos travavam uma luta diária pelo privilégio de se sentarem nas cerca de quinze cadeiras e apreciarem o verdadeiro ambiente de um instituto de reinserção social (não sei porquê, seria das grossas grades?). Pormenor mais burlesco eram as duas enormes vigas, nos cantos traseiros, que constituíam o castigo máximo para quem chegava tarde, condenado assim a encará-las durante uma aula inteira sem qualquer possibilidade de contacto visual com o professor.

Foi neste cenário tristonho que o Nuno, num belo dia, decidiu abrilhantar a nossa apresentação de um trabalho sobre a poluição marítima (para a fundamental disciplina de Direito do Mar), com a citação de um poema do escritor Brynjar Björn Gunnarsson, em que este exortava os humanos a amar a natureza. Escusado será dizer que no final a nossa turma se levantou e aplaudiu durante largos minutos, comovida (e apesar dos anos que desde então passaram, nunca me irei esquecer do som da lágrima do nosso professor, ao embater no chão de pedra). Encantado com aquelas palavras, comecei a embrenhar-me nos mistérios da literatura islandesa. Devorei, naturalmente, as obras completas de Halldör Laxness (Prémio Nobel da Literatura em 1955) e saboreei os poemas bucólicos de Helen Finnbogadottir, essa grande poetisa, mas foi sobretudo Gunnlaugur Thorsteinsson, um dos mais conhecidos escritores na região de Skagafjördur, que me prendeu para sempre às palavras desta nobre ilha. Escritor controverso, Thorsteinsson foi perseguido pela Igreja Católica, particularmente pelo padre Geir Baldvinsson, da paróquia de Öxnadalsheidi, devido aos seus romances indecorosos, em que punha a nu a moral hipócrita da Islândia rural. Recentemente, obteve a merecida consagração internacional, ao publicar um dos seus contos numa antologia das Ilhas Faroé. Deixo-vos aqui um excerto do seu romance “Eyjafjördur, I ökvaylla son“:

Andur olhava para Ásgeir, filho de Thorgal Ingimarsson. Ásgeir também, enquanto tomava conta das ovelhas, lá no vale de Vesturdalur, verde e mais verde, até mais não o ser.
“Amo-te”, disse por fim,
“foge comigo”, acrescentou,
“que tal?”, perguntou.
“Oh, amor, bem sabes que não podemos, porque o meu pai, Ólafur Ingi Skúlason, me quer casar com Rúnar Kristinsson, filho de Kristin. Além disso”, acrescentou triste, “o padre Helgason acha que tu não és bom cristão e por isso viveríamos em pecado.”
“Quero é que o padre Helgason vá para o Kerlingarfjöll! Esse filho de um glaciar geotérmico!”
“Ásgeir!!!” Andur estava chocada. “Como é que és capaz de dizer um turpilóquio desse? Vais arder no inferno, sem quaisquer comodidades.......


REC


terça-feira, janeiro 13, 2004

mais notas 

1) A SIC-Notícias fez três anos. Dou os parabéns à SIC-Notícias pelos bons programas de informação e pelos documentários. Mas também aproveito para escrever, nesta altura de celebração, que o que se faz ali não é, muitas vezes, o serviço público que é proclamado nos anúncios. Não me parece, por exemplo, que seja serviço público perguntar a um filho de alguém que foi detido por suspeitas de pedófilia qual foi a primeira coisa que disse ao pai logo que o encontrou.

2) A Estranha Vida de Igby, de Burr Steers. Fui a conselho do João Miguel Tavares (numa crítica no DN) ver e recomendo. A tragédia da vida de um rapaz cercado pelas imagens de uma infância traumática e pelas iniciações da adolescência atravessada de diálogos sarcásticos e interpretações com rasgo (a de Susan Sarandon no papel de mãe afectada e distante, por exemplo). NCS


segunda-feira, janeiro 12, 2004

Wie Geht´s Mein Freund? (Danke Schon pela correcção ao ...) 



Heinrich Zille, ilustrador alemão, 1858-1929

Para o nosso REC, que deve estar a rapar um frio do caraças - força aí!
RIS

Farejar 

Já não faço isso há algum tempo – infelizmente, estabilizei. Mas fazia-o, quando descobri a blogosfera e quando o fenómeno (parece que foi há anos...) tomou de assalto a rotina de muitos portugueses que gostam de ler e de escrever. Farejava. Andava por aí a farejar.

Farejar é visitar blogs sem referência, sem nomes conhecidos, sem dicas de conhecidos. É visitar o link-do-link-do-link, nessa terra já perdida em que nos mapeamos pelo instinto e pela curiosidade. Bastava um nome inédito, invulgar – ou qualquer coisa que me tilintasse aqui atrás, e já estava - toca a farejar.

Farejar é quase sempre injusto, erróneo, leviano. É ler o primeiro post e o segundo, ou o primeiro e o segundo parágrafo de um post mais longo – e muito rapidamente julgar. Como num bar com muita gente, em que perpassamos dezenas de caras e nos detemos numa, duas, três (mesmo com a gula de abarcarmos mais de 20), detemo-nos nessa uma, duas, três.

Farejar é injusto, é imediato. É respirar rapidamente o texto e perceber se vale a pena. Se há fonética, se há rasgo, se há interesse. Se é mais um blog «político», por exemplo, o exercício é canibal – come-se apenas um dedo e já está: se há afinidade prossegue-se; se não há afinidade exige-se. Mas mesmo na afinidade exige-se, e se na forma não há algo que surpreenda, ou no argumento algo que mova, de nada serve continuarmos. Há muitos blogs, há muitas leituras.

Farejar é uma hipótese. Um tempo breve que se oferece, esperando a troca. Não se oferece quase nada, espera-se tudo. Lê-se depressa, engole-se sem mastigar, analisa-se. Tudo muito depressa, sem reparar se é mais que um a escrever, se só escreve daquilo, se escreveu melhor noutra vez. Aquele primeiro post ou primeiro parágrafo vale tudo, quando se fareja. Se não é conhecido, se não é avisado, tem de ser brutal - ou pelo tema excelente e extraordinário, ou pela prosa divina que logo nos cerca. Não há meio termo. Há centenas de blogs e pouco tempo. A oportunidade é escassa, injusta.

Farejar é o texto de contra capa de um livro ignoto.
E mesmo que a capa nos prenda (um template criativo, diáfano), o procedimento é igual:

«Dá-me já qualquer coisa, senão Adeus.»
RIS

Vá para Dentro lá Fora 

Um amigo meu, que trabalha em Londres, escreveu-me a dizer que acompanha diariamente o DC (bem como o Flor de Obsessão e o Gato Fedorento, entre outros). Para além da desilusão de saber que um amigo que não vejo há pelo menos um quilo de arroz tem o mau hábito de ler o que escrevo, fiquei também a saber que a blogoesfera, para quem está lá fora, pode ser um elo de ligação a este país. Como dizia o outro, em Portugal só se está bem no estrangeiro.
Um grande abraço Miguel! LCA

Piegas 

O Emílio ameaçou com uma lagriminha, caso eu abandonasse o DC. Eh, pá, não vale a pena! Eu não tenho um lenço, mas boto um link para o lamecha. LCA

This page is
powered by Blogger. Isn't yours?