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domingo, novembro 23, 2003

Sobretudo isso 

«Sei bem que não mereço um dia entrar no céu
Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra.»

DANIEL FARIA

IFS

domingo à tarde não se pode esquecer que é domingo à tarde 

Domingo à tarde na FIL. Três exposições. O magnífico "Salão Imobiliário 2003" parecia a feira de emprego de ornitólogos de Coruche. Teria quinze visitantes? Talvez. Eu, como ando à procura de casa, como me acontece mais ou menos de seis em seis meses, fui lá. O maior "stand" era o da Câmara Municipal de Lisboa, com uma maqueta da cidade enorme e cartazes em inglês com erros ortográficos. Descobri também que não me apetecia viver no Vale de Santo António, um lego monstruoso de habitação social que virá a estar pronto em 2127. Noutro stand, da EPUL (continuamos na Câmara, portanto), um senhor ficou com os meus dados pessoais, para supostamente me avisar quando começarem a comercializar mais umas casas (não no Vale de Santo António). Isto deve ser uma coisa mais ou menos secreta, pelo ar dele, e eu assumi o mesmo look conspirativo enquanto lhe dava o meu número de telemóvel. Fico à espera que o Sr. Q me ligue um dia.
Passei pelo "stand" da novíssima Marina de Albufeira, que tinha uma grande fotografia aérea da coisa e um casal a ouvir a explicação maternal da menina do deck. Estive para lhes dizer que aquilo era mentira, porque estive lá ontem, em Albufeira, provavelmente no mesmo sítio de onde a foto tinha sido tirada e em vez da meia dúzia de casinhas amarelas e vermelhas que se viam ali existiam era dez blocos de betão com andaimes e ar de que iriam acabar em 2078. Mas não quis estragar a tarde a ninguém.
Vinte minutos bastaram, portanto. Depois fui até à Arte Lisboa, que sempre tinha mais visitantes e era mais divertida. A arte contemporânea se não faz sorrir não presta. Arrancaram sorrisos um Jesus Cristo que transmitia um jogo de andebol televisionado no peito, uma gaiola com passarinhos e um 727 da Lufthansa e uma Samsonite com um pé de fora.
Na saída, passei pela Feira do Livro. Nas feiras do livro, ao contrário do que me acontecia há uns anos atrás, já não compro tudo o que me aparece à frente. Estou a ficar criterioso. Vim de lá só com duas magníficas obras. Pelo caminho, deixei, por exemplo, a "Cozinha fácil em microondas" ou os "Prefácios" de Hegel. Veio a Hannah Arendt, ficou a Maria de Lurdes Modesto. Para o ano, trocam, que isto tem de dar para todos.
E, no próximo domingo, vou tentar o parque de exposições de Chefchaouen, que não só é mais animado como se compram coisas muito mais úteis. MR

Friendly Fire 

Um jantar com uns amigos relativos antecedeu a estreia do Stand-Up Tragedy- produção da casa que muito se recomenda.
À mesa um relativo assegura-me que é rapaz muito fácil. Os requisitos mínimos que exige de uma mulher são: 1)- ter a barriga menor que o peito, 2) ter os ombros menos estreitos que as ancas. Basta-se, portanto, com tudo o que mexa.
Ora se aplaudo a testosterona ao nível de um Pipi, deploro a falta de selecção daqueles cérebros. Critérios masculinos? Os mesmos da pré-história. Mulheres, para quê rivalizar? Um dia querem a Lady Di, no outro dia, a Camila. CMC

AMEAÇA 

Três. Uma, duas, três. Fui três vezes à Segurança Social pedir que me enviassem para casa uma carta que me permita pagar o que devo (imaginem o que isto significa em termos de tempo de espera em salas apinhadas). Uma confissão grave: à terceira, subornei um segurança. Teve de ser. É feio, não se faz, eu sei. Não me crucifiquem. Subornei-o com palavras amáveis - com as palavras mais amáveis que consegui achar no momento e ele deixou-me chegar à fala com a responsável pela minha categoria. Permitam-me o exagero juvenil: foi dos momentos mais felizes da minha vida. Depois de, tomada por uma euforia inesperada, me ter informado que tinha acabado de receber o meu "caso" , a senhora prometeu que iria enviar tudo logo, logo que o sistema informático se recompusesse (aqui está a novíssima desculpa para o atraso dos serviços). Não recebi nada até hoje. Estou nisto desde Fevereiro. Acabou-se o tempo das delicadezas de café tipo "era a continha, se faz favor". Nunca pensei escrever isto: eu quero receber uma carta do Estado. Eu quero receber uma carta do Estado com uma conta de alguns zeros para pagar. Digo mais: ou me mandam isso na segunda ou o terrorismo vai conhecer uma nova causa. NCS

«A literatura é uma arte/ escura de ladrões que roubam a ladrões» 

Às vezes, eu, que duvido tanto, enfrento e aceito a maior das evidências, uma evidência que me diz respeito e que me sabe bem, apesar de, de certa forma, me atormentar. «Reacção infantil» talvez seja a expressão que melhor traduz o fenómeno. Das últimas vezes que a «reacção infantil» tomou conta de mim estava em público, na Fnac do Colombo, com o último livro do Manuel António Pina nas mãos. Sabia já que o livro ia sair, sabia já quase tudo o que se pode saber sobre um livro, mas aconteceu o mesmo que acontecia quando, aos 7 anos, no meio dos desenhos animados, passava a interminável sequência de anúncios sobre as mais recentes novidades do sector infanto-juvenil. Fiquei tão entusiasmada que peguei logo em dois e começaram todos a cair, os do Manuel António Pina e os outros todos em volta. Ele era José Agostinho Baptista a voar, Manuel de Freitas no chão e mais uns quantos que ainda não comprei a ostentarem o facto à medida em que caíam - um por um. A verdade é que sou filha da sociedade de consumo. Aliás, sou uma respeitável vítima da mesma. E, se não compro livros e discos, fico deprimida. E quando estou deprimida, a cura passa por comprar mais livros e mais discos (cf. algumas das reportagens dos telejornais dos últimos dias, que têm dedicado peças de 10 minutos ao tema). Mas há, sem dúvida, uns livros que sanam melhor a ferida, tal como as Barriguitas sempre foram melhores confidentes do que a Barbie. «Os livros», de Manuel António Pina, é um desses livros. É um livro belíssimo, equilibrado, que retoma os temas recorrentes da poesia deste autor, demonstrando, mais uma vez, como o poema pode de súbito transformar-se numa dupla reflexão sobre a condição poética e sobre a condição humana. Estão ali, num só livro, todos os livros: os que o poeta escreveu e os que o poeta leu (e ler acaba por ser uma outra maneira de escrever), mesmo que, no fundo, tudo se reconduza à exemplaridade, a um paradigma, cuja inexistência ganha relevo ao ser permanentemente questionada. Acho possível afirmar que este é um livro de poesia que, mais do que defender, acolhe uma tese, uma tese que lhe é inevitavel dada a sequência em que se integra. Livro sobre livros, pode inclusivamente funcionar como balanço poético, como se o poeta reescrevesse secretamente a sua obra. Afinal, «Tudo isto é antigo e repetido.» Aqui fica um exemplo:

O grito

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;

e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra ?cerejeira? ainda em carne na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração..

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

IFS

sábado, novembro 22, 2003

Relato de um concerto por uma ignorante musical 

Bobby Hutcherson é californiano, tem 62 anos e é vibrafonista. Eu sou portuguesa, tenho muito menos anos do que ele e não sabia o que era um vibrafone até hoje. Porque hoje recebi uma prenda: um bilhete para o concerto de jazz que o Bobby Hutcherson Quartet acabou há umas horas de dar na Culturgest. Quatro músicos, quatro instrumentos: o tal vibrafone, comandado por Hutcherson; um piano; um contrabaixo; e uma bateria. Percebo muito pouco de música. Para grande parte das pessoas que assistiram ao concerto, não percebo mesmo nada (percebi-o pela erudição dos comentários à minha volta). No entanto, gosto muito de música e saio sempre feliz dos concertos a que vou. Foi exactamente isso que aconteceu esta noite. E fiquei surpreendida, porque a minha ignorância musical aumenta significativamente se a música em causa for jazz. Não percebo nem quando nem como quatro pessoas a tocarem instrumentos diferentes improvisam sem tornar tudo aquilo atonal. Mas hoje o concerto foi de tal modo soberbo que consegui sair de lá não só feliz, como também reconfortada: a minha ignorância relativamente ao jazz pode ser camuflada. De que forma? Seguindo as expressões faciais dos músicos (o que me lembra que desejo escrever sobre a extraordinária interpretação do TR na estreia de «Stand-up tragedy», principalmente sobre o magnífico momento em que simula as expressões faciais do riso e elas são simultaneamente as do choro, da angústia). É certo que o meu plano dependerá sempre dos músicos, mas, sendo que os de hoje eram muito bons (não sou eu que o digo, apesar de ignorantemente o subscrever), podem servir de modelo. Há ali uma cumplicidade desconcertante que lança os sons de um instrumento para o outro como se todos tocassem tudo. Cheguei a ter a ilusão auditiva e óptica de olhar para o contrabaixista e me parecer que eram os sons do piano que ele comandava.
E lá estava eu encantada, a perceber quando é que um deles teria direito ao seu solo, quando é que dois deles recomeçariam a tocar ao mesmo tempo, quando, de repente, aconteceu o inevitável. Comecei a associar tudo aquilo a poesia. Não só as músicas me reconduziam a poemas específicos, como todos aqueles sons possuiam o mesmo poder metafórico da linguagem poética. Bem sei que em toda a poesia há uma espécie de desejo de retorno à dimensão perdida e, por isso mesmo, mitificada do Silêncio. Só que ali foi exactamente a ausência de silêncio que despertou as associações poéticas. Cada som (e não creio que esta impressão tenha tido origem na minha obtusa inaptidão musical) funcionava como uma palavra num poema: remetia sempre para um qualquer indizível significado. Acrescentando a isto as já referidas capacidades performativas dos músicos, aconselho a todos os que perderam este concerto umas pancadinhas com a cabeça nas paredes. O contrabaixista e o seu contrabaixo eram um todo osmótico, como se aquele homem não fizesse sentido sem aquele instrumento. O baterista dominava as técnicas do malabarismo. A pianista deixava transparecer uma enorme capacidade de ler as reacções dos outros músicos. E o caro Bobby, com aqueles pauzinhos cuja terminação é uma bola branca e dos quais eu não sei, obviamente, o nome, transmite tudo aquilo que eu vou gostar de sentir aos 62 anos. Mesmo quando saía de palco e o vibrafone ficava em silêncio. Era um silêncio produtor de significado, o que, afinal, pode provar que tanto a música como a poesia possuem o mesmo centro mítico. Sendo ou não assim, uma coisa ficou para mim mais do que provada: que tudo acaba e começa sempre pela música e pela poesia. IFS

sexta-feira, novembro 21, 2003

A terceira casadoira 

Sou a terceira casadoira, gosto... mas não deixo de ser também a 13ª - como, aliás, fez o LFB questão de assinalar- a contribuir para que "este não seja um blog maricas".
Aviso já que, a partir deste momento, desejo arduamente casar...

um beijinho ao Luís, sem ele nunca teria conhecido este estado. FVO

este já não é um blog maricas! 

Ou muito me engano ou a terceira "casadoira" está prestes a entrar... LFB

quinta-feira, novembro 20, 2003

Os pescadores da meia-noite 

Um destes sábados fui de cacilheiro a Cacilhas jantar feijoada à brasileira no " Atira-te ao Rio", ao som de Chico e Caetano. Não estranhei a quantidade de góticos e góticas que embarcaram comigo estranhei, sim, no desembarque, um punhado de pescadores que ali fazem serão. À chuva e ao vento, à espera que o peixe-mutante lhes bique o anzol. É uma bizarrice digna de guiness. E que dirão as mulheres dos pescadores da meia-noite? CMC

quarta-feira, novembro 19, 2003

Problemas do indizível 

As sensações indescritíveis são normalmente lugares comuns. Como escrevê-las? «Com que palavras e sem que palavras?» IFS

dúvida breve 

será que uma coisa chamada "penal code" pode ser aplicada a uma coisa chamada "michael jackson"? MR

taxi driver 

A notícia de que uns quantos motoristas de táxi da praça do aeroporto de Lisboa foram detidos e constituídos arguidos por cobrarem valores excessivos parece ter causado grande escândalo na classe. Ainda bem que afinal são casos isolados. Ainda bem que a generalidade dos taxistas, em especial os do aeroporto, não fazem isso. Ainda bem que poderemos agora continuar a ter a confiança de sempre nos taxistas, esses amigos honestos, prestáveis e educados.
O problema deve ser meu, que tenho muitos amigos estrangeiros. Os mesmos amigos que quando chegam ao aeroporto de Lisboa e eu não posso lá estar pagam 40 euros do aeroporto para o Marquês. É mais do que custa uma ida e volta entre Londres e Dublin, só que de avião. Os taxistas de Lisboa não alinham no "low cost", no "light". Fazem bem. Um serviço de primeira deve ser bem pago.
E as facturas/recibos? O esgar prazenteiro que fazem os taxistas quando são pedidas deixa-nos bem dispostos para o dia.
Houve uma fase da minha vida em que andava muito de táxi. Era sempre um prazer. No meu primeiro dias de aulas na Faculdade de Direito, apanhei um táxi. Estava atrasado e nervoso. Quando indiquei o destino, ouvi "ah, vai para a faculdade dos aldrabões...". Nesse mesmo dia, no regresso, apanhei com um taxista que esteve a viagem toda a tentar vender-me um carro. O seu. Um Opel Ascona com quinze anos de táxi em Lisboa, mas que, naturalmente, estava óptimo. Noutro dia, viajei num táxi em que o condutor fumou dois charros (de erva) entre o Rato e Belém e ainda tive de aturar, durante toda a viagem, a Rádio Renascença.
Claro que também já apanhei taxistas simpáticos, mas, esses, já devem estar a fazer outra coisa na vida.
Até a própria expressão "apanhar um táxi" indica bem o espírito da coisa. Apanha-se um táxi, tal como se apanha herpes ou se apanha piolhos. As coisas boas da vida não se apanham - conquistam-se, merecem-se, oferecem-se. Não se apanham namoradas. Não se apanham garrafas de vinho. Não se apanham livros dos meus co-escribas casadoiros. Apanham-se táxis. E paga-se por isso. Há de chegar o dia em que alguém vai dizer, num jantar íntimo, "eh pá, olha, apanhei um táxi...", e as pessoas à volta vão levantar-se delicadamente e sair. Ou então, com um ar pesaroso, responder "deixa lá, isso já me aconteceu, agora tens de tratar disso, conheço uns tipos porreiros da IGAE...". MR

A porta 

Há sempre um dia em que se fica à porta –
Pode não ser hoje, não ter sido ontem, pode vir daqui por muito tempo,
Mas, um dia, sempre se ficará à porta.

Há sempre um dia em que se fica à porta,
À porta de um qualquer amigo,
Desencontrado entre agendas e entre amores.
À porta de nossa casa, a mais intransponível porta,
Quando a chave se perdeu.
À porta da tua casa, da tua casa de bonecas de porcelana
Que escondeste em Lisboa e que não abres sem que te
Toquem
trrim
toc toc
sou eu
À porta.

A porta preenche o espaço que fica vazio quando não estás lá para a abrir.

A porta resume o mundo para quem não tem tempo de espreitar pela janela.

A porta antecipa histórias de amor, quando se abre a medo.
Invalida qualquer lei da ciência, quando se fecha e se abre logo a seguir.

A porta é a última palavra, quando a última palavra ficar fechada do lado de dentro.
MR

terça-feira, novembro 18, 2003

António Lobo Antunes e a capacidade de acolher a morte 

São 23:18 e, há cerca de um minuto, o António Lobo Antunes acabou de dizer a seguinte frase na entrevista que está a dar ao R. Guedes de Carvalho na SIC Notícias: «A morte é um dia como os outros só que mais curto». Não me serviu de consolo, apesar de reconhecer a capacidade do António Lobo Antunes lidar com as palavras. Sempre que há qualquer coisa nele que parece querer transformar-se em palavras, puff!, lá estão elas. (Devo avisar que a frase anterior teve a colaboração de Paul Claudel.) E digo-o plenamente consciente do título deste último livro que acaba de sair. Mas voltando à frase. Ando numa daquelas fases de obsessão com a morte, talvez porque andam a nascer muitos bebés e ninguém me convence de que tudo isto não é uma maquiavélica questão de troca. Ainda assim, sempre que morre alguém, tento convencer-me de qualquer parecida com aquilo que o Lobo Antunes acabou de dizer. E o resultado acaba por ser uma outra coisa parecida com o que se segue.

Tarda a chover em mim. Nada se alaga, nada transborda para além da dor dormente do cérebro. Não controlo o suficiente de mim para absorver tantas angústias. Parem, por favor. A agenda e o «A fazer», a caneta e o não poder escrever, e novamente angústia, e ainda o lençol seco de amor, o cérebro e a razão latejante, a alma e a dissonância cardíaca do sentimento que a move... Alguém é capaz de uma desculpa para o medo?... Daquelas em que se acredita pelo simples motivo de serem enunciadas, como quando olhava para os olhos do meu pai na certeza da certeza com que usava as parcas palavras da explicação da vida.

- Um dia, minha filha,

e nem sequer tropeçava na possessividade da palavra,
nem eu nem ele,

- Um dia, minha filha, vais entender que a culpa das nossas falhas está em nós e não nas nossas estrelas,

pois, pai, sempre foi uma questão de iluminação, mas nem calculas como é difícil pagar a conta da electricidade que se gasta nesta casa. Na tua, havia estrelas, tu estendias esse manto iluminado para que eu caminhasse sobre as tuas certezas, e, agora, aqui deitada, rezo, consciente da heresia que pratico ao ser em mim mais forte a certeza da certeza das tuas palavras do que a daquela primeira que nos fez a todos ser o que deus quis sussurrar às almas, por quem te deixas abraçar, na lucidez do ar. Será que nem tu me inventas uma desculpa para a vida? Cumpri o teu destino, desde que ele se tornou a partilha da origem de uma vida. Claro! Como não ouvir-te mais a ti do que aos outros? Tu partilhas da essência dos deuses, tiveste o poder de criar, de me criar, e aqui estou eu, na compreensão do que deixaste de ti em mim, aguardando uma confirmação adormecida que me faça entender que, afinal, o papel das estrelas na minha vida é só eu ser mais uma ao lado de tantas outras, as que merecem o tempo de pó em que se fez a importância de hoje serem estes nomes que me enchem a cama, a alma, a vida, a agenda, a memória, numa torrente inesperada e inconsciente, carregada da responsabilidade de um desejo que se pede quando do céu elas se atrevem a cair, num desfalecimento encantado de dor.
Eu sei: a agenda encerra os nomes que sinto a viver. Sei isso. Sei do alcance, e alcanço: a alma escondida na junção das letras que os sustentam. Por isso, insisto: de quem é a culpa? Quem fez isto? Quem se acusa de ter aberto a porta à angústia? Vejam bem: eu estou doente. O corpo não me obedece. Alguém abriu a porta, deixou o medo entrar, deitar-se ao meu lado. Fui violada num sopro abafado de dor. Não foi nenhum de vós, pois não? É alguma dessas conspirações, pai? Alguma dessas teorias politicamente celestiais que tornam o presente incompreensível, não é? Uma dessas que eu ouvia do mesmo lado da tua linha telefónica, bebendo a incompreensão das tuas palavras, na ânsia de, magneticamente, fazer saltar o dicionário da estante, trazê-lo até mim, abrir uma página,

A
AMONÍACO
AMONTOAR
AMOR, s. m. (lat. amore). Sentimento de afeição de um sexo pelo outro: casar por amor. Afeição profunda, ditada pelas leis da natureza: amor maternal, amor filial. A pessoa amada: a nossa filha, o nosso amor. Dedicação: amor da Pátria. Sentimento vivo, intenso, de gosto por: amor das artes, amor do prazer. Esmero: fazer alguma coisa por amor. Carinho: tratar alguém ou alguma coisa com amor. Amor-próprio, sentimento do próprio valor, orgulho, vaidade. Prov. Amor com amor se paga, retribui-se o bem com o bem e o mal com o mal. Loc. prep. Por amor de: por causa de. ANTÓN.: ódio, aversão.

enfim, compreender-te.
Agora, sei do erro, tenho de procurar

M
MORTALIDADE
MORTANDADE
MORTE, s. f. (lat. morte). Acto de morrer: assistir à morte de alguém. Cessação completa da vida: morrer de morte violenta. A pena capital: ser condenado à morte. Fig. Grande desgosto, aflição profunda: ter a morte no coração. Falta de movimento, de vida: tudo ali era silêncio e morte. Causa de ruína: a guerra é a morte no comércio. Termo, fim: a morte do Império Romano. Esqueleto nu ou envolto em mortalha, e armado de uma foice, que representa a personificação da Morte. Morte civil, perda de todos os direitos de cidadão. Ódio de morte, ódio profundo, fidagal. Entre a vida e a morte, em perigo de morrer. Em artigos de morte, quase a expirar. Para a vida e para a morte, para sempre. Loc. adv. De morte, profundamente: aborrecer alguém de morte. ANT.: nascimento, vida.

mas um dicionário é obra de vivos e a morte queda-se na esperança de se ser para além dela o mais que esses nos impõem.
Fecha o livro. Encerra-te em mim com evidência. IFS


A minha Bábá 

Eu tenho a minha Bábá (assim mesmo, com os dois acentos) e a minha Bábá tem um coração enorme onde cabemos nós. Nós somos três gerações: o meu pai (que a conhece desde a era pré-Bábá e sempre a tratou pelo nome próprio); a minha irmã (que a baptizou inocente, certeira e, desde logo, autoritariamente com um novo nome tornado próprio para o que ou para quem interessa) e eu; e o meu sobrinho. A verdade sobre a minha Bábá é que ela não é nenhuma babá; ela é a oportunidade que me deram de ter três avós. De certa maneira, e para todos os que pensam que os bebés que têm babás, brasileiros ou não, são privilegiados, eu mantenho e supero essa condição. Não há matemática que calcule o mimo que a minha Bábá me dá desde que existo. Apesar de ser crente (no sentido mais básico do termo: acredito piamente em muita coisa que não vejo), não sei bem como foi com a primeira geração. Sei o que me contam. E o que me contam é o mesmo a que assisto todos os dias: à mais extraordinária relação de empatia entre uma criança de sete meses e uma velhota de oitenta e três anos. Talvez porque o meu sobrinho nunca tenha existido sem a minha Bábá que, agora, também é dele; talvez porque a minha Bábá veja nele o prolongamento de nós e, a não poder escrever para apaziguar a dor da distância a que nós ou a nossa infância ficámos, estar com ele é estar também e simultaneamente com o meu pai, com a minha irmã e comigo ao colo. Nunca lhe perguntei. Provavelmente não me saberia responder. Mas há uma canção e um poeta que, num exercício de mútua compensação, me conseguem explicar o fenómeno «a minha Bábá». Diz o poeta: «Infância e morte são limites sobre dois escuros abismos fundamentais». Diz a canção: «Let there be love/ Everlasting/ And it will live eternally/ Will we receive without ever asking?» Com a minha Bábá, sim. IFS

ESTREIA NA 5ª, dia 20 - "STAND-UP TRAGEDY" 



O primeiro link da nossa coluna da direita é do primeiro blog de um espectáculo de teatro em Portugal. O blog homónimo acompanha as últimas semanas até à estreia da peça, 5ª feira, pelas 21h30 - no Maria Matos, e durará enquanto durar a temporada.
Trata-se de um projecto de Tiago Rodrigues, Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges, um monólogo em que se reflecte sobre o papel e funções do RISO. O espectáculo de um comediante que deixa de ter piada ao fim de 10 minutos...

Estas fotos são para aguçar o apetite, salvo seja. LFB

ainda o livro, desculpem 

1. uma amiga conta-me porque se emocionou com o "Mudaremos o Mundo depois das 3 da Manhã". Nasceu exactamente a essa hora, e a frase que mais ouviu na vida, da boca de sua mãe, foi precisamente, "o meu mundo mudou depois dessa hora";

2. ao trocar livros com Daniel Sampaio (foram lançados no mesmo dia), o clínico dá-me uma posição científica que desconhecia, "muito bem escolhido. É precisamente a essa hora que os sonhos se tornam mais, e mais intensos";

3. a terminar o lançamento escolho um exemplar para atirar, como um bouquet de casamento. Foi parar à cara de um blogger. Seguramente, um Rude Golpe. Fico à espera do seu livro, Luís Artur. LFB

Notas primeiro tristes e funestas, depois alegres, por se referirem a futebol 

1. O que mais impressiona na tragédia de Nassíria, que vitimou militares italianos (entre outros), não é o facto de terem morrido pela pátria, como afirmou um cidadão italiano, mas o facto de terem morrido pelos Estados Unidos da América, país para o qual, nesta e noutras questões, quem não está ao seu lado, está contra si.

2. O jogador número 10 da selecção nacional, Rui Costa, disse, revoltado, que espera que no Euro 2004 sejamos todos portugueses. Bom, se eu até lá não mudar de nacionalidade, espero ainda mais: espero que os jogadores da selecção portuguesa joguem bastante melhor do que aquilo que têm jogado. Se a linha evolutiva for esta a que temos assistido, só falta mesmo perder o próximo amigável com a grande selecção do Kuwait (já treinada por Scolari).

3. Ainda a propósito de futebol, é interessante verificar que os jogadores da selecção do Kuwait falam tão mal o inglês como os nossos jogadores falam o português.
HR

segunda-feira, novembro 17, 2003

bem vindos ao tempo do bolo rei 

Os militares da GNR, os que não estão em prisão preventiva, estão no Iraque. Comeram, se bem vi numa televisão qualquer, "pastéis de Belém" a bordo do avião da Air Luxor que os transportou. A jornalista da SIC que foi baleada está no Hospital Curry Cabral, mas parece que o Hospital de S. José também a queria lá. Em quatro linhas, em quatro minutos de telejornal, quantas marcas portuguesas? Quer-se mais internacionalização e competitividade do que isto? Afinal, temos mesmo um "Portugal em acção", o tal Portugal de pasteleiros sabidos e de emplastros ingénuos que sempre se teve. MR

Brindes 

Paulo Gusmão é uma das principais caras do CDS-PP/Açores.
Eu já ficava arrepiado só de olhar para ele, mas agora dá-me vontade de rir. Este senhor teve a genial ideia de oferecer electrodomésticos e outros bens aos militantes do partido (bom, o partido em si também dá vontade rir, mas para não chorar) que consigam inscrever três (ou cinco, não me recordo) novos membros.
Só faltava mesmo ao PP assumir-se como aquilo que é: uma espécie de La Redoute ou, em versão melhorada, de Círculo de Leitores, aberto a novas inscrições e com oferta de brindes exclusivos e de qualidade. Resta saber se devolvem a inscrição caso o militante não fique satisfeito com o produto.
O que me parece mais estranho é que não haja nenhuma cláusula a la Portas, que exclua da militância cidadãos estrangeiros, salvo, naturalmente, se eles próprios contribuirem com um micro-ondas ou uma máquina de lavar para a casa do Sr. Paulo Gusmão.
HR

AVÓ ISABEL 

Quando ele sobe as escadas até ao último andar, desde cá de baixo, a chamar pela Isabel, as vizinhas já sabem que chegou o neto. Tira o molhe das chaves e abre a porta. Isabel estás boa? é o seu cumprimento.
É uma relação de avó-neto e, também, de homem -mulher. Há ali uma reciproca ternura, admiração e atracção.
Ele define-a, aos 87 anos, como uma força da natureza. Que avó resistiria àquele neto único- que herdou a sua queda para a música, lhe assalta o piano, diz piadas como quem fala e ainda por cima tão babado por ela como ela por ele?
A avó Isabel teve uma vida que podia ser a cara da tragédia mas é a da alegria. Morreu-lhe a mãe aos 15 anos, o marido há 25 anos, mas ela vive bem sozinha. É uma avó enérgica que arranca o dia com um café no estômago. Uns olhos azuis carregados de sentido prático, um cabelo curto e umas pantufas a assinalar a informalidade e a descontracção, um querer pular a todo o tempo.
A avó Isabel é pra frentex, aceita as namoradas que o neto traga para os jantares de terça e os músicos de jazz que lhe invadam a casa para jam sessions.
E o neto é assim, também, despreconceituoso. Mais frágil que aquela força da natureza que lhe marcou os genes. Homens sensíveis, ramificações de mulheres fortes. Homens que devem o muito amor que sentem pelas mulheres às mães, avós, irmãs e tias que os marcam. Sociedades matriarcais que, assim, obram maravilhas. CMC

Introdução ao Estudo dos Blogs 

Para quem já não via um dos melhores amigos há quase um ano, passar dois dias na sua companhia foi uma espécie de «operação matança da saudade». Sendo esse amigo o LFB, o reencontro (em carne e osso, visto que as mensagens de telemóvel são uma excelente forma de colmatar as lacunas de um contacto ao vivo e a cores) torna-se muito mais interessante por razões certamente partilhadas por todos os casadoiros e visitantes. Um dos momentos altos destes dois dias foi a minha primeira aula de Introdução ao Estudo dos Blogs. Foi uma lição muito produtiva, muito mais produtiva do que cinco anos na Faculdade de Direito (desculpem-me os casadoiros ligados à instituição), e fiquei de tal maneira instruída nas artes bloguísticas que dificilmente uma palestra minha sobre o tema não seria um sucesso. Até porque o Luís me forneceu todas as informações necessárias para apresentar um hipotético «Top +» dos blogs nacionais - sei tudo sobre quem é mais lido e sobre onde e como posso obter esses dados. Fantástico! A lição terminou como terminam todas as lições pré-teste escrito: com dúvidas metafísicas. A verdade é que, tendo entrado pela primeira vez na blogosfera há cerca de duas semanas, já li de tudo, substancial e formalmente falando. Mas o Luís tranquilizou-me com mais uma lição sobre liberdade bloguística. (É daqueles professores que não se importam de perder o intervalo em nome do esclarecimento total e absoluto dos alunos.) Posso escrever sobre o que quiser e da forma que quiser, o que torna tudo menos complicado, uma vez que a inspiração é, por natureza, intermitente. Nos casos em que se convive de muito perto com uma obra poética que quase nos esmaga, como é a obra de Manuel António Pina e como é o meu caso em relação a ela, sempre que se sente o impulso da escrita o resultado parece padecer de uma insuficiência crónica, como se as palavras ficassem desiludidas consigo mesmas e preferissem estar noutro sítio qualquer que não aquele papel ou, para actualizar a imagem, aquele ecrã.
Mas não é sobre nada disto que eu devia estar a escrever. Segundo o Luís, o primeiro texto de um casadoiro costuma ser sobre o casamento. O problema é que eu não tenho grande graça e parodiar o tema não me parece uma boa saída. E isto cria um segundo problema: como falar a sério sobre o casamento? Nem a definição legal (que já nem sei de cor… a memória tem razões que o coração conhece…) nem a do dicionário me entusiasmam por aí além, e nem eu própria, tendo em conta as amostras a que posso deitar o olho hoje em dia, consigo apresentar uma definição alternativa. Pode ser que este convívio casadoiro me ensine alguma coisa sobre a arte-de-viver-com-sujeito-a-contrato. É que, até hoje, de todos as uniões matrimoniais que pude testemunhar de perto só uma não esteve sujeita a prazo e cumpriu o requisito fundamental da felicidade. Mas não me peçam para falar de amor…
IFS

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