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domingo, dezembro 14, 2003

Há que citá-los 

Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.

DANIEL FARIA


Cedo receamos a felicidade daquelas imagens
que reencontramos dentro de nós
e não se ligam a nada.

JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA
IFS

Há que dizê-lo 

Há que dizer o seguinte:
1. o DC é um blog colectivo, o que significa que a liberdade de cada uma das pessoas que aqui escreve não deve sobrepôr-se ao respeito tacitamente estabelecido entre essas mesmas pessoas;
2. as críticas devem ser bem recebidas quando se sabe quem as faz, de modo a não passarem por gratuitas e a permitirem uma resposta;
3. muitas vezes, quando se escreve na primeira pessoa (e quem não o sabe é que não devia escrever), não se está propriamente a narrar ipsis verbis um episódio que diz respeito ao eu que se expressa - de uma forma muito básica: quem conta um conto acrescenta um ponto e os blogs vivem essencialmente disso;
4. já o O'Neill, e repare-se que era o O'Neill, afirmava que a regra é a de cada um, o que é o mesmo que dizer que «critério» é sinónimo de «ponto de vista».

Há que dizer ainda o seguinte:
1. em relação ao ponto 1. acima referido, aconteceu o que não deveria ter acontecido;
2. em relação ao ponto 2. acima referido, aconteceu o que não deveria ter acontecido;
3. em relação ao ponto 3. acima referido, um bom exemplo para o que ali se diz é um dos posts criticados em que, mencionando a minha febre, me referi ao livro «Vermelho», de Mafalda Ivo Cruz: há meios que justificam os fins.

Que fique claro: não se enfia aqui nenhum barrete, mas, quando um mail que usa como exemplos posts concretos para construir a sua crítica, um mail enviado para o correio do DC, é revelado a todos os que visitam o blog (quer estes leiam tudo ou só o que lhes apetece; ao que me parece, ninguém aqui escreve em troca de uma esmolinha de atenção...), a eloquência que o silêncio poderia ter numa situação destas esvazia-se de sentido. IFS

title: new post 

quando é preciso recorrer às palavras
para dizer o que a mão diz quando não escreve
então as palavras são gestos a mais
que não fazem sentido

para quem me lê a mão e cala a boca. MR

arrebentaremos a boca a este gajo à hora que ele quiser 

ou
Onanismo - parte 3674

Quem vem aqui com uma certa regularidade já sabe que ando obcecado com o meu primeiro livro de poesia. Pois... é só para informar todos aqueles que não tiverem muito dinheiro para as últimas prendas de Natal que

"Mudaremos o Mundo depois das 3 da Manhã"

estará, enfim!, à venda - a partir de amanhã. Com destaque para uma significativa encomenda da FNAC que mudou radicalmente a minha impressão sobre o chauvinismo francês. E pronto! Calo-me com isto de uma vez por todas.LFB

onanismo, parte 2437 

Tenho o prazer de anunciar que o espectáculo "STAND-UP TRAGEDY", escrito por mim e pelo NCS, e com o Tiago Rodrigues na interpretação do ano, mereceu mais uma semana de exibição no Maria Matos. Acaba, assim, não este domingo mas sim no próximo, 21 de Dezembro.

espectáculos às 21h30 - na 4º, 5ª, 6ª e Sábado
e às 18h no Domingo.


Bilhetes grátis mediante concurso on-line - publicado no blog aqui do lado, primeiro da nossa lista de vizinhos. LFB

Deixo-vos com um post do TR,


Citação ou não

"Basta apenas uma mesma coisa para se ser um falhado ou um homem de sucesso: não ter medo do ridículo".

Ricardo Magalhães, humorista relutante

A oriente, tudo de novo 

Manuel António Pina e Álvaro Magalhães estiveram hoje no «Oriente», na SIC Notícias. Explorados (na medida em que os escritores o permitiram) os devidos universos - devidos e indevidos, que é como quem diz literários e pessoais -, ficou a ressoar no sítio onde algumas palavras sobrevivem o seguinte verso de Álvaro Magalhães: «A palavra solidão faz-me companhia.» IFS

metabloguismo 

6 meses depois - a primeira polémica interna a sério?

O Bernardo editou uma carta do leitor Francesco Louças (nome seguramente verdadeiro), e deixou alguns comentários que me levam a escrever sobre o assunto, na ansiedade de que - talvez - a minha resposta lance alguns casadoiros num debate interno.
Ora bem, edita BR a carta do leitor, uma crítica, e faz muito bem - as críticas são muitas vezes positivas e "Francesco", no caso, diz que falta critério ao DC. É, quase, a pura verdade.
Já o escrevi antes e continuo a achar que este blog construiu-se à volta de uma ideia fraterna de juntar amigos em redor da mesma mesa, e pela negação de alguns dos vectores aparentemente fundamentais a qualquer blog português digno de registo. A saber: o posicionamento ideológico, a discussão política, a busca pela polémica, entre outros.
A nossa riqueza sempre foi, a meu ver, a versatilidade das vozes que aqui se encontram - tão eficazmente ironizada pelo RIS, ainda há poucos dias, quando comparou o DC à "Torre de Babel", de Bruegel.
Acredito que, para quem cá chega, o DC funciona como, por exemplo, uma revista. O leitor pode escolher o que quiser nos items de um vasto menu: as opiniões do nosso opinionmaker de serviço, HR, as crónicas de costumes do LCA, os textos do nosso terno desterrado REC, a literatura quotidiana da IFS, etc.

Significa isto que a crítica que mais escutamos, não se consegue ler tudo, não faz qualquer sentido.

Não é obrigatório nem faz sentido ler tudo. Este não é um blog unipessoal. Os leitores lêem o que muito bem lhes apetecer. E dá-me ideia que (atendendo sobretudo à nossa caixa de correio), ao fim de 6 meses, muitos conseguem identificar os estilos pessoais de cada membro da equipa e escolher os seus preferidos. Julgo que é uma opção saudável e que só aumenta a boa competição interna: como somos muitos e todos queremos ser lidos, temos de nos esforçar.
O que me leva a outro ponto da carta de "Louças": basicamente, o de que não há coisas interessantes para partilhar todos os dias. Não há. Às vezes não há coisas interessantes num mês inteiro. Mas, e com o devido respeito, eu partilho aquilo que quero e você lê o que quer.
Outra questão a levar em conta é a de que somos o único blog que, desde o seu primeiro dia, nunca falhou uma actualização. Todos os dias se produz no DC e - esta é mais dirigida ao BR - às vezes cansa. Não tenho qualquer presunção de que todos - ou sequer metade, ou um terço - dos cerca de 200 posts que já editei neste blog tenham "qualidade", "importância", "critério" ou o que lhe quiserem chamar. E, se utilizo a primeira pessoa, é pela simples razão de gastar bom tempo dos meus fins-de-semana a vir ao trabalho postar para não deixar passar o dia blogueiro em branco. Ninguém me obriga a isso, é certo - mas foi um compromisso que assumimos e que procurarei honrar enquanto estiver por cá.

Nota final para uma crítica do Bernardo que, naturalmente, me toca. Quando ele diz que muitos utilizam o DC para fins pessoais, ingenuamente ou motivados pelos seus leitores e fãs, está seguramente a referir-se a duas pessoas. Recapitulo 6 meses de blogagem casadoira e creio que uma delas só posso ser eu.
Faço-o, sem dúvida nenhuma. Já me chamei "onanista do costume" e já me referi, com mais ou menos ironia, com mais ou menos sinceridade, a leitores e fãs. A questão é muito simples. Uso regularmente este blog para fins pessoais porque ele é meu. Como o é, em percentagens iguais, de mais 13 pessoas. Sendo meu, não recebendo salário nem tendo de obedecer a ordens superiores, escrevo sobre o que me dá na real gana e, por vezes, utilizo-o para promover coisas em que estou envolvido. Tal como o utilizei para promover o livro do meu irmão, o Cénico de Direito, os "Dez Regressos" do NCS, outros blogues, ou uma peça encenada pelo TR quando ele ainda nem fazia parte do DC. E continuarei a utilizar o DC para fins pessoais sempre que me parecer conveniente.

Suponho que a segunda pessoa a que a crítica do Bernardo se dirige, é ele próprio, que o fará, decerto, sensivelmente pelas mesmas razões. LFB

sábado, dezembro 13, 2003

Sara Baras enche São Luís 

O espectáculo do flamenco intriga-me. Sobretudo o facto de ver uma sala cheia e a vibrar com uma mulher que passa o tempo todo a dançar, sim, mas nunca se despe. E eu sempre à espera de um twist. LFB

sexta-feira, dezembro 12, 2003

A pólvora 

«O extraordinário da vida é a capacidade de certos seres para nascerem e morrerem conforme o amor que neles reina ou não.», Ruben A.

Assim acaba a vida: descem-se as ruas do cemitério
em busca de uma urna anterior à vida
que não faz tanta falta como aquilo que a faz viver.
E quando já nem as frases dos livros servem de legenda
aos ritos funerários, encontrados os restos,
fica-se por ali com a voz entalada entre a escolha da cor
das flores subjacentes à morte e o tipo de letra a gravar
nas chapas onde assinalamos que já nada havia que nos fizesse viver.
IFS

II- Mulheres no Mundo: Angola 

Contas feitas, no fim da guerra civil, dos 11 milhões de angolanos, 4 milhões e meio vivem hoje em Luanda, incluindo as mulheres que antigamente se ocupavam do campo e da agricultura. Em Luanda, as antigas camponesas e pastoras dedicam-se hoje ao comércio, negoceiam no mercado negro, são operadoras de uma bolsa muito rudimentar que transacciona nas ruas, fazem de tudo para arranjar um pouco de água e luz.
Dada a escassez de homens, as mulheres representam a maioria dos estudantes universitários, são professoras, até ministras e prolifera a poligamia. Seja em Moçambique, situação retratada pela escritora moçambicana Paulina Chiziane, ou em Cabo-Verde. Ou na Guiné, onde a poligamia radicada na religião muçulmana, a mais difundida, é mesmo acolhida no sistema legal.
A poligamia atravessa todas as classes sociais e torna-se mais difícil de suportar por mulheres instruídas, mais conscientes da submissão e de que há uma sociedade por mudar. Em Angola, fala-se de uma Luanda 1,2 e 3 para enumerar as mulheres de um só que homem. Casas onde a mulher é o principal, senão único, sustento dos filhos visto que para os homens, só um número entre 10 a 20 filhos, assegura um estatuto social invejável.
A gravidez precoce, ou seja, na adolescência, está seriamente difundida. Num programa da televisão angolana debateu-se a questão, com o seguinte chavão: " ela engravidou-se", problema e responsabilidade que, logo aí se vê, é da mulher.
É do último livro de (Ana) Paula Tavares, poetisa angolana, que transcrevo um poema cujo imaginário gira sobretudo, como sempre, em volta desta mulher que fica e do homem que parte, que nunca regressa ou que regressa outro, das cicatrizes da guerra e das perdas: "Esperei-te do nascer ao pôr do sol
e não vinhas, amado.
Mudaram de cor as tranças do meu cabelo
E não vinhas, amado.
Limpei a casa, o cercado
Fui enchendo de milho o silo maior do terreiro
Balancei ao vento a cabaça da manteiga
E não vinhas, amado.
Chamei os bois pelo nome
Todos me responderam, amado.
Só a tua voz se perdeu, amado,
Para lá da curva do rio
Depois da montanha sagrada
Entre os lagos".

CMC

Comunicação social 

Casos recentes como o da Casa Pia (cuja extinção foi sugerida pelo insuspeito António Barreto) ou o do suposto favorecimento pelo Governo à cooperativa gestora da Universidade Lusíada e agora transformada em fundação, sem que o Código Cooperativo preveja aquela figura, permitiram que se colocasse o dedo na ferida quanto ao mérito ou desmérito da comunicação social na denúncia de situações sócio-politico-culturais muitas vezes chocantes, algumas das quais se verificam ao longo de anos, sendo mesmo de conhecimento para-público. A questão que se coloca é se se deve elogiar o actual papel da comunicação social (que só os estados democráticos permitem), sobretudo da imprensa escrita e televisiva, quando traz à baila, isto é, às primeiras páginas dos jornais ou aos primeiros minutos dos telejornais, situações que envolvem práticas ilegais, criminosas, seja contra a determinação social, seja contra a honra, seja contra a integridade física, seja, enfim, contra o património. Ou, pelo contrário, deve a comunicação social ser condenada pela exploração que faz dessas e doutras situações, exploração essa sobretudo com aproveitamento económico, na dependência de shares televisivos ou de vendas de jornais.
A propósito, importa citar Mário Vargas Llosa, para quem «a abertura informativa é um facto político da maior importância, mas é também uma fenómeno cultural. Porque a revolução tecnológica no domínio das comunicações, para além de ampliar o poder e a vigência da liberdade, abre enormes possibilidades, sem precedentes na história, para difusão das ideias, da literatura, da ciência e das artes, isto é, para democratizar a cultura (...). É verdade que os grandes meios de comunicação audiovisual nem sempre assumem com a criatividade e o rigor devidos esse poder hipnótico que exercem sobre as suas enormes audiências, e que a maioria dos programas mais populares dificilmente pode ser qualificada como cultural. (...) Se a televisão e a Internet, em vez de enriquecerem a imaginação, o conhecimento e a sensibilidade, servem com frequência apenas para alimentar os apetites mais grosseiros e vulgares, é porque o público a quem se dirigem carece daquele mínimo de refinamento espiritual e estético que o deveria levar a rejeitar esses produtos repugnantes e a exigir melhores programas, de maior qualidade. Em todo o caso, o instrumento aí está, e de nós depende que os seus conteúdos melhorem e sirvam para nos enriquecer intelectual e civicamente, em vez de nos atrofiarem o espírito e o submergirem naquilo a que Flaubert chamava ideias recebidas, isto é, estereótipos e preconceitos.»
Convém acrescentar às considerações de Vargas Llosa que, por um lado, a referência a «produtos repugnantes» deve ser entendida genericamente, o que engloba alguma comunicação social, ou alguns elementos constitutivos da comunicação social. Por outro lado, a exigência de «melhores programas» deve ser também a exigência de melhor informação, sem que extensão ou quantidade implique qualidade (a recomendação vai, de resto, no sentido de limitar, por exemplo, a duração dos telejornais em cerca de trinta minutos). Finalmente, o escritor realça o papel da informação ao afirmar que os conteúdos devem servir «para nos enriquecer intelectual e civicamente», isto é, reclama da informação, mas também, em concreto, da comunicação social, o papel de grande zona de saber, de conteúdos, de área de aprendizagem. Vargas Llosa levanta implicitamente outra questão, que é, analogicamente, a de saber quem surge primeiro: o ovo ou a galinha? Por outras palavras, como saber se primeiro surge o interesse do público (que se confunde frequentemente com o interesse popular) pela informação/desinformação, a que a comunicação social tenta dar resposta; ou se primeiro surge, enquanto procura de espaço público cimeiro, no sentido de espaço televisivo, jornalístico ou de mero entretenimento, a oferta da comunicação social, a que o público adere por impossibilidade de obter outra informação.
Como refere Vargas Llosa, «o instrumento aí está». Resta, sobretudo, que a informação em geral e a comunicação social em particular não seja um fim em si mesmo, mas um meio ao serviço do público.
HR

Publicidade Enganosa 

A personagem contemporânea que mais comichão me faz no nariz, já de si comichoso, é a Avó Blanca. Se pudesse, dava-lhe um tiro. Se não pudesse, também. Desfazia-a a tiros de zagalote, com o batimento cardíaco de quem frita um ovo. Quando a bruxa, de sorriso solícito, aparece à soleira da porta e me espeta com uma garrafa de lexívia na cara, fico instantaneamente coberto de nódoas. A minha camisa faz"straap" e a mousse entorna-se na toalha.
A Avó Blanca devia ser internada compulsivamente num lar. De seguida, davam-lhe lexívia a beber. Por fim, num gesto de misericórdia - e se alguém me estiver a ler -, penduravam-na pelo pescoço num lençol amarelecido. O autoritarismo com que nos impinge lexívia - como quem anuncia a vinda do messias - é um autêntico insulto. Mas quem é ela? Porque não haveremos nós de andar com os guardanapos e os colarinhos manchados de surro? O direito à auréola de gordura é, sob todos os aspectos, um direito alienável e absoluto. Enfiar a septuagenária numa tina cheia de glutões seria uma benesse para a humanidade.
E como de boas intenções está o mundo cheio (atente-se como esta expressão, mesmo colocada fora de contexto, se encaixa perfeitamente na frase), afogava-se na mesma tina o casal Mon Chèri.
O que dizer do casal Mon Chèri? Deste casalinho em poliester, infelizmente, só conhecemos o nome da rapariga. É, como o leitor já deve ter adivinhado, a muito requisitada Cristina. Embora muitos possam achar que a moça se chame Cristina, na verdade, ela chama-se Crístina. A diferença está no modo como o pirosão do marido, momentos antes de calçar o sapatinho de quarto (vulgo pantufa), vocaliza a primeira sílaba do nome da esposa (vulgo mulher). Embora Cris- seja uma sílaba átona, passou a ser proferida - como que por obra e graça da Santa da Ladeira - como sílaba tónica (aquela onde se deve "carregar"). Aliás, grassa na nossa sociedade uma tendência pseudo-sofisticada para trocar as sílabas tónicas das palavras. Pegando na palavra vizinho, muitas testemunhas de crimes enfatizam a primeira sílaba (vi-), quando a pronúncia natural seria "vezinho", mantendo assim a tónica na sílaba -zi-. (Ex.: - Ó sr. guarda, eu sempre achei que o meu vízinho não era bom da cabeça. Não sei é onde ele foi buscar aquela moto-serra...) É como a palavra ministro. Ainda que muitos lhe chamem trafulha, a pronúncia correcta deverá ser "menistro".
O casal Mon Chèri é, em boa verdade, insuportável. Em primeiro lugar, ninguém oferece aos amigos bombons que se chamam "Meu Querido" em tacinhas de cristal. (E acho que não será necessário desenvolver este assunto em demasia). Bombons e rebuçados, quando muito, reservam-se para uma ida à ópera ou a um concerto e, no momento mais sublime da música, desembrulham-se metódicamente (durante uns três minutos), até a fila da frente começar a fazer "chiuuu!". Em segundo lugar, o apartamento Mon Chèri tem demasiadas sanefas. (NOTA: Alinhavar um texto exclusivamente dedicado a este pomposo acessório). Em terceiro lugar, deverá ler o ponto seguinte. Em quarto lugar, haverá algum marido, por mais chèri que seja, que descreva um chocolate do modo singelo como "O calor do licor e no meio a cereja inteira"? (Se o leitor respondeu sim a esta pergunta, não deverá, em momento algum, alistar-se nos comandos).
Se um amigo me estendesse um bombom e acrescentasse a informação "O calor do licor e no meio a cereja inteira", eu saltava de imediato pela janela. Nem cereja inteira nem meia cereja, caraças! Antes uma boa defenestração. Por outro lado, se uma amiga me servisse um bombom empregando a mesma fraseologia (recorde-se: "O calor do licor e no meio a cereja inteira"), a última coisa que me passaria pela cabeça seria comer um bombom. Não excluindo a possibilidade de me debruçar mais aprofundadamente sobre o assunto, levá-la-ia para um cantinho mais recatado...
E se o palonço do marido, em passinho de minuete, me tentasse impedir, dizia-lhe logo: - Também queres cerejas? Olha, vai pedi-las à Avó Blanca! LCA

Elephant 

Ontem, ao fim da tarde, fiz-me às estradas de Lisboa em direcção a uma consulta médica. Do Chiado a Telheiras demorei mais de uma hora, o que não teria sido assim tão penoso se não estivesse a arder em febre e dores de cabeça. Há sempre várias alternativas para nos entretermos no trânsito: ouvir música, se a dor de cabeça permitir que o rádio esteja num volume acima do 2 lá no conta-décibeis inventado pela empresa que fabrica os rádios acopulados aos automóveis; cantar, se a dor de cabeça permitir que o rádio esteja num volume acima do 2 lá no conta-décibeis inventado pela empresa que fabrica os rádios acopulados aos automóveis, de modo a que a voz do/a cantor/a se sobreponha à nossa; tirar apontamentos das ideias que nos surgem a partir da observação dos outros condutores que se entretêm a fazer aquilo que as dores de cabeça não nos permitem a nós fazer, se a febre não nos toldar o raciocínio e travar a articulação das palavras; telefonar ou mandar mensagens escritas a alguém, se os polícias, em vez de contribuírem para a fluidez do trânsito, não andarem a passar multas a quem está parado dentro do carro com o telemóvel nas mãos; olhar em volta, se as luzes natalícias não perfurarem, como toda a sua potência, a zona afectada pelas dores de cabeça. Preenchendo todos os impedimentos e sem conseguir congeminar mais nenhuma hipótese, acho que cheguei a sentir desespero, um desespero dramático, muito próximo do «odeio Lisboa, vou viver para o campo, dedicar-me à jardinagem e à agricultura biológica». E ainda ia no adro a procissão... Chegada ao Eixo Norte-Sul, lembrei-me de que tinha que virar na saída para Telheiras. Tinham-se formado, clandestinamente, quatro filas, nessa saída. Eu, que não distinguia um ângulo recto de um ângulo agudo, estava na segunda fila a contar da esquerda, sendo que deveria estar na única que andava - a da direita. Vai daí, como todos os condutores que desejam mudar de fila, fiz pisca, na esperança de que, no meio daquele caos, alguém tivesse acabado de sair da «Habitat» do Colombo e os cânticos natalícios que, «gentilmente fornecidos pela Fnac», tocam na loja, acompanhando os consumidores nas suas demandas consumistas, ainda ressoassem com tal força na mente e no coração de uma qualquer criatura ali perdida que lhe fosse irresistível a prática de um acto caridoso: deixar-me passar duas filas para a direita. Eis senão quando, na faixa do meu lado direito, um homem, num jipe enorme, abranda. Eu, como é óbvio, desloco-me para a direita. Mas não, não estava perante uma alma simples e caridosa, cheia de boas intenções. Era mais um diabinho saído desse inferno que está delas cheio. O senhor do jipe, aliás, o GAJO do jipe, afastou o seu enorme automóvel para a faixa mais à direita, a tal que seria a minha meta, e veio contra o meu pequeno carrinho. Foi de tal forma deliberado este acto que o retrovisor do lado em que me bateu, em vez de se virar para o lado de fora, como seria normal se este tivesse sido um choque normal, ficou recolhido, como se eu tivesse acabado de estacionar o carro no Bairro Alto e, não querendo ficar sem retrovisor, cautelosamente o tivesse recolhido. Mandou-me parar. Saiu do carro. Eu abri a janela, mais para lá do que para cá e sem pachorra para insultos, até porque dificilmente os ouvia - naquele momento, a febre já me afectava todos os sentidos. «Se fosses gajo, partia-te essa tromba toda!» + «Eu quero ver que estragos fizeste no meu carro, ó minha cabra estúpida!» + «Eu detesto pessoas que têm a mania que são mais espertas do que as outras! DETESTO! Ouviste?» + «O que é que fizeste ao meu carro, minha estúpida?». Pois é, mas o milagre aconteceu: aqui a estúpida não fez nada ao enorme jipe do senhor que mais parecia um touro enraivecido. Saiu-lhe o tiro pela culatra. Milhares de carros buzinavam atrás de nós, ali parados, numa saída do Eixo Norte-Sul. Eu não me dei ao trabalho de sair do carro. Espreitei, na medida das minhas possibilidades e das possibilidades do meu medo. Balbuciei umas coisas ao ritmo dos insultos dele, coisas parecidas com «calma, dores de cabeça, outra faixa, má fé, pois, não», palavras assim. Depois de ele ter regressado ao enorme jipe, eu segui para onde pude e dei por mim no parque de estacionamento do Carrefour, ao lado de um Fiat Uno branco de mil novecentos e troca-o-passo, onde um rapaz, completamente indiferente aos movimentos exteriores, queimava qualquer coisa. Avancei para o lugar da frente e tive pena do maluco do enorme jipe. Provavelmente foi maltratado durante toda a idade escolar. Não devia ser muito inteligente, nem bom com as palavras. Nem sequer devia ser bom a desporto (apesar de toda aquela corpulência) porque não se dava bem com os colegas de equipa. E quanto aos problemas com as miúdas... Que tipo de sensibilidade pode ter uma pessoa que não se comove com um olhar pálido e indefeso no meio do trânsito?! Ou mesmo, porque tenho que admitir as duas hipóteses, com aquilo que lhe poderia ter parecido uma loura burra no meio do trânsito?! Enfim, comprou um enorme jipe, ao qual acrescentou as maiores rodas disponíveis no mercado e no qual armazena todas as armas que até hoje conseguiu comprar pela internet. E ainda uma playstation para brincar com a morte sempre que chega a casa depois de assustar donzelas em perigo.
Perdi a consulta no médico. Liguei para o de família: «meio Lexotan, vitamina C e aspirinas.» Reitero - assim seja feito: a mais e a menos. IFS

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Vermelho 

O termómetro acusa febre. Curo-me com Vermelho, de Mafalda Ivo Cruz. São raros os dias em que a única coisa que consigo fazer é ler um romance. Como se o desperdício de tempo pudesse ser justificado por frases como estas:
«Mesmo a morte não chega a resolver nada de concreto. Mais tarde, com o tarde da experiência, com o cedo da solidão começamos a perceber a morte não como um fim, mas como uma longa separação que nunca acaba. E é nesse lento progresso que se torna a nossa vida, quando encolhemos os ombros a dizer que está longe, está mais longe e no entanto não acabou. Há uma substância, uma matéria do estreitar que fica ali, como o sol, como o frio, como as árvores.» (p. 178)
«Há qualquer coisa que nunca hei-de conseguir compreender no amor que é tanto da ordem da nostalgia sem objecto como da bestialidade. Sim, a utopia do desejo.» (p. 135)
«O que me fazia chorar era a tal nostalgia estranha que parecia ter nascido comigo como um veneno, e naquele momento talvez misturasse Deus com Tchaikovski e com as noivas defuntas. O disco parou no prato. A agulha voltou a subir com um estalido.» (p.137)
E o meu termómetro voltou a desejar febre para eu ter tempo para pouco mais do que isto. IFS

A Culpa é Nossa é o Caralho! 



Leandro Firmino da Hora (ou Zé Pequeno) instado a comentar as posições que defendem a repartição das culpas na actual crise iraquiana.
RIS

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Clap!tomaníaco 

Se um mundo acabasse amanhã à palmada, os portugueses eram o único povo que sobreviveria a um longo inverno apocalíptico. Portugal pode ficar em último lugar em todas as estatísticas e indicadores de desenvolvimento, mas é o primeiro em aplausos per capita.
Eu, de facto, não compreendo o que vai na cabecinha do português. Vive num país governado por lóbis, associações & sindicatos, as instituições do estado estão desacreditadas, a currupção é práctica banal, matam-se na estrada, não lêem livros, não têm ideias, repetindo tudo o que lêem nos jornais e na TVI, e passam a vida a dizer mal de tudo e de todos a toda a hora. E - pergunta justamente o leitor - o que faz o português para contrariar este estado de coisas? Bate palmas. Muitas. Ininterruptamente.
O português, quando bate palmas, não está apenas a bater palmas. Está a também a aplaudir. E - pode-se hoje afirmar com alguma segurança -, à mínima oportunidade, aplaude tudo o que apanha pela frente. Quanto pior for o espectáculo, o livro, o filme, o telejornal, a asneira e o molho do bife, mais ele oscila generosamente os braços.
O português é um autêntico predador das palmas. Só que, tal como as hienas, alimenta-se predominantemente de merda. Enquanto o autralopiteco demorou milhões de anos a atingir a posição bípede, o português, em meia dúzia deles, tornou-se palmípede.
Morfológicamente, o palmípede tem músculos que ligam as palmas das mãos à coluna vertebral, ao crâneo e aos pés. Quando aplaude, todo ele se abana e sacode. Tomemos, a título de exemplo, uma anedota do Fernando Rocha: à primeira *#!*lhada, já está a menear a cabeça, para a frente e para trás, como fazem os pombos a andar. À segunda, debate-se contra a força gravitacional que o prende à cadeira. À terceira já é atracção de circo.
Como se isto não fosse mais do que suficiente, ainda tira da manga as palmas sincronizadas. As palmas sincronizadas, embora mais subtis, tendem a acompanhar toda e qualquer melodia que se lhes toque ao ouvido. A versão sicronizada das palmas revela uma arcaica ligação sináptica que vai da palma da mão directamente ao ouvido, sem passar pelo cérebro. Se numa revista à portuguesa ouvir uma marcha, ele aplaude sincopadamente. Se o apresentador surgir ao som de um hino, lá vêm palmas ritmadas. Um rufo de tambores ao longe, quase imperceptível ao ouvido humano... palmas e mais palmas.
O problema do palmípede reside no facto de sovar as palmas das mãos, indiscriminadamente, a tudo o que mexa, sobretudo se medíocre. Paradoxalmente, acaba por se levar demasiado a sério. E isso eu não aplaudo. LCA

H 

Ontem, alguém por quem sinto certa inclinação despediu-se de mim tratando-me por "menino".

Já explico isso da inclinação; quanto a "menino", não sabia bem do que se tratava. Procurei ilustrar-me, como é evidente.

O que logo me veio à mão foi o Roquete, mais o seu "Diccionario dos Synonimos" de 1848, que tenho aqui para vos mostrar:

"«Menino» é o indivíduo da especie humana que está na meninice. A meninice (ao contrário da «infância») refere-se sempre à parte intellectual, e nunca á physica; é extensa, e pode comprehender toda a parte da vida do homem em que não estão desinvolvidas suas faculdades intellectuaes. O homem é «menino» até que por si proprio se forma um systema de conceber e de executar, e em quanto não chega este caso permanece na meninice".

Bem, bem. Assim excluído do conjunto desses não-meninos que sempre se regem por um "systema", não pude eu deixar de sentir-me muitíssimo elogiado.

Reforçou-se-me, aliás, aquela inclinação de que vos falei na primeira linha. É que também julgo ter surpreendido, nesse alguém que é destinatário de minha inclinação, um gosto menino pelo cafuné (nos três sentidos, incluindo o etimológico. . .), apenas muito disfarçado por trás de uma mascarilha adulta.

Na nossas vidas vai-se transitando para a idade adulta muito imperceptivelmente. É como se fossem tomando forma atmosférica, uma a uma, pequeninas gotas de uma ténue adolescência a que se não vai prestando qualquer atenção. Quando a final se olha derredor cerca-nos já a neblina cerrada de ser-se inelutavelmente um adulto.

Esse estatuto de "adulto" inclui, entre outras cláusulas não menos graves, as ridículas e obrigatórias pressas do quotidiano que logo implicam o adiamento das inclinações, e mesmo, ao fim de alguns anos, a caducidade das almas desusadas.

Num "menino", pelo contrário, a alma é livre de ter pressa, uma pressa impacientíssima e capaz de sobrepujar as obrigações horárias do "systema" de horas marcadas e preenchidas por que se regem os adultos.

Talvez minha inclinação seja muito de "menino", mas aconteceu-me invulgarmente. Talvez também seja meninice sentir saudades de alguém que conheci não há uma semana (e com quem estive, assim por junto, meia dúzia de horas frágeis). E pode essa meninice, assim à vista desarmada, confundir-se com alguma ingenuidade, ou mesmo com um princípio de loucura. Mas na correria da meninice não tem de haver rigor, e as coisas podem dizer-se muito depressa.

Para mais, farão os leitores a fineza de reparar que "adulto" é o particípio irregular do verbo "adolescer", particípio que foi desaguar no nosso comum substantivo por via somente de derivação muito imprópria. Assim, irregular e sem propriedade, "adulto" é um substantivo de genealogia esqualidíssima.

Já quanto a "menino", é certo que se não conhece perfeitamente a sua etimologia; mas mestre Cândido de Figueiredo não exclui que provenha de "mi niño". O que é bonito e, quem dera, pressagioso. LDA

À MANEIRA DE UN RITORNO D'ULISSE IN PATRIA 

Não, não é preciso mandarem matar o vitelo gordo.

Lembrete: O Bernardo e o Ricardo são-me devedores de vir cobrar-me o jantar que lhes devo eu. LDA

terça-feira, dezembro 09, 2003

Eles andam aí 

Chegaram os graus negativos, para acompanhar as noites pré-natalícias. É o período menos sexy do ano, em que homens feitos mostram sem pudor as suas imprescindíveis ceroulas brancas. Em que velhos sábios nos ensinam a teoria da cebola, aplicada às camadas de roupa necessárias para transpor a porta de casa. Mas também a época do ano em que muitas vezes o sol nos aconchega as manhãs. É verdade, já não chove desde meados de Novembro, o que sempre me fez apreciar esta época. Reminiscências da altura em que aterrei aqui, há uns anos. REC


Rectificação delgada 

Referi mais abaixo que Luís Delgado é o grande ideólogo da direita portuguesa. Pretendo rectificar.
Luís Delgado é o pequeno grande ideólogo da pequena grande direita portuguesa e da grande direita norte-americana, a que alguns chamam de extrema-direita.
Como pequeno grande ideólogo da nossa pequena grande direita, Delgado não perde tempo a arrasar a pequena grande esquerda portuguesa (para mim, hoje é tudo pequeno grande), e fá-lo com eloquente mestria, diariamente no DN e frequentemente na Sic-Notícias. Ainda com grande mestria, Delgado enaltece a direita portuguesa e lamenta não ter jantado perú com George W. Bush, presidente que este pequeno grande português muito preza, para além de todos os seus súbditos falcões, que decerto se atiram aos perus como aves de rapina. Onde se lê "perus" também se pode ler "petróleo" ou "petróleo no Iraque".
É por isso que o "W." de George Bush significa: "Whoa!, I sure like that Delgado guy! He should be Portugal´s Prime-Minister." Em boa hora George Bush abreviou o seu nome do meio.
Como se não bastasse, Delgado entende na perfeição o mundo financeiro internacional, a partir de Nova Iorque, e diverte-se a baralhar os seus leitores, quando escreve sobre grandes empresas portuguesas e estrangeiras e seus dirigentes, utilizando siglas como CEO ou CGO.
Como diria George W. (já sabem o que significa) Bush no seu inglês vernáculo, Delgado é um must.
HR

200 e tal mil 

Sim, meu caro Bernardo, somos 200 e tal mil pessoas. Há alguns anos atrás, cabíamos em dois estádios da Luz com terceiro anel. Visto nestes termos, é pouca coisa.
Daí até nos conhecermos todos, como disse na Sic-Notícias o grande ideólogo da direita portuguesa (Luís Delgado), vai um grande passo.
Eu, por exemplo, conheço uma pessoa do Corvo, duas das Flores, quatro da Graciosa, 5 do Pico, 10 de S. Jorge, 25 de S. Miguel, 67 do Faial, 1326 da Terceira e nenhuma de Santa Maria. E pouco mais.
HR

Governossauro-Rex 

Há já uns tempos que andava no "vai não vai" para dar um pulo ao Museu do Instituto Geológico e Mineiro, à rua da Academia das Ciências, em Lisboa. As duas exposições temporárias acabaram por fazer-me levantar do sofá - local onde me encontrava desde o Verão. Uma era sobre Paleopatologia (relativa, como todos sabem, às doenças pré-históricas) e a outra sobre os achados fósseis de elefantídeos, em particular os mastodontes.
Foi aí que pude constatar a pertinência e o interesse que exposições versando sobre Paleopatologia e Mastodontes podem suscitar no público português: eu era o único visitante do museu.
A certa altura, decidi tirar uma dúvida que tinha sobre uma das exposições. Por entre telefones que tocavam em salas longínquas e técnicos de bata branca a correr de um lado para o outro, decidi interpelar o primeiro que me passou à frente. Era o director do museu. Apresentei-me e expus a minha dúvida. Ele foi atencioso e cordial - apesar do telefone a gemer ao longe - e rapidamente entabulámos uma conversa amena. E foi durante a conversa que, para espanto meu, fiquei a saber que - tal como as ossadas polidas de sáurios antiquíssimos - também ele estava extinto. O Governo, contava-me ele, tinha extinto o museu e por isso andavam todos num alvoroço desaustinado, de um lado para o outro rangendo as botas, como fazia o moço da tipografia à porta do Eça.
Estavam todos extintos. Os mastodontes, os brontossauros, os gonfotérios, os homens das cavernas, a senhora dos bilhetes, o director, os arqueólogos de bata branca e a empregada das limpezas. Até o balde com lexívia estava, com toda a probabilidade, extinto. Se uns o eram por causa de cataclismos naturais (vulcões, rios de lava, meteoritos, sobreaquecimento do planeta, etc.), outros o eram devido a catástrofes governamentais (desprezo pelo património, congelamento de fundos, ausência de ministro e de política cultural, etc).
As colecções do Museu foram reunidas ao longo de 150 anos e englobam exposições permanentes de mineralogia, arqueologia, paleontologia e estratigrafia, numa viagem pela história e pré-história desse território que se espapa à beira atlântico, e toma hoje em dia - como dizia Eça de Queiroz - o nome desacreditado de Portugal. LCA

MUITO PIROSO 

«Vamos fazer do Benfica o maior clube do mundo.»

Luís Filipe Vieira

HR

PIROSO 

Vamos fazer do Benfica o maior clube do mundo.

HR

NÃO PIROSO 

«Hearts + Flowers
A picture of what a love should be»

Lamb (Lou Robinson/Andy Barlow)

HR

PIROSO 

Hearts + Flowers
A picture of what a love should be

HR

NÃO PIROSO 

«Haja o que houver há sempre
um homem
para uma mulher
E há de sempre haver para esquecer
um falso amor
E uma vontade de morrer
Seja como for há de vencer o
grande amor,
Que há de ser no coração
Como um perdão para quem chorou»

António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes

HR

PIROSO 

Haja o que houver há sempre
um homem
para uma mulher
E há de sempre haver para esquecer
um falso amor
E uma vontade de morrer
Seja como for há de vencer o
grande amor,
Que há de ser no coração
Como um perdão para quem chorou

HR

Por aí, entre um pedaço de hamburgo ...  

Regressado de fresco de vários dias de viagem, a dar abraços a amigos espalhados pela Europa fora, volto a sentir o prazer de me sentar com os olhos à frente do computador, a ler a evolução do mundo via blogolândia. Aproveitei a profusão de companhias aéreas alemãs, envolvidas numa luta de preços que envergonham os bilhetes da viagem ferroviária lisboa-porto, e comecei por visitar o norte alemão, com paragem em Hamburgo, a cidade mais portuguesa da Alemanha. Constatei com orgulho que a bica e o pastel de nata nas muitas pastelarias “Maria”, “Trás-os-Montes” e “Lusitânia” estão a dar que falar na cena dos jovens criativos hamburgueses. O que para uns constitui uma experiência exótica e reveladora do espírito multicultural, foi para mim a reconciliação das papilas gustativas com os sabores mais tradicionais da minha terra (pois, pois, os obrigatórios saudosismos dos exilados). Acabei por não conseguir concretizar o sonho de ver um jogo do clube mais carismático da Alemanha, o FC St. Pauli, que tem fortes tradições no meio anarco-punk-esquerda chic da cidade. Com um presidente conhecido pela sua carreira como travesti nos cabarés mais famosos da cidade, o clube luta por preservar o seu carácter idealista no duro mundo do futebol profissional. Actualmente está na terceira divisão, mas ainda há 3 anos atrás, tinha conseguido subir à primeira onde chegou a ganhar ao poderoso Bayern de Munique, facto que permitiu a muita gente sonhar que um mundo melhor era possível. Mas os jogos estão sempre esgotados e parece que o mito, iniciado nos anos 80 durante as lutas entre ocupantes de casas e a polícia no bairro homónimo, ainda continua a seduzir. Mas ao observar os espectadores, todos vestidos a preceito com as t-shirts pretas com uma caveira, também é evidente que esta coisa dos mitos acaba sempre por atrair muitos seguidores da moda. REC

... e uma pitada de barcelona 

Continuei para Barcelona, para festejar os anos de um grande amigo lisboeta que acabou de se mudar para lá. Por trás da Plaça Reial, mesmo no coração da parte antiga da cidade, vivi a sequela do filme “Albergue Espanhol”, num grande apartamento partilhado por várias nações, mesmo ao lado do prédio onde nasceu Joan Miró. Fui descobrindo aos poucos a cidade, engolido pelas vielas do Bairro Gótico, saboreando as cores dos mercados, dobrando esquinas escuras para encontrar pracetas cheias dos gritos de miúdos com as camisolas do Saviola a fazer malabarismos com a bola. Barcelona é intensa, rápida, cheia, as pessoas berram, não falam, e apenas já de madrugada se consegue ouvir os próprios passos no regresso a casa. Muita se fala dos “nossos irmãos”, mas a verdade é que o espanhol (ou catalão) pouco tem de semelhante com o português. A expansividade de uns contrapõe-se a uma introversão e calma de outros. Assim, Barcelona impede um certo recolhimento, não é cidade para apreciar em longos passeios bucólicos com as mãos atrás das costas. Pelo contrário, partilha connosco a sua energia, a sua vivacidade. Ao pé do antigo bairro de pescadores Barceloneta, apreciei voltar a ver o mar e lá em cima, em Montjuic, o burburinho da cidade. Vi homens-estátua, vendedores de passarinhos nas ruas, muitos turistas, o palácio da música catalã, gaudísmos e modernismos, o cortejo fúnebre do copito de nieve, grupos de alternativos esquerdistas a engolir fogo, casas milà, ouvi os sons catalães, pablo casals, e deixei-me ir, segui a multidão, a falar alto.... REC

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Olha, Daisy... 

- Mas, afinal, o que é que a Avó tem?
- Está doente, minha querida, são os anos.
- Raios partam o tempo e quem lá ande! IFS

Balanço 

Durante os sessenta minutos em que estive, durante a semana passada, sentada em frente à televisão foram-me fornecidas as mais preciosas informações. Estou grata por esses momentos. E, por isso, aqui fica a amostra do tecido informativo português:
- «Humanos são quimicamente dependentes do amor», em rodapé durante o telejornal da SIC;
- «Se não tivesse nascido homem, queria ter sido bola.», Pélé, em entrevista a Judite de Sousa no canal 1 ou coisa que o valha;
- «MDMA é uma fantasia ao quadrado», frequentador de uma qualquer discoteca do Norte do país, entrevistado para o programa Dance TV, na SIC Radical;
- «A equipa sabe que vai ter que ganhar e, para ganhar, vai ter que recuperar a bola nem que coma a relva.», Fernando Santos, prestando declarações à NTV (ou RTP) antes de um jogo qualquer. IFS



mad about mari(o) 

Este fim-de-semana, olhando episodicamente a televisão ao longo dos três dias, acabava por ouvir sempre a mesma expressão e ver a mesma cara distorcida. No meio da tragédia, da violência, da incredulidade, não conseguia evitar o sorriso nervoso quando alguém dizia, do outro lado, "é um costume, os açorianos são doidos por orgias...". A frase, no contexto em que é dita, com o desalento, o sotaque, o destino que carrega, é a mais violenta que tenho ouvido nos últimos tempos. Não é o céu que lhes cai na cabeça, é o mundo que se lhes parte debaixo dos pés. "Os açorianos são doidos por orgias" - queria fazer a piada, mas não consigo. Agora, treme-me um bocadinho a mão e a boca. Mais tarde, talvez. MR

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