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domingo, novembro 02, 2003

Cinquenta Anos de Palco 

(O Miguel falou ontem sobre o lado bom da Faculdade de Direito de Lisboa. Infelizmente, o Henrique fala-nos, hoje, de algo que, no seio da FDL, não está a correr nada bem).

"Sê bem-vindo à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, nós somos o Cénico de Direito".
Repetida ao longo de quase 50 anos, a saudação de boas vindas com que o grupo de Teatro da Faculdade de Direito de Lisboa recebia os caloiros está, hoje, condenada a desaparecer.

O meu nome é Henrique Gomes, actual Director de Produção do Cénico e hoje represento os seus membros.
Decidi que não podia continuar calado face a tamanhos desprezo e desconhecimento no que diz repeito à história, obra e conquistas deste Grupo de Teatro, e que hoje se revelam cada mais sintomáticos de um fim próximo, desprestigiante e francamente injusto.

Tudo se deve, não à memória curta do público, porque esse felizmente é fiel e persistente mesmo nas alturas de pausas para ensaios, chegando mesmo a procurar informações sobre as nossas actividades junto da Faculdade.
Nem, tão pouco, se deve à escassez de actores e actrizes, já que quase uma centena de alunos se inscreve, anualmente, no atelier de pré-selecção que organizamos.

No que concerne à qualidade do nosso trabalho, basta que se refiram os sucessivos convites para participações em festivais e os concursos, que aceitam as nossas candidaturas para figurar num elenco limitado de grupos, nomeadamente, o Festival de Teatro ACASO, em Leiria e a MOSTRA de Teatro, organizado pela Câmara Municipal de Lisboa.

Aponto o dedo, sim, à entidade da qual fazemos parte enquanto núcleo, a AAFDL (associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa). A ignorância e o desconhecimento da nossa existência são de tal maneira assustadores e inacreditáveis, que numa das nossas últimas representações no Teatro Maria Matos, incluída no Festival de Teatro Universitário de Lisboa(FATAL), e com a Peça "A Kulpa", baseada no "Processo", de Franz Kafka, um representante do departamento cultural da Associação de estudantes chegou mesmo a confessar, inconsciente do teor ofensivo do que viria a ser o seu desabafo pessoal, que não fazia ideia da qualidade do "seu Cénico", um grupo só com meia centena de anos e desde sempre ligado à Faculdade.

Por outro lado, quem aceder à página de internet da AAFDL, verá que o Cénico é, de facto, mencionado enquanto núcleo, mas a verdade é que já temos página do grupo há cerca de 3 anos e apesar dos múltiplos contactos para a adicionar à pequena menção, apenas obtivemos o silêncio característico do dolce fare niente.
Ano após ano, convencidos pelas promessas das campanhas, pelo desejo enérgico de mudança, pelos sorrisos afinal enganadores e pelo, hoje muito actual, falso interesse pela cultura, ou melhor, pela Cultura da Cultura.

No fim, confrontados com o vazio das palavras gravadas nas mentes, mas nunca no papel tal é a confiança entre futuros juristas, ficamos de mãos a abanar, não em termos de trabalho, porque simplesmente não podemos parar, mas a nível monetário, já que inevitavelmente e como é lógico, temos de remunerar o Encenador que infelizmente se submete a estas condições todos os anos.

Inacreditavelmente, depois de terem sido montadas duas peças que correspondem a dois anos de trabalho de encenação ("A Kulpa", e "à espera de Godot", a estrear no Festival de Teatro Acaso em Leiria a 9 de Novembro deste ano), o nosso encenador ainda não recebeu, até à data, qualquer remuneração, uma vez que a promessa feita pela AAFDL no início deste ano, de um subsídio dividido em três tranches em datas já decorridas, não foi mais uma vez cumprida.

Convencido de que é condenável este desrespeito por alguém que dignifica tanto o Grupo Cénico de Direito, e de que se trata de uma situação que não pode continuar a repetir-se, venho por este meio anunciar aos órgãos de comunicação social e restantes interessados, que a menos que algo seja feito no sentido de reparar a actual situação vergonhosa e degradante, o Cénico de Direito será forçado a deixar de pisar os palcos e a cessar a sua actividade enquanto Grupo de Teatro Universitário no final deste ano de 2003.

Ao nosso fundador, Malaquias de Lemos, falecido no dia 1 de Janeiro deste ano, e à sua família deixo o meu profundo agradecimento e a inevitável vergonha, que hoje carrego, por ser forçado a tomar atitude tão drástica, cerca de 50 anos depois de um acto de tanta coragem.
Em nome do Cénico
Henrique Martins Gomes

sábado, novembro 01, 2003

dizer bem 

De vez em quando, é bom dizer bem de uma coisa da qual sempre se disse mal - no caso, a Faculdade de Direito de Lisboa. Não, obviamente, dizer bem do seu conselho directivo, do seu passado de repressão, da sua prepotência intelectual. Mas dizer bem de coisas simples e bonitas e importantes, como professores e estudantes. Tenho-me sentido nesta obrigação adicional também motivado por duas semanas de trabalho intenso e divertido com uma colega de trabalho, noutro local, que é bonita, inteligente e com quem apetece ficar a rever o Código Penal até às duas da manhã, mas é licenciada pela concorrência e acha que a FDL é um misto de inquisição espanhola com traduções brasileiras do Mein Kampf.
Assim, para contar que este ano tenho 20 alunos a Direito Romano, 20 alunos que não sonham em ganhar milhões em consultoras fiscais, 20 alunos que têm a coragem de fugir dos artigos e das alíneas para pensar o direito naquilo que é a sua lógica de justiça e de humanidade. Eles têm um professor (e eu também, de quem sou sempre deslumbrado assistente) que é um homem extraordinário e que decidiu por os alunos a pensar o "ius" e a sua relação com a "humanitas", a propósito do Direito Romano. Como? Fazendo teatro, dando corpo aos livros, divertindo-se. Vamos passar um semestre a preparar uma peça, coisa que não me acontecia desde o ciclo. Vamos escrevê-la, encená-la, apresentá-la. Não sei se tenho naquela sala Uma Thurman's em potência (se calhar tenho...), mas isso não interessa - o que interessa é esta possibilidade de nos rirmos uns com os outros, esta possibilidade de fazer amor ("amor iuris", bem entendido) entre as paredes da FDL e de sair da sala com um sorriso, enquanto nos cruzamos com alguém carregado de volumes de legislação do urbanismo... MR

sexta-feira, outubro 31, 2003

Estereotipada como todas as mulheres! 

Este chavão que aqui quis emoldurar, foi-me mimoseado esta semana pelo Comprometido Espectador, um blogger de ar insuspeito, na aparência mesmo um gentleman.
E porquê? Porque lhe faço uma simpática referência no meu post sobre a festa do Pipi. E qual o seu objectivo? Dar umas palmadas nas costas dos rapazes do Complot que eu, também, simpaticamente referi, atropelando pelo caminho uma e todas as senhoras. Bonito, sim senhor!
Já não há cavalheiros. CMC

quinta-feira, outubro 30, 2003

A insustentável leveza da chuteira 

Em face das últimas ocorrências proto-desportivas vastamente divulgadas pela televisão, convido o leitor a examinar comigo os seguintes factos:
Facto primeiro: Deco, alegadamente jogador de futebol, agride um árbrito com uma chuteira.
Facto segundo: José Mourinho, conhecido treinador de kick boxing, vai a uma conferência de imprensa dizer que é o "melhor", o "maior", o "mais-que-tudo" e o "mega-esperto" do futebol português.
Se à partida estes dois factos não apresentavam uma relação de causa-efeito, uma análise posterior, mais atenta e cuidada, leva-nos a uma justa reposição dos mesmos:
Facto primeiro: Deco não acertou no árbrito.
Facto segundo: José Mourinho sofreu traumatismo craneano.
Facto último: Chuteira internada de urgência. LCA

O coração do Luís 

Meu caro amigo Luís Borges,

Conhecendo-te como conheço, sei que és um homem que quase sempre se deixa reger pelo coração. Por isso, não percebo por que é que continuas a dar ouvidos à razão.

Um abraço do Hugo.

HR

Por mais voltas que se dê, sempre se falará de futebol 

1. Em recente entrevista ao DN, o candidato às eleições presidenciais do Benfica, Luís Filipe Vieira, esclareceu algumas dúvidas que eu tinha. A primeira delas tinha a ver com o seu percurso profissional - fiquei a saber que dos pneus passou para a construção civil, da construção civil pasou para o Alverca, do Alverca para o Benfica, como Presidente da SAD, e, se desgraçadamente Deus quiser, de Presidente da SAD do Benfica para a presidência absoluta do clube. Depois disto, só lhe resta candidatar-se a presidente do FC Porto.
A segunda das minhas dúvidas tinha a ver com saber por que razão alguém votaria neste senhor - ora, Luís Filipe esclareceu que só quer que os sócios votem em massa, nele ou noutro candidato. "Se não quiserem votar em mim", disse, "estão à vontade". Ainda bem, aposto que muitos sócios já estavam angustiados, sem saber o que fazer. Agora sabem que podem ficar à vontade, que o Luís Filipe deixa. Mas atenção: o senhor também sublinhou que as outras alternativas à presidência, Guerra Madaleno e Jaime Antunes, só se disponibilizaram a trazer, até agora, o jogador Rui Costa e a gestão, respectivamente. Quanto a Rui Costa, estamos conversados. É um eterno prometido dos candidatos e acaba sempre por não vir, como seria de esperar. Afinal, quem é que troca os salários pagos pela Fiorentina ou pelo AC Milan pelos salários pagos pelo Benfica? Só não percebo por que razão Rui Costa deixa que o seu nome se envolva, eleição após eleição, nas promessas dos candidatos. E quanto à "gestão", que Luís Filipe diz ser a única coisa que Jaime Antunes poderia trazer ao Benfica, resta bradar aos céus. Pois, Jaime Antunes SÓ traria gestão, exactamente o que falta ao clube para sair do marasmo financeiro e desportivo em que vive há alguns anos.
Para concluir esta questão de saber por quê votar no senhor, Luís Filipe afirma: "Não me passava pela cabeça ser presidente do Benfica". A mim também não. Do discurso de Luís Filipe Vieira não ressalta nenhuma ideia-chave, nenhum projecto para o futuro, para além da incontornável afirmação de que aquilo que se pretende é construir a melhor equipa da Europa. Luís Filipe esquece-se que anos-luz à frente do Benfica já estão muitos clubes das ligas inglesa, espanhola, italiana, francesa, alemã, talvez mesmo da liga holandesa. Vamos ter de esperar muito tempo, portanto.
A terceira dúvida prendia-se com as contas do clube, com o activo e o passivo e com a rentabilidade da SAD. Luís Filipe tem a resposta na ponta da língua: "se perguntar hoje se eu amanhã estou morto ou vivo, não sei...". Que é como quem diz, num futuro (próximo, longuínquo?) pode haver ou não rentabilidade, ninguém sabe.
Quarta dúvida: quem são, afinal, Ronald Garcia e Alex? Por que razão foram estes dois jogadores comprados, e não quaisquer outros, bem melhores, como o Hugo Cunha, do Vitória de Guimarães? Luís Filipe afirma, contudo, que "qualquer jogador que veio para o Benfica foi com a autorização da equipa técnica", mas fica por saber se o Alex veio ou não por indicação de José Antóno Camacho. Quanto ao boliviano Ronald Garcia, Luís Filipe diz que foi "diferente". "Eu era ainda era presidente do Alverca e Manuel Vilarinho pediu-me o favor de ser o Alverca a interferir na compra do jogador (...), para não haver inflação do valor do passe do atleta. Aqui, é verdade. Camacho não foi tido nem achado. Apenas servi para fazer um favor ao meu actual presidente, eu nem conhecia o jogador". Nem ele, nem ninguém.
Desfeitas as minhas dúvidas, guardei o jornal e nunca mais me desfiz dele.

2. O novo estádio do Sport Lisboa e Benfica é, realmente, extraordinário. Basta ver o poster que vinha ontem incluído na revista Focus para ficarmos com um visão global da magnífica catedral. Mas o estádio do Dragão (o nome é não só assustador, como pavoroso) tinha de ser melhor, mais bonito, arquitectonicamente mais bem conseguido. O estádio está ainda por concluir, mas Miguel Sousa Tavares, qual arquitecto, logo viu ali algo de muito mais imponente do que o novo estádio da Luz. Uma vez portista, sempre portista.

HR

a importância dos odores 

Há uns anos, antes de ter carro, passava pelo horror das horas de ponta em transportes públicos. Sensação dolorosa e opressiva que me inspirava desejos de filiação no PP. Depois, e como nem todos os dias são felizes, fui conhecendo pessoas desse partido. Com excepção das suas poucas mulheres, sempre estranhei o asco que me provocavam (os homens). Julgo que começo a perceber. É que, entre charutos e perfumes caríssimos, o odor dos tecidos ingleses e sapatos italianos, e o suor do zé-povinho entranhado no 52 que vai para a Pontinha... meus amigos, prefiro o autocarro. LFB

ps: e cada vez tenho mais certezas de que posso ter a razão à direita, mas o coração está à esquerda.

quarta-feira, outubro 29, 2003

Pantaneira Jane 



Alguma confusão se tem gerado à volta do meu último post. Vários elementos da minha família me têm escrito um tudo-nada nervosos, de beicinho em riste, alertando-me para o facto de eu não ter colocado o link do Pantanal no dito. Ora isso é uma grande mentira. O link está , no fim do poema. Ide ver se não acreditais - suas bilontras. Se não fossem da minha família (e se não usassem óculos) eu dizia-vos com quantas tábuas se faz uma canoa...
Mas vamos por partes. Eu talvez não me tenha explicado bem. A minha querida irmã Constança (na fotografia), bióloga diletante, estudiosa exemplar, trota mundos e aventuras, foi para o Brasil fazer o mestrado. Mais concretamente, para o Pantanal. Sob o olhar atento dos tucanos empoleirados nas árvores, lá fez o mestrado, e prepara-se agora para iniciar o doutoramento. Basicamente, ela fugiu há três anos de Portugal para correr atrás da bicharada. E por ficou.
A Constança e o Filipe vivem numa fazenda enfiada no pantanal - uma espécie de paraíso na terra, com araras e tarântulas e capivaras -, uma pousada turística vocacionada para o ecoturismo e o turismo rural (com tucanos e piranhas e jacarés). Na Pousada da Belavista, proporcionam férias de sonho, aventuras inesquecíveis e uma natureza luxuriosa (com onças pintadas e veados e macacos).
A Constança está feliz e eu estou feliz por ela. Mas quem não estaria se vivesse num sítio assim? LCA

Tocar 

Há pessoas que têm medo de tocar. Há pessoas irritantes, que dão apertos de mão frouxos, vazios. Há vários tipos de pessoas. E, para algumas, a maneira como nos tocam é uma assinatura. É um gesto simbólico que diz do que sentem por nós. Que digo? É um prémio. Sim, por vezes é mesmo um prémio.
Penso nisto depois de fumar um cigarro à chuva (informação perfeitamente inútil e que só podia estar num blog).
E penso que pessoas há que não posso deixar de ver sem tocar, pelo menos uma vez. Por exemplo, os fortíssimos, calorosos "high-fives" de mão toda aberta que troco com o Nuno, quando sai, e com o Tiago, quando chega. O aperto de mão cada vez mais vigoroso, com os ossos todos, que eu e o meu irmão damos. Os beijos perigosamente perto da boca, e com uma mão pousada no rosto, que se trocam às vezes com as poucas amigas que os homens têm. O abraço caloroso do Joel, sempre. A mão sobre o ombro das pessoas que admiro e com quem trabalho, quando se diz "bom dia" ou "até amanhã". O beijo no rosto do meu pai, que substitui a benção que pedia respeitosamente na infância. Os beijos da minha mãe, que cheira a bebé. A mão no braço dos actores com quem trabalho, para suportar choro ou nervos ou momentos de insegurança, dizendo que estou ali e que sou, afinal, mais actor amador do que eles, a tentar disfarçar a minha própria insegurança. O aperto de mão prolongado que se dá àqueles amigos sinceros, mas que só vemos de tempos a tempos. O beijo frio a uma mulher que se reencontra depois de, algures no neolítico superior, juntos termos partilhado toda a intimidade. Os dois beijinhos ambiguamente lentos a uma mulher que gostámos de conhecer. O beijo de fugida a alguém que foge. O beijo de olhos fechados para uma pessoa só. O abraço de velhos amigos, como o Hugo. Um abraço que tem tudo o que falta a um livro. Calor. O clap depois de um grande golo. Os joelhos juntos de um homem e uma mulher que não sabem bem o que querem um do outro. Mas desconfiam. A palmada nas costas ao companheiro de borgas.
Cada toque é um toque contra o tic-tac do relógio. Um tique de sinceridade. E, para evitar mais cacofonias, do tipo "tacada no trecolareco da ternura", volto à chuva para o último cigarro do dia. Faz-se tarde. tic tac tic tac LFB

Encontro de Blogues 

É já amanhã, quinta-feira, pelas 15h00 seguido de debate pelas 19h00, na Sociedade de Geografia, o encontro sobre blogues: "Blogues: moda efémera ou meio de comunicação futuro"?
Confirmadas estão as presenças de Pedro Mexia, Pedro Lomba, José Mário Silva, Statler, Ricardo Araújo Pereira e Paulo Querido.
Para mais informações e caso queira fazer uma inscrição informal vá a este endereço: www.disogeo.blogspot.com.CMC

Kill Bill (ou os links de um virtuoso) 

Depois de vários meses a salivar pelo último trabalho de Tarantino, graças ao teaser disponibilizado desde o início do ano no site oficial do filme, chegou ontem o grande momento de me confrontar com Kill Bill – Volume 1. Tinha uma ideia sobre o tema e sobre o género e imaginava já o tratamento «assinado» que o realizador normalmente empresta às múltiplas citações que convoca para cada filme. Ao sair da sala, porém, não evitei um sentimento próximo da desilusão – e até um certo bocejo, que perante o realizador em causa me levou quase a afirmar: «Que grande barrete».

Sobretudo em relação ao último filme, Jackie Brown, onde o americano parecia evoluir para um cinema de várias «teclas», pareceu-me tratar-se de uma regressão – e uma regressão que não volta ao tempo de Cães Danados, ao seu espírito despojado e minimal, mas sim ao lado puramente estilístico, onde a trama concorre apenas para um desfilar de referências e de sucessivos palimpsestos onde é notória a falta de qualquer substância ou de ideia ou de intriga. (veja-se aqui o manual de desconstrução)

Há a vingança – mas a única ideia forte a esse respeito é, quanto a mim, o momento em que Uma Thurman, após ter liquidado a sua primeira oponente, se dirige à filha dela e lhe promete que, caso um dia a sua raiva permaneça, ela estará viva e à sua espera. É a única ideia forte: a da vingança como um loop, como um legado que a fará eternizar-se até que não sobrem descendentes nem culpados.

Há também os momentos deliciosos a que o realizador nos habituou – e nesta «desilusão» não será posta em causa a sua criatividade nem o lugar ‘à parte’ que muito justamente conquistou. Discute-se, isso sim, se a mera criatividade e o virtuosismo serão suficientes para fabricar «obras-primas». E Reservoir Dogs parece-me uma obra prima.

Há os óculos de várias cores em cima do tabelier, há o diálogo com Hattori Hanzo, há as violações de uma comatosa e o Buck wants to fuck – assim como o Zed estava dead. Há a carrinha amarela, há os tempos trocados, há a fabulosa sequência de animação onde se conta a história de O-Ren. Há esses pormenores todos que fazem a riqueza do seu cinema («o mais importante numa história são os detalhes, concentra-te nos detalhes», dizia uma personagem de Cães Danados – e esse é o programa de Tarantino, o «vinco» que o distingue na actividade de cineasta).

Mas Kill Bill não é muito mais do que isso. Nem talvez tenha que ser. Mas porque lhe chamam alguns, à boca cheia, de «obra maior» ou «obra prima»? É que mesmo as intermináveis lutas, com o seu bailado de esguichos e amputações, ficam bastante aquém das obras seminais que as inspiram. Para ver pancadaria, prefiro as sequências muito mais vibráteis do cinema de Hong Kong dos anos 70 e 80, em que os Shaw Brothers ou a produtora Golden Harvest construíam as mais geniais peripécias nos combates corpo a corpo ou com espadas. Ou mesmo o trash da Blaxploitation, que é outra das referências constantes de Tarantino (veja-se a repescagem de Pam Grier, em Jackie Brown, ou a alusão a Jeanne Bell, em Kill Bill).

Dar dignidade a esses géneros poderá ser uma opção. Dar dignidade a filmes onde as coreografias são espantosas, mas onde o enredo, e sobretudo o acting, são confrangedores. Reescrever a história de filmes manhosos de artes marciais, onde havia sempre a loira que partia tudo – e Thurman é o pastiche de actrizes obscuras que não serviam para mais do que dar porrada. Mas adiantou-se muito em relação a eles, para lá do estilo, do pormenor, da actualização? Adiantou-se, sem dúvida. E muito desse cinema passou a fazer parte do mapa novamente. Mas adiantou-se muito em relação ao cinema, como alguns apregoam? Sinceramente acho que não. E ao vigésimo quarto esguicho, confesso que me deu sono.

Conclusão: a camisola amarela deste ano continua com A Última Hora, de Spike Lee. RIS

P.S. Só ontem percebi que este senhor está de volta

terça-feira, outubro 28, 2003

Abel, Caim e Bento 

Na Faculdade de Direito de Lisboa, os exames que enriqueciam o nosso Verão tinham uma parte de perguntas teóricas e outra de resolução de casos práticos que narravam as desventuras jurídicas do Abel e do Bento, sempre envolvidos em problemas com a lei. Eram períodos de muita tensão e desespero, que advinham não da impossibilidade de resolver o quid juris?, mas, acima de tudo, da sensação de perda da esperança. Da secreta esperança, partilhada pelos sentados numa sala bafienta com a marca que o crucifixo deixou na parede a velar por nós, de que, em nome de uma certa originalidade, o Abel, apenas por um dia, se chamasse Amarildo, e o Bento Bruno, Barnabé ou Bernardo. Mas os professores mantiveram-se firmes, afinal existe uma nobre tradição a defender. Vi as melhores mentes jurídicas da minha geração destruídas pela simples menção destes nomes. REC

Querida Constança 

Querido Google,

Para todos os que desconhecem o paraíso, para aqueles que querem férias inesquecíveis, para os portugueses que não conhecem o Brasil e sonham em lá ir um dia, deixo-te estas pistas e um poema.
Férias de sonho, lua-de-mel, calor tropical, fazenda, piscina, pousada, ecoturismo, turismo rural, passeio a cavalo, caminhada, expedições, caiaque, piranhas, safari, caxoeira, lagoas, rios, araras, tuiuiús, papagaios, tamanduá, capivara, jacaré, macacos, tucanos, cervos, caimões, natureza, viagem, pantanal, bela vista, bela vida.

Até breve, LCA


This is my letter to the world,
That never wrote to me,
The simple news that Nature told,
With tender majesty.

Emily Dickinson

segunda-feira, outubro 27, 2003

STAND-UP TRAGEDY, novo link, os mesmos 3 

STAND-UP TRAGEDY é o espectáculo definitivo na carreira de um grande comediante português. A solo, perante o público, um actor desafia as leis do humor e descobre-se a si próprio na solidão do palco. Estreia no Teatro Maria Matos, em Lisboa, a 20 de Novembro de 2003, às 21h30.
E, pela primeira vez em Portugal, um projecto de teatro tem o seu próprio blog. Além de oficina de escrita e de reflexão para a criação do espectáculo, este é também um espaço para contar histórias sobre o humor.
Neste blog, alimentado pelos autores e pelo actor de STAND-UP TRAGEDY, poderá saber mais sobre a personagem que dá origem a esta peça de teatro. Ou descobrir como estão a correr os ensaios e quem é a equipa por trás deste projecto. Também poderá ler textos e ideias sobre a comédia na escrita, no teatro e no cinema. Eventualmente, até terá oportunidade de rir.


Este é o texto que abre o novo blog que encabeça a lista da direita no DC. Eu, o TR, e o NCS, esperamos por vocês mesmo aqui ao lado.LFB

BELLE & SEBASTIAN forever 

João Lisboa escreveu (EXPRESSO de 25 de Outubro) que os escoceses Belle & Sebastian (nome dado a partir dos velinhos desenhos animados) são uma banda «xoninhas» e «mariquinhas», e desmontou as 12 canções do último disco da banda, "Dear Catastrophe Waitress", produzido - uma surpresa - por Trevor Horn e gravado para a Rough Trade, em vez da Jeepster Records.
Agradecia que João Lisboa revisitasse os outros LPs e singles dos Belle & Sebastian - sei que vai dar muito trabalho -, de 1996 até hoje, e fizesse o mesmo com as outras canções, que as deitasse por terra, desfazendo letra e música a torto e a direito. Agradecia que fizesse isto e que concluísse, enfim, que todo o material dos escoceses é mesmo só plágio e pouco mais.
É que, de 96 até agora, tenho estado iludido e tenho sido enganado; não percebo como pude ser tão ingénuo. Infelizes seguidores e adoradores da banda, desistam e ouçam o sábio João Lisboa.

Especialmente para ele:

«Think about a new destination
If you think you need inspiration
Roll out the map and mark it with a pin
I will follow every direction
Just lace up your shoe while I´m fetching a sleeping
bag, a tent ...»
Belle & Sebastian, "Asleep on a sunbeam"

HR

É bom 

verificar que o excelente RAP, farto de desoPIPIlar voltou a dar umas miadelas. Continua, humor com inteligência e cultura, fora o vosso fedor, infelizmente não abunda! BR

O mesmo problema 

O excerto que vou transcrever faz parte do editorial do Le Monde de 26 de Agosto. Não traduzo para português porque dá muito trabalho.
Trata-se, repito, do editorial do Le Monde, mas podia perfeitamente ser um editorial de um jornal português. Se tivesse sido escrito em português, claro.

«S´ils en doutaient, voilá donc les socialistes prévenus, à quelques jours de leur université d´été: la gauche reste à réinventer. Tout indique que la tâche sera rude tant l´opposition paraît, aujourd´hui, dispersée, morcelée, illisible, impuissante à réunir dans une dynamique commune le réalisme sans lequel elle ne peut espérer retrouver le chemin du pouvoir et les impatiences multiples de ce qu´il est convenu d´appeler le "mouvement social".
(...) les socialistes se doivent, selon la formule de Daniel Cohn-Bendit, d´"assumer leur réformisme sans désespérer le Larzac". C´est la condition de leur renouveau. Ils en sont encore loin».

C´est la même chose, ici: notre gauche reste à réinventer, mais elle est encore loin.

HR

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